1. Propaganda na I Guerra: surge o
cartaz do “Tio Sam”
2.
Rádio-negra: a
guerrilha no ar
Propaganda
Propaganda na I Guerra: surge o cartaz do “Tio Sam”
A cópia ficou mais conhecida que o original
O cartaz da
esquerda, americano, foi criado em 1917, quando a I Guerra Mundial já ia pelo
terceiro ano. O pôster da direita é de 1914, logo no início do conflito, de
autoria do ilustrador inglês Alfred Lee,
e serviu para incentivar o alistamento na Grã-Bretanha. Os EUA usaram a
figura do Tio Sam e fizeram uma ligeira mudança na frase. Saiu “Seu país precisa de
você”, e entrou “Eu quero você no Exército dos EUA”. O nome Tio Samfoi
usado pela primeira vez em 1812, na Guerra Anglo-Americana,mas só virou desenho
em 1852. O cartaz da I Guerra foi feito pelo desenhista James Flagg. O nome Tio
Sam é antigo. Veio de um fornecedor das tropas americanas na guerra Guerra
Anglo-Americana de 1812. Diz-se que ele escrevia nas embalagens das mercadorias
“US”querendo
dizer United
States (Estados Unidos), mas como ele se chamava Sam, o “US”passou
a interpretado como“Uncle Sam” (Tio Sam).
O rosto do Tio Sam se parece tanto com o de Andrew
Jackson (1767-1845),o sétimo presidente dos EUA (entre 1829 e 1837), quanto com
o de Abram Lincoln (1808-1865), o décimo sexto ((1861-1865). Lincoln foi
assassinato e Jackson escapou de um atentado porque os dois revólveres usados
por um pintor inglês, demente e desempregado, Richard Lawrence, falharam. Foi a
primeira vez que tentaram matar um
presidente dos EUA.
SuperInteressante
– Maio 2008
Tio Sam aponta o dedo e dispara: “Quero você no Exército dos EUA”. Esse pôster, um dos
grandes ícones do século 20, foi criado em 1917, ano em que os americanos
entraram na 1a Guerra Mundial ao lado de franceses e britânicos. Bem antes
dele, porém, outros tantos já circulavam na Europa e nas colônias da
Grã-Bretanha espalhadas pelo mundo, convocando homens para o alistamento voluntário,
mulheres para o trabalho nas fábricas ou no campo e a população inteira para a
economia de gêneros alimentícios.
Natural que fosse assim. Nas frentes de
batalha, milhares de soldados morriam a cada dia e era preciso substituí-los.
Além do mais, vivia-se a chamada “guerra total”, em que os países envolvidos
mobilizavam todos os seus recursos humanos e econômicos para sustentar o
conflito “Desde a Grécia antiga, o povo sempre foi
persuadido a apoiar confrontos militares, mas nunca de uma maneira tão sofisticada
e eficaz como na 1a Guerra Mundial”, diz Aaron Delwiche, professor de
comunicação estratégica da Universidade de Trinity, nos EUA. Pela primeira vez
na história, a propaganda tornou-se uma arma tão importante e decisiva quanto
metralhadoras, canhões, tanques e submarinos.
US$ 4 bilhões em propaganda
Embora o conflito estivesse concentrado
na Europa, na África e no Oriente Médio, foi nos EUA que a propaganda ganhou
mais força. Uma semana depois da entrada do país na guerra, uma verdadeira
tropa de elite foi convocada para prestar serviços ao Comitê sobre Informações
Públicas – cujo setor de publicidade reunia os melhores roteiristas,
cartunistas, ilustradores, comunicadores e psicólogos americanos. “A campanha publicitária foi um dos pilares fundamentais para
convencer homens e mulheres, ricos ou pobres, a se entregarem de corpo e alma à
batalha, fosse guerreando ou racionando alimentos”, diz o coronel da
reserva Geraldo Cavagnari, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da
Universidade de Campinas (Unicamp). Em valores atualizados, os EUA investiram
entre 1917 e 1918 cerca de US$ 4 bilhões nesse comitê – um valor astronômico
até para os dias de hoje.
Crianças no front
Garoto
de apenas 16 anos virou herói de guerr
na Batalha da Jutlândia
O envio de menores de 18 anos para as
frentes de batalha foi uma das mais vergonhosas características da 1ª Guerra
Mundial. Incentivados pela propaganda de seus respectivos governos, crianças e
jovens mentiam sobre a idade na hora de se alistar como voluntários. E as
autoridades responsáveis pelo recrutamento, ansiosas para repor as baixas
ocorridas no front, deixavam-se “enganar”. Estima-se que, apenas no Exército
britânico, cerca de 250 mil jovens abaixo da idade mínima para o serviço
militar tenham sido mandados para a guerra.
O caso mais famoso foi o de John Travers
Cornwell, incorporado à Marinha britânica em 1915, quando tinha apenas 16 anos.
O garoto lutou na Batalha da Jutlândia. Era canhoneiro do navio HMS Chester,
cuja tripulação foi dizimada pelos alemães. Apesar do fogo cerrado, Cornwell
permaneceu em seu posto e chegou a ser resgatado com vida, apesar de ter o
corpo crivado de balas e estilhaços. Dois dias depois, morreu num hospital da
Inglaterra. Sua história, relatada pelo comandante do Chester, comoveu o rei
Jorge 5o, que lhe concedeu in memoriam a Cruz da Vitória, mais alta
condecoração militar britânica.
Mulheres em armasA propaganda de guerra não convenceu as
mulheres apenas a ocupar o lugar de seus respectivos maridos nas fábricas ou no
campo. Muitas delas acabaram indo parar nas frentes de batalha. Os exemplos
mais emblemáticos desse voluntarismo foram os batalhões femininos formados na
Rússia em 1917, depois da revolução que derrubou o czar Nicolau 2o e instaurou
um governo provisório em seu lugar. A função dos batalhões, além de matar os
inimigos alemães, austro-húngaros e otomanos, era reduzir o número de
desertores, inspirando os soldados russos a continuar lutando. A primeira
dessas unidades femininas, conhecidas como Batalhões da Morte, foi criada em
Petrogrado (atual São Petersburgo) e contava com aproximadamente 300
voluntárias lideradas por Maria Bochkareva, uma camponesa que integrava o
Exército russo desde o início da 1ª Guerra Mundial. Pelo menos outros 4
batalhões como esse foram criados nos meses seguintes. Até o final do conflito,
a Rússia enviaria para as trincheiras do front oriental cerca de 2 mil mulheres.
Rádio-negra:
a Guerrilha no ar
12-12 IRRADIA...
12-12 IRRADIA... Joseph E. Brant (*)
Captar
a confiança dos militares alemães a fim de prepará-los para acreditar em nossas
mentiras — Dificuldades que um redator da 12-12 teria que enfrentar —
Reveladas, com abundância de detalhes, pelo Quartel-General norte-americano,
informações sobre movimentos de tropas no setor da 12-12 — Truques
propagandísticos para fins subversivos...
O prefixo Zwölf-Zwölf sendet... Zwölf-Zwölf sendet
(12-12 irradia... 12-12 irradia...) pertencia não somente a uma emissora negra,
disfarçada de nazista, mas, antes de tudo, a uma estação de rádio militar
norte-americana cuja principal finalidade evidentemente era a de proporcionar
maiores vantagens táticas às tropas ianques. Em termos mais concretos, o
objetivo final da nossa emissora secreta, traçada pelo próprio Quartel-General
norte-americano, era de servir como arma auxiliar no gigantesco golpe final a
ser desferido contra a Alemanha e que iria culminar com a conquista, pelos
Aliados, daquele símbolo secular do poderio germânico que é o Rio Reno,
venerado pelos alemães como uma espécie de mito, e glorificado em musica e
versos por alguns dos seus mais célebres compositores e poetas.
O
tradicional Lieb Vaterland, magst ruhig sein, jest steht und treu die Wacht am
Rhein (“Pátria querida, fica sossegada /
Pois, firme e fiel está postada / A guarda do Reno”) era então uma das mais
populares canções patrióticas da Alemanha. De fato, esse importante curso d'água
de 1 326 quilômetros de comprimento e com uma superfície total atingindo 216
083 quilômetros quadrados, desempenhava posição de papel-chave na defesa das
fronteiras do Reich, significando a sua travessia, por um exército estrangeiro,
quase que automaticamente a queda da própria Alemanha. Assim se explica a
resistência desesperadamente tenaz que encontraram as tropas aliadas nas três
primeiras semanas do mês de fevereiro de 1945, durante uma série de violentos
ataques preparatórios por elas realizados, que terminaram pela travessia do
Reno por tropas do IX Exército norte-americano, procedentes da cidade de
Düsseldorf. Ao mesmo tempo o Gen. Patton, com o seu III Exército, conquistava a
cidade de Trier, enquanto a vital Colônia caía no dia 7 de março. A 1o. de
abril, a travessia do Reno, em vários pontos, por tropas norte-americanas,
britânicas, canadenses e francesas, estava realizada e consolidada, tornando-se
inevitável a capitulação da Alemanha umas seis semanas depois.
Já na
época da criação da 12-12,ou seja, em meados de 1944, os chefes militares
aliados tinham chegado à conclusão de que nem os bombardeios das cidades do
Reich, nem as derrotas sofridas pelas tropas da Wehrmacht nas frentes da Europa
Ocidental e Oriental seriam suficientes para lograr a almejada e amplamente
divulgada rendição incondicional da Alemanha. Esta, assim o diziam o bom senso
e a estratégia militar, só poderia ser conseguida por meio da conquista do
Reno. Assim sendo, podemos dividir a batalha final da Alemanha em duas fases principais:
1) a fase preparatória aguda, do fim de novembro de 1944 até fim de março de
1945; 2) a de assalto final contra o Reno, do fim de março até meados de abril
daquele ano. Estas duas fases das operações militares na frente do Reno
coincidiam aproximadamente com a estrutura geral do plano de atividades da
emissora 12-12. Com efeito, durante a fase preparatória de suas irradiações,
seria função da emissora, principalmente, a tarefa de captar a confiança dos
ouvintes militares nazistas por meio da divulgação de notícias escrupulosamente
corretas e de teor bastante atraente do ponto de vista estratégico. Ao
iniciar-se a segunda fase, — a do assalto final — passaria a irradiar uma série
de mentiras flagrantes. Caso fosse alcançado o primeiro objetivo, isto é, o de
captar a confiança dos seus ouvintes, não haveria razão para estes desconfiarem
do teor do noticiário, francamente subversivo, que seria iniciado durante a
fase do assalto final contra o Reno. Consequentemente, assim raciocinavam os
criadores da nossa estação secreta, os chefes militares nazistas por nós
visados nesse período vital, aceitando as mentiras da 12-12 como verdades,
poderiam ser induzidos a cair em ciladas ardilosamente preparadas. Raciocínio
semelhante também se aplicaria aos habitantes de cidades e povoações
localizadas nos territórios da Renânia-Palatinado. Esperava-se, em decorrência
do sucesso das atividades preparatórias da 12-12, levadas a efeito no meio de
vasta região ao alcance de seus possantes transmissores, a propagação, na fase
final das suas atividades, de um estado de confusão mais ou menos generalizado,
que deveria sobremaneira favorecer a execução de certas operações bélicas.
Entretanto, a missão da emissora iria além disto. Seria realizado, com efeito,
durante a primeira fase do seu funcionamento, concomitantemente com a
irradiação de notícias dignas de fé, um trabalho altamente discreto de
subversão de espírito dos componentes da Wehrmacht estacionados no território
da Renânia-Palatinado. A subtileza de tal empreendimento — captar a confiança
do inimigo e ao mesmo tempo corromper — é evidente. Enquadrava-se, no entanto,
perfeitamente dentro do esquema dos propósitos de um ambicioso programa —
talvez um pouco ambicioso demais.
Confesso
que experimentei algumas dificuldades iniciais, decorrentes da
reviravolta completa que representava o meu novo trabalho em relação ao que
desempenhava na ABSIE. Mesmo dispondo do grau de imaginação necessária para me
identificar com os sentimentos e reações do soldado comum da Wehrmacht (já
assediado por legítimas dúvidas sobre o desfecho da guerra, porém disposto a
sacrificar sua vida a fim de evitar a invasão da "Vaterland") era
sumamente difícil encontrar a forma estilística adequada para o desempenho da
tarefa exigida. Felizmente, meus colegas ajudaram. Contudo, levou algum tempo e
bastante esforço para eu "pegar" a perfeição e virtuosidade
estilístico-psicológica exigidas de um redator da 12-12. Houve, outrossim, uma
série de dificuldades de ordem material, relativas à execução da parte
preparatória dos programas. Embora as 5 horas e tanto de que oficialmente
dispúnhamos entre o início do nosso horário de trabalho redacional, às 21
horas, e a irradiação do programa noticioso às 2 da manhã parecessem
suficientes para a confecção de um "show" noticioso e comentários de
uma hora de duração, trabalhávamos na realidade sob o chicote de uma pressão
constante; Em primeiro lugar, por sofrermos muito mais ainda que na ABSIE, da
insuficiência crônica de pessoal adequado. Assim, por exemplo, o eficiente
Sarg. Hanosz Burger era responsável pelo noticiário sobre a frente Ocidental e
eu, pela correspondente tarefa sobre a frente Oriental. Entretanto, também
recaía sobre os nossos ombros, na maioria das vezes, a confecção de grande número
de outras notícias, assim como de comentários político-militares. Outra
circunstância que atrasava a realização do trabalho era a ausência inevitável
de secretárias, mensageiros e outros auxiliares, indispensáveis a uma redação
eficiente e rápida de um programa radiofônico noticioso.
Outrossim,
não dispúnhamos de teletipo, recebendo em nossas instalações, por
razões óbvias reduzidas ao mínimo necessário, o material informativo
principalmente por telefones militares, assim como por possantes receptores de
rádio sintonizados não somente com as principais estações do mundo, como também
com o quartel-general do Gen. Eisenhower. Este sistema, exigindo escuta
constante, transcrição ou gravação em discos — não existia ainda a gravação em
fitas — e decifração das mensagens recebidas, impunha tarefas que, apesar de
executadas por pessoal competente, não deixavam de significar outra onerosa
perda de tempo. Porém, onde estávamos sujeitos a "apanhar" mais, era
com os imprevistos que constantemente surgiam em forma de dúvidas, como por
exemplo, se devíamos ou não usar tal palavra tipicamente nazista, se tal termo
técnico era usual na terminologia militar alemã, ou se tal expressão era típica
do território da Renânia, onde supostamente se localizava a emissora. Apesar de
podermos contar com os relevantes serviços daquela verdadeira enciclopédia
ambulante que era George, o fiel fugitivo dos nazistas, seus conhecimentos eram
mais da esfera civil, o que nos obrigava a intermináveis discussões e demoradas
consultas em nosso arquivo nunca suficientemente equipado. Em suma, chegamos
logo à conclusão de que o melhor meio de ganhar o tempo indispensável para a
confecção adequada do programa, era a de realizar parte dos trabalhos
preparatórios também durante as horas da manhã ou da tarde, teoricamente
destinadas ao nosso sono e descanso.
A
tarefa de ganhar a confiança dos radio-ouvintes alemães, inicialmente outorgada
pelo Alto Comando norte-americano, era realizada na primeira fase de atividades
da emissora, como já mencionamos, por meio da divulgação de notícias não
somente corretas, mas também extraordinariamente detalhadas. Deveriam ser tão
minuciosamente corretas, que não deixassem de impressionar os oficiais alemães
que as ouviriam nos seus postos avançados de combate, e isto, a tal ponto, que
estes chegassem a supor que as mesmas se originavam de fontes ligadas talvez ao
próprio Quartel-General nazista. Dispúnhamos, para tal finalidade, de uma série
de vantagens. Com efeito, como já foi mencionado, por ordem superior a nossa emissora
contava com um regular número de colaboradores nas mais diversas unidades
norte-americanas que progrediam nos vários setores da frente renana. Mencionado
foi também o fato de terem os dois redatores, encarregados dos noticiários
militares terrestres e aéreos, livre acesso aos centros secretos de
planejamento do alto comando do XII Grupo de Exércitos. Estávamos, assim,
plenamente equipados para uma das nossas tarefas favoritas: a de anunciar
detalhadamente os movimentos agressivos ou defensivos de pequenas unidades,
chegando mesmo a citar frequentemente os nomes individuais de soldados e
oficiais alemães que lutavam em lugarejos tão insignificantes que não constavam
sequer dos mapas comuns e que só podiam ser localizados, com a ajuda do
material cartográfico militar. Não é de admirar que, em vista da exatidão e dos
surpreendentes detalhes divulgados no noticiário, este não somente se tornasse
bastante atraente para os ouvintes militares alemães, como realçava a sua
qualidade a tal ponto, que praticamente excluía a possibilidade de quaisquer
dúvidas sobre a sua autenticidade. Evidentemente, tal autenticidade dependia
também do emprego absolutamente correto da língua alemã, assim como da ausência
total de erros no sotaque dos locutores, o qual devia ser essencialmente
renano. Um dos nossos maiores receios consistia na presunção de que algum dos
engenheiros norte-americanos encarregados de uma variedade de tarefas técnicas
no interior do reboque, acidentalmente pronunciasse alguma palavra em inglês,
que chegasse a ser captada pelo microfone. Com o tempo, o pessoal técnico
elaborou um complicado sistema de sinalização por meio de luzes coloridas,
anunciando, sem possibilidade de falha, quando o microfone estava desligado, de
modo que eles pudessem assim falar inglês. Quanto aos locutores, era proibido —
sob pena de morte — pronunciar qualquer palavra em outro idioma a não ser o
alemão, desde o momento em que entravam no estúdio, até sair do mesmo.
De
fato, arcávamoscom uma imensa responsabilidade, pois o menor erro no
emprego das informações altamente confidenciais, a menor falha de coordenação,
podia não somente acarretar o fracasso de certas operações militares, com a
correspondente perda de vidas dos nossos soldados, mas também significar o fim
da emissora. De certo modo, estávamos constantemente brincando com fogo. Talvez
por isso mesmo, nunca houve o caso de um erro grave em nossas atividades.
Achávamo-nos de tal modo compenetrados da nossa responsabilidade, que
procedíamos com o máximo de cautela, tanto na feitura como na irradiação dos
programas da 12-12.
Assim mesmo, passeando pelas ruas da pacata cidade de
Luxemburgo, envolta no seu manto de neve, eu me sentia às vezes invadido por
uma estranha sensação. Era um misto de receio, consciência pesada e, paradoxalmente,
de íntima satisfação, o que se manifestava especialmente no centro da cidade,
em meio ao vai-e-vem da multidão de cidadãos luxemburgueses, os quais, sem
qualquer desconfiança ou malícia, continuavam na execução de suas tarefas
diárias. Algo parecido, enfim, ao que se deve passar na mente de um conspirador
um tanto novato ainda sem aquele grau de eficiência profissional que o fizesse
perder a sua sentimentalidade.
O
minucioso e confidencial noticiário militar terrestre não era, porém, o
único anzol de que nos servíamos para conquistar a confiança dos ouvintes
alemães. Outro "serviço" com o qual os brindávamos, eram relatos
detalhadíssimos sobre os resultados dos bombardeios de instalações bélicas
alemãs localizadas em pequenas cidades do território da Renânia. Havia,
realmente, no mesmo, assim como em toda a Alemanha, um número cada vez maior de
pequenas e médias cidades que, pela descentralização forçada da indústria
alemã, se viram convertidas em autênticos centros de esforço bélico nazista. Evidentemente,
para aquele "detetive" que era o Cap. Scudder, era mais fácil obter
impressionante variedade de pormenores que caracterizava o seu noticiário
aéreo, de uma localidade relativamente pequena, que de uma cidade grande. Por
outro lado, com o próprio fato de divulgar detalhes dos bombardeios de tais
cidades, a 12-12 não só fornecia um autêntico serviço, mas facilitava também a
injeção de "veneno subversivo" nas mentes, tanto da população civil,
como dos militares alemães, estacionados nas diversas frentes de combate. Com
efeito, por razões óbvias, as estações alemãs preferiam divulgar apenas o
estritamente necessário sobre os bombardeios aéreos cada vez mais violentos aos
quais estavam sujeitas as cidades do Reich. Além disso, os lideres nazistas tinham
que fazer um grande esforço para explicar a ausência cada vez mais prolongada
do apoio aéreo às forças da Wehrmacht, devido à necessidade imperiosa de usar
os caças na proteção das fábricas de material bélico, assim como para proteger
os lares das próprias famílias dos militares. Ouvindo a descrição de tais
bombardeios, fornecidas pela 12-12 com tanto realismo e abundância de detalhes,
que não deixava nenhuma sombra de dúvida sobre a sua autenticidade, os soldados
alemães não somente tinham que experimentar alguma dúvida sobre a eficiência da
Luftwaffe em prevenir tais ataques, como também duvidar da sinceridade das
outras emissoras alemãs, que praticamente escondiam tais ocorrências.
Eis
como era efetuado, na prática, esse autêntico jogo de paciência e de trabalho
"detetivesco", que era o preparo de notícias sobre bombardeios aéreos
na 12-12:
Ao receber a informação de que alguma cidade da
Renânia ia ser bombardeada pela Força Aérea norte-americana, o chefe da bem
equipada seção do Serviço de Inteligência dispunha pelo menos de algumas horas
para efetuar uma série de pesquisas sobre a mesma. Isto era feito
principalmente no arquivo daquela seção, sempre renovado e reabastecido, para
onde era canalizado pelas Forças Armadas norte-americanas um fluxo constante de
plantas de cidades alemãs, mapas, livros, folhetos, correspondência oficial
nazista, cartas da população em geral, fotografias, boletins informativos e,
sobretudo, listas telefônicas.
Ao
levantarem voo rumo à cidadea ser bombardeada os aviões norte-americanos, já os
seus comandantes se achavam munidos de um pedido rotineiro da 12-12 solicitando
fotografias aéreas, incluindo fotos de reconhecimento da área a ser
bombardeada, antes, durante e depois da ação ser levada a efeito. Grandes
ampliações daquelas fotografias eram fornecidas a 12-12, no mínimo de tempo
após o bombardeio — às vezes, mesmo no prazo de uma hora ou pouco mais.
Comparando as fotos com o material informativo previamente compilado, e
analisando cada centímetro quadrado das ampliações com a ajuda de uma lupa, o
Cap. Scudder estava capacitado a determinar com exatidão quase absoluta não
somente os nomes das ruas e praças porventura alcançadas pelas bombas, como
também o número e o tipo de prédios atingidos, assim como os nomes de seus habitantes.
O resultado de todo aquele minucioso trabalho de pesquisa e coordenação era o
texto redacional do programa noturno, com uma notícia do teor mais ou menos
como o que segue:
"Gangsters do ar, norte-americanos,
efetuaram ontem, às 2,16 da tarde, um ataque terrorista contra a cidade de...
As bombas, evidentemente arremessadas com o intuito visível de desmoralizar a
população civil, caíram principalmente na Horst Wessel Strasse. Sob os
escombros dos prédios de numeração 18, 20 e 22, ficaram soterradas oito
famílias, ou seja, a do guarda-livros Hans Wichner, a do açougueiro Rudolf
Schneider, a do alfaiate Karl-Heinz Licht, a do carteiro Franz Liebig, a do
médico oculista Karl Baum, a do dentista Heinrich Schumacher e a da viúva Maria
Stahl. No prédio 24 da mesma rua, apenas ruiu a parte onde se localizava a loja
de ótica pertencente a Paul Steierbeck. Tanto o Sr. Steierbeck como sua
família, que se encontravam no porão durante o ataque, estão sãos e salvos. Os
locatários do 2o. andar, Sr. Franz Frieden e a Srta. Anna Spitz, foram feridos
por estilhaços de vidros, porém sem gravidade. As operações de salvamento e de
limpeza estão em curso. Foram derrubadas pela nossa artilharia antiaérea pelo
menos duas máquinas terroristas norte-americanas."
Tal notícia era quase sempre completada por um relato
de "testemunha ocular", baseado em dados verídicos fornecidos por
prisioneiros alemães originários da cidade bombardeada, que puderam observar a
ação pelas janelas de um trem militar, pouco antes de serem capturados pelas
forças norte-americanas. A 12-12 tinha alta prioridade em tais depoimentos e
costumava recebê-los por telefone ou pelo rádio, em tempo mínimo após o pedido
ao Alto Comando.
Como se vê, tal reportagem falada era impregnada de um
realismo impressionante, porém tinha os seus riscos, como seja o de que uma ou
mais famílias ou mesmo pessoas por nós mencionadas, já se tivessem mudado para
outro local ou não se achassem em casa na hora do bombardeio. Porém, tais
equívocos, de modo geral, não eram de natureza a nos desacreditar perante os
nossos ouvintes. Afinal de contas, ninguém pode esperar de uma emissora de
rádio, operando no ambiente incerto e flutuante de uma guerra, um noticiário
integralmente perfeito.
Assim
mesmo, apesar do inevitável coeficiente de erros e enganos fortuitos,
demonstrávamos em geral uma espantosa exatidão. Tão espantosa, tão
impressionante, que não podia deixar de se converter, com o tempo, no melhor
veículo propagandístico em favor da 12-12, que era o de captar a confiança e a
atenção dos ouvintes alemães por ela visados. Aliás, isto foi confirmado por
prisioneiros em seus relatos e, portanto, ninguém poderia acreditar que as
notícias por nós veiculadas de maneira detalhada fossem principalmente um
"trabalho de redação".
Não posso negar que havia em tudo isto, algo de
lugubremente "antimoral". Mas, a verdade é que, tanto de um como de
outro numa guerra. Dans la guerre c'est comme dans la guerre, c'est comme dans
la guerre, c'est comme dans la guerre — poderia ter dito a escritora Gertrude
Stein.
A impregnação das notícias e comentários de um cunho
subversivo, era uma das maiores dificuldades com que se defrontavam os
redatores da 12-12. Pretendíamos ser, com efeito, uma estação emissora da
Renânia, de caráter militarista. Por isso mesmo, as críticas que tencionávamos
dirigir ao alto comando alemão, e principalmente aos chefes do partido nazista
responsáveis pelo prosseguimento de uma guerra já praticamente perdida para a
Alemanha, nunca poderiam ser feitas de maneira frontal. Um dos meios favoritos
empregados pela 12-12 neste sentido, era o de irradiar declarações dos próprios
chefes do exército alemão, que com frequência — e evidentemente sem querer —
continham material incriminatório. Para este propósito, um dos mais preciosos
colaboradores — involuntários — da 12-12 era o Mal. Walter von Model, brilhante
militar, dedicado ao seu chefe supremo Adolph Hitler até o fanatismo. A folha
de serviço daquele alto oficial incluía destacada atuação em todas as frentes
de combate, inclusive na Rússia, de onde fora transferido, em julho de 1944,
para a frente Ocidental em obediência a um pedido expresso do próprio Hitler,
já então em grandes apuros e com carência cada vez mais pronunciada de chefes
militares "dignos de confiança" e onde lhe fora outorgado o comando
do importante Grupo de Exércitos "B".
Apesar
de suas altas qualificações militares e do seu fanatismo nazista — ou talvez
devido a este último — o Mal. Model, então com 55 anos de idade, carecia quase
totalmente daquele bom senso inato, tão indispensável à redação de instruções
escritas para o uso imediato de seus subalternos. Insistia, ao contrário, em
usar uma linguagem cuja simplicidade frequentemente atingia o picaresco e mesmo
a infantilidade, como por exemplo aquele trecho de uma "ordem do dia"
por ele determinada alguns dias antes do início do contra-ataque das Ardenas:
"Cada oportunidade para obter descanso e sono
deve ser plenamente utilizada... Cabe aos comandantes de cada unidade
considerar, do ponto de vista tático, a melhor oportunidade de sono para os
seus homens. O próprio soldado encontrará em seguida a melhor técnica para
dormir".
Do bolsão do Ruhr onde ora se achava entrincheirado, o
Mal. Model continuava a fornecer-nos farta munição para o papel subversivo da
nossa ofensiva psicológica. Esse notável chefe militar alemão, que se suicidou
no dia 17 de abril de 1945, preferindo a morte à captura, foi portanto um dos
nossos "colaboradores". Bastava simplesmente ler ao microfone algumas
das suas pitorescas "ordens do dia".
Certa ocasião, por exemplo, quando a munição de suas
tropas se achava praticamente esgotada, e estavam elas sendo castigadas por
ataques severíssimos da Força Aérea Aliada, o Mal. Model expediu uma ordem do
dia, ensinando aos seus soldados "como lavar a roupa de baixo, de lã, sem
sabão". De outra vez, deu uma receita de "como fazer um gostoso
ensopado com serragem de madeira e cascas de batatas". Líamos tais ordens
do dia ao microfone, sem acompanhá-las do mais leve comentário.
Com o
agravamento cada vez mais pronunciado da situação militar do
Reich, a normalmente impecável disciplina interna das tropas da Wehrmacht
estava se deteriorando dia a dia. Possuíamos, nesse sentido, dados concretos
fornecidos pelo Serviço de Inteligência. Entretanto, mesmo de posse de todo
esse material informativo irrefutável, nunca nos ocorreu, sequer por um
instante, afirmar diante dos microfones da 12-12: "Vai mal. A disciplina
das nossas tropas se acha em franco desmoronamento. Devemos tomar medidas
urgentes". Não. Tal método direto estava óbvia e definitivamente fora de
cogitação. Poderíamos simplesmente ler e reler durante algumas noites seguidas
a seguinte ordem do dia publicada em forma de folheto pelo nosso
"aliado", Mal. Model:
"Combatentes da Eifel e de Aachen: —
Vocês têm comprovado nestes dias difíceis, que são rudes combatentes e bons
companheiros. As nossas tarefas presentes não permitem burocracia. A frente de
combate não é um quintal de quartel. Somos todos forjados numa união marcial,
ligados uns aos outros pelo respeito mútuo, amizade, presteza em obedecer —
pela luta, pelo sacrifício, em qualquer tempo e circunstâncias, na neve, na
lama ou no sol. Este sentimento de solidariedade que nos une, deve, no entanto,
ser demonstrado também de maneira ostensiva, visível.
"Em vista disso, declaro que considero
a atitude de pouco caso e negligência durante encontros casuais com os
companheiros, uma conduta indigna do espírito guerreiro e do comportamento
impecável esperado dos combatentes da frente Ocidental.
"Da maneira como ele executa a
continência, assim é o homem! Da maneira como corresponde à sua saudação, assim
é o seu companheiro! Precisamente agora, nesse tempo de sofrimentos, vocês têm
a obrigação de demonstrar a todos, sem sombra de dúvida, o seguinte: que todos
os soldados do meu grupo de exércitos — do granadeiro até o marechal formam um
só, indivisível conjunto, desejosos de alcançar a vitória para assegurar o
futuro da Alemanha".
Model,
General-Feldlmarschall
Quartel-General, fevereiro de 1945"
Pelo simples fato de repetirmos durante noites
seguidas essas exortações do Mal. Model às suas tropas, devia ficar patente aos
ouvintes militares alemães e aos civis, que nem tudo estava como devia, no
campo da disciplina interna dos seus exércitos. Desse fato, para os seus
pensamentos tomarem um rumo ainda mais pessimista, era apenas um passo. Com
efeito, ninguém melhor do que os alemães, para deduzir que a falta de
disciplina era o primeiro sinal da desintegração de um exército, pois muitos
deles ainda se podiam lembrar do quadro confuso que apresentavam as tropas
alemãs, na véspera da derrota final na Primeira Grande Guerra.
Em
certas circunstâncias, o mero fato da outorga de uma condecoração a um
oficial alemão se convertia, para nós, num barril repleto de munição de
propaganda subversiva. Assim, certa noite, saiu pelas ondas da 12-12 a seguinte
notícia, lida com aquele tom seco e um tanto arrogante que caracterizava a
nossa emissora: "Recebeu as insígnias da Cruz de Cavaleiro, com folhagens
de carvalho e espada, o capitão dos "Panzergrenadiere" Werner Bohler.
O Cap. Bohiler fez jus à alta distinção por ter, em pleno dia, conseguido
retirar sua companhia, ameaçada de envolvimento em algum lugar do território do
Palatinado. O Cap. Bohler, usando as mais avançadas técnicas de camuflagem,
pôde com êxito despistar a vigilância do inimigo, realizando a sua operação com
o mínimo de perdas".
Apesar
do teor aparentemente franco e direto, e de relatar um fato verídico (até
certo ponto), continha esta notícia, na realidade, duas ciladas
psicológico-subversivas, uma para os oficiais e outra para os soldados alemães.
Na verdade, por ter de maneira temerária efetuado à plena luz do dia a retirada
de suas forças, recebera o Cap. Bohler a tão cobiçada condecoração de guerra, a
"Ritterkreuz" com folhagens de carvalho e espadas. Porém, estávamos
informados, através do nosso Serviço de Inteligência, terem atingido as perdas
sofridas, naquela operação, 40 por cento do seu efetivo. Escondemos
propositalmente o fato gravíssimo, não por delicadeza, mas para induzir outros
oficiais a caírem na traiçoeira cilada oculta naquela notícia — aparentemente
de mera rotina. De fato, ao inteirar-se da relativa facilidade com que o Cap.
Bohler conseguira obter aquela alta condecoração (o sonho dourado de todo
oficial da Wehrmacht era obter a "Ritterkreuz", o equivalente nazista
ao não menos cobiçado "Pour le Mérite" do tempo do Kaiser), seus
colegas de outras unidades também criariam ânimo e se abalançariam a imitar o
exemplo — levando muitos dos seus subordinados à morte certa. Quanto aos
soldados que porventura ouvissem a notícia, só podiam ficar indignados, por
saberem que um oficial da Wehrmacht tinha sido condecorado daquela forma ao
executar uma retirada de suas tropas durante o dia. Era — sobre isso também
estávamos seguramente informados — um dos principais motivos de ódio dos
soldados alemães, o saber que suas vidas estavam sendo frequentemente e de
maneira temerária postas em risco, com a única finalidade de proporcionar uma
alta condecoração aos seus ambiciosos superiores.
O
mesmo sistema— relato de incidentes escolhidos — usávamos, para
realçar e estimular o seguinte cortejo de queixas, reclamações e rancores que
se manifestavam em ritmo cada vez maior em todos os setores da Wehrmacht, à medida
que se acumulavam os reveses sofridos nas frentes de batalha: — erros cometidos
pelos oficiais que, seja por nervosismo, seja por desespero, ou por
incompetência, mandavam seus subordinados executar ações agressivas ou outras,
sem a mínima utilidade; carência de tecidos, provocando interrupção na
distribuição de uniformes novos, obrigando os soldados a recorrer ao vergonhoso
expediente dos remendos; transferência de paraquedistas para a infantaria, fato
que era inevitável devido à falta cada vez mais pronunciada de aviões e também
por razões tático-estratégicas, mas que irritava sobremaneira os orgulhosos
"Fallschirmjager"; carência de cobertura por parte da artilharia (a
fim de economizar ao máximo a munição cada vez mais escassa, o fogo protetor da
artilharia era utilizado apenas à noite, deixando, durante o dia, as tropas
"a descoberto"); deficiências gravíssimas no sistema de
abastecimento, responsáveis por um estado de "fome permanente" em
certas unidades mais avançadas do exército alemão (quando, finalmente, a comida
chegava, era invariavelmente fria); deficiências no sistema de transportes:
assim, por exemplo, um contingente alemão que chegou de trem até o Reno, teve
que percorrer a pé uma distância de mais de cem quilômetros que o separava do
seu setor de combate; insuficiência flagrante de cobertura aérea durante os
ataques executados por tropas mecanizadas ou de infantaria; cisão entre
austríacos e alemães — casos onde componentes de tropas da montanha
(Gebirgsjäger) austríacas foram insultuosamente taxados, por oficiais
prussianos, como "Ostmärkische Schweine" (porcos da Comarca Oriental
— designação esta dada à Áustria por Hitler logo após a sua anexação ao Reich);
em seguida, os "Gebirgsjäger" foram mandados para a frente de combate
enquanto as tropas da SS da infantaria alemã puderam ficar comodamente na
retaguarda; a grosseria de certos oficiais... além de outras.
Para
realçar ao máximo toda essa gama de queixas e reclamações, usávamos não
somente a divulgação de certas ordens do dia apropriadas, como também
inventamos por conta própria, discursos e comentários atribuídos a altos
dignatários nazistas.
Assim, por exemplo, para destacar o assunto da comida
fria, dizia a 12-12:
"O Cel. Wollersdorf, numa ordem do dia
endereçada ao seu regimento, teve o seguinte a dizer a estes (felizmente
poucos) soldados, que recentemente têm manifestado em altas vozes o seu
descontentamento por não lhes ter sido servida a sua comida tão gostosamente
quente como estavam acostumados a recebê-la na casa da mamãe: "O fato de
alguns poucos chamados soldados alemães, numa hora em que se decidem a
sobrevivência e o destino de sua pátria acharem necessário queixar-se
abertamente do fato de serem obrigados a engolir comida fria não merece
comentários, mas sim, o desprezo absoluto que lhes é demonstrado por seus
companheiros de armas e os superiores".
Contra as manifestações de descontentamento cujo
volume sempre maior nos era transmitido fielmente pelo Serviço de Inteligência,
tanto o alto comando alemão como o chefe todo poderoso da propaganda nazista,
Joseph Goebbels, eram impotentes para reagir com eficiência. A chefia da
Wehrmacht, já se achava, a esta altura dos acontecimentos, praticamente
impossibilitada de exercer uma fiscalização eficiente quanto à execução efetiva
do número elevado de diretrizes distribuídas a todos os comandantes com o
intuito de manter o "Wehrgeist" (espírito combativo) de suas tropas.
Cito aqui o seguinte parágrafo típico contido num folheto intitulado:
"Linhas mestras para a educação
ideológica — É inconcebível imaginar a transformação de qualquer soldado em
guerreiro decidido e agressivo, sem que receba paralelamente ao seu treino
militar, uma expressiva educação nacional-socialista. Muito mais do que
qualquer outro cidadão, é mister que o soldado, portador de armas que é, seja
um nacional-socialista convicto. Por isso mesmo deve ele estar capacitado para
julgar e conhecer as exigências politico-militares em relação ao futuro
arcabouço da Grande Alemanha e o seu espaço vital. Com esta finalidade, deve
ser-lhe explicada a razão desta guerra. Cada soldado deve saber porque ela está
sendo travada. Deve ter a certeza absoluta de que esta guerra deve ser, e será
terminada vitoriosamente."
OKH, Gen
St d H/H West Abt.
(Quartel-General Supremo, Estado-Maior do
Exército Setor Ocidental.)
Por sua vez, o astuto Goebbels esforçava-se por
inocular, tanto no povo como nos soldados alemães, a convicção da
imprescindível necessidade de "aguentar até ao último homem". Para
açular o entusiasmo de seus concidadãos, já um tanto abalado a esta altura dos
acontecimentos, Goebbels usava a estratégia do medo e da esperança como
vigas-mestras de sua argumentação propagandística. Notadamente nos meses de
fevereiro e março de 1945, tanto por meio da extensa rede de suas emissoras
radiofônicas como por milhões de folhetos e jornais, ele martelou
incessantemente, usando exortações como a seguinte:
"Vocês, povo alemão, têm a sagrada
obrigação de aguentar até ao último homem, porque mesmo a pior das provações
que estão sofrendo na hora atual, é insignificante quando comparadas à
indignação e humilhações que os esperam durante uma eventual e permanente
ocupação pelos bolchevistas russos e pelas tropas negras norte-americanas, aos
quais, irremediavelmente, será entregue todo o território do Reich no caso de
uma vitória inimiga. Aguentem, pois, homens e mulheres alemães. Sua obstinação
será recompensada quando surgirem as novas armas secretas que estão sendo
preparadas em nossas fábricas e cujo aparecimento — em breve — deverá modificar
por completo o curso da guerra. Não somente impediremos o inimigo de realizar a
conquista da Alemanha, mas rechaçaremos os restos aniquilados de seus exércitos
para além de suas próprias fronteiras."
A reação da 12-12 contra tal raciocínio do supremo
chefe da propaganda nazista foi um tanto sofisticada. Em vez de tentar
demonstrar — como o teríamos feito na ABSIE — o absurdo e a futilidade da ordem
de "aguentar até ao último homem", estávamos, pelo contrário,
empenhados em dar-lhe o máximo de publicidade. Isto, com a finalidade de
provocar comentários indignados de nossos ouvintes alemães, como por exemplo:
"É fácil para vocês, chefões, incitar-nos a aguentar até ao último homem —
é que, para vocês, nos seus redutos à prova de bombas, nada falta. Entretanto,
as nossas casas estão ruindo e as nossas famílias estão sendo dizimadas sob o
efeito dos bombardeios aéreos inimigos."
Sobre o tema "aguentar até ao último homem"
escrevi, como se fosse um discurso do então todo poderoso e temível chefe das
SS, Heinrich Himmler, o seguinte trecho, irradiado a 28 de fevereiro de 1945:
"Com o propósito de
manter o espírito guerreiro do povo alemão para as futuras gerações, é
obrigação sagrada de todo soldado e civil, impregnar-se do seguinte lema —
Lutaremos até o último muro. Lutaremos até a última bala. Rendermo-nos, nunca!
Mesmo que haja uma possibilidade de sermos esmagados pela superioridade
numérica do inimigo, a guerra para nós nunca estará perdida, senão depois de
depormos as armas. Já foram sacrificados milhões de vidas humanas alemãs no
curso desta guerra. Não fará diferença que sejam sacrificadas outras cem mil ou
mais. Por trágico que seja isto, do ponto de vista individual, este sacrifício
supremo será realizado com a única finalidade de que possa sobreviver, para as
gerações futuras, esta grandiosa herança que é o espírito guerreiro do nosso
povo. Os netos e bisnetos daqueles que ora preferem a morte à rendição,
lembrar-se-ão orgulhosamente de seus antepassados que, pela força de sua
vontade, souberam transformar uma derrota material em vitória moral."
[Extraído do
livro Segredos da Guerra Psicológica]
(*)
O autor
Joseph Errol Brant nasceu em
Riga, capital da Letônia, em 10 de agosto de 1912. Naturalizou-se
norte-americano quando servia nas fileiras das Forças Armadas dos EUA. Jornalista
de profissão, recebeu uma educação internacional, iniciada em escola e colégio
alemães de Riga. Posteriormente formou-se em Direito pela Universidade de
Montpellier, França, e em Jornalismo pela Graduate School of Journalism da
Universidade de Columbia, Nova York.
Iniciou a carreira jornalística colaborando em vários
jornais da Europa e da América Latina, entre os quais L'Intransigeant, de
Paris; Die Weltwoche, Zuriche o Diario de la Marina, Havana.
Em 1942 ingressou no OWI (Office of War Information, porta-voz
da propaganda oficial dos EUA durante a II Guerra Mundial) onde, com exceção de
alguns meses passados no exército, serviu até julho de 1945.
Enviado a Londres pelo OWI, foi incumbido da
organização e chefia da seção noticiosa do Departamento Alemão da American
Broadcasting Station in Europe (ABSIE — emissora norte-americana que funcionou
durante a II Guerra Mundial na capital britânica). Em fins de 1944
incorporou-se ao PWD (Psychological Warfare Department, especificamente
encarregado das atividades de Guerra Psicológica das Forças Armadas
norte-americanas). Transferido para Luxemburgo, participou ativamente das
peripécias da Rádio 12-12, primeira emissora secreta na História Militar dos
Estados Unidos. Logo após o término das hostilidades exerceu na Alemanha as
funções de oficial de ligação do setor de pessoas deslocadas, do XII Grupo de
Exércitos.
Após a guerra fixou residência no Brasil
onde se casou com brasileira, dedicando-se durante vários anos à agricultura.
De 1961 a 1966 ocupou o cargo de redator-chefe e correspondente estrangeiro da
United Press International em São Paulo.



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