1.
Olimpíada
Popular contra Hitler
2.
Um jogo de futebol em plena guerra
3.
Sindelar:
craque vencido pelo Nazismo
Esporte
Olimpíada
Popular:
a
esquerda sai das pistas
e vai
à guerra
Em 1 ano, 3 Olimpíadas
Hitler visita as obras do Estádio Olímpico,
que existe até hoje em Berlim
Deu no
New York Times: “Os
atletas americanos apoiaram o governo catalão na luta contra os
militares rebeldes. O time americano (...) retornou a Nova Iorque, após
participação ativa na rebelião”.
O despacho
(como se dizia na época, 1936) do repórter do,
já então, poderoso jornal
americano, era para ter sido sobre um acontecimento esportivo. Mas a política
entrou duro no esporte, e só permitiu a festa de abertura dos Primeiros (e
únicos) Jogos Olímpicos Populares da História.
A
Olimpíada de Barcelona começa no dia 18
de julho e termina - sem a realização de
qualquer prova - no dia seguinte. Tudo por causa de um acontecimento que, hoje,
faz parte da História: a Guerra Civil Espanhola.
As
competições em Barcelona são uma
resposta à realização dos Jogos Olímpicos oficiais de 1936 em Berlim. Temia-se
que o Nazismo, no poder há três anos, usasse os Jogos Olímpicos para fazer
propaganda. Além disso, o regime hitlerista já havia mostrado a sua face
violenta: perseguição de judeus, liquidação
física dos adversários do Führer e os campos de concentração para os
inimigos do III Reich. Um movimento mundial tentou, primeiro, tirar os jogos de Berlim; depois, defendeu um boicote
internacional aos Jogos.
O
fracasso do boicote acabou fazendo de 1936 um ano atípico, do ponto de vista
esportivo. Porque houve, a rigor, três
Olimpíadas. A oficial, em
Berlim; a Popular (e antinazista), em
Barcelona; e uma em Nova Iorque,
realizada também como um protesto – embora bem mais suave - contra a de
Berlim.
A Olimpíada
de Barcelona é aberta com um desfile das delegações presentes. No dia seguinte, 20 de julho, começa a Guerra Civil, com o levante,
comandando pelo Generalíssimo Francisco Franco, das guarnições no Marrocos
espanhol. Os militares fascistas de Madri também se rebelam. E é contra essas
tropas que os atletas de Barcelona, em
vez de irem para as pistas, pegam em
armas --- e vão à guerra, literalmente.
Uma guerra, por sinal, que teve o apoio
explícito (e bélico) de dois ditadores: Adolf Hitler, que enviou duas divisões completas de Tanques
Panzer (na época uma novidade) e a célebre Legião Condor, da Luftwaffe, a Força
Aérea criada pelos nazistas; e Benito Mussolini,
que enviou soldados italianos para defender os franquistas contra a República
espanhola, eleita democraticamente.
Berlim
O triunfo da propaganda
A então capital alemã, Berlim, é escolhida sede dos Jogos numa reunião do COI – ironicamente - em
Barcelona em 31 de maio de 1931, quando era inimaginável que, em 1936, o Partido
Nazista estaria no poder. Na época da escolha, o
Partido Nazista tinha no Reichstag (o Parlamento alemão) apenas 107 cadeiras de um total de mais de
500. Mas mesmo fora do poder, os nazistas já haviam mostrado a sua face
violenta, principalmente pela atuação das S A, as Tropas de Assalto, um
exército de arruaceiros encarregados de espancar os adversários (principalmente
os comunistas) e perseguir os judeus.
Quando
Hitler torna-se chanceler (primeiro-ministro),
em janeiro de 1933, a Alemanha começa a mudar e, em 1936, é um país totalmente diferente – para bem
pior. Os nazistas já haviam mostrado o seu jeito de governar: judeus são
assassinados, têm seus bens confiscados
e são amontoados em campos de
concentração. A Gestapo (polícia política do Partido Nazista, incorporada após 1933 ao aparelho estatal)
está em pleno funcionamento. Os adversários políticos ou estão presos ou
mortos. Enfim: o Nazismo já domina com plenos poderes a Alemanha, e se prepara
para a guerra (a Luftwaffe, por exemplo, começou a ser criada em 1935).
Hitler assume os Jogos
Berlim: o “Heil, Hitler” também no
Estádio Olímpico
O casamento do Nazismo com os Jogos
Olímpicos acontece 45 dias depois de Hitler assumir o poder. Em março, dia 16,
o Führer recebe os dirigentes do Comitê Organizador em audiência na
Chancelaria,. E se revela entusiasmado
com a realização dos Jogos em Berlim.
Doze dias depois,
entra em campo o Ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, que
organiza uma comissão especial para tratar da exclusivamente da propaganda. Em
outubro, Hitler visita o Grünewald Stadium, que estava sendo reformado. O
chanceler acha pouco e determina que um “novo estádio deve ser erigido pelo
Reich: será tarefa da nação”.
“Se
a Alemanha vai hospedar o mundo inteiro” -- afirma Hitler – “deve fazê-lo de
forma adequada e magnífica. A parte externa do estádio não deve ser de
concreto, mas de pedra nacional. Quando uma nação tem quatro milhões de
desempregados, deve arranjar caminhos e meios para lhes providenciar trabalho.”
Hitler
tinha dois interesses em que a Olimpíada
de Berlim desse certo. Primeiro, porque serviria para acalmar a comunidade
internacional quanto aos planos de guerra, já em andamento mas enfaticamente
negado pelo governo nazista. O Führer já havia decidido guerrear desde que
assumiu o poder, conforme ele registrou
em seu testamento político ditado em
1945 a Martin Bormann no bunker construído embaixo do prédio da Chancelaria,
quando a vanguarda do Exército soviético já bombardeava Berlim. Durante os Jogos, os cartazes antijudeus foram retirados das
ruas, para maquiar a situação de intolerância racial. E o segundo
interesse era que as competições – na ótica do 3º Reich – mostrassem
a eficiência da juventude alemã, considerada pelos nazistas uma raça
superior, pura.
Campanha pró-boicote
Por causa da
interferência do governo nazista na organização dos Jogos, surgem movimentos de
contestação em vários países,. Primeiro, para retirar a competição de Berlim.
Depois, pregando um boicote internacional. A reação parte, principalmente, de
organizações judaicas. São planejados vários jogos alternativos - também
chamados de antijogos. Entre eles uma Olimpíada dos Trabalhadores em Praga
(Tcheco-Eslováquia) em 1937 – que não chegou a ser realizada - e a Olimpíada Popular em Barcelona, em 1936.
Na Inglaterra, França,Bélgica,Holanda,Espanha, Canadá,
Iugoslávia, Tcheco-Eslováquia, Suécia, Suíça, Áustria e em vários países
sul-americanos,há protesto e ameaça de não ir aBerlim. Mas, no fim das contas,
poucas ameaças são cumpridas.
Uma das
razões para o fracasso do boicote é a postura ingênua da maior parte dos
dirigentes esportivosmundiais. Eles resolvem não boicotar os jogos de Berlim
alegando, justamente, que não se deveria misturar esporte com política.
Isso,apesar da advertência de vários setores, inclusive da imprensa
conservadora. O jornal The Times, de Londres (na época, o mais importante da Europa), por
exemplo, considera os Jogos de 1936 “uma tentativa de misturar o ideal das
Olimpíadas com o passo-de-ganso nazista”.
Nos
EUA, o boicote também tem defensores de peso. Entre eles, o legendário prefeito
de Nova Iorque, Fiorello La Guardia, a Liga dos Escritores Americanos, muitas
universidades importantes e a maior parte da imprensa. Principalmente The New
York Times, que denuncia, em editorial, que os cartazes antijudeus estavam
sendo retirados das ruas de Berlim, por decisão Ministério da Propaganda de
Goebbels, para fingir que os nazistas não perseguem judeus.
Avery Brundage, presidente do Comitê Americano:
sócio de um clube que proibia a entrada
de “cachorros e judeus.”
Mas, como no resto do mundo, prevalece
nos círculos oficiais americanos, a decisão de competir em Berlim, em grande
parte por causa da atuação do presidente do Comitê Olímpico Americano (COA),
Avery Brundage. Este cartola olímpico era sócio de um clube em Nova Iorque que
tinha, na entrada, uma placa de advertência: “Proibida
a entrada de cachorros e judeus”
Nos EUA, o
boicote vem principalmente das universidades (que sempre foram a base do time americano em Olimpíada) e por
vários atletas, individualmente. Essa
postura se reflete na formação do time olímpico. O que vai a Berlim não
reúne o que os EUA têm de melhor no
esporte. Os atletas dissidentes dividem-se
entre a Olimpíada de Barcelona
(os mais politizados) e as provas em Nova Iorque. Quem foi para a
Espanha, acabou indo à luta -- literalmente.
Barcelona
Atletas de esquerda nas barricadasDos EUA, nove atletas vão para a
Olimpíada Popular deBarcelona,embarcando no dia 4 de julho no navio S.S.
Transylvania, com o patrocínio de umCommittee For Flair Play in Sports. Da
Grã-Bretanha,seguem 41 competidores, que levam na delegação quatro tocadores de
gaita-de-foles escoceses. No dia 18, os
atletas inscritos nas competições se reúnem emBarcelona.
A
Olimpíada Popular começa no sábado 19, com a abertura festiva, e termina no
domingo, antes da realização das provas. Na edição do dia 22 de julho, o jornal
do Partido Comunista da Inglaterra, Daily Worker, informa o que aconteceu no dia previsto para
o início das provas:
“Depois
das cerimônias de abertura, o início das provas esportivas foi adiado, devido
às condições resultantes da tentativa fascista de rebelião. (...)Alguns
(atletas) embarcaram imediatamente para Marselha (França), planejando realizar
os Jogos em Paris, ainda que sem o apoio da maioria dos que se encontram na
Catalunha.”
Mas
não há disputa esportiva -- nem em Paris nem em Barcelona. Tropas fascistas
rebeldes tentam derrubar o governo da Catalunha. No dia 20, domingo, quando
deveriam começar as provas, há disparos de metralhadora em vários pontos da
cidade. Atletas se envolvem na luta. The
New York Times informa que os americanos haviam sido atacados, ajudaram a
construir barricadas e foram obrigados a fazer saques no comércio para arranjar
comida. Os atletas que se engajaram na luta foram nomeados conselheiros do
governo catalão.
Os
atletas alemães e italianos (que haviam chegado à Barcelona vindos de Moscou,
onde viviam asilados) aderem à Centúria Thaelmann e ao Batalhão Gastone-Sozzi,
da Brigada Internacional, formada por combatentes de praticamente todo mundo
para lutar contra o (então) candidato a ditador, o Generalíssimo Franco. Entre os combatentes, estavam dois militares brasileiros:
Apolônio de Carvalho e Salomão Malina, militantes do então Partido Comunista do
Brasil (PCB) e que lutaram também na II Guerra Mundial – Apolônio na
Resistência Francesa e Malina como pracinha da Força Expedicionária Brasileira
(FEB) na Itália.
E
os atletas-combatentes alemães e italianos podematé ter enfrentado, na guerra,
seus compatriotas. Os alemães, os aviões da Legião Condor e os tanques de uma
Divisão Panzer; os italianos, os inúmeros batalhões enviados em auxílio de
Franco pelo ditador Benito Mussolini.
A atuação da Legião Condor na Espanha está
imortalizada no que é, certamente,o quadro mais famoso de Picasso:
Guernica,pintado em homenagem a uma cidade, Guernica,arrasada pela Luftwaffe.
Durante a ocupação da França, Picasso recebeu, em seu
ateliê em Paris, um grupo de oficiais nazistas. Um general apontou para o
Guernica e perguntou se fora ele, Picasso, quem fizera o quadro. A reposta do pintor catalão entrou para a
História:
--Não. Foram vocês !
A
Olimpíada Popular de Barcelona, se tirou dez em militância,levou zero em
esporte. Em termos esportivos, os jogos alternativos às Olimpíadas de Berlim
que têm algum destaquesão os de Nova Iorque,um protesto comportado, sem forçar
muito a barra e – lógico – longe de qualquer militância ativa contra os Jogos
de Hitler. Muito pelo contrário. (O drama dos participantes da Olimpíada
Popular é relatado num livro esgotado editado no Brasilhá mais de trêsdécadas,
pela Editora Renes - Rio de Janeiro, 1972: Olimpíada
1936 – glória do Reich de Hitler).
Nova Iorque
O esporte pelo esporte
As autoridades esportivas dos EUA dão
tão pouca atenção aos Jogos de Nova Iorque que eles são chamados de “Carnaval”
- Wordls Labor Athetic Carnival (WLAC), durante o qual evita-se qualquer
referência aos Jogos de Berlim. Os organizadores do “Carnival” explicam o
objetivo do WLAC: “Estimular o atletismo amador, como
meio vantajoso de se utilizar o tempo de lazer dos trabalhadores”.
O
Carnaval esportivo americano é marcado para os dias 15 e 16 de agosto, para
coincidir com os dois últimos dias da Olimpíada de Berlim. As provas são
realizadas em Randalls Island, com a participação de atletas do Canadá e de 15
estados americanos (representando 22 universidades e 30 clubes).
Uma festa para Hitler
O
Führer: entrada triunfal no estádio ao som de Wagner
Quem apostou que os Jogos de Berlim de
1936seriam manipulados politicamente, acertou na mosca: tudo foi feito, mesmo,
para glorificar o nazismo. A começarpela abertura, no dia 1ºde
agosto, planejada pessoalmente pelo ministro da Propaganda de Hitler, o Dr.
JosephGoebbels.
Uma das inovações da Olimpíada
berlinenseéa tocha olímpica, uma cerimônia das Olimpíadas da Antiguidade
ressuscitada em Berlim eque o Comitê Olímpico Internacional (COI) mantém até
hoje.
Hitler entra no Estádio Olímpico ao
som da Marcha das Homenagens, de
Wagner, o seu compositor preferido. Uma menina de cinco anosdá ao Führer um
buquê de flores,recebe um afago no rosto e faz a saudação nazista: “Heil, mein
Führer”.
Depois, a multidão canta hinos alemães e do Partido Nazista, com
destaque para Horst Wessel Lied (Canção de Horst Wessel). Wessel foi um
ex-integrante das S Ade Munique que virou gigolô e foi morto num bordel numa
briga com um outro gigolô na disputa por uma prostituta, e que a propaganda de Goebbels transformou num
dos maiores heróis-mártires da Alemanha
nos 12 anos do período hitlerista).
Jesse
Owens & Cornellius Johnson
Dois negros no
caminho de Hitler
Mas o Estádio Olímpico não é palco apenas
para momentos felizes de Hitler. No decorrer das competições, por duas vezes,
ele se retira do seu camarote, para não ter que cumprimentar atletas negros dos
EUA. Cornelius Johnson(da Califórnia)vence no salto em altura,e Jesse Owens (de
Cleveland) nos 200 metros rasos, batendo recorde olímpico e mundial com 20s 7d.
Os dois derrotam atletas ‘arianos raça pura’ de que
falava a propaganda nazista.
Propaganda que determinava, até,
que os jornais alemães identificassem os atletas negros do time
americano de “auxiliares negros”.
Protestos na aberturaJá no desfile inaugural dos Jogos de
Berlim, o esporte e a política se
misturam. A delegação francesa, diante do palanque, faz a saudação
olímpica, mesmo sabendo que o gesto seria
confundido com a saudação nazista (na saudação olímpica, o braço é estendido
para cima e para a direita; na nazista, para a frente e para cima). Os
franceses são ovacionados.
Os ingleses, que foram mal recebidos
nas Olimpíadas de Inverno, em Garmisch-Partenkirchen, preferem um “olhar à
direita”. Várias delegações não fazem nenhuma saudação,
nem a olímpica: Austrália, Argentina, Egito, Dinamarca, Finlândia e Japão. O único atleta da Costa
Rica no desfile, em sinal de protesto, baixa a bandeira até quase o chão.
O time americano desfila com os chapéus
sobre o coração e a plateia reage com assovios. Esse gesto provoca
polêmica. Na Europa, assoviar é sinal de desaprovação; nos EUA, de elogio. Um
repórter estrangeiro diz ter visto, na
arquibancada, um grupo de membros uniformizados das SA (a
tropa de baderneiros do Partido
Nazista) puxando os assovios.
O
final da festa de abertura é sintomático.
Depois que Hitler faz a declaração oficial de abertura, há
uma salva de ...
artilharia! Os mesmos canhões seriam usados, pouco mais de três anos
depois, com bala de verdade na invasão da Polônia (1º de
setembro de 1939), seria dada para
valer, marcando o início da II Guerra
Mundial.
Leni
Riefenstahl
O cinema entra no jogo E para coroar o uso políticos da
Olimpíada de 1936, o próprio Hitler encomendou a sua cineasta preferida, Leni
Riefenstahl (morta em setembro de 2003, aos 101 anos) o documentário Olympia, ganhador hoje considerado
revolucionário por causa das inovações que lançou. Duas
ideias dela são copiadas até hoje: a filmagem embaixo dágua e a instalação de
trilhos ao lado das pistas, para a câmera acompanhar os atletas.
A
chamada cineasta preferida de Hitler fez um outro documentário que, hoje,
ideologia à parte, também é considerado uma obra prima do cinema: O Triunfo na Vontade (Der Triumph des Willens), prêmio do
Festival de Veneza de 1936.
Leni
Riefenstahl morreu em 2003, aos 102 anos
e perfeitamente lúcida. Depois da guerra, ela foi amaldiçoada como “a cineasta
de Hitler” e acusada de ter sido amante dele. Leni sempre negou isso, e mas um
livro publicado na Inglaterra em 1974, e no Brasil no ano seguinte (Eva e Adolf: o Romance Trágico de Adolf
Hitler e Eva Braun, do ex-major da Força Aérea dos EUA, de Glenn B.
Infield) dá uma versão diferente. Depois de um jantar na casa de Goebbels, Leni
– uma das mulheres mais bonitas do cinema mundial -- convidou Hitler para visitar
seu estúdio, onde os dois foram deixados a sós:
“Quando
Hanfstangl (Ernst “Putzi” Hanfstangl, um
dos auxiliares mais próximos de Hitler, a quem emprestou dinheiro para a compra
das impressoras do jornal do Partido Nazista, Voelkischner Beobachter, e que
participou do jantar na casa de Goebbels) voltou a encontrar-se com Leni
Riefenstahl alguns dias depois, ela simplesmente ergueu as sobrancelhas em
resposta à sua pergunta a respeito de qual tinha sido o resultado na noite que
passara com Hitler. A princípio ele achou que a atriz quis mostrar que Hitler
não tinha mostrado nenhum interesse sexual por ela. Mas mudou de ideia mais
tarde. Segundo declarou Luis Trenker (produtor de cinema amigo de Leni),
Hanfstangl falou-lhe a respeito de uma visita ao apartamento de Leni, ocasião
em que a atriz tinha dançado nua para Hitler e ele até
as primeiras horas da manhã. Ela era famosa por esse tipo de dança, e
muitos diziam mesmo que desde o momento em que “Leni balança o umbigo diante de
um homem, ele jamais a esquece.” Hitler, evidentemente, não a esqueceu, já que
combinou vários encontros com ela depois disso, muitos deles tão secretos que
nem ao auxiliares imediatos ficaram sabendo.”
Antissemitismo varrido
para baixo do tapete
Também
a Olimpíada de Inverno, realizada em Garmisch-Partenkirchen, nos Alpes bávaros, de 6
a 16 de fevereiro, é usada pelo governo
nazista para propaganda, principalmente para tentar convencer os estrangeiros
de que na Alemanha não se perseguia judeus. E a julgar pelo relato de William
L. Shirer, correspondente em Berlim da rede de rádio americana CBS, isso foi conseguido:
“Os nazistas fizeram uma ótima propaganda. Impressionaram a
maioria dos visitantes estrangeiros com a forma extravagante, porém agradável,
com a qual organizaram os Jogos e com as atitudes gentis que, para nós que
viemos de Berlim, pareceram, como é natural, inteiramente falsas. Senti-me
tão alarmado diante do caso que ofereci um almoço a alguns dos homens de
negócios americanos presentes aos Jogos, convidando Douglas Miller, nosso adido
comercial em Berlim e, de todas os membros da nossa Embaixada, o mais bem
informado sobre a Alemanha, para que ele os instruísse um pouco sobre a verdade
a Alemanha, para que ele os instruísse um pouco sobre a verdade dos fatos. Mas
foi inútil: nossos patrícios passaram todo o tempo dizendo a Douglas tudo quanto
queriam, sem lhe dar oportunidade para qualquer explicação.
Estivemos
continuamente às voltas com os guardas SS, os quais, todas as vezes que Hitler
se achava presente ao estádio, estabeleciam um verdadeiro cordão de isolamento
em seu redor, tentando ainda impedir a nossa entrada. A maioria
dos correspondentes mostrou-se um pouco irritada por um artigo publicado no Voelkische Beobachter (jornal do Partido Nazista), citando
Birchall, do The New York Times, para
dizer que não se poderia notar nenhum cunho militarista nos Jogos de agora e
que os correspondentes que tal afirmassem seriam inexatos. Em particular,
Pegler (Westbrook Pegler, jornalista
americano) ressentiu-se com essa
observação. Esta noite parecia um
pouco apreensivo, receoso de que a Gestapo lhe deitasse as unhas pelo que havia
escrito. Mas não creio que assim seja. O “espírito olímpico” deve perdurar
ainda por mais uns quinze dias, e nessa altura ele já estará na Itália.”
Quadro de Medalhas da
Olimpíada de Berlim
Foto histórica
Guerra
Mundial: foi quando alemães e
britânicos deixaram de ser inimigos no campo de batalha e viraram adversários
num campo de futebol. Foi em Armentières, na França, localidade
próxima da fronteira com a Bélgica. Em vez de balas, alemães e britânicos
trocaram presentes e cartões de Natal. No jogo, os alemães venceram por 3 a 2.
No local onde houve o jogo, existe um marco para perpetuar esse momento único
na guerra.
Noite feliz na terra de ninguém:
Natal de 1914 No Natal de 1914, em plena Primeira Guerra Mundial, soldados ingleses e
alemães deixaram as trincheiras e fizeram uma trégua. Durante seis dias, eles
enterraram seus mortos, trocaram presentes e jogaram futebol
Texto: Bruno Leuzinger
Finalmente parou
de chover. A noite está clara, com céu limpo, estrelado, como os soldados não
viam há muito tempo. Ao contrário da chuva, porém, o frio segue sem dar trégua.
Normal nesta época do ano. O que não seria normal em outros anos é o fedor no
ar. Cheiro de morte, que invade as narinas e mexe com a cabeça dos vivos –
alemães e britânicos, inimigos separados
por 80, 100 metros no máximo. Entre eles está a “terra de ninguém”, assim
chamada porque não se sobreviveria ali muito tempo. Cadáveres de combatentes de
ambos os lados compõem a paisagem com cercas de arame farpado, troncos de
árvores calcinadas e crateras abertas pelas explosões de granadas. O barulho
delas é ensurdecedor, mas no momento não se ouve nada. Nenhuma explosão, nenhum
tiro. Nenhum recruta agonizante gritando por socorro ou chamando pela mãe.
Nada.
E
de repente o silêncio é quebrado. Das
trincheiras alemãs, ouve-se alguém cantando. Os companheiros fazem coro e logo
há dezenas, talvez centenas de vozes no escuro. Cantam “Stille Nacht, Heilige
Nacht”. Atônitos, os britânicos escutam a melodia sem compreender o que diz a
letra. Mas nem precisam: mesmo quem jamais a tivesse escutado descobriria que a
música fala de paz. Em inglês, ela é conhecida como “Silent Night”; em
português, foi batizada de “Noite Feliz”. Quando a música acaba, o silêncio
retorna. Por pouco tempo.
“Good,
old Fritz!”, gritam os britânicos.Os
“Fritz” respondem com “Merry Christmas, Englishmen!”, seguido de palavras num
inglês arrastado: “We not shoot, you not shoot!”(“Nós não atiramos, vocês
também não”).
Estamos em algum lugar de Flandres, na Bélgica, em
24 de dezembro de 1914. E esta história faz parte de um dos mais surpreendentes
e esquecidos capítulos da Primeira Guerra Mundial: as confraternizações entre
soldados inimigos no Natal daquele ano. Ao longo de toda a frente ocidental –
que se estendia do mar do Norte aos Alpes suíços, cruzando a França –, soldados
cessaram fogo e deixaram por alguns dias as diferenças para trás. A paz não
havia sido acertada nos gabinetes dos generais; ela surgiu ali mesmo nas
trincheiras, de forma espontânea. Jamais acontecera algo igual antes. É o que
diz o jornalista alemão Michael Jürgs em seu livro Der Kleine Frieden im
Grossen Krieg – Westfront 1914: Als Deutsche, Franzosen und Briten Gemeinsam
Weihnachten Feierten (“A Pequena Paz na Grande Guerra – Frente Ocidental 1914:
Quando Alemães, Franceses e Britânicos Celebraram Juntos o Natal”, inédito no
Brasil).
Conhecido
então como Grande Guerra (pouca gente
imaginava que uma segunda como aquela seria possível), o conflito estourou após
a morte do arquiduque Francisco Ferdinando. Herdeiro do trono do Império
Austro-Húngaro, ele e sua esposa Sofia foram assassinados em Sarajevo, na
Sérvia, no dia 28 de junho. O atentado, cometido por um estudante, fora tramado
por um membro do governo sérvio. Um mês mais tarde, em 28 de julho, a Áustria-Hungria
declarou guerra à Sérvia. As nações europeias se dividiram. Grã-Bretanha,
França e Rússia se aliaram aos sérvios; a Alemanha, aos austro-húngaros. Nas
semanas seguintes, os alemães invadiram a Bélgica, que até então se mantivera
neutra, e, ainda em agosto, atravessaram a fronteira com a França. Chegaram
perto de tomar Paris, mas os franceses os detiveram, em setembro.
Nos
primeiros meses, a propaganda militar conseguiu inflar o orgulho dos soldados –
de lado a lado.O fervor
patriótico crescia paralelamente ao ódio pelos inimigos. Entretanto, em
dezembro o moral das tropas já despencara. A guerra se arrastava havia quase um
semestre. Os britânicos haviam perdido 160 mil homens até então; Alemanha e
França, 300 mil cada. Para piorar, as condições nas trincheiras eram péssimas.
O odor beirava o insuportável, devido às latrinas descobertas e aos corpos em
decomposição. Estirados pela terra de ninguém, cadáveres atraíam ratazanas aos
milhares. Era um verdadeiro banquete. Com tanta carne, elas engordavam tanto
que algumas eram confundidas com gatos. Pior que as ratazanas, só os piolhos.
Milhões deles, nos cabelos, barbas, uniformes. Em toda parte.
Quando
chovia forte, a água batia na altura dos joelhos.Dormia-se em buracos escavados na parede e era
comum acordar assustado no meio da noite, por causa das explosões ou de uma
ratazana mordiscando seu rosto. Durante o dia, quem levantasse a cabeça sobre o
parapeito era um homem morto. Os franco-atiradores estavam sempre à espreita
(no final da tarde, praticavam tiro ao alvo no inimigo e, quando acertavam,
diziam que era um “beijo de boa-noite”). O soldado entrincheirado passava
longos períodos sem ter o que fazer. Horas e horas de tédio sentado no inferno.
Só restava esperar e olhar para céu – onde não havia ratazanas nem cadáveres.
O
cotidiano de horrores foi minando a vontade de lutar. Uma semana antes do Natal já havia sinais disso.
Foi assim em Armentières, na França, perto da fronteira com a Bélgica. Soldados
alemães arremessaram um pacote para a trincheira britânica. Cuidadosamente
embalado, trazia um bolo de chocolate e dentro, escondido, um bilhete. Os
alemães pediam um cessar-fogo naquela noite, entre 19h30 e 20h30. Era
aniversário do capitão deles e queriam surpreendê-lo com uma serenata. O bolo
era uma demonstração de boa vontade. Os britânicos concordaram e, na hora da
festa inimiga, sentaram no parapeito para apreciar a música. Aplaudidos pelos
rivais, os alemães anunciaram o encerramento da serenata – e da trégua – com
tiros para cima. Em meio à barbárie, esses pequenos gestos de cordialidade
significavam muito.
Ainda
assim, era difícil imaginar o que estava por vir.Na noite do dia 24, em Fleurbaix, na França, uma
visão deixou os britânicos intrigados: iluminadas por velas, pequenas árvores
de Natal enfeitavam as trincheiras inimigas. A surpresa aumentou quando um
tenente alemão gritou em inglês perfeito: “Senhores, minha vida está em suas
mãos. Estou caminhando na direção de vocês. Algum oficial poderia me encontrar
no meio do caminho?” Silêncio. Seria uma armadilha? Ele prosseguiu: “Estou
sozinho e desarmado. Trinta de seus homens estão mortos perto das nossas
trincheiras. Gostaria de providenciar o enterro”. Dezenas de armas estavam
apontadas para ele. Mas, antes que disparassem, um sargento inglês, contrariando
ordens, foi ao seu encontro. Após minutos de conversa, combinaram de se reunir
no dia seguinte, às 9 horas da manhã.
No
dia seguinte, 25 de dezembro,ao longo de toda
a frente ocidental, soldados armados apenas com pás escalaram suas trincheiras
e encontraram os inimigos no meio da terra de ninguém. Era hora de enterrar os
companheiros, mostrar respeito por eles – ainda que a morte ali fosse um
acontecimento banal. O capelão escocês J. Esslemont Adams organizou um funeral
coletivo para mais de 100 vítimas. Os corpos foram divididos por nacionalidade,
mas a separação acabou aí: na hora de cavar, todos se ajudaram. O capelão abriu
a cerimônia recitando o salmo 23. “O senhor é meu pastor, nada me faltará”,
disse. Depois, um soldado alemão, ex-seminarista, repetiu tudo em seu idioma.
No fim, acompanhado pelos soldados dos dois países, Adams rezou o pai-nosso.
Outros enterros semelhantes foram realizados naquele dia, mas o de Fleurbaix
foi o maior de todos.
Aquela
situação por si só já era inusitada:alemães
e britânicos cavando e rezando juntos. Mas o que se viu depois foi um desfile
de cenas surreais. Em Wez Macquart, França, um britânico cortava os cabelos de
qualquer um – aliado ou inimigo – em troca de alguns cigarros. Em Neuve
Chapelle, também na França, os soldados indicavam discretamente para seus novos
amigos a localização das minas subterrâneas. Em Pervize, na Bélgica, homens que
na véspera tentavam se matar agora trocavam presentes: tabaco, vinho, carne
enlatada, sabonete. Uns disputavam corridas de bicicleta, outros caçavam
coelhos. Uma luta de boxe entre um escocês e um alemão foi interrompida antes
que os dois se matassem. Alguém sugeriu um duelo de pistolas entre um alemão e
um inglês, mas a ideia foi rechaçada – afinal, aquilo era um cessar-fogo.
Porém,
o melhor estava por vir.Nos dias 25 e
26, foram organizadas animadas partidas de futebol. Centenas jogaram bola nos
campos de batalha. “Bola” em muitos casos era força de expressão; podia ser
apenas um monte de palha amarrado com arame, ou uma lata de conserva vazia. E,
no lugar de traves, capacetes, tocos de madeira ou o que estivesse à mão. Foi
assim em Wulvergem, na Bélgica, onde o jogo foi só pelo prazer da brincadeira,
ninguém prestou atenção no resultado. Mas houve também partidas “sérias”, com
direito a juiz e a troca de campo depois do intervalo. Numa delas, que se
tornou lendária, os alemães derrotaram os britânicos por 3 a 2. A vitória suada
foi cercada de polêmica: o terceiro gol alemão teria sido marcado em posição
irregular (o atacante estava impedido) e a partida, encerrada depois que a bola
– esta de verdade, feita de couro – furou ao cair no arame farpado.
A
maioria das confraternizações se deu nos 50
quilômetros entre Diksmuide (Bélgica) e Neuve Chapelle. Os soldados britânicos
e alemães descobriam ter mais em comum entre si que com seus superiores –
instalados confortavelmente bem longe da frente de batalha. O medo da morte e a
saudade de casa eram compartilhados por todos. Já franceses e belgas eram menos
afeitos a tomar parte no clima festivo. Seus países haviam sido invadidos (no
caso da Bélgica, 90 por cento de seu território estava ocupado), para eles era
mais difícil apertar a mão do inimigo. Em Wijtschate, na Bélgica, uma pessoa em
particular também ficou muito irritada com a situação. Lutando ao lado dos
alemães, o jovem cabo austríaco Adolf Hitler queixava-se do fato de seus
companheiros cantarem com os britânicos, em vez de atirarem neles.
Naquele
tempo, Hitler ainda não apitava nada.Entretanto,
os homens que davam as cartas também não estavam nem um pouco felizes. Dos
quartéis-generais, os senhores da guerra mandaram ordens contra qualquer tipo
de confraternização. Quem desrespeitasse se arriscava a ir à corte marcial. A
ameaça fez os soldados voltarem para as trincheiras. Durante os dias seguintes,
muitos ainda se recusavam a matar os adversários. Para manter as aparências,
continuavam atirando, mas sempre longe do alvo. Na noite do dia 31, em La
Boutillerie, na França, o fuzileiro britânico W.A. Quinton e mais dois homens transportavam
sua metralhadora para um novo local, quando de repente ouviram disparos da
trincheira alemã. Os três se jogaram no chão, até perceberem que os tiros eram
para o alto: os alemães comemoravam a virada do ano.
A
trégua velada resistiu ainda por um tempo.Até
março de 1915, alemães e britânicos entrincheirados em Festubert, na França,
faziam de conta que a guerra não existia – ficava cada um na sua. Mas a
lembrança das confraternizações foi aos poucos cedendo espaço para o ódio. A
carnificina recrudesceu, prosseguindo até a rendição da Alemanha, em novembro
de 1918, arrasando a Europa e deixando cerca de 10 milhões de mortos. Talvez a matança até valesse a pena, se a profecia do
escritor de ficção científica H.G. Wells tivesse dado certo. O autor de A
Máquina do Tempo escrevera em um ensaio que aquela seria “a guerra que acabaria
com todas as guerras”. Wells, é claro, estava enganado. Os momentos de
paz, como os do Natal de 1914, seriam escassos também ao longo de todo o século
20. A Grande Guerra tinha sido só o começo.
Aventuras
na História – Março 2004
Esporte
Sindelar:
craque vencido
pelo nazismo
Texto: Fábio Juppa e João Máximo
Seu estilo era clássico, elegante,
inteligente e simplificador. Rápido, centroavante difícil de marcar, não era
bom no cabeceio, mas, alto e magro, a exatidão e a leveza com que driblava ou
executava os passes levaram o torcedor a apelidá-lo de “Der Papierene” (feito de papel). Goleador, não chutava forte, mas
eram traiçoeiras suas finalizações com qualquer dos pés. Foi o mais celebrado
jogador dos 125 anos do futebol austríaco (para os
historiadores franceses Jean-Philippe Réthacker e Jacques Thibert, o mais
completo número 9 europeu de todos os tempos). “Mozart do futebol”, como
os jornalistas o chamavam, ou Motzl, para os companheiros de equipe, Matthias
Sindelar permanece como a mais cintilante estrela internacional que a II Guerra
Mundial roubou ao futebol.
No mês em
que se comemoram os 60 anos do fim do conflito (8 de maio de 1945), a figura de
Sindelar é uma espécie de símbolo. Sua vida foi marcada por dias de glória,
sobretudo quando vestiu a camisa da seleção do seu país, o famoso “Wunderteam”,
que encantou a Europa na década de 30 (o técnico, Hugo Meisl, é considerado o
“pai do futebol austríaco)”. Mas uma vida que terminou
em tragédia: judeu, após a anexação da Áustria pelo III Reich em 1938,
recusou-se a jogar pela seleção alemã, foi perseguido pelos nazistas e
encontrado morto num hotel nove meses antes de estourar a guerra.
O
CRAQUE E O NAZISMO: FRANZINO, ATACANTE ENCANTOU O FUTEBOL EUROPEU COM ESTILO
REFINADO E GOLS DE RARA BELEZA Um
poema para Sindelar
“Ele
jogou como ninguém havia feito antes/ Cheio de inteligência e imaginação/
Fazia-o com facilidade, um toque de luz e descontração/ Ele sempre jogou, nunca lutou”
Em seu poema Balada de morte de um jogador de futebol, o escritor Friedrich
Torberg escreveu: “Ele jogou como ninguém havia feito antes/ Cheio de
inteligência e imaginação/ Fazia-o com facilidade, um toque de luz e
descontração/ Ele sempre jogou, nunca lutou”. A exemplo
do que aconteceu com Mozart na música, a importância de Matthias Sindelar
transcendeu os gramados. Sua fidelidade à pátria ante a obscura ascensão
do nazifascismo na Europa, aliada a um extraordinário talento, fizeram dele um
símbolo para o povo austríaco.
Único filho
homem de uma família proletária judia de imigrantes tchecos, Sindelar nasceu em
10 de fevereiro de 1903, na Vila de Kozlov, na Moravia, atual República Tcheca.
A difícil situação econômica do pai, pedreiro, obrigou-o a se mudar, ainda
garoto, com a mãe e as três irmãs para Viena, capital do Império Austro-Húngaro.
O franzino Motzl, como era conhecido, cresceu na cinzenta Favoriten, um
subúrbio industrial repleto de fábricas de tijolo.
Em terrenos
baldios, com uma bola de trapos, o menino louro, de braços e pernas
longilíneos, ensaiou os primeiros dribles que, mais tarde, resultariam num
estilo apurado, cerebral, marcado por jogadas imprevisíveis e gols de rara
beleza. A morte de seu pai no front de Isonzo, na Primeira Guerra Mundial, em
1917, deu-lhe responsabilidades. Aos 14 anos, Sindelar virou chefe de família.
Paralelamente à atividade de mecânico, aprimorava seu futebol no time de
meninos do Hertha de Viena.
O criador da Escola Vienense de Futebol
Na
comemoração de seu centenário, em 2003, Paul Pongratz,
um dos poucos ex-jogadores vivos que o enfrentaram, declarou ao site da
Uefa: “Sindelar era o melhor de todos. Era como se
dançasse entre os adversários. Via o jogo como um mestre do xadrez e
criou a chamada Escola Vienense de Futebol”.
Em seu
primeiro jogo pela seleção austríaca, em 1926, marcou dois gols na vitória por
7 a 1 sobre a Suíça. Era o início de uma era de partidas memoráveis, como a
goleada de 5 a 0 sobre a Escócia, em 16 de maio de 1931, que deu origem ao
termo “Wunderteam” (time maravilhoso). Sob o comando do
técnico Hugo Meisl, filho de uma bem-sucedida família judia de Viena,
Sindelar, Schall, Vogl e seus companheiros apresentaram ao mundo um estilo
inconfundível de jogar futebol, em que trocavam passes até o adversário abrir
brecha para uma investida fulminante ao gol.
Os números do
“Wunderteam”
J
|
V
|
E
|
D
|
GP
|
GC
|
S
|
Aproveitamento
com 2 pontos por vitória
|
Aproveitamento
com 3 pontos por vitória
|
|
Competição
|
12
|
8
|
2
|
2
|
36
|
18
|
18
|
75,00%
|
72,22%
|
Amistosos
|
18
|
12
|
4
|
2
|
65
|
25
|
40
|
77,78%
|
74,07%
|
Total
|
30
|
20
|
6
|
4
|
101
|
43
|
58
|
76,67%
|
73,33%
|
Principais
títulos da Seleção da Áustria
Copa
Internacional 1931-32 (campeão)
Copa do Mundo de 1934 (4º)
Copa Internacional 1933-35 (vice)
Copa do Mundo de 1934 (4º)
Copa Internacional 1933-35 (vice)
Carreira
em declínio com a anexação à Alemanha De 1931 a 1933, com o mundo divido em
blocos e sob nova fase de tensão, desencadeada pela crise de 1929, o
“Wunderteam” disputou 16 jogos, marcou 63 gols e sofreu 20. Foram 12 vitórias,
todas com pitadas de fantasia, como um 6 a 0 na Alemanha, em Berlim, e um 8 a 2
na Hungria, em Viena; houve dois empates e duas derrotas: uma para os tchecos,
por 2 a 1; outra para a Inglaterra, em Wembley, por 4 a 3, lembrada até hoje
por um gol antológico de Sindelar.
Em
fevereiro de 1934, um golpe militar instalou uma ditadura fascista-católica na
Áustria e mergulhou o país no caos econômico. O campeonato nacional terminou quase que
simultaneamente ao início da Copa do Mundo da Itália, dominada, então, pelas
forças de Benito Mussolini. O “Wunderteam”, apesar do favoritismo, viajou
esgotado, física e emocionalmente. Após vencer a França (3 a 2, um gol de
Sindelar) e a Hungria (2 a 1), a Áustria chegou à semifinal contra a Itália.
Machucado, o genial Motzl não evitou a derrota por 1 a 0, com um gol em
impedimento.
A
carreira do maior jogador da época começou a ruir com a anexação da Áustria à
Alemanha em março de 1938. Matthias Sindelar, um bastião do nacionalismo
austríaco, manteve-se fiel às suas convicções políticas, às relações com judeus
e se negou a defender o time de Adolf Hitler.
Ficou marcado como opositor do regime e foi perseguido pelas tropas do Führer.
No jogo comemorativo pela unificação, perdeu chances de propósito até marcar,
no segundo tempo, um dos gols da vitória por 2 a 0 do Ostmark (Áustria) sobre o
Altreich (Alemanha). A atitude foi encarada como um desafio ao Terceiro Reich.
“Sindelar e o Pelé da Áustria”
Em 23 de
janeiro de 1939, dias antes de completar 36 anos,
Mathias Sindelar se suicidou, num quarto de hotel, com a amiga italiana Camila
Castagnola. Causa da morte: envenenamento por monóxido de carbono. As
circunstâncias trágicas só reforçam o mito. Quarenta
mil pessoas compareceram ao funeral sob os olhares de tropas nazistas; o
Áustria Viena recebeu 15 mil telegramas de condolências. “Sindelar é,
para os austríacos, o mesmo que Pelé para os brasileiros: algo mais do que um
jogador”, definiu o historiador Wolfgang Maderthaner.
COMO
O FUTEBOL VIVEU A II GUERRA
Na Europa, somente o
campeonato
inglês é interrompido por seis
anos
Ao contrário do que já se disse, o
futebol na Europa não parou para ver a Segunda Grande Guerra passar. Dos países
com tradição no esporte, diretamente envolvidos no conflito, somente a
Inglaterra (onde o esporte foi criado), seguida pelo restante do bloco
britânico, interrompeu seu campeonato ao longo dos seis anos, ou seja, de 1940
a 1946. A União Soviética só o faria por quatro anos, de 1941 a 1944.
Alemanha e
Itália, não. Seguiram realizando jogos aos domingos, mesmo quando as bombas
começavam a destruir Berlim e as tropas aliadas já estavam às portas de Roma. O
campeonato nacional alemão só foi interrompido de 1945 a 1947, portanto, já em
tempos de paz, enquanto o italiano só parou em 1944 e 1945. Bicampeã mundial em
1934 e 1938, aquela geração italiana não pôde sonhar com o tri. Por causa da
guerra, a Copa do Mundo de 1942 não foi realizada (o Mundial só voltaria a ser
disputado 12 anos depois, em 1950, no Brasil).
A bola não rola entre os
poloneses de 1940 a 1945
Com a França — mesmo dividida como nação
desde o verão europeu de 1940 — manteve o futebol em atividade: três
campeonatos aconteceram simultaneamente, cada qual numa zona (a ocupada, a
interditada e a livre), com os respectivos vencedores decidindo o título
nacional entre si, de 1940 a 1945 (a seleção francesa chegou a fazer dois
amistosos nesse período, sendo derrotada por Suíça e Espanha).
A Península
Ibérica, fiel à sua “neutralidade”, jogou bola normalmente, sendo que a Espanha
já tinha vivido um hiato de três anos, de 1937 a 1939, em razão de sua própria
guerra. Dos países invadidos pelos alemães, a Tchecoslováquia não interrompeu
seu campeonato, mas a Polônia ficou sem ter futebol de 1940 a 1945.
Rapid de Viena disputa
dois campeonatos nacionais
Tudo normal, também, na Hungria, ao
passo que na Holanda, Bélgica e nos países da Escandinávia, a interrupção nunca
durou mais de um ano.
E
o que terá acontecido à Áustria de Matthias Sindelar? A não ser
por 1945, o ano do armistício, transcorreu normalmente o campeonato nacional,
só que com jogadores alemães atuando pelo Áustria, pelo Vienna, pelo
Sportkclub, e craques austríacos vestindo a camisa do Shalke 04, do Hanover 87,
do Dresden, quando não da própria seleção alemã. Um interação de tal ordem que,
em 1941, a tradicional equipe do Rapid de Viena disputou os dois campeonatos,
ganhando ambos.
Mas Sindelar
não viveu para ver tudo aquilo. Para ele, naquele derradeiro janeiro, a guerra
já estava perdida. A Áustria já não era dos austríacos e o célebre “Wunderteam”
se fora para sempre. (O Globo –
1.5.2005)









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