1.
Holocausto: a
banalidade do mal.
2. Lima Barreto - Um escritor carioca mulato
previu o Nazismo, Hitler e o Holocausto.
4. Um brasileiro naturalizado foi o primeiro
a denunciar os campos de extermínio
A banalidade do mal
Qual a imagem mais representativa da II
Guerra Mundial: o cogumelo atômico de
Hiroxima ou os judeus mortos nos campos de concentração nazistas?
Se o critério
for o número de mortes, a imagem do Holocausto ganha fácil, sem que isso seja,
obviamente, uma subestimação dos efeitos da bomba atômica jogada pelos EUA no
Japão. É que, enquanto em Hiroxima e Nagasaki morreram cerca 140.000 pessoas, o
Holocausto representou o fim de seis milhões de judeus, uma parte considerável
deles exterminados fora dos campos de concentração. E mesmo considerando as
centenas de milhares de pessoas que morreram nos anos seguintes à explosão das
duas bombas, o número de mortos pelos nazistas foi muito maior.
Estima-se
que foram internados em campos de concentração, na Alemanha e na Europa
ocupada, pelo menos 7,2 milhões de
pessoas, entre judeus e não judeus. Só 500 mil sobreviveram. Morreram, nos
campos de extermínio e fora deles, 6.000.000 de judeus, que representavam 63%
do Povo de Israel espalhado na época pelo mundo – um percentual muito superior
em comparação com as perdas dos demais países envolvidos na II Guerra Mundial,
em termos percentuais, como se vê no quadro abaixo:
|
|
Perdas totais
(mortos civis e militares)
|
% da população
|
|
Judeus
|
6.000.000
|
63
|
|
União Soviética
|
39. 000.000
|
16,5
|
|
Iugoslávia
|
1.760.000
|
11
|
|
Alemanha
|
7.000.000
|
9
|
|
Polônia
|
2.000.000
|
9
|
|
Grã-Bretanha
|
335.506
|
0,7
|
|
Estados Unidos
|
273.830
|
0,12
|
Judeus na Alemanha
Os judeus
estão presentes na Alemanha há tanto tempo quanto os germânicos. No Vale do
Reno, eles chegaram junto com os exércitos romanos, onde muitos combateram como
soldados:
“Constantino formulou éditos para os judeus de
Colônia, no princípio do Século 14, mas as primeiras chacinas de judeus
remontam a 1096, em Worms, na Mongúcia, em Colônia, quando da passagem da
primeira cruzada. Voltariam a verificar-se em 1146, em 1298, em 1309 e em 1337,
em diversas regiões do país, da Alsácia à Áustria.
Considerou-se
os judeus responsáveis pela peste negra de 1348-1350, e por isso foram
chacinados, aqui e além. A primeira expulsão coletiva, em Estrasburgo, remonta
a 1388. A Áustria, a Baviera, a Saxônia, seguiram este exemplo no século
seguinte.
]
Congresso mundial antijudaico
“Depois dos
primeiros panfletos antijudaicos de Pfefferkorn, em 1507, dar-se-iam
perseguições e expulsões por toda a parte. O próprio Lutero aprovou tais
procedimentos. Mas o Século 18, o século iluminado, trouxe certa melhoria ás
condições dos judeus alemães. Éditos de tolerância e os esforços de Frederico
Guilherme II, não impediram contudo que renascesse o antissemitismo, sob a
forma de libelos, por volta de 1815, depois manifestações alguns anos mais
tarde. E se o ano de 1869 viu a abolição
de todas as restrições aos direitos cívicos e políticos dos judeus, também se
viu um August Rohling retomar as ideias de Pfefferkorn e o pastor Stocker
seguir-lhe os passos.
Em 1882
organizara-se em Dresden um congresso internacional antijudaico. Entretanto,
homens de negócios tão eminentes como Albert Ballin e Walter Ratheau, ainda que
judeus, conseguiram, apesar do antissemitismo da época, ocupar lugares de
primeiro plano na Alemanha de Guilherme II.
Em
1887 o chefe dos antissemitas austríacos chegava a burgomestre (prefeito) de Viena, cidade em que a
comunidade judaica era uma das mais importantes do mundo pela riqueza e
influência.
Dentro em
breve, na Alemanha desordenada do pós-guerra, a derrota de 1818 ia ver renascer
a agitação, como foi o caso de 1932 Berlim. Hitler não precisava, então, mais
do que retomar o facho.”(Grandes
Julgamentos: o Processo Eichmann).
Holocausto: genocídio
que poderia ter sido
evitado
A
comunidade internacional teve uma chance de evitar a morte de seis milhões de
judeus no Holocausto, perpetrado entre 1933 e 1945 em vários países da Europa.
Foi em julho de 1938, entre os dias 6 e 15 – mais de um ano antes do início da
II Guerra Mundial e quatro meses depois da anexação da Áustria pela Alemanha –
numa Conferência sobre Refugiados Políticos, na localidade suíça de
Évian-les-Bains. Participaram das reuniões, promovidas pela Liga das Nações (a
antecessora da ONU), no Hotel Royal, no lago de Genebra, representantes de 30 países da Europa e das
três Américas. Pelo Brasil, estiveram lá Jorge Olinto, da embaixada na Suíça, e
Hélio Lobo (este, um jurista, diplomata e escritor medíocre e carreirista que,
na década de 1910, foi um dos sacos-de-pancada preferidos do escritor Lima
Barreto). Durante nove dias, foi
discutida principalmente a situação soa judeus alemães, mas nada foi feito:
Sul-americanos: “não”
aos judeus
“A
conferência não se prolongou em relação a qualquer das suas funções
significantes. Não redundou em nada” – informa um das testemunhas da
Conferência, o jornalista e escritor alemão de origem húngara Hans Habe, que
cobriu as reuniões para um jornal de língua
alemã da Tcheco-Eslováquia, o Prager
Tagblatt. Num livro sobre a
Conferência (A Grande Missão,
publicado em 1965 na Alemanha e quatro anos depois em Portugal), Habe diz que
os países sul-americanos “redigiram umaresolução firme, a opor-se ao plano de migração
geral.”
“Do que não
pode haver dúvida é que o Reich alemão ofereceu 40 mil judeus austríacos para
venda e marcou o dia 1º de agosto de 1938 como data de expiração do ultimato.
Isso foi publicado pela imprensa internacional, sobretudo pelo londrino Daily
Express” – conta Hans Habe, que participou das negociações sobre uma “proposta
infamante dos nazistas que consistia em
libertar os judeus encarcerados em toda a Alemanha pelo preço de 250 dólares
por cabeça”.
“O mais chocante evento do
século”
Essa
proposta indecente do governo alemão foi publicada no New
York Times (7.7.1938), Daily Express
(12.6.38) e no Prager Tagblatt
(12.6.1938). O Times noticiou que
Grã-Bretanha , Inglaterra e França “decidiram formular uma resolução “de tal modo que a possibilidade de
negociações com o Reich alemão continuasse a existir”. Mas não houve tempo, e a
onda antissemita na Alemanha só aumentou depois da Conferência na Suíça. Uma
semana depois do fim da reunião, o governo nazista ordena que os judeus usem uma
carteira de identificação especial. Em 9 de novembro, acontece a Noite dos
Cristais, com a morte de dezenas de pessoas e o saque de milhares de lojas.
Depois da Kristallnacht, 35 mil
judeus são levados para campos de concentração.
Perdida a chance de salvar a população judaica da fúria dos
nazistas, o resultado foi visto depois da rendição da Alemanha, quando as
tropas aliadas chegaram aos campos de extermínio e viram cenas que mexeram até
com soldados acostumados com a guerra. Foram ao todo 23 os lugares onde judeus,
ciganos, homossexuais e deficientes mentais foram exterminados: Auchwitz,
Belzec, Bergen-Belsen, Birkenau,
Buchewald, Chelmno, Dachau, Flossenburg, Gross-Rosen, Maidanek,
Mauthausen, Natzweiler-Struthof, Neuengamme, Nordhausen, Plaszow, Sered, Sobibor, Stutthof, Terezin, Trblinka e
Westerbok.
“O
Holocausto foi a realização definidora da política e da cultura política alemãs
durante o nazismo, o mais chocante evento do século e o acontecimento de mais
difícil compreensão em toda a história daquele país. A perseguição alemã aos
judeus, culminando no Holocausto, é a característica que define a Alemanha
durante o período nazista (Daniel Jonah
Goldhagen - Os Carrascos Voluntários de
Hitler)
Lima Barreto
Um escritor carioca mulato previu
o Nazismo, Hitler e o Holocausto Um
mulato neto de escravos, o escritor carioca Lima Barreto, escreveu sobre as
ideias racistas que, já naquela época (1905), começavam prosperar na Alemanha.
Profético, o autor de Triste Fim de
Policarpo Quaresma e Recordações do
Escrivão Isaías Caminha, diz:
“Vai
se estendendo, pelo mundo, a noção de que há umas certas raças superiores e uma
outras inferiores (...). Tudo isso em nome da ciência e a coberto da autoridade
de sábios alemães. (...) Atualmente,
ainda não saíram dos gabinetes e laboratórios, mas, amanhã, espalhar-se-ão,
ficarão à mão dos políticos, cairão sobre as rudes cabeças das massas, e talvez
tenhamos que sofrer matanças, afastamentos humilhantes, e os nossos
liberalíssimos tempos verão uns novos judeus”.
Ou
seja: Lima Barreto anteviu o Nazismo (“noção de que umas certas
raças superiores e umas outras inferiores” (...)“acoberto da autoridade de
sábios alemães”),
a possibilidade do surgimento de um Hitler, que na época, 1905, tinha 17
anos e ainda era estudante em Linz, na Áustria. ( “amanhã,
espalhar-se-ão, ficarão à mão dos políticos”), e o Holocausto ( “cairão
sobre as rudes cabeças das massas, e talvez tenhamos que sofrer matanças,
afastamentos humilhantes, e os nossos liberalíssimos tempos verão uns novos
judeus”).
A íntegra do texto de Lima
Barreto
(1905)
“Vai
se estendendo, pelo mundo, a noção de
que há umas certas raças superiores e umas outras inferiores, e que essa
inferioridade, longe de ser transitória, é eterna e intrínseca à própria
estrutura de raça.
Diz-se
ainda mais: que as misturas entre essas raças são um vício social,
uma praga e não sei que cousa
feia mais.
Tudo isso se diz em nome da
ciência e a coberto da autoridade de sábios alemães.
Eu
não sei se alguém já observou que o alemão vai tomando, nesta nossa lúcida
idade, o prestígio do latim na Idade
Média.
O
que se diz em alemão é verdade transcendente. Por exemplo, se eu dissesse em
alemão – o quadrado tem quatro lados – seria uma cousa de um alcance
extraordinário, embora no nosso rasteiro português seja uma banalidade uma
quase verdade.
E
assim a coisa vai se espalhando, graças à fraqueza da crítica das pessoas
interessadas, e mais do que à fraqueza, à covardia intelectual de que estamos
apossados em face dos grandes nomes da Europa. Urge ver o perigo dessas
ideias, para nossa felicidade individual e para nossa dignidade superior de
homens.
Atualmente, ainda não saíram dos gabinetes e laboratórios, mas,
amanhã, espalhar-se-ão, ficarão à mãos dos políticos, cairão sobre as rudes
cabeças da massa, e talvez tenhamos que sofrer matanças, afastamentos
humilhantes, e os nossos liberalíssimos
tempos verão uns novos judeus.
Os
séculos que passaram não tiveram opinião diversa a nosso respeito – é verdade;
mas, desprovidas de qualquer base séria,
as suas sentenças não ofereciam o mínimo perigo. Era o conceito; hoje, é o
preconceito.
Esmagadoras
provas experimentais endossam-no. Se F. tem 0,02 m a mais no eixo maior da oval
de sua cabeça, não é inferior em relação a B., que tem menos, porque ambos são
da mesma raça; contudo, em se tratando de raças diferentes, estão aí um
critério de superioridade.
As
mensurações ,ais idiotas são feitas, e,
pelo complacente critério métrico, os grandes sábios estabelecem
superioridades e inferioridades.
Não
contentes com isso, buscam outros dados, os psíquicos, nas narrações dos
viajantes apressados, de touristes imbecis
e de aventureiros da mais baixa honestidade”. (Diário Íntimo, Editora Brasiliense-SP, 1961).
Os
campos de
morte
de Hitler
Joseph Errol Brant (*)
Há
um grão de verdade em cada uma das numerosas teorias tentando explicar o
surgimento do nazismo — Organismo internacional para impedir crimes de
genocídio — Visita ao campo de concentração de Buchenwald — Relato em primeira
mão, de como funcionavam as câmaras de gás de Auschwitz.
Suponhamos que Hitlertivesse ganho a Segunda Guerra Mundial.
Isto não seria nada impossível, pois os cientistas alemães por pouco não
conseguiram fabricar a bomba atômica antes dos americanos. E, com Hitler
vitorioso, é viável supor que as câmaras de gás de seus campos de morte estivessem
ainda hoje em pleno funcionamento. Pode-se imaginar, outrossim, que uma vez
esgotado o "combustível judeu", o nazismo teria arranjado outra nação
para servir de bode expiatório e ser condenada ao extermínio por aquele
processo aparentemente infalível, que eram as câmaras de gás do Führer. O fato de que tamanha monstruosidade pudesse surgir no
século XX, é no fundo tão inexplicável como o próprio nascimento do fenômeno
nazista em geral. Gabriel Marcel, filósofo francês, explica o surgimento
do nazismo como um dos muitos resultados negativos do superdesenvolvimento
técnico da nossa era, que mecanizou também as relações humanas, destruindo,
entre outros, os sentimentos de responsabilidade do homem para com os seus
semelhantes.
Por
outro lado, a falecida escritoranorueguesa Sigrid Undset, detentora do Prêmio Nobel,
numa entrevista concedida ao autor deste livro, em Nova York no ano de 1941,
expressou a opinião de que o desenvolvimento do nazismo na Alemanha se devia à
loucura coletiva do povo alemão. Sugeriu ela que fossem mandados para a
Alemanha após a guerra, milhares de psiquiatras para tentar a cura dos
"instintos perversos" daquele povo a fim de prevenir o renascimento
do nazismo sob qualquer outra forma no futuro.
Frequentemente
citada também, como uma das principais causas que facilitaram o
aparecimento dessa ideologia na Alemanha, é a calamitosa situação econômica
daquele país na época imediatamente anterior ao advento de Hitler, e
simbolizada por sete milhões de desempregados, ou seja, de acordo com as
estatísticas da época, um em cada sete habitantes.
Se o
termo "loucura",ventilado por Sigrid Undset pode parecer um tanto
violento, é inegável que Hitler — grande psicólogo do "negativo" que
era — conseguiu, com a mera força de sua oratória espetacular, obter a vitória
do instinto sobre a razão, de um povo inteiro. Isto constitui uma advertência
espantosa da sobrevivência, no homem civilizado, de uma perigosa herança animal
e da relativa fragilidade e superficialidade da camada de cultura, de que tanto
nos orgulhamos ter adquirido com o perpassar dos séculos.
Seja como for, certamente numerosas outras teorias
para tentar explicar o complexo fenômeno nazista serão ventiladas com o correr
do tempo, podendo-se admitir que talvez haja um grão de verdade em todas elas.
Outro fenômeno que, à primeira vista parece
inexplicável, é a falta de resistência e a incapacidade de reagir dos judeus e
outras vítimas do nazismo.
Entretanto, a meu ver, não é às vítimas do crime de
genocídio desarmadas e paralisadas de terror como estavam, que cabia o dever de
reação, mas aos seus irmãos humanos fora do alcance desses carrascos.
Muito
se tem falado,e ainda está sendo debatido, o grau de
responsabilidade do povo alemão nos crimes cometidos pelos nazistas. Porém,
praticamente, pouco ou nada tem sido ventilado sobre a responsabilidade dos
povos livres cujos governos, já naquela época, estavam amplamente informados
acerca do assassinato em massa praticado pelos nazistas nos seus malfadados
campos de concentração.
Colocado assim o problema da responsabilidade em plano
mais elevado, pode-se afirmar que não é com vingança, ou seja, acumulando outro
crime ao já cometido, que deve ser lavado o rastro de sangue e lágrimas deixado
pelo nacional-socialismo, mas com o aperfeiçoamento cada vez mais amplo dos
dispositivos legais internacionais. Todo o possível deve ser feito para que
estes, futuramente, atinjam uma grande perfeição que permita — não apenas em
teoria, mas na prática — uma garantia eficaz, para que sejam plenamente
respeitados, por todos os povos do mundo, aqueles tão amplamente proclamados
"direitos humanos". Isto, evidentemente, só poderá ser alcançado por
meio da existência, no futuro, de um poderoso e eficiente organismo
internacional — do qual a ONU é um esperançoso mas ainda tímido precursor.
Tal
organismo deve estarplenamente capacitado para agir imediatamente onde se
tornar necessário, para impedir por qualquer meio cabível, não somente a
realização de crimes de genocídio, mas também de qualquer caso grave de
perseguição racial ou religiosa — mesmo que isso signifique interferência
direta nos assuntos duma nação. Com efeito, é indispensável que a existência de
um eficaz organismo internacional de proteção dos direitos humanos, seja
vinculado a um direito internacional de concepção arrojadamente avançada,
prevendo, entre outros, a extinção automática da soberania do país que, por
fraqueza ou conscientemente, permita que se efetuem no seu território crimes de
genocídio ou de perseguição racial ou religiosa.
Esse organismo terá atingido o seu máximo de perfeição
quando chegar o dia em que seja capaz de impedir que qualquer ser humano em
qualquer lugar do mundo possa ser dominado contra a sua vontade pelo terror
exercido por uma minoria armada possuída de instintos criminosos, ou humilhado
e perseguido por uma maioria, cega pelo ódio artificialmente criado por líderes
inescrupulosos ou enraizado em costumes perigosamente antiquados.
Nada melhor do que uma visita a um campo de morte de
Hitler, para demonstrar a que ponto pode chegar uma ditadura, após ter atirado
por terra todas as noções de cultura e humanidade.
A
caminho de Buchenwald Um pequeno cômodo situado nesse mesmo edifício servia de "sala de
estar" para os SS, onde eles costumavam ficar sentados ao redor de uma
mesa. Ao chegar um prisioneiro condenado à morte, usavam convidá-lo para uma
partida de baralho. Conforme o número de pontos que fizesse no jogo, podia
ganhar apenas a permissão de escolher uma das seguintes modalidades de
execução:
1) injeção letal aplicada pela própria vítima;
2) ingerir cianeto de cáli;
3) enforcado;
4) ser amarrado à cerca e chicoteado até
à morte.
O
imenso forno principal do crematório era de formato retangular e construído
de tijolos. Numa das suas paredes lia-se em letras pretas: Betriebsvorschrift
des koksbeheizten Topf-Dreimuffel Einäscherungsofens(“Instruções
para uso do forno crematório a coque, tipo Topf-Dreimuffel”). Havia
quatro bocas de forno. Em cada uma delas desembocava, num trilho, uma maca de
ferro (agora toda enferrujada), que deslizava sobre rodas de aço lustrosas pelo
atrito. O guia francês retirou uma das macas do forno e em seguida empurrou-a
de novo para dentro. Em geral vinham três corpos em cada maca. A maioria dos
cadáveres raquíticos eram tão leves que um guarda podia facilmente levantar um
em cada mão, atirando dois dos corpos enrijecidos de uma vez, na maca. Esta era
empurrada para dentro da boca do forno, exatamente como o nosso guia
demonstrava.
—Eis o resultado — disse ele, levantando um
pequeno pote de metal enferrujado, de aproximadamente um litro. Estava repleto,
até à boca, de ínfimas lasquinhas de ossos, de cor branca ou amarelada. Alguns
pedacinhos eram levemente porosos. — Isto — continuou o guia — era, uma vez,
duas pessoas...
Um grupo de soldados norte-americanos entrou na sala.
Um ex-prisioneiro, de rosto pálido, magro, pegou o pote com os ossos, sentou-se
perto da boca do forno e, segurando-o com as mãos, deixou-se fotografar.
Visitamos também o "pequeno acampamento"
(Das kleine Lager), que servia de prisão para os chamados "inúteis"
(Nutzlose). Moravam eles em compridas barracas de madeira, contendo, ao invés
de camas, ásperas tábuas formando quatro divisões, umas por cima das outras e
separadas por vigas de madeira. Cada "andar"
tinha mais ou menos 50 cm de altura, abrigando dezesseis homens literalmente
amontoados. Um mau cheiro nauseabundo pairava no local. A privada era um
rústico bloco de cimento, que ainda exalava um forte cheiro de excrementos. Os
homens do "pequeno acampamento" passavam os dias num estado de fome
contínua. Emagrecidos até aos ossos, pareciam esqueletos ambulantes. Corriam,
empurrando-se uns aos outros, no seu curral de arame farpado, como um rebanho
miserável, choramingando para os "privilegiados" do "grande
acampamento": "pão... pão... por favor, um pedacinho de pão..."
Estavam tão fracos que um simples esbarro seria suficiente para derrubá-los.
Em
todas as dependências do campo, tanto por dentro como por fora, encontramos
grupos de ex-prisioneiros que por lá ainda permaneciam, aguardando a
repatriação.
Trajavam calças listradas de azul marinho e branco.
Alguns vestiam paletós enfeitados com um pano triangular de cor vermelha, no
meio do qual se achava uma letra preta, indicativa do país de origem do
portador: F, significando França, por exemplo. Esse distintivo era reservado
aos presos políticos que gozavam de certos privilégios.
No dia seguinte, encontrei na cidade de
Weimar, onde havia decidido permanecer por mais algum tempo, um número
apreciável de ex-cativos de Buchenwald. Estes, conforme eu soube, costumavam
agora vir constantemente àquela cidade vizinha onde, ostentando os seus trajes
listrados de ex-prisioneiros, perambulavam em atitudes provocantes no meio da
população civil alemã.
Encontrei alguns deles também no
"Residenzkaffee", o salão de chá mais elegante de Weimar, onde a sua
presença criava um visível embaraço no meio dos bem vestidos frequentadores
alemães. Foi no "Residenzkaffee" que travei conhecimento com um
engenheiro alemão que durante a guerra estivera encarregado de algumas obras de
construção, localizadas nas proximidades de um campo de execução em massa de
judeus. Contou-me que certa vez observara um soldado SS armado de um
fuzil-metralhadora sentado diante da imensa valeta para onde estavam sendo
levadas centenas de judeus para serem mortos a tiros. Uma
velha avó, aparentemente enlouquecida, levando o seu netinho pela mão, cantava
e dançava ao ser empurrada rumo à valeta. — "Coloquem um pano na cabeça da
velha" — gritou o guarda SS aos seus colegas que, às gargalhadas, executaram
o pedido. Tanto a velha senhora como todos os que eram conduzidos foram
obrigados a se despir e, a chicotadas, forçados a pisar por cima dos cadáveres
dos que os haviam precedido naquela última caminhada.
No
dia seguinte o engenheiroalemão notou alguns feridos arrastando-se para fora do
monte ensanguentado de mortos. Entre eles havia uma moça, jovem e bonita. À
indagação do engenheiro, se podia fazer algo para ajudá-la, respondeu ela:
"Caso o senhor possa me conseguir umas roupas para me vestir, eu talvez
tenha alguma possibilidade de escapar... mas assim... nua, é impossível...
prefiro voltar e morrer." Neste instante chegou o guarda SS e mandou o
engenheiro embora. Logo depois ouvia-se um disparo.
Weimar sofrera alguns danos causados pelos bombardeios
aéreos, especialmente o centro, bastante danificado por dois ataques maciços no
mês de abril, um pouco antes das tropas norte-americanas entrarem na cidade.
Diante da Câmara Municipal ainda intacta, vi um amontoado de destroços, entre
os quais uma bandeira amassada, cordas metálicas de um piano, partes de um
fogão e colchões sujos, de cor avermelhada, tudo isto cercado por montes de
pedaços de ferro enferrujados e retorcidos, assim como tijolos quebrados.
Alguns
dias mais tarde, também em Weimar, cheguei a conhecer um moço de nome
Israel e fui um dos primeiros a receber um relato autêntico das famigeradas
câmaras de gás de Auschwitz.
Conheci-o por acaso. Achava-me naquele dia, 22 de maio
de 1945, na sala de espera do Governo Militar de Weimar aguardando um tenente
norte-americano para discutir com ele um assunto de ligação. Para me distrair,
fiquei observando as demais pessoas presentes, notando com especial interesse
um homem ainda moço, em trajes civis, que conversava em alemão com outro civil.
Aquele que chamara minha atenção estava
vestido com um terno novo de cor verde, vendo-se por cima do bolso esquerdo
superior do paletó mal assentado, um pedaço de fazenda cinza, com um algarismo
bastante comprido. O pano estava bem gasto e as cifras, um tanto
apagadas. Porém o homem carregava aquele modesto trapo com evidente orgulho,
como se fosse uma preciosa condecoração de guerra. No braço esquerdo, uma
braçadeira rudemente confeccionada, trazendo em letras vermelhas a palavra:
"Buchenwald".
O cabelo castanho de sua cabeça raspada estava
começando a nascer outra vez, mas ainda não chegara o ponto de poder ser
penteado. O rosto era magro e um pouco queimado pelo sol. Em cima do nariz
proeminente, agressivamente curvado, um par de óculos, de formato antigo. Os
olhos castanhos brilhavam intensamente, indicando vivacidade e inteligência e
um "quê" de fanatismo. A impressão que transmitia era a de um gerente
de loja algo ambicioso, ou de um estudante. Não se passou muito tempo e lá
estava eu conversando com o moço do terno verde.
—Polônia? — indaguei apontando para o triângulo
vermelho com o "P"' preto no meio, que ele trazia também costurado no
paletó.
—Sim.
—Quanto tempo permaneceu em Buchenwald?
—Apenas quatro semanas... sou de Auschwitz.
Com isso, ele arregaçou a manga do braço direito, onde
se achava tatuado em cifras pequenas e azuladas, o número 137486.
—Tenho um número muito baixo — explicou o
moço — Não há muitos sobreviventes na categoria da primeira centena de milhar.
No ano passado a numeração já havia passado o milhão e tinham iniciado a série
"B".
—Como escapou à morte?
—Trabalhei no crematório. Simples golpe de
sorte.
—Que fazia lá?
—Queimava os corpos que saíam das câmaras de
gás.
—Você, um judeu, queimando judeus?
O moço de terno verde encolheu os ombros.
—Que é que o senhor quer? Era assim. Ou
obedecíamos ou éramos castigados pelos guardas SS. Era executar a tarefa ou
morrer. Se o senhor quiser, pode visitar-me hoje à noite, no meu quarto, caso
esteja interessado em ouvir os detalhes.
Francamente, eu não estava com muita vontade. Já vira
e ouvira tantos horrores! Mas não podia perder a oportunidade de registrar
aquele testemunho de primeira mão sobre as câmara de gás de Auschwitz.
À noite, logo depois do jantar, dirigi-me para a Praça
Wieland (Wielandsplatz). Um guarda alemão me fez continência e, vendo-me
espreitar o número de uma das casas escondidas na escuridão, ofereceu-se para
ajudar-me. Não havia necessidade. Achava-me em frente do prédio que procurava.
A porta estava aberta. Como não tinha o farolete, foi a custo de vários
tropeções que subi a escada curva e estreita que dava acesso a um cômodo do
primeiro andar, onde Israel já se achava à minha espera.
—Atrasou-se um bocado — notou um pouco irônico,
apontando para um relógio-cuco dependurado numa das paredes do quarto. Ele
mudara de traje e estava agora com um par de botas pretas, imaculadamente
polidas, à moda dos SS e vestia calças militares alemãs, de cor verde, tudo
novo em folha.
A
sala onde nos encontrávamos era tipicamente burguesa, limpa, com algumas
porcelanas e um rádio. Tirando o bloco de papel que levara comigo, logo me
atirei à tarefa de anotar as declarações de Israel. Escrevi febrilmente como um
alucinado. Às vezes, parava por alguns instantes para fazer perguntas ou
pedir-lhe para soletrar um nome ou repetir algum detalhe que me tivesse
escapado.
Por sua vez, Israel, também de vez em quando,
interrompia a narrativa. Era com o intuito de acender um cigarro ou preparar
uma xícara de café. Ambos com rótulos norte-americanos. Ofereceu-me café, porém alguma relutância estranha me impedia de tomá-lo. Minha
xícara grande, branca, exalando um cheiro revigorante, permaneceu cheia até o
fim. Unicamente para não ofendê-lo, eu fazia de vez em quando um gesto de que
ia tomar um gole ou dois, mas com uma sensação de repugnância e náusea.
O meu interlocutor tão amável pertencera, até alguns
meses atrás, a uma turma do chamado "comando especial" do campo de
concentração de Auschwitz, Ele e mais 21 companheiros,
trabalhando dois a dois, eram encarregados de colocarem os cadáveres vindos das
câmaras de gás nos carrinhos-macas de ferro — três corpos em cada
carrinho — empurrá-los ao longo dos trilhos que conduziam ao crematório, e lá
despejar a carga humana nas bocas ávidas do forno, onde ardia um fogo feroz e
implacável.
Havia outras turmas englobadas no "comando
especial", dedicados todos à execução de uma série de tarefas macabras,
entre os quais o "dentista" para arrancar os dentes de ouro dos
cadáveres e o "homem dos anéis", encarregado de retirar alianças e
anéis dos dedos gelados e rígidos, o qual, com a pressa, frequentemente cortava
o dedo inteiro.
As
diferentes turmasdo "comando especial", perfazendo um total
de 200 homens só podiam penetrar nas câmaras de gás onde jazia o amontoado de
cadáveres, após expelido o ar envenenado pelo gás letal, por meio de possantes
ventiladores. Quando estes paravam e o ar se purificava, então Israel se
aproximava da porta da câmara. Era a de número 2, uma das mais antigas, e na
forma de uma comprida garagem. As câmaras de gás eram construções estreitas,
alongadas, da altura de um homem, com capacidade para dois ou três mil corpos
humanos cada. Havia quatro, no campo de concentração de Auschwitz. As de número
1 e 2 eram modelos antiquados, construídas na superfície. As de números 3 e 4
eram mais modernas, subterrâneas, com uma pista inclinada de cimento levando à
entrada. Eram também maiores. O interior de todas elas pintado de branco. Como as emanações de gás logo amarelavam as
paredes,renovava-se a pintura a intervalos regulares.
Impelidas por golpes e invectivas dos guardas SS, as
vítimas — homens, mulheres e crianças — se precipitavam, numa corrida
frenética, rumo ao portão aberto da câmara. Os que vinham diretamente do trem
de transporte e ainda se achavam vestidos, recebiam ordem de se despirem e
empilhar as vestes ao seu lado, no chão cimentado e frio.
O
pretexto para esta formalidade (que aliás apresentava certa utilidade prática, por
permitir que os gases agissem ao mesmo tempo como desinfetante das roupas) era
o de que iam tomar um banho de chuveiro. Com o cúmulo do cinismo, alguns até
recebiam toalhas. Mas só muito poucos foram enganados. — É impossível — disse
Israel — descrever a triste agonia daquela massa humana que, em pranto e aos
gritos, era engolida pelas câmaras de gás.
Uma vez repletas as câmaras, ressoava a ordem que
mandava os componentes dos diferentes "esquadrões", do "comando
especial" — que, conforme contara Israel, executavam toda uma série de
"tarefas auxiliares" também dentro das câmaras — a deixarem o
recinto: "Häftlinge raus" (Prisioneiros, para
fora).
Incontinente, os pesados portões eram hermeticamente
fechados com enormes parafusos, apagando-se automaticamente as luzes dentro do
recinto. Em cada uma havia um postigo, que nas câmaras antigas se achava de
lado e nas modernas subterrâneas, em cima. Uma vez
fechados os portões, um guarda SS colocado junto aos postigos apanhava uma
caixa de uns cinquenta centímetros de comprimento, cheia de grãos cinzentos,
arredondados e marcados com uma caveira branca e a palavra "gás". Assemelhando-se
no aspecto geral a uma caixa de bombons, continha aproximadamente 5 quilos da
substância letal — o suficiente para matar a lotação inteira de uma câmara, ou
seja, um total de duas a três mil pessoas.
Entrementes,
o aquecimento era aberto a todo o vapor, desenvolvendo um calor
intenso para facilitar "a expansão rápida dos gases". Rapidez
deliberadamente estudada e executada, não com a finalidade de abreviar o
sofrimento das vítimas, mas para poder matar o maior número de pessoas no menor
espaço de tempo, o que aumentava a eficiência daquela diabólica linha de
montagem da morte.
Então, abrindo o postigo, num gesto rápido e preciso,
o guarda atirava a caixinha para dentro do compartimento, fechando-o
imediatamente depois. Porém esse curto intervalo era suficiente para deixar
passar o grito aterrorizado dos condenados à morte.
—Nunca — disse Israel — poderei esquecer
aquele terrível grito coletivo de morte. Seu som agudo me perseguiu durante
semanas e semanas. Várias vezes tive intenção de me suicidar.
Uma vez limpa a câmara pelos possantes ventiladores
começava a verdadeira tarefa de Israel, isto é, o transporte dos mortos para os
fornos crematórios. As vezes pegava-os pelas pernas, outras vezes pela cabeça.
Era como vinham. O companheiro ajudando. O guarda SS berrando, fazendo voar o
cassetete: "Depressa! Depressa, porcos!"
Da fronte de Israel, o suor escorria em gotas grossas
e frias enquanto pegava os corpos, balançando-os sempre da mesma maneira: um de
cada lado, o terceiro em cima, no carrinho-maca. Corpos de velhos, corpos
emagrecidos pela fome, corpos de mulheres jovens, de mulheres velhas, de
crianças. Milhares de corpos. A expressão, na maioria dos rostos, era de
serenidade. Alguns tinham as bocas abertas como num último brado de terror.
Israel
já tinha visto muitos rostos. De fato, fazia questão de sempre lançar um olhar
rápido na face pertencente ao corpo que manejava, antes de atirá-lo no
carrinho. Questão de hábito. Um ritual automático, que lhe permitia saber se a
vítima seria, por acaso, de sua cidade natal. Realmente, já queimara muitos
habitantes de Radom, a cidade onde nascera. O alfaiate Wichszniansky, por
exemplo, com as suas sobrancelhas brancas e espessas; a senhora Ljublyanskaya,
esposa do fabricante de tecidos que, por incrível que pareça, escapara com o
seu brilhante "solitário" intacto; os seus dois primos.
Ele ainda podia lembrar-se das perguntas ansiosas no
dia em que haviam chegado a Auschwitz: "Será
verdade que vamos ser queimados? Será verdade mesmo que nos trouxeram para cá
para sermos exterminados?"
Israel nunca lhes dissera a verdade. Em primeiro
lugar: era estritamente proibido relatar o que estava acontecendo em Auschwitz;
em segundo: para quê? Pensando bem, era talvez melhor que as vítimas
permanecessem na ignorância de seu triste destino. Assim, procurando
acalmá-los, ele costumava dizer: "Olhem para mim. Vocês sabem há quanto
tempo estou aqui e podem ver que estou bem vivo. Vocês também têm probabilidade
de sobreviver... " E nos olhos deles se acendia a chama de uma nova
esperança.
—Estranho — disse Israel — com que felicidade revive a
esperança, mesmo naqueles que esperam a morte certa. Não há pessoa mais crédula
do que um homem condenado. Um dia, — murmurou ele — acabava de pegar pelos pés
uma velha mulher, olhando como de costume para o seu rosto, ao atirá-la na
carreta. E o meu coração quase parou. Era minha mãe.
Agarrou os pés de sua mãe como se estivesse fazendo um
esforço inútil para segurá-la. No mesmo instante sentiu o golpe feroz do
cassetete do guarda SS, quase desfalecendo de dor: "Depressa, cachorro!
Depressa, depressa, porco imundo!
"Agora, o corpo da mãe de Israel se
encontrava dentro do carrinho de ferro. Os vinte metros que separavam do forno
crematório pareciam uma distância sem fim. Ele o empurrava. Não
podia tirar os olhos do rosto azul e inchado. Mesmo na agonia da morte, era o
rosto familiar que tão bem conhecia: os olhos castanhos abertos, a bem-amada
face enrugada por anos e anos de trabalho e sofrimentos. Sua mãe. A querida
mãezinha. E ele não estava ficando louco! E ele não estava chorando! A passos
mudos e cansados estava correndo ao lado do carrinho de ferro que avançava
inexoravelmente em direção ao forno crematório...
Levava de doze a quatorze horas o trabalho de queimar
de dois a três mil corpos, o "carregamento" de uma câmara de gás.
—A
cremação — explicou Israel — processava-se rápida. Corpos humanos ardem sozinhos.
Os de mais fácil combustão eram os corpos relativamente bem nutridos das
vítimas que vinham diretamente dos trens de fora. E também os de crianças. Os
que demoravam a consumir-se e exigiam bastante carvão, eram os corpos magros
dos prisioneiros de Auschwitz.
Demorava aproximadamente uma hora reduzir a cinzas os
três corpos que perfaziam o carregamento do carrinho de ferro. Quanto aos cacos
de ossos, "produto final" da queima, eram puxados com uma pá de ferro
e usados para encher buracos dos caminhos em volta do crematório. Israel
ignorava se eram usados também como fertilizantes das terras de Auschwitz,
conforme corriam boatos.
—Gente que arde — explicou ele — não expele
fumaça. Era uma chama avermelhada, saindo dia e noite da chaminé do crematório,
que indicava o sinistro trabalho. E o cheiro horrível, insuportável, de carne e
ossos queimados.
O caminho para as câmaras de gás do campo de
concentração de Auschwitz, localizado no extremo sudoeste da Polônia, perto da
fronteira alemã na cidadezinha de Oswiecim (em alemão, Auschwitz) principiava
na estação da estrada de ferro, onde se efetuava uma espécie de triagem
preliminar. Seleção fria, realizada com tão eficaz objetividade, como se fosse
um lote de gado destinado ao corte. As vítimas em potencial chegavam de várias
partes da Europa, encurraladas em vagões de carga. Prensados uns contra os
outros, pisados, quase asfixiados pela longa viagem no escuro, vagamente
sentiam o trem penetrar na estação. Podiam perceber, se ainda eram capazes de
algum raciocínio, que a locomotiva executava uma manobra. Não podiam porém
saber que o trilho especial pelo qual agora rodava lentamente o trem da morte,
estava conduzindo diretamente às câmaras de gás.
Esperava-os
a "comissão de seleção", composta de alguns guardas SS e o
temido Schillinger, acompanhado do médico do campo de Auschwitz, Dr. Senker,
ambos trajando o uniforme preto da SS. Caso não houvesse necessidade de
trabalhadores, todos os componentes da miserável massa humana, a qual se
aglomerava no pátio da estação improvisada, automaticamente seguiam para as
câmaras de gás. Caso contrário, uns duzentos homens de aparência robusta eram
separados para serem distribuídos nos diversos setores do campo, onde havia
escassez de mão de obra.
Porém, o mero fato de ser admitido não significava que
o espectro ameaçador da câmara de gás estivesse definitivamente afastado. Havia ainda as "seleções mensais" dentro do próprio
campo, que se iniciavam com a chamada "Blocksperre" (proibição de
deixar as quadras formadas pelas barracas onde se achavam os presos).
No dia da "Blocksperre", a vigilância dos SS
era redobrada. Caminhando de barraca em barraca, a sinistra figura do Dr.
Senker se postava nas entradas, obrigando todo mundo a desfilar diante dele.
Todos despidos, eram obrigados a mostrar a língua e dar uma volta. A menor
mancha vermelha no corpo, o menor sinal de doença ou mesmo de fraqueza... e a
voz seca do doutor ressoava: "Para a esquerda".
Era a condenação à câmara de gás. "À
direita" significava a salvação temporária. Que alívio sentiam aqueles que
ouviam estas palavras! Ser posto do lado esquerdo, no entanto, era a morte. O
escolhido (homem ou mulher) era obrigado a entregar o cartão de identificação e
seu número anotado. Não havia nenhuma reação violenta por parte das vítimas. O
negócio era uma espécie de triste rotina. Apático, quase resignado, o escolhido
falava: "Acabei de ser anotado".
Uma
vez condenados à morte, os infelizes eram entulhados em barracas especiais.
Ali, os seus corpos nus esperavam a hora de serem levados para as câmaras. Dez
cercas concêntricas de arame farpado carregado de eletricidade, assim como
numerosas torres de observação guarnecidas de metralhadoras e possantes
holofotes, impossibilitavam qualquer tentativa de fuga ao destino implacável
que esperava os condenados, os quais começavam então a sentir todo o desespero
da situação. Entreolhando-se, os presos murmuravam: "Estamos todos
perdidos".
A nudez e a miséria já de há muito tinham apagado as
diferenças profissionais e de classe. Haviam chegado todos ao único e último
denominador. Esqueciam que outrora tinham sido médicos, professores,
comerciantes, industriais, sapateiros, alfaiates, operários. Só sabiam que iam
morrer pelo "crime" único de serem judeus. Alguns invocavam o nome de
Deus e outros resmungavam: "Eu vou resistir. Eles não me deterão. Hei de
fugir!"
De fato, como por milagre, alguns conseguiam iludir a
vigilância dos guardas SS e escapar até à cerca de arame farpado. Atirando os
corpos nus contra as pontas afiadas, carregadas de alta tensão, morriam
eletrocutados.
Então, uma noite, apareciam os caminhões. Cem pessoas
eram empilhadas em cada veículo. Se eram capazes de se movimentar, tinham de entrar
correndo. Caso contrário, eram agarradas pelos pés e pela cabeça raspada, e
atirados dentro do caminhão que as levava para a morte.
Foram
três os principais grupos de vítimas que morreram nas câmaras de gás de
Auschwitz: os componentes da malograda revolta dos judeus de Varsóvia; judeus
húngaros e de outros países, e doze mil ciganos. Os últimos se achavam
localizados num campo vizinho, onde tinham permanecido durante quatro anos e
meio quando, de repente, chegou a ordem de exterminá-los. Ao receberem a
notícia, um impressionante grito se levantou do acampamento, perdurando toda a
noite e impedindo o sono dos demais prisioneiros de Auschwitz. Era inútil.
Foram exterminados naquela mesma noite todos os ciganos.
Assim funcionavam as câmaras de gás de Adolf
Hitler em Auschwitz.Antes de se retirarem, os alemães as minaram e as fizeram
voar pelos ares.
Eram quase três horas da madrugada quando deixei o
quarto de Israel. Depois da atmosfera carregada de fumaça dos cigarros e dos
vapores de café, o ar fresco da noite primaveril de Weimar foi um tônico
revigorador mais do que bem-vindo.
O eco dos meus passos nas ruas desertas da cidade de
Goethe ressoava estranhamente barulhento. Dirigindo meu olhar para o céu
coberto de estrelas, e contemplando os prédios sombrios da cidade adormecida,
eu me perguntei:
"Não teria sido apenas um pesadelo tudo
isto que acabei de ouvir?"
Mas, ali mesmo, no bolso da minha farda, pude apalpar
o maço de páginas que continham as minhas anotações do relato estarrecedor do
ex-componente do "comando especial" de Auschwitz. Senti-me cansado e
acabrunhado.
Naquela madrugada, em Weimar, enquanto perambulava
pelas ruas solitárias da cidade, vislumbrei a ideia do erguimento, em cada país
do mundo, em lugar proeminente, de um monumento dedicado "ao anônimo prisioneiro dos campos de
concentração", semelhante ao túmulo do "Soldat Inconnu"
em Paris, dedicado aos soldados mortos durante a Primeira Guerra Mundial.
Hoje, no entanto, parece-me que talvez a melhor
maneira de honrar a memória daqueles que tiveram morte tão infame, seria o
nascimento, em cada um de nós, de uma centelha de responsabilidade pelo ocorrido.
Só assim
poderemos ter a esperança de que a humanidade nunca mais será degradada por
outro "retorno à Idade Média", e que os horrores relatados nestas
páginas jamais se repetirão
(*)
O autor
Joseph Errol Brant nasceu em Riga, capital da Letônia,
em 10 de agosto de 1912. Naturalizou-se norte-americano quando servia nas
fileiras das Forças Armadas dos EUA. Jornalista de profissão, recebeu uma
educação internacional, iniciada em escola e colégio alemães de Riga.
Posteriormente formou-se em Direito pela Universidade de Montpellier, França, e
em Jornalismo pela Graduate School of Journalism da Universidade de Columbia,
Nova York.
Iniciou a carreira jornalística colaborando em vários
jornais da Europa e da América Latina, entre os quais L'Intransigeant, de
Paris; Die Weltwoche, Zuriche o Diario de la Marina, Havana.
Em 1942 ingressou no OWI (Office of War Information,
porta-voz da propaganda oficial dos EUA durante a II Guerra Mundial) onde, com
exceção de alguns meses passados no exército, serviu até julho de 1945.
Enviado a Londres pelo OWI, foi incumbido da
organização e chefia da seção noticiosa do Departamento Alemão da American
Broadcasting Station in Europe (ABSIE — emissora norte-americana que funcionou
durante a II Guerra Mundial na capital britânica). Em fins de 1944
incorporou-se ao PWD (Psychological Warfare Department, especificamente
encarregado das atividades de Guerra Psicológica das Forças Armadas
norte-americanas). Transferido para Luxemburgo, participou ativamente das
peripécias da Rádio 12-12, primeira emissora secreta na História Militar dos
Estados Unidos. Logo após o término das hostilidades exerceu na Alemanha as
funções de oficial de ligação do setor de pessoas deslocadas, do XII Grupo de
Exércitos.
Após a guerra fixou residência no Brasil
onde se casou com brasileira, dedicando-se durante vários anos à agricultura.
De 1961 a 1966 ocupou o cargo de redator-chefe e correspondente estrangeiro da
United Press International em São Paulo.
Um brasileiro naturalizado foi o 1º a denunciar os
campos de extermínio
Revista de História da Biblioteca Nacional – Setembro
2007
O
espião que saiu dos trópicos
Francisco José Messner,
brasileiro naturalizado, foi o primeiro a denunciar aos Aliados a existência de
um campo de extermínio nazista na Europa
Texto:
Carlos Augusto Silva Ditadi
Na historiografia brasileira, encontramos poucos
relatos sobre a atividade de espiões. Franz Messner, ou Francisco José Messner,
foi um deles. Sua vida, como a de todo espião que se preza, é cercada de
mistérios, lacunas e passagens mirabolantes. Austríaco naturalizado brasileiro,
empresário bem-sucedido, durante a Segunda Guerra utilizou seus negócios como
cobertura para poder atuar como informante a favor da resistência antinazista.
Não teve um final feliz: preso pela Gestapo, foi morto num campo de
concentração. Lembrado ainda hoje pelos seus feitos na sua terra natal, aqui no
Brasil Messner continua quase um desconhecido. O que sabemos é que nasceu em 8
de dezembro de 1896 na cidade de Kufstein, região do Tirol, Áustria, sendo
registrado na paróquia de Brixlegg. Em 1922, casou-se na paróquia de São
Othmar, em Viena, com Franciska Theresia Kristinus. Como empresário, atuou na Europa
e na América Latina em comércio exterior, principalmente no ramo do café e na
industrialização da borracha, terminando como diretor-presidente da empresa
austríaca Semperit Rubber Company.
Homem bastante ativo, já em 1925 Messner
estivera no Brasil a negócios.Foi vice-cônsul honorário do Brasil em Viena de 1927 a
1931, quando esse cargo, que até então podia ser exercido por estrangeiros, foi
extinto. No entanto, ele foi imediatamente nomeado pelo ministro da Indústria e
Comércio, Lindolfo Collor, delegado comercial do Brasil na Áustria e na
Hungria, e representou o Instituto do Café do estado de São Paulo na
comercialização do produto para a Síria, o Egito e a Turquia. Para poder
exercer esses cargos, em outubro de 1931 Messner solicitou a naturalização brasileira,
obtendo-a, pelo seu prestígio, mais rapidamente do que pelos trâmites normais.
De fato, o empresário parecia gozar de bom
conceito no alto escalão do primeiro governo Vargas.Elogiando
Messner em ofício encaminhado ao ministro da Justiça e Negócios Interiores,
Oswaldo Aranha, Lindolfo Collor o apresentara como um cidadão que agiu “sempre
com a maior correção, defendendo com verdadeiro patriotismo os interesses do
Brasil nas inúmeras ocasiões que para isso se ofereceram”. Para cumprir a
legislação, que proibia ao estrangeiro naturalizado ficar afastado mais de dois
anos seguidos do Brasil, em 1932 adquiriu um sítio, com extenso laranjal, em
Pedra de Guaratiba, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Depois de 1931,
Messner, já com seu novo nome de Francisco José, viajou regularmente, de dois
em dois anos, para o Brasil.
Em 1939, quando a situação política na
Europase agravava por causa da guerra, encontramos Messner na lista de
passageiros do transatlântico italiano Augustus, que veio de Gênova e chegou em
julho ao Rio de Janeiro. Viajando na primeira classe com a esposa, Franciska,
foi identificado como um industrial procedente de Viena, “cidade da Alemanha”.
A partir de 1° de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pelos nazistas,
Inglaterra e França declararam guerra ao governo de Adolf Hitler. Nesse
contexto político, o retorno de Messner ao Velho Continente ficou bastante
dificultado. Cortar o Atlântico representava um grande perigo. Navios eram
comumente detidos, com seus passageiros submetidos a revista, e muitas vezes
até torpedeados. Para atacar seus inimigos, Hitler já enviara ao mar suas
implacáveis flotilhas de submarinos, suas poderosas belonaves de guerra e até
embarcações armadas camufladas de navios mercantes.
Informações sobre as bombas V-1 e V-2
Messner teve de ficar no Brasil durante seis meses, até
que a situação da guerra se definisse. Em 24 de janeiro de 1940, embarcou – o
que, nessa época, era um gesto de extrema coragem – no navio italiano Conte
Grande, que, alguns dias após deixar o Rio de Janeiro, foi interceptado pelo
bloqueio naval franco-britânico ao largo das Ilhas Canárias, quando os
passageiros foram interrogados e identificados. Messner, apesar de possuir
passaporte brasileiro, foi considerado suspeito pelas autoridades francesas e
inglesas. Detido, foi internado num campo de prisioneiros em Casablanca, no
Marrocos. Este foi o primeiro contato de Messner com a guerra. Sua detenção provocou
alguma repercussão no Brasil, tendo sido noticiada em jornais locais, como o
Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, de 14 de fevereiro de 1940.
As
autoridades brasileiras em Paris,na figura do embaixador Souza Dantas,
fizeram um ato de desagravo ao governo francês, solicitando a soltura de
Messner. Conseguiu-se inclusive que Paul Reynaud, então ministro das Finanças
da França, interferisse no caso, mas sem resultados positivos. Somente a partir
de junho de 1940, com a França derrotada e com a constituição do Governo de
Vichy, pró-germânico, que controlava as colônias e as possessões francesas de
além-mar, é que Messner foi libertado. Sua mulher, Franciska, que havia ficado
no Brasil, retornou à Europa em agosto de 1940, após uma estada de onze meses no
país.
Chegando
finalmente à Europa, Messner reassumiu seus negócios, mas, contrariado com os rumos
da política de Hitler, entrou voluntariamente para os subterrâneos da
resistência antinazista. Em Berna, Suíça, por volta de 1942, Messner foi
apresentado a Allen W. Dulles, que operava dali as atividades do Office of
Strategic Services (OSS), o departamento de espionagem dos Estados Unidos.
Nessa época, Messner já era uma figura respeitada na Europa, um industrial
reconhecido, com a interessante característica de ter se naturalizado
brasileiro apesar de ser austríaco de nascimento. Na sua condição, podia muito
bem conversar com técnicos, especialistas, engenheiros e projetistas, obtendo
boas informações que eram passadas a Dulles, na Suíça.
Messner
compôs um círculo de espionagem denominado Maier-Ring, formado por um clérigo
austríaco, Heinrich Maier, que conheceu em 1936, e Bárbara Issikides, uma jovem
virtuose pianista. Messner atendia pelos codinomes Diana e Oyster. Esse trio de
espiões coletou informações valiosas sobre as armas secretas de Hitler, como a
bomba-voadora V1, precursora dos modernos mísseis. Messner deu também às forças
aliadas detalhes sobre a velocidade e a potência dos foguetes V2, com os quais
Hitler atacava a Inglaterra, além de informes sobre a fabricação, na Alemanha,
da borracha sintética, material de alto valor estratégico militar-industrial.
Outra informação que obteve dizia respeito à transferência e à nova localização
de uma das fábricas de aviões militares Messerschmitt que funcionava na
Áustria. Isto permitiu seu bombardeio pela aviação aliada. Finalmente, Messner
foi um dos primeiros a indicar a existência do campo de concentração e
extermínio em massa de Auschwitz, situado na Polônia.
Mortes por gás em Mauthansen
Enquanto isso, no Brasil, em dezembro de 1942, o
Ministério das Relações Exteriores solicitava informações ao Ministério da
Justiça e Negócios Interiores sobre o espião, diante da suspeita de “tratar-se
de um agente a serviço do inimigo”. No entanto, o que as autoridades
brasileiras não sabiam (e nem poderiam saber) era que Messner, na realidade,
estava cooperando, e muito, com o serviço secreto de inteligência americano.
Messner, por intermédio da Legação de Portugal em Budapeste, capital da Hungria
(o Brasil era então representado naquele país por Portugal), fez um pedido de
renovação de seu passaporte brasileiro, atitude esta que não foi nem um pouco
do agrado das nossas autoridades diplomáticas.
Em
março de 1944, os nazistasocuparam a Hungria e tiveram acesso a documentos e
informações sobre a atuação dos agentes espiões húngaros em contato com a rede
de espionagem do OSS. No mesmo ano, após a descoberta das ligações do OSS com o
trio, Messner e seus colaboradores foram presos pela Gestapo, a polícia
política de Hitler. O espião austríaco, que teve seus bens arrestados, ficou
encarcerado no Hotel Metropol, quartel-general da Gestapo em Viena, juntamente
com Bárbara Issikides e Heinrich Maier.
Messner
foi levado a julgamento ainda em 1944.Seus defensores alegaram sua condição de
brasileiro naturalizado e propuseram que fosse trocado por prisioneiros alemães
em poder do governo brasileiro. Entretanto, devido ao estado de guerra do
Brasil com a Alemanha, este contato com as autoridades brasileiras era difícil.
Outro recurso da defesa foi estabelecer contato com o núncio apostólico em
Berna e com a Embaixada Suíça em Berlim, em busca do apoio do Vaticano. A
estratégia não deu certo. Os advogados conseguiram apenas adiar o término do
julgamento. No outono de 1944, Messner acabou sendo considerado culpado de
espionagem e traição. Condenado à morte, foi enviado ao campo de concentração
de Mauthausen. Seu companheiro Maier também foi condenado por alta traição, e
em março de 1945 seria decapitado em Mauthausen. Só Bárbara Issikides, embora
doente e debilitada devido aos maus-tratos durante o período de detenção,
conseguiu sobreviver à guerra.
Quanto
a Francisco José Messner– o rico industrial da borracha, negociante de café,
ex-diplomata, cidadão brasileiro –, ele foi executado
no dia 23 de abril de 1945, numa câmara de gás. Seu corpo foi
incinerado. Por uma ironia do destino, faltavam apenas onze dias para que o
campo de Mauthausen fosse libertado pelo exército russo. Aqui no Brasil, o
Ministério da Justiça, sem mais notícias dele, se via às voltas com um processo
destinado a ratificar ou não sua naturalização. Na letra fria da burocracia,
pesava contra Messner o fato de que estava fora do país havia mais de dois
anos! Finalmente, em 1949, foi dada a solução clássica para seu processo:
“Arquive-se”. Deu-se assim por encerrada a investigação contra Francisco José
Messner, que de todo modo continua a ser, póstuma e oficialmente, um brasileiro
naturalizado.
Em fevereiro de 1949, vindo da Itália, atracou no
píer da Praça Mauá, no Rio de Janeiro, o navio Brasil, trazendo como ocupante
de uma cabine da 1º classe a senhora Franciska Messner. Ela informou às
autoridades brasileiras que “viajava a negócios”, possivelmente para reaver os
bens de Messner deixados aqui. Franciska teria morrido em 1983. Para servir de
epílogo, pode-se ler no livro de batismos da paróquia de Brixlegg, na Áustria,
uma nota manuscrita no registro de nascimento de Franz Josef Messner, em 1896:
“Wurde am 23.IV.1945 im Konzentrationslager Mauthausen ‘vergast’” (Morto em 23
de abril de 1945, no campo de concentração de Mauthausen – ‘gaseado’”). Sua
memória e a de seus companheiros de infortúnio têm sido reveladas aos poucos,
enquanto que sua atuação heroica no tempo da Segunda Guerra é hoje lembrada em
locais públicos na cidade de Viena.
Carlos Augusto Silva Ditadi é historiador e atua no Arquivo Nacional,
na preservação de documentos em formato digital.




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