domingo

Reportagens

1.           Uma Juventude Hitlerista à brasileira
2.           Ciência Nazista: os doutores da agonia.
3.           Eva Braun e as outras mulheres de Hitler
4.           Como surgiu a ideia do Nazismo
5.           Klaus Altman-Barbie: o carrasco de Lyon.
6.           Pio XII: bendito ou Papa de Hitler
7.           Nazistas em liberdade
8.           Nazismo: eles estão entre nós
9.           Os amores de Hitler
10.       Fascismo à brasileira
11.       Os brasileiros que lutaram por Hitler
12.       Dossiê Integralismo
13.       O dia em que Hitler exigiu o bombardeio do Brasil
14.       Campos de Concentração no Brasil
15.       Mistérios nazistas em Pelotas
16.       Franceses obrigados a lutar por Hitler
17.       Um jogo de futebol em plena guerra
18.          O FBI espionou uma primeira-dama brasileira simpática a Hitler
19.          Marechal Zhukov: herói de guerra soviético censurado.
20.           Um brasileiro naturalizado foi o primeiro a denunciar os campos de exte
21.           
22.          rmínio
23.          Só 20 anos após a reunificação, Alemanha pagou dívida da I Guerra Mundial (1914-1918)
24.          O desastre da Normandia
25.       Pesquisadora pernambucana filha de judeu descobre campo de concentração no Grande Recife
26.       A nova Segunda Guerra Mundial
27.       Propaganda na I Guerra Mundial: surge o  cartaz do “Tio Sam”.
     25. E se... os nazistas tivessem ganho a guerra ?
28.       Como Hitler pôde acontecer?
29.       Tudo sobre a I Guerra Mundial (1914-1918)
30.       Belmonte: um caricaturista contra Hitler
31.       A Bomba Atômica de Hitler
32.       Os planos de Hitler em Pernambuco
33.       Os espiões de Hitler no Brasil
34.       Sindelar: o Nazismo matou um craque
35.        Hitler morreu na Argentina em 1962 ?
     Para ler os textos acima, acesse:
Reportagens: todos os textos


Revista de História da Biblioteca Nacional
Edição 39 - Janeiro 2007

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Juventude
hitlerista
à brasileira
Na Alemanha, Hitler sonhava com jovens que iriam construir o novo mundo nazista. No Brasil de Vargas, crianças cantavam hinos, em boa parte das vezes sem entender seu significado político.
                     Ana Maria Dietrich


Ana Maria Dietriché historiadora e jornalista. Doutora em história social pela Universidade de São Paulo, é autora do livro Caça às suásticas - O Partido Nazista em São Paulo (Imesp)




É por meio da juventude que começarei minha grande obra educacional. Nós, os velhos, estamos gastos. Não temos mais instintos selvagens. Mas minha esplêndida juventude! Nós temos uma das mais belas do mundo. Com eles, poderei construir um mundo novo! Adolf Hitler 

Em diversos momentos, Adolf Hitler se voltou às crianças e jovens alemães. Ele acreditava que representariam o futuro da raça ariana, porque os adultos já estariam "velhos" e "gastos". Para cooptar os jovens a se tornarem "bons nazistas", o estadista, que permaneceu no poder na Alemanha entre 1933 e 1945, não poupou esforços. O primeiro passo foi a padronização do ensino secundário e a introdução de novas disciplinas de eugenia e ciência racial. Ao estudá-las, as crianças aprendiam, entre outras coisas, que não poderiam se miscigenar com os considerados "não arianos".


Práticas como atividades físicas - que chegaram a ocupar cinco horas do dia dos estudantes em 1938 - foram introduzidas, contrastando com o desprezo pelas atividades intelectuais e a queima de livros considerados prejudiciais ao regime. Fotos de Hitler estavam nas escolas e os professores entravam na sala cumprimentando os alunos com a saudação Heil Hitler.

Além das escolas, Hitler criou, em 1926, uma organização voltada para jovens e crianças, meninos e meninas. Funcionando como braço do partido nazista, a Hitler Jugend (Juventude Hitlerista), cujas atividades iam desde acampamentos com fogueiras e entoação de hinos até treinamento militar, chegou a ter, no seu apogeu, 8 milhões de membros. As meninas se alistavam na BDM (Bund Deutscher Mädel - Liga das Jovens Alemãs) e aprendiam seus deveres de futuras "mães e mulheres arianas" em tardes domésticas, de eventos esportivos e de patriotismo.
A americana Susan Campbell Bartoletti contou a história desses pequenos soldados de Hitler no livro Juventude Hitlerista, a história dos meninos e meninas nazistas e dos que resistiram, recém-lançado no Brasil pela Relume Dumará. Segundo Campbell, essa organização foi estruturada de maneira a funcionar como um exército. Havia regimentos e uma hierarquia: o garoto que ingressasse como recruta poderia chegar a liderar um esquadrão, um batalhão e até um regimento. A disciplina era rígida e quem a desobedecesse recebia castigos, como caminhar por horas em rios gelados. Para poder vestir o uniforme marrom da Hitler-Jugend (HJ), porém, os ingressantes deveriam, em primeiro lugar, provar que eram descendentes de "arianos", que estavam saudáveis e não tinham doenças hereditárias. As crianças judias foram impedidas de entrar e o mesmo acontecia quando os pais da criança não eram considerados "bons nazistas". Campbell afirmou que, "não querendo ser excluídas, as crianças imploravam para os pais entrarem no partido nazista". Os jovens que se negavam a participar tornavam-se marginais e dessa forma ficavam impedidos de entrar nas escolas e conseguir emprego.

Muitos jovens chegaram a perder a vida em nome da organização. No início do governo nazista, as brigas de rua com os comunistas eram frequentes. Em uma delas, Herbert Norkus, jovem alemão de 15 anos participante da HJ, morreu e se tornou mártir do regime. Já durante a Segunda Guerra Mundial muitos deles foram lutar nas frentes de combate alemãs. Eram convocados como ajudantes de artilharia ou como cavadores de trincheiras. "Os meninos trabalhavam dez horas por dia, sete dias por semana. Cavavam até as mãos ficarem calejadas (...)", contou Alfons Heck, ex-integrante da Juventude, um dos entrevistados por Campbell.
Próximo do final da guerra, foi criada uma unidade especial - denominada HJ-SS, cujos participantes receberam treinamento especial para participar do conflito. Tal unidade, apelidada pelos Aliados Divisão Leite de Bebê, lutou nos campos da Normandia em 1944. Em combate, morreram 1.951 soldados, entre meninos e jovens, e 4.312 ficaram feridos.
Minha pesquisa de doutorado aborda a Juventude Hitlerista estabelecida no Brasil. Esse movimento era ligado ao partido nazista no Brasil, que por sua vez era um braço do movimento nazista internacional da Organização do Partido Nazista no Exterior conhecida pela sigla A.O., do seu nome em alemão, espécie de departamento do III Reich. Essa organização estendeu-se pelos cinco continentes, em 83 países, com cerca de 29 mil componentes. Nesses territórios, os nazistas criaram seus grupos, articularam suas bases e estruturaram suas organizações, entre elas a da Juventude. O Brasil foi o país que contou com o maior número de filiados do partido nazista fora da Alemanha - com 2.900 membros espalhados entre 17 estados brasileiros.
Entre eles, o maior grupo foi o de São Paulo, com 785 membros, seguido por Santa Catarina, com 528, e Rio de Janeiro, com 447.
Nazismo tropical

Como organização ligada diretamente a esse partido
, a HJ no Brasil teve a adesão de 550 meninos e meninas alemãs e descendentes, que foram seduzidos pelo discurso do regime nazista. Apesar de ter como parâmetro o movimento alemão, o nazismo avançou no Brasil de forma diferenciada. Participantes da comunidade alemã - que somava 230 mil pessoas, entre alemães de nascimento e descendentes -, os meninos e meninas não conheceram a atmosfera de terror vivenciada por seus conterrâneos na Alemanha - definida, em um primeiro momento, pela luta contra os comunistas e, em um segundo, pela deflagração da Segunda Guerra Mundial. Nesse processo de transferência, foi como se a ideologia nazista passasse a se vestir com as cores da sociedade brasileira.

Aqui os preceitos nazistas eram passados às crianças e jovens por meio da família e, principalmente, pela educação nas escolas. Estima-se que na década de 30 existiam cerca de 1.260 escolas alemãs no país, com mais de 50 mil alunos. Todas elas contavam com subsídio do governo alemão e algumas haviam sido fundadas ainda no século XIX. Desde a ascensão de Hitler ao poder, as escolas passaram a ser vistas como importantes centros de difusão dos ideais nacional-socialistas.

Até o começo do Estado Novo (1937-1945), tais escolas funcionaram normalmente, sem preocupar o governo, já que ajudavam na educação dos jovens, desonerando as escolas públicas. Porém, a partir de 1938, com a campanha desencadeada por Vargas, que obrigou todas as instituições estrangeiras a se nacionalizar, as escolas alemãs passaram a ser vigiadas. O governo estabeleceu a nacionalização integral do ensino primário. Novas leis do período de 1938 a 1942 restringiram cada vez mais a difusão de valores de outras culturas em território nacional.

O partido nazista e as instituições ligadas a ele entraram então para a ilegalidade. Até essa época, o governo tinha feito vistas grossas à atuação do partido, dadas as boas relações comerciais entre o Brasil e a Alemanha e a simpatia do ditador brasileiro pelo regime de Hitler. Os partidários do nazismo e os alemães em geral foram perseguidos somente depois de 1942, quando da entrada do Brasil na guerra, ao lado dos Aliados. A questão estava centrada no combate à cultura germânica - elemento de erosão da nacionalidade brasileira em construção - e não ao nazismo - enquanto "ideologia exótica", como a chamava o Dops - Delegacia de Ordem Política e Social.

No caso da cidade de São Paulo, vários foram os colégios enquadrados como foco de disseminação de ideias consideradas nocivas à nação brasileira, entre elas a nazista, no final dos anos 30. Em instituições como a Deutsche Schule, mais conhecida como Escola Alemã de Vila Mariana, uma das mais vigiadas pelo Deops - Departamento Especializado de Ordem Política e Social, de São Paulo, boa parte dos educadores era ligada à Associação dos Professores Nazistas, com 100 filiados no Brasil, e alguns vinham direto do III Reich para doutrinar a juventude local.

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Acervo A. M Dietrich


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A Juventude Hitlerista de Presidente Bernardes, pequena cidade do noroeste do estado de São Paulo, é um exemplo da forma como essas ideias nazistas foram transferidas para o Brasil. Nos anos 30 e 40, o local era um polo de chegada de imigrantes de toda a Europa. Muitos desses imigrantes vinham, desde o porto de Santos, em carros puxados por bois e carregados com produtos tropicais. O destino? Fazendas, sítios e chácaras. Construíam suas casas, muitas vezes de barro e sapé, e plantavam o que comer: arroz, feijão e milho. Um modo de vida muito diverso do que estavam acostumados na Europa. Entre essas famílias, encontravam-se os imigrantes alemães que aderiram ao nazismo, como a família de K.B. (os nomes são aqui mantidos em sigilo para preservar os depoentes). Em entrevista, ela contou a saga da família desde a saída da Alemanha em crise da República de Weimar (1919-1933) até o envolvimento com o nazismo.
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Álbuns de família

K. B. foi membro da Juventude Alemã de Presidente Bernardes. Seu pai, G.B., era dirigente do partido nazista em São Paulo. No acervo do Deops, encontram-se muitas fotos apreendidas de álbuns de família como a de K.B., onde se veem grupos de nazistas em meio a palmeirais e parreiras. Porém ao ouvir essas histórias, tem-se uma nova dimensão de como foram difundidas as ideias nazistas aqui. Elementos como o antissemitismo ou racismo corrente n3a Alemanha não aparecem no discurso de K.B. Ao contrário, o que há é algo mais romantizado, com colonos comemorando festividades do calendário alemão e cantando hinos usuais no III Reich. “Por que não gostar de judeus? Eu não conheço nenhum. (...) Eu era criança naquela época e não tinha condições de entender nada. Eu só comecei a entender mais tarde, quando li sobre o assunto. Mas não acreditava, porque meu avô era um santo homem", afirmou K.B.

K.B. se referiu ao seu avô F.D. como "um nazista fanático que amava sua família". Costumava acordar todos os dias de manhã bem cedo e ensinava-as a fazer ginástica, a marchar e a cantar hinos nazistas. O que para K.B. era algo ingênuo e saudável na verdade fazia parte do preceito nazista de culto ao corpo. Os membros da Juventude Hitlerista na Alemanha costumavam fazer esporte todos os dias e participar de treinamentos militares.

Ao descrever esses costumes, K.B. fez questão de enfatizar o lado bondoso do avô: "Ele fazia brinquedos para a gente. Nos dias de festas alemãs, por exemplo Festa da Colheita, costumávamos cantar e marchar atrás dele. Lembro até hoje [cantando em alemão o hino de Horst Wessel]: 'Levanta a bandeira, as fileiras bem unidas e marcha com passos calmos e firmes'. Só lembro de um momento em que ele ficou meio espinhento, foi quando a Inglaterra entrou na guerra...".

Este trecho da entrevista demonstrou que essas crianças repetiam meramente ideias ensinadas pelos adultos, sem ter noção do conteúdo ideológico das canções. Além dos depoimentos, as fotos são importantes testemunhos. Mostram, por exemplo, como os nazistas no Brasil se vestiam, utilizando as mesmas insígnias e simbologia que os nazistas na Alemanha-.E.G., outra entrevistada de Bernandes, lembrou-se da mudança de tratamento em relação aos alemães a partir de 1942: "Enquanto nós estávamos aqui com Getúlio do lado do Eixo não teve problemas. Depois, quando Getúlio resolveu passar para o outro lado - por bons motivos - começaram a perseguir alemães, japoneses, todo mundo. Mas os partidários continuaram fazendo as mesmas coisas, vestindo uniformes, usando suásticas e ia todo mundo para o xadrez. Eles sabiam disto, então provocavam, cantando hinos nazistas a caminho da prisão". Quanto às crianças, K.B. recordou as humilhações que sofreu na escola: "Porque eu era alemã, meus colegas de classe caçoavam de mim, puxavam minhas tranças".

A triste realidade da Juventude Hitlerista não está tão distante da realidade atual do Brasil e do mundo. O conhecimento desse capítulo da história serve para refletirmos sobre os rumos que a sociedade assume nos tempos atuais e tomarmos providências enquanto há tempo.
 Cientistas nazistas:
 doutores da agonia
Eles utilizaram humanos como cobaias de pesquisas macabras. Agora estudos dizem que essas experiências guardam informações valiosas para a humanidade.
Texto: Rodrigo Rezende, da Alemanha
"Camarada, por favor, peça ao oficial que acabe conosco com uma bala”,suplicou o soldado russo. Depois de 3 horas dentro de um tanque de água gelada, ele já não suportava mais a sensação de congelamento no corpo. “Não espere compaixão daquele cão fascista”, respondeu o colega que dividia o tanque com ele. Quando o cientista responsável pelo experimento descobriu o significado das palavras de suas cobaias, retirou-se para o escritório. Voltou com um revólver na mão. Não para atender ao pedido do soldado, mas para ameaçar seus assistentes na experiência. “Não se intrometam. Nem se aproximem deles!” Passaram-se mais duas horas de agonia antes que o alívio da morte chegasse para os russos. Assim como eles, pelos menos outros 300 prisioneiros dos nazistas foram usados em experimentos destinados a entender os efeitos do frio no corpo humano – a hipotermia. A maioria não teve a sorte de um final rápido. Ao chegarem ao limite entre a vida e a morte, eram reanimados e expostos novamente a temperaturas baixas.
As descrições acima são apenas um exemplode como alguns cientistas alemães se adaptaram ao ideário nazista sob o governo de AdolfHitler. E não deixam qualquer dúvida de que, eticamente, a ciência produzida na Alemanha entre as décadas de 1930 e 1940 foi repugnante. Os experimentos causaram dor, humilhação e mortes terríveis às pessoas confinadas em campos de concentração – fossem elas judias, ciganas, homossexuais ou qualquer tipo de inimigo do regime. Acontece que os responsáveis por essas “pesquisas” podiam ser sádicos, mas não eram leigos. Pelo contrário. Muitos foram formados nas escolas mais tradicionais do planeta – antes da chegada dos nazistas ao poder, a Alemanha era um dos líderes mundiais em inovação científica. Metódicos como só pesquisadores alemães podem ser, eles sistematizaram as experiências, coletaram dados, chegaram a conclusões. E geraram informações que, além de inéditas na época, nunca mais foram reproduzidas em testes sérios – afinal de contas, e ainda bem, não é todo dia que aparece alguém propondo jogar ácido na pele de um ser humano para entender como nosso corpo reage à substância.
As pesquisas sobre hipotermia,por exemplo, além de matar centenas de prisioneiros do campo de Dachau, produziram dados que existem até hoje – e que alguns cientistas gostariam de usar em pesquisas atuais. O médico Robert Pozos, diretor do Laboratório de Hipotermia da Universidade de Minnesota, nos EUA, é um deles. Ele estuda como nosso corpo responde ao frio para descobrir a melhor maneira de reanimar pessoas que cheguem quase congeladas aos hospitais. Mas o trabalho de Pozos enfrenta um sério problema: muitas de suas pesquisas não podem ser concluídas, pois há risco de morte quando a temperatura dos voluntários do estudo cai abaixo de 36 ºC. A única fonte conhecida de dados sobre seres humanos nessas condições são os experimentos nazistas. É ético utilizá-los com o intuito de salvar vidas? Pozos respondeu que sim. Em seguida, viu a New England Journal of Medicine, uma das mais respeitadas revistas médicas do mundo, se recusar a publicar a pesquisa.
E você, o que faria se estivesse no lugar de Pozos?Para enfrentar essa delicada questão, é necessário encarar o extenso legado científico que o nazismo deixou. Até há pouco tempo, esse universo era bastante desconhecido. Estudos recentes, porém, lançaram nova luz em direção ao que sabemos sobre a ciência no período. Afinal, houve experimentos de qualidade no nazismo? O que acontece com a ciência sob um regime tão desumano?
Ciência e nazismo
Planície de Ypres, fronteira entre Bélgica e França,17 h do dia 22 de abril de 1915, Primeira Guerra Mundial. Entrincheirados, soldados do Exército francês observam, atônitos, um inimigo desconhecido se aproximar. Alguns compreendem logo que é impossível combatê-lo e batem em retirada. Outros permanecem parados, sem saber o que fazer. Não têm ideia de como lutar contra o oponente mais letal que já enfrentaram: uma espessa nuvem verde-amarelada, de 1,5 m de altura.
Dez minutos antes de a arma mortal varrer o ar, uma tropa que parecia saída de um filme de ficção científica havia tomado a dianteira do Exército alemão. O Pionierkommando 36 era um batalhão formado por cientistas com uniforme militar e máscaras protetoras, liderados por nada menos que um ganhador do Prêmio Nobel de Química, o alemão Fritz Haber. Ao sinal de Haber, foram abertos 730 cilindros, com 100 quilos cada um, de gás cloro em forma líquida. Assim nasceu a nuvem que, carregada pelo vento, partiu em direção à tropa inimiga, corroendo pulmões e cegando. Quando a bruma esverdeada se dissipou, os únicos integrantes do Exército aliado que permaneceram incólumes em seus postos foram 50 canhões. O saldo de estreia do novo gênero de combate: 10 mil mortos e 5 mil feridos.
A qualidade dos cientistas envolvidosno projeto científico-militar alemão dá a dimensão da importância e complexidade da parceria. Fritz Haber, por exemplo, foi responsável por uma descoberta que não só permitiu à Alemanha prolongar a Primeira Guerra, mas hoje nos permite produzir alimento para 6 bilhões de pessoas: a técnica de fixação da amônia a partir do nitrogênio do ar serviu tanto à criação de explosivos quanto ao desenvolvimento de fertilizantes baratos. Otto Hahn, outro laureado com o Nobel que liderou um ataque com gás, foi um dos descobridores do processo de fissão nuclear, que é usado em bombas atômicas, mas também em usinas de energia. “O Exército alemão se convenceu de que a ciência desenvolveria armas superiores, que compensariam as restrições à produção de armamento impostas pelo Tratado de Versalhes”, diz o pesquisador do Instituto Max Planck, Helmut Maier. “Após a guerra, a elite científica levou o país à liderança nos ramos de balística, química, aviação e construção de foguetes.”
Veterano da Primeira Guerra, AdolfHitler conhecia bem o poder dessa ciência militar – ele chegou a ser internado com cegueira temporária após um ataque com gás nos campos de batalha. E sabia que, caso alcançasse o poder, faria da ciência um dos pilares da nova Alemanha.
Mas o interesse do Führer trazia um problema.Ele podia até admirar a ciência, mas não entendia nada do assunto. “Hitler não era devidamente instruído em ciência. Ele apenas seguia seu instinto, seu feeling”, diz o historiador alemão Joachim Fest, um dos mais importantes biógrafos do líder nazista. Na cúpula nazista, a situação não era melhor. Heinrich Himmler, segundo homem na hierarquia, mandava cientistas investigar a relação entre os canhotos e a homossexualidade ou pesquisar a genealogia dos cavalos dos antigos reis nórdicos. “Himmler era a verdadeira encarnação da pseudociência”, diz Michael Kater, autor de Doctors Under Hitler (“Doutores de Hitler”, sem tradução em português).
Naturalmente, Hitler não via problema nessas ideias.Na verdade, ele se considerava um cientista de vanguarda – era um entusiasmado adepto da teoria da higiene racial, doutrina “científica” que prega a eliminação dos genes não arianos do povo alemão. Em seu livro Mein Kampf (“Minha Luta”), de 1925, ajudou a disseminar uma metáfora bastante útil para o progresso da nova doutrina: “O povo alemão é um só corpo, mas a sua integridade está ameaçada. Para manter a saúde do povo, é preciso curar o corpo infestado de parasitas”. Os parasitas eram os judeus. O que há de científico nisso? Nada. Mas, às vésperas da ascensão de Hitler, já estava bem difícil discernir o que era ou não ciência. “Desenvolveu-se uma relação simbiótica entre ideologia e ciência. A ciência, nessa época, começou a funcionar como legitimação das ideias racistas do nazismo”, diz Helmut Maier. E era essa mistura insólita que os cientistas teriam de enfrentar, se quisessem permanecer na Alemanha após 10 de janeiro de 1933, dia em que Hitler tomou o poder.
Hitler domina a ciência
Em 6 de maio de 1933, um dos mais importantes cientistasda Alemanha bateu à porta do escritório de Hitler, em Berlim. Foi bem recebido pelo Führer, que ouviu com atenção sua tentativa de abrandar a perseguição a pesquisadores judeus: “Há diversos tipos de judeus, alguns valiosos e outros inúteis para a humanidade”, argumentou o pesquisador. Hitler respondeu: “Se a ciência não pode passar sem judeus, teremos de nos haver sem a ciência!” E começou a berrar, falando cada vez mais rápido e tremendo de raiva. Com isso, o visitante se calou e despediu-se, desapontado. Naquele dia, Max Planck, pai da física quântica e presidente do Kaiser Wilhelm Institute (hoje Instituto Max Planck), não conseguiu o que queria: evitar a demissão do amigo judeu Fritz Haber, aquele mesmo que comandara a primeira tropa de gás da história.
Planck foi um dos cientistas que optarampor continuar na Alemanha nazista, mesmo não concordando com os ideais do novo regime. O físico Max von Laue, que costumava sair de casa com um embrulho debaixo de cada braço para não ter de fazer a saudação nazista, tomou a mesma decisão. Planck e Laue encorajavam colegas a não deixar o país, dizendo que deveriam esperar por dias melhores. Nem todos no mundo da ciência, porém, compartilhavam da mesma opinião. “A conduta dos intelectuais alemães como grupo não foi melhor que a de uma ralé”, afirmou Albert Einstein a respeito da reação de seus pares ao nazismo. Einstein, que era judeu, foi criticado por Laue quando decidiu abandonar a Alemanha rumo aos EUA, em 10 de março de 1933 – um mês antes de uma lei expulsar todos os descendentes de judeus do funcionalismo público, fazendo cerca de 1 000 cientistas de elite perderem o emprego. Passariam-se mais 30 dias até que universitários alemães saíssem às ruas para aplaudir as chamas que consumiram mais de 10 mil livros em praças públicas por toda a Alemanha. Se Einstein ainda estivesse no país, seria apenas um desempregado observando suas obras sobre a Teoria da Relatividade desaparecerem nas fogueiras do Reich. Mais um pouco de tempo e talvez o próprio Einstein cumprisse a profecia do poeta alemão Heinrich Heine: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas”.
Se alguns cientistas foram culpados por silenciar, outros não hesitaram em aderir ao ideário racista. Um ramo em especial aceitou com bons olhos a limpeza dos “parasitas” judeus: a medicina. Em 1933, 44,8% dos médicos alemães eram filiados ao partido nazista. Era a maior proporção de representação entre todas as profissões. Os advogados, que vinham em segundo lugar, não passavam de 25%. Além de profundamente antissemita, a classe médica alemã era, em geral, favorável às políticas da higiene racial. Quando a lei de esterilização compulsória de doentes físicos e mentais foi lançada, em 1934, os médicos a implementaram imediatamente. Tampouco se opuseram quando a prática foi estendida à população não ariana. Com isso, mais de 350 mil pessoas foram esterilizadas à força no período de 1934 a 1945. Era a ciência ajudando a concretizar a nova sociedade sonhada por Hitler.
Mas nem todos tiveram estômagopara embarcar no projeto do Führer. Max Planck, por exemplo, não suportou o clima no país e deixou seu emprego em 1937. Já não estava na Alemanha quando seu filho Erwin foi executado por envolver-se num plano para matar Hitler. Seu amigo Fritz Haber teve um enfarto e morreu em 1934. Nunca soube que muitos de seus parentes seriam mortos pelo gás que ajudou a desenvolver. Na iminência das batalhas da Segunda Guerra Mundial, em 1939, apenas os cientistas considerados “mais fortes” pelos nazistas permaneceram no país. Se você pretende continuar lendo esta reportagem, saiba que, a partir deste ponto, também precisará ser forte.
Laboratórios do inferno
“Escutem, colegas, já que vocês vão matartoda essa gente, pelo menos arranquem os cérebros deles”, disse, em 1939, o professor de medicina Julius Hallervorden aos encarregados da eutanásia de doentes mentais, um programa que exterminava quem recebesse dos médicos o diagnóstico de lebensunwertes leben, ou “vida indigna de viver”. Foi assim que Hallervorden formou uma coleção que, em 1944, contava com 697 cérebros. Entre seus favoritos, estava o de uma menina cuja mãe fora envenenada acidentalmente por gás 74enquanto estava grávida.
August Hirt, médico da Universidade de Estrasburgo(então na Alemanha, hoje na França), não queria só cérebros, mas cabeças inteiras. E não poderiam ser entregues quaisquer cabeças, tinham de ser de judeus. Logo ele percebeu que, se conseguia cabeças sem problemas, por que não pedir corpos inteiros? Encomendou 115 prisioneiros a Auschwitz, que foram prontamente executados em junho de 1943 e enviados para Estrasburgo. Em agosto, chegou outro carregamento com cerca de 80 cadáveres, todos usados para estudos sobre a superioridade anatômica do povo ariano.
Mas médicos como Hirt e Hallevordenainda não tinham as mesmas possibilidades que SigmundRascher, responsável pelo campo de concentração de Dachau: usar cobaias humanas vivas. “Sou, sem dúvida, o único que conhece por completo a fisiologia humana, porque faço experiências em homens e não em ratos”, costumava dizer com orgulho aos colegas. Rascher era admirado e protegido por Himmler, entusiasta das pesquisas “científicas” a ponto de assistir aos terríveis experimentos em câmaras de baixa pressão, para os quais forneceu prisioneiros em maio de 1941. Das cerca de 200 cobaias que passaram pelas câmaras de pressão até maio de 1942, 80 morreram durante os testes. Algumas tiveram o cérebro dissecado enquanto ainda estavam vivas para que o médico pudesse observar as bolhas de ar que se formavam nos vasos sanguíneos. Em seguida, Rascher começou as experiências sobre hipotermia. Era ele o médico responsável pelo experimento com os soldados russos do início desta reportagem.
Rascher foi um dos pioneiros entre os 350 médicos que oficialmente se envolveram em experiências nos campos de concentração. Se considerarmos o número de pacientes assassinados, Rascher não foi páreo para o mais sanguinário dos doutores de Hitler: Joseph Mengele, cujas experiências foram responsáveis pelo extermínio de 400 mil pessoas em Auschwitz. Mengele injetou tinta azul em olhos de crianças, uniu as veias de gêmeos, jogou pessoas em caldeirões de água fervente, amputou membros de prisioneiros, dissecou anões vivos e coletou milhares de órgãos em seu laboratório. Depois da guerra, conseguiu escapar e viveu escondido no Brasil até sua morte, em 1979. Oficialmente, comprou sua fuga com anéis de casamento e dentes de ouro que retirava dos cadáveres. Segundo o cientista alemão Benno Müller-Hill, a história não é bem essa. “Muito embaraço teria sido causado se ele tivesse revelado para onde mandou o material humano”, diz o autor de Murderous Science (“Ciência Assassina”, sem tradução em português), livro precursor da nova onda de estudos sobre a ciência nazista.
Se você chegou até aqui, deve estar há algum tempocom uma questão incômoda: “O que se passava na cabeça desses médicos?” O psiquiatra Robert Lifton tem uma teoria a respeito: um processo psicológico que chamou de doubling. “O doubling é a dissociação do eu, que leva à formação de uma espécie de segundo eu”, diz. Professor de Harvard e autor de The Nazi Doctors (“Os Doutores Nazistas”, sem tradução em português), Lifton percebeu as características do doubling em muitos dos “doutores” que entrevistou para seu livro. Na rua, eram éticos, carinhosos e respeitadores. Nos campos de concentração, monstros. “Eles falavam do que fizeram sem envolvimento emocional, como se estivessem narrando os atos de outra pessoa”, diz.
O horror nazista transformava a mente dos médicos. Mas e as vítimas? Na tentativa de entender o trauma causado pelas experiências, a Super procurou em São Paulo a judia polonesa Bluma Reicher, de 83 anos. Ao ouvir um pedido para descrever as cirurgias a sangue-frio pelas quais passou em Auschwitz há mais de 60 anos, a única resposta que Bluma deu foram lágrimas. A entrevista acabou aí.
Karl Hoellenrainer, um cigano, respondeu de outra maneira. Ao encontrar no tribunal de Nuremberg o homem que o obrigou a tomar água salgada por 4 semanas e depois arrancou pedaços do seu fígado, sacou uma adaga e pulou o balcão que separava testemunhas e réus. Queria matar seu algoz ali mesmo. Não teve sucesso e foi sentenciado no mesmo dia, 27 de junho de 1947, a 3 meses de prisão.
A exposição de tantos atos desumanoscometidos deixa a impressão de que, em pleno século 20, o nazismo levou a ciência de volta à idade das trevas. Até bem recentemente, era exatamente essa a visão que a maioria dos historiadores tinha do período. Novos estudos, porém, estão revelando a realidade muito mais complexa que se escondia sob um manto de atrocidades e absurdos científicos.
Outra visão
Naquela cidade, era preciso paciênciapara conseguir acender um cigarro. O fumo estava proibido em todas as áreas públicas, incluindo escritórios e salas de espera. No trem, havia risco de multa para quem não prestasse atenção e puxasse um isqueiro no vagão de não-fumantes. Até dentro do próprio carro era arriscado fumar. Se um guarda sentisse cheiro de fumaça em um automóvel envolvido numa batida, o dono poderia ir direto para a cadeia. Apesar de uma certa semelhança com as metrópoles atuais, a cidade em questão é a Berlim da década de 1940. E as medidas antitabagistas, só comparáveis às existentes nos nossos dias, foram implementadas pelos nazistas, os únicos que tinham acesso ao conhecimento científico necessário para desenvolvê-las.
“Os nazistas foram os primeiros a fazer estudosestatísticos rigorosos que provaram a relação entre o hábito de fumar e o câncer de pulmão”, afirma Robert Proctor, historiador da ciência e professor da Universidade Stanford, nos EUA, e autor de The Nazi War on Cancer (“A Guerra Nazista contra o Câncer”, sem tradução em português). É uma ironia que a origem de uma das maiores descobertas médicas do século 20 esteja relacionada a um efeito psicológico da doutrina de higiene racial. A esse efeito Proctor deu o nome de paranoia homeopática. “Os nazistas tinham pavor de agentes minúsculos que poderiam corromper o corpo alemão. Eram obcecados por ar limpo, comida natural e um estilo de vida saudável.” E foi justamente a obsessão que empurrou a ciência alemã em direção aos mais avançados estudos anticâncer. “O mesmo fanatismo que nos deu Mengele também nos deu a preciosa pesquisa antitabagista. A verdade é que a política científica nazista foi muito mais complexa que a maioria das pessoas imagina.”
Proctor não é exatamente uma unanimidadeno mundo científico. Pelo contrário. Pesquisadores com muitos anos de experiência contestam os resultados de seus estudos sobre a ciência nos tempos de Hitler. “Proctor afirma que os nazistas fizeram boa ciência, ainda que com propósitos malignos. Isso é uma bobagem. Tenho estatísticas em meus livros que mostram que os nazistas não chegaram nem perto de derrotar o câncer. Na época em que as publiquei, Proctor ainda era um bebezinho recém-saído das fraldas”, diz o historiador Michael Kater. O professor de Stanford, porém, está longe de ser um acadêmico isolado por seus pares. Matérias favoráveis a respeito de seu trabalho foram publicadas nas conceituadas revistas científicas Nature, Science e New Scientist. Proctor acredita que a visão que se tem do nazismo ainda é simplificadora e estereotipada. “A ciência nazista tem de ser estudada em toda a sua complexidade”, afirma.
Lançar um novo olhar sobre a ciência alemãno período nazista foi exatamente o objetivo do mais ambicioso projeto histórico já feito pela Sociedade Max Planck, que controla 80 dos mais importantes institutos de pesquisa da Alemanha. O resultado do estudo, que consumiu mais de 6 anos de trabalho, foi divulgado no ano passado e chacoalhou tudo que sabíamos a respeito da ciência nazista. A antiga tese de que os laboratórios eram controlados por um punhado de monstros impiedosos e desumanos, que não produziram nenhum conhecimento valioso para a humanidade, caiu por terra. A nova pesquisa revelou que muitos dos então melhores cientistas da Alemanha viram o regime nazista não como uma ameaça, mas como uma oportunidade de adquirir status pessoal e financiamento para seus estudos. Para isso, eles deliberadamente procuraram fazer ciência sobre os temas que mais interessavam aos chefões nazistas e se engajaram em experimentos antiéticos que seguiam rigorosamente as regras dos métodos científicos mais avançados da época. O estudo da Sociedade Max Planck provou que as fronteiras que separaram os cientistas comuns dos torturadores nos campos de concentração não são tão claras e ressuscitou um espinhoso dilema que permanece em aberto na comunidade científica internacional: o que fazer com os resultados obtidos nas experiências?
Dados da discórdia
“Eu não queria ter de usar os dados nazistas.Mas não existem outras opções para a minha pesquisa. Nem nunca existirão num mundo ético”, diz o médico John Hayward, da Universidade de Victoria, no Canadá, que estuda os efeitos do frio no corpo humano. Apesar da defesa contundente de Hayward, a validade científica dos experimentos que ele usou é criticada por alguns pesquisadores. “Os dados são péssimos. Não havia livros de controle, métodos estatísticos nem repetição de experimentos em condições similares. Eles não têm uso nenhum para a ciência”, afirma Michael Kater, reconhecidamente uma das maiores autoridades mundiais no assunto. Robert Lifton, que entrevistou os doutores nazistas, também diz ter razões para duvidar da validade das experiências. Mesmo assim, defende sua utilização pela ciência. “Os médicos nazistas usavam como assistentes prisioneiros do campo, gente muito mais preocupada com a própria sobrevivência do que com a acuidade das pesquisas”, diz. “Mas qualquer dado que sirva para poupar sofrimento humano deve ser usado.”
Mas afinal, que dados são esses? Robert Proctor dá um exemplo: “Todos os coletes salva-vidas hoje em dia são desenhados para aquecer o pescoço justamente porque os nazistas provaram que isso aumenta as chances de sobrevivência dos náufragos em água gelada”.
Outro caso polêmico envolveu a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). Em 1989, seus especialistas foram chamados a definir regras para a utilização do fosgênio, um gás tóxico usado na fabricação de plásticos e pesticidas. O problema é que não havia estudos detalhados sobre o efeito do fosgênio em humanos – os únicos dados conhecidos sobre o assunto foram produzidos em experiências nazistas durante a Segunda Guerra. Entre utilizar essas pesquisas e arriscar a vida da população americana com uma legislação perigosa, a EPA não hesitou em escolher a segunda opção.
Mas há razão para descartar sumariamente os dados? Segundo um editorial do jornal científico Nature, não deveríamos decidir precipitadamente. “O estudo da Sociedade Max Planck descobriu que grande parte das pesquisas mais criminosas conduzidas pelos nazistas não era pseudociência – na verdade, elas seguiam métodos científicos tradicionais e estavam na vanguarda dos estudos produzidos no período.” Dentro dessa revisão histórica e metodológica das pesquisas, não estão excluídas nem as do médico mais sanguinário que já passou pela face da Terra. “Agora ficou claro o que os relatos macabros que demonizaram Mengele tendiam a encobrir: seus experimentos não eram baseados em puro sadismo, e sim em interesses científicos que, levando-se em consideração os conhecimentos da época, não eram totalmente implausíveis”, afirma a alemã Susanne Heim, líder do estudo da Sociedade Max Planck.
Se ainda não há unanimidade em torno da criteriosapesquisa nazista sobre o câncer, é compreensível que o uso dos dados obtidos de maneira antiética continue sendo polêmico. Mas negar a existência de progressos científico no período nazista não parece ser uma atitude que vá contribuir para uma melhor compreensão da história. Olhar para o lado positivo, se é que ele existe, do período mais desumano pelo qual a ciência já passou é difícil para nós, que vivemos 60 anos depois de todas essas pesquisas macabras. Que dizer, então, para pessoas que passaram a vida debruçadas em estudos exaustivos sobre as atrocidades ou convivendo diariamente com os traumas que elas deixaram. “Não há ciência no inferno de Dante”, diz o historiador Michael Kater. Mas talvez, por mais duro que seja, tenhamos de admitir que existiu ciência mesmo no inferno. Se isso acontecer, será preciso refletir sobre uma nova e inquietadora questão: é justo usarmos o sofrimento de Bluma Reicher e dos milhares que passaram pelas mãos dos doutores de Hitler para tentar evitar que mais pessoas sofram no mundo de hoje? Para essa pergunta, infelizmente não existe fórmula, equação, experimento ou qualquer outro meio científico de obter uma resposta exata.
"Pacientes bebiam dos baldes de despejodos ordenanças ou, quando ninguém via, drenavam água dos baldes de proteção antiaérea no saguão. Alguns chegavam a lamber a água usada para lavar o chão. Eu pesava os homens que faziam parte do teste todo dia e observei que a perda de peso diária era de até um quilo."
Enfermeiro de Dachau, sobre experimentos de ingestão de água salgada.
"Vi um prisioneiro suportar o vácuo até que os pulmões rebentaram. Certas experiências provocaram tal pressão na cabeça dos pacientes que eles enlouqueceram, arrancando os cabelos no esforço para aliviar o tormento. Dilaceravam as faces com as unhas, Batiam nas paredes, uivavam no intuito de aliviar a pressão nos tímpanos. Esses casos de vácuo absoluto terminavam geralmente com a morte do paciente."
Anton Pacholegg, prisioneiro de Dachau, assistente de experimentos na câmara de baixa pressão.
"Trouxeram de volta do laboratório dois gêmeos ciganos, que Mengele havia costurado um ao outro. Ele tinha tentado criar irmãos siameses unindo os vasos sanguíneos e órgãos deles. Os gêmeos gritaram de dor dia e noite até que a gangrena começou. Depois de 3 dias, morreram."
Eva Mozes-Kor, vítima de experiências de Mengele.
"Após cerca de 10 horas começavam a aparecer queimaduras no corpo todo. Havia feridas onde quer que o vapor desse gás houvesse alcançado. Alguns dos homens ficaram cegos. As dores eram tão fortes que era quase impossível permanecer perto de tais pacientes."
Testemunha de experimento com inalação e exposição ao gás mostarda no campo de Natzweiler.
A ciência sob Hitler
Não existia rival à altura da química alemã antes das guerras. O país inventou a aspirina e a novocaína (anestesia usada por dentistas) e desenvolveu fertilizantes, corantes e microscópios muito mais baratos e eficientes. O setor foi um dos que mais se envolveram com o nazismo – a ponto de o maior conglomerado farmacêutico do mundo na época (e que depois da guerra se dividiria nas empresas Bayer, Hoechst e Basf) instalar uma fábrica dentro do campo de concentração de Auschwitz.
Sob o regime de Hitler, o raciocínio matemático abstrato foi associado aos judeus e substituído pela “verdade empírica concreta” e a “intuição nórdica”. Perguntado certa vez sobre quanto a matemática havia sofrido, o alemão David Hilbert, um dos matemáticos mais importantes do século 20, respondeu: “Sofreu? Não sofreu, não. Ela simplesmente deixou de existir”.
Entre 1933 e 1938, o financiamento para pesquisas aumentou em 10 vezes. Biólogos trabalhavam com relativa tranquilidade – apenas 14% deles foram perseguidos. Mas a profunda ligação dos nazistas com a genética faz o ramo ser visto com reservas até hoje na Alemanha. “Uma perseguição completamente irracional à genética ainda existe”, afirma o cientista Benno Muller-Hill.
A Alemanha foi o berço das ideias mais revolucionárias da física teórica: a mecânica quântica e a relatividade. Mesmo assim, esse foi o ramo da ciência mais prejudicado pela ascensão do nazismo: 25% do total de físicos deixou o país – entre eles 6 vencedores de prêmios Nobel.
O mapa da insensatez
Para os cientistas de Hitler, camposde concentração eram fábricasde cobaias humanas
1. Auschwitz-Birkenau (abril de 1940 a janeiro de 1945)
Número de mortos - 1,1 milhão a 1,5 milhão.
Experiências - Pesquisas com gêmeos e anões; infecção com bactérias e vírus; eletrochoque; esterilização; remoção de partes de órgãos; ingestão de veneno; criação de feridas para testar novos medicamentos; operações e amputações desnecessárias.
2. Buchenwald (julho de 1937 a abril de 1945)
Número de mortos - 56 mil.
Experiências - Operações e amputações desnecessárias; contaminação com febre amarela, cólera e tuberculose; ingestão de comida envenenada; queimaduras com bombas incendiárias.
3. Ravensbrück (maio de 1939 a abril de 1945)
Número de mortos - Mínimo de 90 mil.
Experiências - Pesquisas fisiológicas, com remoção e transplante de nervos, músculos e ossos; esterilização; fuzilamento com balas envenenadas.
4. Dachau (março de 1933 a abril de 1945)
Número de mortos - Mínimo de 30 mil.
Experiências - Testes de hipotermia com exposição ao frio; câmeras de baixa pressão; infecção com vírus da malária; privação de líquidos com ingestão de água salgada.
5. Sachsenhausen (julho de 1936 a abril de 1945)
Número de mortos - 100 mil.
Experiências - Inalação e ingestão de gás mostarda; infecção forçada pelo vírus da hepatite; fuzilamento com munição envenenada.
6. Natzweiller-Struthof (maio de 1941 a setembro de 1944)
Número de mortos - 25 mil.
Experiências - Utilização de prisioneiros como “viveiros” de bactérias e vírus como os do tifo, varíola, febre amarela, cólera e difteria.
Dados e dilemas
Atlas Pernkopf
Em 1995, o médico Howard Israel consultou uma versão do atlas anatômico alemão Pernkopf. Quando leu o trecho “feliz conjunção de ilustradores brilhantes e corpos de criminosos executados”, ao lado de suásticas e insígnias da SS, ficou horrorizado e alertou seus colegas de profissão. Desde então, os médicos não sabem o que fazer com o livro, produzido com base na dissecação de corpos de 1 377 prisioneiros. “O Pernkopf Atlas será sempre controverso. Para muitos, é o melhor trabalho de ilustração anatômica já feito na história”, afirma o professor de arte médica David J. Williams.
Cérebros da coleção Vogt
No ano de 1986, um encontro de neuropsicofarmacologia terminou em polêmica. Após a apresentação da pesquisa sobre esquizofrenia do psiquiatra alemão Berhard Bogerts, dois médicos acusaram Bogerts de não saber com certeza se dois dos cérebros que utilizara foram obtidos eticamente. Os cérebros, pertencentes à coleção do Instituto Vogt, em Düsseldorf, na Alemanha, eram de gêmeos que podem ter sido mortos por médicos nazistas. A polêmica colocou toda a coleção de cérebros do instituto sob suspeita.


Eva Braun
e as outras mulheres de
              HitlerO maior segredo do III Reich

A mais completa biografia de Eva Braun, amante de Hitler durante 14 anos, revela segredos do homem que havia por trás do Führer alemão
Juliana Tiraboschi


As mulheres da vida de Adolf Hitler deixaram marcas profundas em sua personalidade. Klara, sua mãe, morreu quando o futuro ditador tinha 18 anos. Mas as lembranças do sofrimento causado por um câncer de mama permaneceram vivas. Geli, filha de uma meia-irmã de Hitler, tornou-se sua amante ainda na adolescência. Seu suposto suicídio, em 1931, deixou cicatrizes dolorosas no já presidente do Partido Nazista. E ainda havia a massa de milhões de alemãs. De certo modo, o tirano casou-se com todas elas. Desde sua ascensão ao poder, ainda nos anos 1930, mulher alguma poderia ser vista a seu lado. Um jogo de sedução intenso e muito bem arquitetado. "O Führer é incapaz de amar qualquer mulher. Ele pode amar apenas a Alemanha", dizia Magda, mulher do ministro da Propaganda Josef Goebbels e "primeira-dama do nazismo", ela mesma uma confessa apaixonada por seu líder. Traições nunca poderiam vir à tona. Mas havia Eva.
"A História Perdida de Eva Braun", livro recém-lançado pela Editora Globo, resgata como nenhum outro a trajetória da amante quase secreta de Hitler. Escrito pela britânica Angela Lambert, autora de cinco romances e outras duas obras de não-ficção, ele reconstrói a história de Eva Anna Paula Braun a partir da vida de seus avós, descrevendo a sociedade alemã desde o fim do século 19. Assim como em "A Queda!", filme de 2004 acusado por alguns de "humanizar" a figura de Hitler, o livro revela detalhes surpreendentes da vida íntima do Führer. Em ambos, o maior assassino do século 20 quase pode ser visto como um homem comum.


A história de Eva e Adolfsempre foi considerada um exemplo de relacionamento entre um homem dominador e uma mulher alienada, a típica "loura burra" - algo verdadeiro, diga-se. Mas, como o livro de Lambert revela, há muito mais debaixo desse verniz. "Por trás da garota exibida que corria atrás de atenção e aplauso, havia alguém menos óbvio e mais interessante", escreve a autora. Eva Braun é vista em todas as nuances de sua personalidade, e não apenas em seu lado fútil, da mulher que só se preocupava com vestidos e festas. Se politicamente sua importância foi nula, seu papel na vida pessoal do ditador formou as bases para que o Führer desfrutasse de uma atmosfera caseira e familiar, de onde pudesse comandar seu séquito movido a ódio e pressupostos de superioridade racial. Trancada nos Alpes, em sua "gaiola de ouro" - como ela mesma dizia -, Eva era o porto seguro no qual o ditador buscava refúgio e prazer.


"O relacionamento dos doisé digno de ser investigado porque o modo como ele tratou a jovem - primeiro seduzindo, depois dominando e finalmente destruindo - reflete, no microcosmo, o modo como enfeitiçou e destruiu o povo alemão", diz a autora, que estudou política, filosofia e economia na Faculdade St. Hilda's, em Oxford, Inglaterra. Em seu novo livro, Lambert destaca o pai de Eva, Fritz Braun. Professor de escola técnica e combatente na Primeira Guerra, ele viveu cercado de mulheres e, ironicamente, era completamente avesso ao nazismo. Sua esposa, Franziska (Fanny), deu à luz três meninas: Ilse, em 1909, Eva, em 1912, e Margareth (Gretl), em 1915. Patriarca tradicional, saía do sério com a rebeldia da filha do meio.
Desde pequena, Eva era teatral, engraçada e popular. "Já vivia mais em função das sensações e emoções do que do mundo racional de conhecimento e lógica", escreve Lambert. Em meados da década de 1920, Fritz Braun já se preocupava com o futuro de suas filhas. Preparar as garotas para um bom marido era de suma importância. Mas a desobediência de Eva virou um desafio. Em 1929, a adolescente de 17 anos voltou para casa depois de uma temporada em um colégio de freiras. Contra a vontade dos pais, largou os estudos, trocando-os pelos cafés, cinemas, clubes e biergartens de Munique. Seu sonho era ser atriz ou atleta profissional, qualquer coisa que lhe trouxesse fama. Mas um emprego como assistente na loja e estúdio fotográfico de Heinrich Hoffmann foi o que conseguiu. A garota passou a trabalhar para um amigo pessoal de Hitler, o fotógrafo oficial do Partido Nazista - decisão que selaria seu destino definitivamente.
Foi ali que Eva e Adolf se conheceram.Mas o líder nazista estava às voltas com a sobrinha Geli, relação que o marcou profundamente. Para entender esse caso complicado, é preciso retroceder alguns anos. Em 1927, Hitler já era um dos líderes do Partido Nazista e as vendas de seu livro "Mein Kampf" ("Minha Luta") alcançavam os milhões. Graças a seu crescente status político e financeiro, trocou um pequeno chalé nos Alpes bávaros por uma casa de campo maior na cidade de Obersalzberg. Anos mais tarde, a modesta residência seria reconstruída, transformando-se no Berghof, luxuoso complexo onde os dirigentes nazistas confabulavam. Hitler convidou sua meia-irmã Angela Raubal, que não via havia 15 anos, para ser a cozinheira e governanta da nova casa. Em julho de 1927, a filha mais velha da irmã de Hitler, Angela Maria, conhecida como Geli, se juntou à mãe.
Hitler e Geli desenvolveram uma atração mútua rapidamente, e o interesse pela jovem determinada transformou-se em paixão. Dois anos depois, Geli mudou-se para o luxuoso apartamento de Hitler em Munique, onde estudava teatro e canto. Aos amigos, Hitler não escondia seu amor, mas dizia estar apenas protegendo a sobrinha até que achasse um marido adequado para ela. Especula-se que o casal mantinha relações sexuais não convencionais - incluindo sadomasoquismo -, o que enchia Geli de vergonha. Além disso, a garota detestava o controle e o ciúme do tio. Na manhã do dia 19 de setembro de 1931, a jovem de 23 anos foi encontrada morta no chão de seu quarto. Em cima do divã, a pistola do tio. Nunca se soube exatamente o que aconteceu. Rumores davam conta de que a jovem havia sido assassinada por um namorado ciumento, pela SS (a organização paramilitar do Partido Nazista) ou por Hitler em pessoa, enraivecido por uma possível gravidez ou relacionamentos com outros homens, incluindo seu motorista Emil Maurice, com quem Geli almejava se casar. A polícia, sob pressão do Partido Nazista, encerrou o caso com uma declaração de suicídio feita por um legista.
Culpado ou não, Hitler ficou perturbado com a perda da sobrinha. Mas o fato fez com que ele passasse a olhar mais para a jovem assistente de Hoffmann, sempre em busca de sua atenção. "Hoje vemos Hitler como um monstro, mas para a maioria dos alemães da época ele era um salvador que levantaria o país após décadas de humilhação", diz Udi Greenberg, pesquisador do Centro de História Alemã da Universidade Hebraica, em Israel. Hitler também se interessou por Eva: sua devoção submissa era um alívio para as brigas que costumava enfrentar com Geli. Em dezembro de 1931, Eva visitou a casa de Hitler nos Alpes pela primeira vez. Segundo Angela Lambert, Eva provavelmente perdeu sua virgindade nessa época, embora não haja nenhuma prova de que os dois tenham mantido relações sexuais em qualquer ocasião. Há historiadores que acreditam que a relação entre os dois nunca foi carnal, mas essa crença é pura especulação.
Para o pai da garota, o relacionamento ilegítimo era uma afronta moral e política, já que ele desprezava os slogans do Partido Nazista. Hitler já havia deixado claro que não pretendia casar com Eva, mas nem isso a demoveu. "Ela estava encantada pela 'estrela' de Hitler, assim como adolescentes de hoje em relação a astros do cinema e popstars. Sua fascinação foi tamanha que ela não podia abandoná-la - e é pouco provável que Hitler permitisse isso", diz o historiador Richard Overy, professor da Universidade de Exeter, Inglaterra, um dos maiores especialistas mundiais em nazismo e Segunda Guerra.
"Hitler, assim como seu séquito - Heinrich Himmler, Hermann Göring, entre outros -, suscitava paixões de mulheres que viam algo erótico e viril no poder", diz Marcelo Caixeta, psiquiatra da Universidade de Goiás. "E, além da admiração pelo 'herói', há um componente ariano de servir ao Estado nesse comportamento feminino", afirma.
Pressionada pela recriminação dos pais e pela recusa do amante em oficializar a relação, Eva passou a ver o suicídio como uma forma de ser levada a sério. Em 31 de outubro de 1932, apanhou a pistola de seu pai e atirou no próprio pescoço. Encontrada pela irmã, foi socorrida a tempo. O susto fez com que o amante passasse a lhe dar mais atenção. Mesmo depois de eleito chanceler alemão, em 1933, o Führer continuava a esconder a existência de Eva. Nesse ano, ela passou a ir com frequência à casa de Obersalzberg, nos Alpes. Eva logo se tornaria indispensável para Hitler. Mas o amante já estava comprometido. "Hitler não se casou com Eva por razões políticas", afirma Overy. "Assim como o vegetarianismo e os hábitos de não fumar e não beber, a recusa em se casar projetava uma imagem de elevação acima do humano normal", diz Richard Evans, professor de história da Universidade de Cambridge.
Muitas mulheres ricas financiavam o Partido Nazista. Além disso, elas formavam grande parte do eleitorado. Hitler estava fadado a continuar solteiro, atiçando as fantasias daquelas que sonhavam em se aproximar de seu Führer. Ele era uma celebridade, atraindo centenas de fãs que se acotovelavam nos portões das residências oficiais e da Chancelaria, gritando que queriam ter um filho com ele. "Muitas mulheres eram histericamente malucas por ele, projetando em Hitler, à distância, o que quer que seja que estivesse frustrando suas vidas simples", diz Moshe Zuckermann, sociólogo e professor da Universidade de Tel-Aviv, em Israel. Mulheres anônimas e conhecidas. Magda Goebbels não escondia seus sentimentos: "Concordei em casar com o Dr. Goebbels porque isso significava que eu poderia ficar perto do Führer".
"Imagine o privilégio de ser a escolhida por Hitlerpara dividir com ele sua vida. Nenhuma mulher poderia ter recusado isso - tendo em vista o que ele representava para os alemães naquela época", afirma Zuckermann. E, na época, permanecer à sombra de seu homem não deveria ferir as aspirações individuais de Eva. "Não podemos aplicar percepções feministas de hoje nas mentalidades da Alemanha nazista", diz o sociólogo. Escolhida, sim. Esposa, nem pensar. Certa vez, Traudl Junge, secretária de Hitler, perguntou ao Führer por que nunca havia se casado. "Eu não seria um bom pai de família", respondeu. "Creio que os descendentes dos gênios enfrentam muitas dificuldades. Espera-se deles o mesmo que dos antepassados famosos, e sua mediocridade não costuma ser desculpada", disse o ditador. "Essa foi a primeira manifestação da megalomania pessoal de Hitler que percebi e levei a sério", contou Junge em suas memórias, que deram origem ao já citado filme "A Queda!".
Porém, por trás da resposta de Hitlersobre a paternidade se escondia um grande trauma. O ditador era fruto de uma relação entre dois primos de segundo grau. A ocorrência de cruzamentos entre parentes próximos era comum em sua cidade de origem, e a incidência de deficiência física e mental era alta na população, tendo como uma das vítimas sua irmã Paula. Hitler temia carregar "genes ruins". Se tivesse filhos que apresentassem qualquer problema genético, cairiam por terra suas ideias sobre pureza racial.
Em julho de 1934, uma manobra legislativa entregou poder total a Hitler, transformando-o em chefe de estado e comandante supremo das forças armadas. O nazismo vivia momentos de glória. Enquanto o humor de Hitler oscilava brutalmente, Eva mostrava-se sempre alegre, escondendo seu estado de ânimo verdadeiro, que por vezes chegava à depressão severa. Mas era sua obrigação manter o ambiente leve para o amante. Em maio de 1935, porém, Eva cometeu a segunda tentativa de suicídio, ingerindo 35 pílulas de um sedativo. "Decida-se: me ame ou me deixe em paz", escreveu em seu diário naquele dia - um dos poucos trechos originais que sobreviveram à sua morte. Mais uma vez, sua irmã a encontrou a tempo. Mais uma vez, vieram à tona lembranças de Geli e o medo do escândalo. Hitler voltou a se aproximar da amante.
Acompanhada da irmã, Eva passava cada vez mais tempo no Berghof, mantendo a atmosfera reconfortante que Hitler desejava encontrar quando precisasse de descanso. "A vida como dona-de-casa era uma norma para as mulheres alemãs à época, um ideal burguês com o qual Hitler e Eva concordavam", diz o professor Richard Evans. "O suicídio de Geli e as tentativas de Eva - sérias ou não - podem ter reforçado sua decisão de evitar o casamento e laços visíveis de união", diz Peter Black, historiador do Museu Memorial do Holocausto nos Estados Unidos. No "Berg", Eva era proibida de participar das atividades oficiais, e recolhia-se quando Hitler recebia visitas importantes. Magda Goebbels desempenhava o papel de anfitriã oficial. Apenas entre os mais próximos Eva podia exercer sua posição de dona da casa. Nessas ocasiões, Hitler costumava fazer observações depreciativas sobre o tipo >>>> de mulher ideal para estar ao lado de um homem como ele. Talvez como compensação, Hitler incentivava a amante a levar amigos e parentes para passarem temporadas no local. A prima Gertraud Weisker, entrevistada por Angela Lambert para o livro, foi uma dessas hóspedes. Entre as esposas nazistas, Eva era chamada de "die blöde Kuh", ou vaca estúpida. "Duvido que Eva fosse tão simplória. Hitler não era bobo e teria se cansado dela", afirma Robert Gellately, professor de história da Universidade Estadual da Flórida.




1. Eva com a mãe, Fanny; 2. A ginástica era uma das suas atividades preferidas durante os longos períodos de solidão;
3. Em seu casamento, 36 horas antes de morrer dentro do bunker; 4. Com o cunhado e parceiro de dança Hermann Fegelein; 5. Desde criança, Eva gostava de posar para as câmeras; 6. Aos 17 anos, em foto tirada pelo patrão, Heinrich Hoffmann;7. O imponente Berghof, casa de veraneio nos Alpes bávaros que se tornou lar de Eva e sede informal do governo nazista; 8. Com a fiel amiga Herta Schneider, presença constante no Berghof;9. O estúdio de Hoffman, fotógrafo oficial do nazismo, palco do primeiro encontro de Eva e Hitler; 10. Fazendo pose com o típico traje bávaro de que Hitler gostava; 11. O quarto de Eva no Berghof




Sozinha no Berghof, Eva se distraía experimentando roupas e se maquiando. Fazia longas caminhadas, banhava-se no lago, tomava sol e passava horas praticando ginástica. Via filmes e exercitava seus dotes de cineasta e fotógrafa amadora - chegou a montar uma sala escura onde revelava suas imagens. De tempos em tempos, viajava para o exterior com amigas e parentes. Quando a guerra estourou, em 1939, sua maior preocupação era a perspectiva de que as visitas de Hitler se tornariam menos frequentes. Em meio à ignorância quanto às campanhas militares, só se apavorava com os atentados contra seu Führer. "Eva Braun não tinha voz ativa na política", diz o historiador Ben Abraham, ex-detento de campos de concentração e presidente da Associação Brasileira dos Sobreviventes do Nazismo. "Mas não era tão ignorante a ponto de não saber nada sobre o que estava acontecendo. Era como o resto da população, que sabia e depois da guerra se omitiu", afirma Abraham.
"Hitler e outros líderes nazistas não queriam mulheres opinantes por perto. Era um tabu absoluto falar sobre o tratamento dado aos judeus", diz o historiador Ian Kershaw, da Universidade de Sheffield, Inglaterra. Henriette von Schirach, filha do fotógrafo Heinrich Hoffmann, foi expulsa do Berghof quando questionou Hitler sobre o tratamento dispensado aos judeus. "Um protesto nunca passaria pela cabeça de Eva. Até porque, submetida ao antissemitismo incansável de Hitler e de outros líderes, ela sem dúvida acreditava nele", afirma Kershaw. Para Angela Lambert, Eva não era antissemita, apenas ignorava a política levada a cabo pelo estadista com quem dividia os lençóis. "Ela viveu o lado brando do nazismo, das festas, dos jantares, estava entre os 'eleitos'. A obsessão pelo Führer marcava tais personagens, por isso é difícil esperar deles uma ação mais humanitária", afirma a historiadora Ana Maria Dietrich, professora da Universidade Federal de Viçosa (MG). "Não acredito que ela teria conseguido mudar a história", diz. "Talvez ela tenha usado a negação para enxergar o ser amado de maneira idealizada, focando-se nos esportes e na moda para se distrair", diz Anita Clayton, professora de psiquiatria da Universidade da Virgínia (EUA).
Com os anos, a relação de Eva e Hitler foi amadurecendo. Segundo Traudl Junge, secretária do Führer, ele se preocupava quando ela estava fora do Berghof. "Se houvesse alguma notícia de ataque aéreo a Munique, ficava impaciente como um leão na jaula, esperando um telefonema de Eva", relatou Junge. Em junho de 1944, a irmã de Eva, Gretl, se casou com Hermann Fegelein, oficial da força de combate Waffen-SS. Para Fegelein, tornar-se cunhado da amante do Führer traria status dentro do círculo nazista. Para Gretl, que estava com quase 30 anos, Fegelein era um bom partido. E Eva poderia aparecer um pouco mais, mesmo que fosse como cunhada de um oficial nazista.
Desses anos passados no retiro de Hitler,sobraram horas de filmes e centenas de fotos. A reportagem de Galileu assistiu a 3 DVDs com esse material. Nas imagens, se veem belas paisagens, crianças brincando e reuniões festivas. Eva aparece se exercitando, correndo e rindo. Uma madame alienada se exibindo? De certa forma, sim. Em uma análise mais profunda, porém, podemos imaginar que ela tentava desesperadamente chamar a atenção e eternizar sua juventude, que se esvaía em dias solitários à espera de Hitler. Mas não deixa de ser desconfortável observar o ambiente luxuoso no qual vivia em plena época de privações para a população.
A ALA FEMININA DO REICH
As outras mulheres do regime nazista
Da aviadora Hanna Reitsch à dona-de-casa exemplar Magda Goebbels, passando por artistas e as cruéis guardas dos campos de concentração, o poder e o magnetismo de Hitler atraíam a devoção das mais diferentes mulheres. Muitas não foram diretamente responsáveis pelas atrocidades cometidas pelo regime nazista contra judeus, ciganos, homossexuais e deficientes. Mas, mesmo que indiretamente, todas as mulheres dessa galeria colaboraram com o regime nazista. Porém nem todas sucumbiam ao carisma do ditador. Uma das mais famosas opositoras do regime, a atriz Marlene Dietrich nunca aceitou os convites de Josef Goebbels para que participasse de filmes produzidos com apoio do Ministério da Propaganda. "Quando Hitler subiu ao poder, fui forçada a mudar minha nacionalidade", disse Dietrich, que se naturalizou americana e cantou para os soldados das tropas aliadas durante a guerra.
>>>Hanna Reitsch
Aviadora, primeira mulher piloto de testes do mundo. Quando Hitler a convocou ao bunker com o tenente Ritter von Greim, Hanna pilotou sob fogo cerrado do inimigo e pousou o avião em segurança.
>>>Ilse Koch
Esposa de Karl Koch, comandante do campo de Buchenwald, gostava de açoitar os prisioneiros. Diz-se que colecionava abajures feitos da pele tatuada de presos assassinados e crânios humanos encolhidos. >>>Irma Grese
Guarda do campo de Auschwitz, responsável por 30 mil presas. Torturava as prisioneiras e incitava seus cães famintos a as atacarem. Foi condenada e executada em dezembro de 1945.>>>Leni Riefenstahl
Produziu filmes para o governo nazista entre 1933 e 1945. Entre eles está o polêmico "O Triunfo da Vontade", sobre o comício de 1934 do partido em Nuremberg. Morreu em 2003, aos 100 anos. >>>Maria Mandel
Membro da SS. Sádica e apaixonada por música clássica, formou uma orquestra feminina em Auschwitz, que era obrigada a tocar sempre que novas prisioneiras eram enviadas para a câmara de gás.>>>Traudl Junge
Secretária de Hitler por três anos. Seu livro "Até o Fim" foi uma das inspirações para o roteiro de "A Queda!". Sentia remorso por ter trabalhado para o ditador. Morreu em 2002, aos 81 anos.
>>>Winifred Wagner
Nora do compositor Richard Wagner e amiga do Führer. Organizava o Festival de Bayreuth, dedicado à obra de Wagner - ídolo de Hitler - e bancado pelo Partido Nazista por alguns anos.>>>Zarah Leander
Cantora e atriz nascida na Suécia, foi a artista mais bem paga da Alemanha nazista. Atuou em filmes sob a tutela do Ministério da Propaganda. Dizia-se apolítica, mas era a "diva do III Reich".
>>>Magda Goebbels
Esposa de Josef Goebbels. Assassinou seus seis filhos pequenos pouco antes de se matar. O casal fanático não
permitiria que suas crianças vivessem em um mundo sem o nazismo.

No início de 1945, os bombardeios às cidades alemãs tornavam-se mais pesados, os alemães pereciam com o frio e a fome e milhões de judeus já haviam sido exterminados. Eva Braun deixou o Berghof, seu lar durante quase dez anos, para se juntar a Hitler em Berlim. Em março, chegou à Chancelaria, onde Hitler estava alojado e, em abril, refugiou-se junto a seu amante e outros membros do Partido Nazista no bunker debaixo do prédio, um complexo abrigo antiaéreo capaz de acomodar até mil pessoas. "Ela era a única pessoa marcada para morrer nesse bunker que mostrava uma admirável e estudada calma", lembrou Albert Speer, ministro de Armamentos de Hitler, em seu livro "Inside the Third Reich" (Dentro do Terceiro Reich). Em 20 de abril, aniversário de 56 anos do Führer, Eva organizou uma surreal festa de última hora. Apesar de conformada com seu destino de morrer ao lado de Hitler, "Eva queria amortecer o medo que despertara em seu coração", escreveu Traudl Junge.
Em 29 de abril, Hitler convocou Junge, para quem ditou seus testamentos pessoal e político. "Esse ato separou Hitler de sua tarefa de Führer e, assim, tornou possível para ele, psicologicamente, se separar de seu antigo 'eu'. Ele renunciou à fantasia de ser o salvador da Alemanha, sucumbindo à sua mortalidade", diz o professor Robert Gellately. Assim, Adolf finalmente reconheceu a lealdade da companheira de 14 anos. Uma cerimônia de casamento civil foi realizada em uma sala do bunker na véspera do suicídio de ambos, tendo como testemunhas Josef Goebbels e Martin Bormann, um destacado oficial nazista. A noiva usava um vestido azul-escuro de seda. Eva Braun tornou-se oficialmente Frau Hitler.


Por volta das 15 horas do dia seguinte, Hitler e sua esposa despediram-se dos colaboradores que restavam. O casal se trancou numa pequena sala. Instantes depois, o estampido de uma arma de fogo indicou que a vida do ditador chegara ao fim. Heinz Linge, criado de Hitler, e Martin Bormann recolheram os corpos - ele morto pela ingestão de cianeto de potássio seguida de um tiro na têmpora direita, ela morta apenas com o veneno, já que não queria seu rosto desfigurado - e os levaram até o pátio da Chancelaria. Cumprindo o último desejo de seu líder, incineraram os cadáveres com 900 litros de gasolina. Hitler não queria que seu corpo fosse capturado pelos soldados soviéticos. Rumores de que Eva estava grávida surgiram depois.



Eva Braun não foi a única mulher a entrar para a História como a parceira de um ditador sanguinário. Basta lembrar de personagens como Nadezhda Alliluyeva, esposa de Josef Stalin, morta por suicídio em 1932. Mas o livro de Angela Lambert mostra que nenhuma outra mulher soube mexer com o homem por trás de um tirano como Eva Braun. É por isso que o relato de sua vida deixa a incômoda percepção de que até quem é capaz de ordenar as mais terríveis atrocidades possui uma dimensão humana que muitas vezes não gostaríamos de reconhecer.
  

Como surgiu

a ideia do Nazismo




Em nome dessa ideia, um país inteiro se armou e destruiu a Europa. De onde ela veio? O que havia nela que fascinava as pessoas? E qual é a chance de que aconteça de novo?
                        Texto Eduardo Szklarz
Julius era um sujeito querido. Sua namorada o amava, seus amigos o consideravam boa-praça, seus colegas de trabalho admiravam sua competência. Aos 29 anos, ele já comandava uma equipe de 550 pessoas. Tinha uma voz boa e, no seu tempo livre, gostava de ir a festas, cantar e dançar.
O nome completo dele era Julius Wohlauf, o comandante da 1a Companhia do Batalhão 101, o mais sanguinário corpo de extermínio nazista. Seu trabalho, que ele fazia tão bem, era manter a ordem na Polônia ocupada, o que incluía mandar judeus para a morte certa e fuzilar poloneses. Em junho de 1942, ele se casou com Vera em Hamburgo e voltou com ela à Polônia para seguir com a matança. Durante a lua-de-mel, grávida de 4 meses, Vera assistia aos fuzilamentos de dia. À noite, o casal cantava e dançava nas festas do batalhão.
Como é que Julius conciliava a vida pacata em famíliacom a rotina de assassinatos? E não foi só ele. Milhares de cidadãos participaram da matança – os ferroviários que levavam judeus à morte, as donas de casa que delatavam fugitivos, os médicos que faziam experimentos com prisioneiros (veja o quadro nas páginas 42 e 43), os funcionários das diversas indústrias públicas e privadas que compunham a máquina de matar de Hitler. Sem falar nos milhões que assistiram a tudo sem protestar, até com um sentimento de aprovação. Como uma coisa dessas pôde acontecer em pleno século 20, no coração do Ocidente democrático e “civilizado”?
A explicação está numa ideia: o nazismo. Julius, como quase toda a Alemanha, acreditava sincera e profundamente nela. Há 60 anos, quando Hitler se suicidou, o nazismo foi dado também como morto. Por décadas, o mundo olhou para ele como se não passasse de um surto de loucura – um desvairio coletivo sem sentido ou explicação. Mas, agora, vários pesquisadores têm tido coragem de procurar alguma lógica nele, inclusive para evitar que se repita. E algumas conclusões estão surgindo.
Segundo elas, o nazismo não é uma ideia louca vinda do nada e sumida para sempre. Ele é consequência de 5 outras ideias – todas aparentemente inofensivas sozinhas, todas vivas até hoje. Esta reportagem procurará entender cada uma delas – para chegar perto de compreender o nazismo.
A 1ª ideia: o carimbo da ciência
Como uma pessoa comum pode conviver com sua consciência após assassinar inocentes? A resposta: fica mais fácil dormir à noite quando se acredita que seus atos trarão o bem à humanidade. Hitler convenceu os alemães – e muitos estrangeiros – de que, após o massacre, nasceria um mundo melhor.
Isso pode soar absurdo hoje, mas era um fato aceito pela ciência da época. “O Holocausto não ocorreu no vácuo. Ele seguiu décadas de crescente aceitação científica à desigualdade entre os homens”, diz o alemão Henry Friedlander, historiador e autor de The Origins of Nazi Genocide (“As Origens do Genocídio Nazista”, sem versão brasileira). Friedlander se refere a um conceito nascido no século 19 nas melhores universidades: a eugenia.
A eugenia surgiu sob o impacto da publicação, em 1859, de um livro que mudaria para sempre o pensamento ocidental: A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Darwin mostrou que as espécies não são imutáveis, mas evoluem gradualmente a partir de um antepassado comum à medida que os indivíduos mais aptos vivem mais e deixam mais descendentes. Pela primeira vez, o destino do mundo estava nas mãos da natureza, e não nas de Deus.
Darwin restringiu sua teoria ao mundo natural, mas outros pensadores a adaptaram – de um jeito meio torto – às sociedades humanas (veja o quadro desta página e da anterior). O mais destacado entre eles foi o matemático inglês Francis Galton, primo de Darwin. Em 1865, ele postulou que a hereditariedade transmitia características mentais – o que faz sentido. Mas algumas ideias de Galton eram bem mais esquisitas. Por exemplo, ele dizia que, se os membros das melhores famílias se casassem com parceiros escolhidos, poderiam gerar uma raça de homens mais capazes. A partir das palavras gregas para “bem” e “nascer”, Galton criou o termo “eugenia” para batizar essa nova teoria.
Galton se inspirou nas obras então recém-descobertas de Gregor Mendel, um monge checo morto 12 anos antes que passaria à história como fundador da genética. Ao cruzar pés de ervilhas, Mendel havia identificado características que governavam a reprodução, chamando-as de dominantes e recessivas. Quando ervilhas de casca enrugada cruzam com as de casca lisa, o descendente tende a ter casca enrugada, pois esse gene é dominante.
Os eugenistas viram na genética o argumento para justificar seu racismo. Eles interpretaram as experiências de Mendel assim: casca enrugada é uma “degeneração” (hoje sabe-se que estavam errados – tratava-se apenas de uma variação genética, algo ótimo para a sobrevivência). Misturar genes bons com “degenerados”, para eles, estragaria a linhagem. Para evitar isso, só mantendo a raça “pura” – e aí eles não estavam mais falando de ervilhas. O eugenista Madison Grant, do Museu Americano de História Natural, advertia em 1916: “O cruzamento entre um branco e um índio faz um índio, entre um branco e um negro faz um negro, entre um branco e um hindu faz um hindu, entre qualquer raça europeia e um judeu faz um judeu”.
As ideias eugenistas fizeram sucesso entre as elites intelectuais de boa parte do Ocidente, inclusive as brasileiras. Mas houve um país em que elas se desenvolveram primeiro, e não foi a Alemanha: foram os EUA. Não tardou até que os eugenistas de lá começassem a querer transformar suas teorias em políticas públicas. “Em suas mentes, as futuras gerações dos geneticamente incapazes deveriam ser eliminadas”, diz o jornalista americano Edwin Black, autor de A Guerra contra os Fracos. A miscigenação deveria ser proibida.
Programas de engenharia humana começaram a surgir, inspirados por técnicas advindas de estábulos e galinheiros. O zoólogo Charles Davenport, líder do movimento nos EUA, acreditava que os humanos poderiam ser criados e castrados como trutas e cavalos. Instituições de prestígio, como a Fundação Rockefeller e o Instituto Carnegie, doaram fundos para as pesquisas, universidades de primeira linha, como Stanford, ministraram cursos. Os eugenistas americanos ergueram escritórios de registros de “incapazes”, criaram testes de QI para justificar seu encarceramento e conseguiram que 29 estados fizessem leis para esterilizá-los.
As primeiras vítimas foram pobres da Virgínia, e depois negros, judeus, mexicanos, europeus do sul, epilépticos e alcoólatras. Segundo Black, 60 mil pessoas foram esterilizadas à força nos EUA. Em seguida, países como a Suécia e a Finlândia começaram programas parecidos.
Portanto, quando a Alemanha de Hitler começou a esterilizar deficientes físicos e mentais, em 1934, não estava inventando nada. Só que eles foram mais longe. “Hitler está nos vencendo em nosso próprio jogo”, indignou-se o médico americano Joseph DeJarnette, que castrava pobres. Em 1939, os alemães começaram a matar deficientes, num programa de “eutanásia forçada”. Médicos usaram o gás inseticida Zyklon B para eliminar 70 mil pessoas “indignas de viver”. O programa foi suspenso após protestos, mas serviu de ensaio para os campos de concentração, onde Zyklon B exterminaria qualquer um que ameaçasse o projeto da raça pura e a consequente “melhora da humanidade”.
“Hitler conseguiu recrutar mais seguidores entre alemães equilibrados ao afirmar que a ciência estava a seu lado”, diz Black. “Seu vice, Rudolf Hess, dizia que o nacional-socialismo não era nada além de biologia aplicada.” Com o carimbo da ciência, ainda que meio falsificado, ficou mais fácil para gente como Julius compactuar com o absurdo nazista.
A 2ª ideia: um ódio ancestral
A eugenia forneceu a base teórica para o assassinato de ciganos, deficientes, homossexuais e outros “inferiores”. Mas por que só um povo foi marcado para o extermínio? Por que os judeus? Essa resposta é ainda mais antiga. “O primeiro antissemitismo foi o dos romanos, que não toleravam costumes judaicos como o shabat (dia do descanso) e o culto ao Deus único”, escreveu o historiador francês Gerald Messadié em História Geral do Antissemitismo.
Quando o Império Romano adotou o cristianismo, no século 4, a perseguição cultural e política virou religiosa. “Esquecendo-se de que Jesus foi judeu, os partidários da Igreja iriam, em nome de Jesus, cobrir os judeus de acusações”, diz Messadié. A maior delas veio em 325, quando a Igreja culpou os judeus pela morte de Cristo, uma acusação só retirada em 1965. A cristandade medieval viu crescer os mitos de que judeus eram aliados do diabo, utilizavam sangue de crianças cristãs e tramavam o domínio do mundo (veja o quadro da páginas 40 e desta). Muitos judeus se converteram ao cristianismo para não terminar nas fogueiras da Inquisição.
Ou seja, também nesse aspecto, o nazismo não foi novidade, como deixa claro o livro Christian Antissemitismo, A History of Hate (“Antissemitismo Cristão, Uma História de Ódio”, sem versão no Brasil), de William Nicholls, estudioso da religião da Universidade de British Columbia, Canadá. Nicholls mostra que muitas medidas antissemitas da lei canônica medieval são reencontradas quase palavra por palavra na jurisdição nazista dos anos 30. Tanto a obrigação do uso de uma insígnia nas roupas quanto as proibições aos cristãos de vender bens, casar ou fazer sexo com judeus já existiam em leis da Igreja do século 13. Mas o século 19 trouxe uma novidade. Antes, os judeus tinham uma saída, a conversão. Agora, com a eugenia, o antissemitismo deixou o caráter religioso e incorporou um novo conceito: a raça. A natureza dos judeus agora era imutável e nem se converter os salvaria.
Com a vitória dos nazistas e a fundação do 3o Reich, em 1933, o antissemitismo pela primeira vez se tornou política de Estado, e a população, convencida pelos mitos medievais, não pareceu se incomodar. O historiador inglês Norman Cohn, da Universidade de Sussex, constatou isso ao ler interrogatórios de ex-membros das SS, as tropas de repressão nazistas. “O genocídio dos judeus foi motivado pela ideia de que eles eram conspiradores decididos a dominar a humanidade – uma versão secularizada da ideia de feiticeiros empregados por Satanás”, afirma Cohn no livro Conspiração Mundial dos Judeus: Mito ou Realidade?.
Daniel Goldhagen, professor de Estudos Sociais e Governamentais da Universidade Harvard, ampliou a pesquisa ao estudar pessoas como Julius, que participaram do assassinato de judeus. “Movidos pelo antissemitismo, os perpetradores acreditavam que acabar com os judeus era justo, correto e necessário.” Segundo ele, nenhum homem de Julius nem de qualquer outro batalhão foi morto ou mandado a campo de concentração por se recusar a matar judeus. Ou seja, tal ato não era considerado errado naquele lugar e naquela época. No discurso de alguns ideólogos nazistas, era uma medida sanitária. Quase como exterminar ratos.
3ª ideia: o amor à pátria
A eugenia emprestou a fachada científica e o antissemitismo forneceu a motivação, mas os nazistas não teriam feito tanto barulho sem uma 3a ideia: o nacionalismo. Hitler seguiu as pegadas do primeiro-ministro prussiano Otto von Bismarck, que ajudou a inventar a identidade germânica e, com isso, unificou o então fragmentado país, em 1871, e fundou o 2o Reich. Assim, Bismarck venceu os franceses na Guerra Franco-Prussiana. Tinham se passado 12 anos da publicação de A Origem das Espécies e a Alemanha estava vitoriosa e cheia de entusiasmo. Aí o país se lançou ao imperialismo baseado no “darwinismo social”, declarando sua superioridade sobre os africanos e asiáticos e justificando assim seu direito de dominá-los.
Mas, nos anos 30, o clima era outro: o  Alemanha estava deprimida. Perdera a 1a Guerra e naufragava na desordem, na crise econômica e na desunião. Como Bismarck, Hitler fomentou o nacionalismo. “A utopia hitleriana se baseava em 3 erres: reich (império), raum (espaço) e rasse (raça)”, diz a alemã Marlis Steinert, historiadora do Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra. Segundo ela, o sonho do reich remontava à lembrança mística de Frederico Barbarossa, senhor do Sacro Império Romano-Germânico, o 1o Reich, que começou por volta de 800 e durou 1 000 anos.
Já as noções de espaço e raça vinham do século 19 e simbolizavam o vínculo entre a natureza, a terra e o homem, como cantavam os poetas do romantismo. Hitler queria expandir o território e dar à história alemã seu verdadeiro sentido, devolvendo ao povo seu espaço vital. Ele afirmava que traria de volta os tempos de grande potência e fundaria o 3o Reich. Não é à toa que a investida contra a União Soviética se chamou Operação Barbarossa.
A trilogia dos erres se encaixou na velha ideologia volkisch (“do povo”), arraigada na Alemanha antes da chegada do nazismo. Segundo ela, um povo só floresce se todas suas partes estão saudáveis. É aí que entra a interpretação nazista do socialismo. Afinal, você já deve ter se perguntado por que o partido de Hitler (o Nacional-Socialista) tinha socialismo no nome, se era absolutamente anticomunista. “Para Hitler, o socialismo era a ciência da prosperidade coletiva e nada tinha a ver com marxismo”, afirma Marlis. O “socialismo” dos nazistas tinha esse nome porque supostamente colocava o coletivo (social) acima do indivíduo.
E qual era a principal ameaça a esse ideal nacionalista de um corpo saudável? Os judeus, por não terem um lar nacional. Aos olhos nazistas, eles formavam uma nação internacional e eram portanto mais perigosos que qualquer país estrangeiro, por corroer a Alemanha de dentro, como uma infecção. Em seus discursos, Hitler os acusava de desnacionalizar o Estado e alterar a pureza do sangue ariano para destruir o povo. Ele os chamava ora de comunistas, ora de capitalistas, mas sempre materialistas, em oposição ao idealismo germânico. “Para o pensamento hitlerista, ser socialista é também ser antissemita porque o socialismo se opõe ao materialismo e protege a nação”, diz Marlis.
Mais uma vez, gente como Julius tinha uma justificativa para matar. Na sua cabeça, era em nome da nação, do coletivo. E, para alguns, fica mais fácil tolerar a injustiça contra indivíduos quando se acredita que o objetivo final é o bem comum.
4ª ideia: a fria modernidade
“O Holocausto foi executado na sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano. Por isso, é um problema da nossa civilização e da nossa sociedade”, diz o sociólogo polonês Zygmunt Baumann, autor de Modernidade e Holocausto. Por isso é tão difícil falar abertamente sobre o assunto. O nazismo diz respeito a nós. Auschwitz é tão ocidental e moderno quanto a calça jeans. O Holocausto foi feito ao modo moderno: racional, planejado, “cientificamente” fundamentado, especializado, burocrático, eficiente.
Os genocidas obedeciam a rotinas de organização. Julius e seus homens fumavam entre os fuzilamentos, como um funcionário de escritório. Relaxavam, batiam papo e voltavam a disparar. Foi com uma solução moderna, os cartões perfurados das máquinas Hollerith da IBM, que os nazistas localizaram suas vítimas. A IBM não só forneceu máquinas, mas idealizou o sistema e prestou assessoria técnica para que tudo funcionasse nos conformes.
Quando os nazistas perceberam que tiros não seriam suficientes para eliminar os 11 milhões de judeus da Europa, recorreram a outra solução moderna, as câmaras de gás, inspiradas nas mais avançadas tecnologias de dedetização. Auschwitz era uma fábrica de matar – tinha capacidade para queimar 4 756 corpos por dia em 5 crematórios. Uma grande “inovação”, se comparada aos métodos usados pelos turcos contra os armênios em 1915: fuzilamento, golpes de clavas e baionetas.
A tecnologia moderna libertou o homem de séculos de domínio da natureza. Graças a ela o homem pela primeira vez acreditou que não era apenas uma “criatura de Deus”, a mercê de Seus desígnios, mas um sujeito capaz de moldar o mundo. Foi justamente o que os nazistas quiseram fazer: mudar a Terra, construir sua utopia. E pretendiam fazer isso do jeito moderno: sem questionamentos morais, em nome do “progresso”.
Ainda assim, não faltaram contradições no casamento entre o nazismo e a modernidade. Hitler usou as técnicas, mas combatia as ideias modernas. Era contra os valores de igualdade, liberdade e democracia emanados pela Revolução Francesa. E, como você vai ver a seguir, quis reinstaurar a Antiguidade grega em pleno século 20.
5ª ideia: a ilusão da beleza
Este último componente do nazismo é talvez o mais chocante. Por trás da tragédia do Holocausto e da morte de 50 milhões de pessoas, estava o sonho de criar um mundo mais puro, mais harmonioso – enfim, mais belo. “O nazismo também era estética”, diz o sueco Peter Cohen, diretor do documentário Arquitetura da Destruição. “Pregava que uma nova Alemanha surgiria, mais forte e bonita, num sonho ao qual só os artistas podiam dar forma.”
O 5º elemento do nazismo aflorou da personalidade de seus líderes. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, escrevia romances e peças teatrais e vários outros líderes nazistas eram artistas e escritores. Hitler pintava aquarelas. Com o amigo de infância August Kubizek, ele escreveu uma ópera seguindo uma ideia do compositor Richard Wagner, expoente do romantismo alemão e da escola volkisch. A trama se passa na Roma medieval e o protagonista é um tal Rienzi, um plebeu que tenta restabelecer a Antiguidade.
O Führer parecia decidido a encarnar Rienzi na vida real. Seria ele o artista-príncipe que anunciaria a nova civilização clássica, inspirada na Grécia e em Roma. Tanto que o ditador era também diretor, cenógrafo e protagonista dos comícios nazistas. Ele mesmo desenhou as bandeiras, os estandartes, os uniformes e a temível insígnia da suástica. Quando a guerra começou, ele mandou artistas ao front para pintar as glórias do exército e ordenou a confecção de esculturas gigantescas inspiradas no ideal grego de beleza. Uma dessas esculturas era dele próprio e seria colocada no centro de Berlim, planejada para ser a cidade mais grandiosa do mundo, capital da futura civilização. Hitler tinha uma ideia peculiar sobre arte. Assim como os arianos eram a raça pura, os clássicos eram a arte pura. E a arte moderna seria a equivalente dos judeus (e das ervilhas enrugadas): degenerada. As fileiras nazistas estavam cheias de artistas, mas a classe profissional mais numerosa no partido era a dos médicos. Tanto uns como outros tinham um sonho em comum: uma sociedade mais “harmônica” e, consequentemente, mais “saudável”.
Na vida real, Hitler só encenou o 1o ato de sua ópera. Projetou sua megalômana Berlim e desenhou os esboços de prédios monumentais para várias cidades alemãs. A morte de todos os judeus faria parte desse projeto estético de um mundo mais harmonioso. Felizmente, não deu tempo de terminar nem as obras nem o extermínio. Em 1941 ele percebeu que não venceria. Quanto mais perto da derrota, mais intensificava o genocídio – convencido de que o esforço valeria a pena se pudesse deixar para a posteridade um mundo sem judeus. Apesar da necessidade de logística na guerra, os trens davam prioridade ao transporte de prisioneiros para os campos. “Para Hitler a perda da guerra não significava o fim do nazismo, pois a queda do 3o Reich influenciaria as futuras gerações”, diz Cohen. “O país se reergueria das ruínas. Da derrota total, brotaria uma nova semente.”
Sobrou uma semente?
O sonho de Hitler, felizmente, não se realizou. O nazismo deixou de existir como alternativa política no momento em que a 2a Guerra Mundial acabou. Mas será que ele pode voltar?
“Embora a História se repita, nunca é da mesma maneira. Dificilmente veremos uma situação idêntica à da Alemanha nazista”, diz a escritora e ex-deputada espanhola Pilar Rahola. “Mas não estamos livres da estruturação do nazismo em partidos políticos, como os do austríaco Jorg Haider e do francês Jean-Marie Le Pen, que camuflam sua ideologia com discursos ultracatólicos”. Cresce também o totalitarismo ideológico, incluindo o de base islâmica. “Não é à toa que terroristas islâmicos têm se conectado com grupos de extrema direita e o próprio Haider é admirador de bin Laden”, diz Pilar.
Edwin Black diz que a eugenia também está viva e continua definindo o valor do indivíduo com base no seu valor genético. A diferença é que os eugenistas de hoje não se guiam por bandeiras e sim por dinheiro. De posse de banco de dados com identidades de DNA, agências de emprego e companhias de seguro estão negando serviço a pessoas que têm doenças degenerativas. “Assistimos à aparição de uma subclasse discriminada por sua linhagem ancestral”, afirma. “O Parlamento inglês chamou esse fenômeno de gueto genético.”
Os genocídios tampouco deixaram de existir após o Holocausto. Nos últimos anos, assistimos à morte de 100 mil curdos no Iraque, 200 mil bósnios na ex-Iugoslávia e 800 mil tutsis em Ruanda. Para o escritor israelense Amos Oz, autor de Contra o Fanatismo, ideologias que pregam a superioridade de uns sobre os outros nunca fizeram tanto a cabeça dos jovens. “Quanto mais complicada a vida se torna, mais buscamos respostas simples. E essas respostas às vezes são fanáticas”, diz ele.
O nazismo pode até ter morrido. Mas os seus 5 pilares, as 5 ideias que deram origem a ele, sobreviveram à guerra e aos 60 anos depois dela. O carimbo de “aprovado pela ciência” continua sendo distribuído a esmo, e dando aval a projetos imorais. O racismo e a noção de que os homens são desiguais continuam a ser forças que movem multidões, e o nacionalismo exacerbado anda quase sempre ao lado deles. A “busca do progresso” e a modernidade continuam sendo argumentos invencíveis, que quase sempre dispensam a ética em nome da eficácia (ou, cada vez mais, do lucro). E as utopias continuam convencendo o homem a desprezar o indivíduo em nome do “moderno”, do “belo” ou do “sonho”. Pelo menos já sabemos no que essa mistura pode dar. É melhor não esquecer.

De Darwin a Hitler
1859 - Charles Darwin
Publica A Origem das Espécies, em que defende a seleção natural.
1866 - Gregor Mendel
Identifica as características dominantes e recessivas.
1869 - Francis Galton
Diz que a hereditariedade transmite qualidades mentais. Galton não queria eliminar os indesejáveis, mas incentivar a procriação dos desejáveis. Daí a ideia ser conhecida como “eugenia positiva”.
1876 - Cesare Lombroso
Relaciona traços físicos com propensão ao crime e afirma que alguns bandidos nascem para o mal. Com isso, alimenta o ódio racial.
1880 - Alfred Ploetz
O socialista alemão vai aos EUA e se impressiona com as ideias de Galton. Na volta, funda a Sociedade para Higiene Racial, a estreia da eugenia na Alemanha.
1911 - Charles Davenport
Líder dos eugenistas americanos, considera a inferioridade um traço dominante. É pioneiro da "eugenia negativa”, cujo objetivo era eliminar os "incapazes”.
1921 - Eugen Fischer, Erwin Baur e Fritz Lenz
Publicam O Ensino da Hereditariedade Humana e da Higiene Racial, livro de cabeceira de Hitler na cadeia, em 1924.
1925 - Adolf Hitler
Em Mein Kampf (“Minha Luta”), escrito na cadeia, afirma que só humanos com traços hereditários valiosos devem procriar – os judeus estão fora.

O mito da conspiração
325
O Concílio de Nicéia acusa os judeus de terem matado Jesus.
1348
A Inquisição acusa judeus de envenenar poços.
1797
O francês Augustine Barruel diz que a Ordem dos Templários é uma sociedade secreta maçônico-judaica para abolir as monarquias e o papado.
1869
O historiador francês Gougenot des Mousseaux diz que o mundo está nas garras dos judeus cabalistas, adoradores de Satanás.
1886
O sérvio Osman-Bey menciona uma tal “aliança israelita universal” e propõe o extermínio dos judeus.
1890
O jornal jesuíta La Civilità Cattolica descreve o povo judeu como um polvo gigante apertando o mundo.
1903
O editor russo P. A. Krushevan publica a 1a versão dos Protocolos dos Sábios de Sião num jornal. O texto, de autor anônimo, fala de uma suposta reunião de judeus que tramam o domínio do planeta.
1918
Os Protocolos são usados para justificar o assassinato de judeus na guerra civil russa.
1925
Em Mein Kampf (“Minha Luta”), Hitler cita os Protocolos para argumentar que a ameaça judaica deve ser eliminada.
1933
A Alemanha nazista adota os Protocolos em escolas.

A "ciência" nazista
Carl Clauberg
Desenvolveu um método de esterilização forçada em massa ao introduzir um composto irritante no aparelho reprodutor feminino. Após algumas semanas, a inflamação bloqueava as trompas.
Horst Shumann
Expunha o ovário de prisioneiras aos raios X. Como a alta radiação chegava a queimá-las, Shumman admitiu que a castração cirúrgica era mais eficaz.
 Johann Paul Kremer
Observava as pessoas morrerem de fome. Ele as acompanhava definhar até chegarem ao último ponto de exaustão, conhecido como estado Musselman. Em seguida, aplicava-lhes uma injeção de fenol e fazia necrópsia antes que o corpo esfriasse.
Joseph Mengele
Fazia experimentos com gêmeos e anões. Separava órgãos e cabeças de crianças ciganas e os mandava, preservados em jarros, para instituições como a Academia Médica de Gratz, na Áustria.
Friedrich Entress, Helmuth Vetter e Eduard Wirths
Observavam a tolerância e a eficácia de substâncias químicas em prisioneiros para a fabricação de remédios por empresas farmacêuticas alemãs.
August Hirt
Mediu os ossos de 115 prisioneiros de Auschwitz (79 judeus, 30 judias, 2 poloneses e 4 asiáticos), mandou-os para as câmaras de gás e depois colocou os corpos em sua coleção de esqueletos. A intenção era usá-la em estudos antropológicos para demonstrar a superioridade da raça nórdica.


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Reportagem
edição 4 - Fevereiro 2004
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KLAUS BARBIE: o ocaso do carrasco
Klaus Barbie, o açougueiro de Lyon, capturou Jean Moulin, o principal chefe da Resistência Francesa, mandou milhares de judeus para os campos de concentração e, depois da guerra, colaborou com a ditadura boliviana. Sádico e cruel, o oficial de Adolph Hitler executava com muito empenho as ordens de seus superiores.
Rémi Kauffer
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Entre sua chegada a Lyon, no fim de 1942, e sua fuga precipitada diante dos exércitos aliados no verão de 1944, foi ele o caçador. Vinte meses de batidas, de perseguições, de armadilhas. O prazer de perceber a angústia em lábios que tremem, em joelhos vacilantes. Pois ele, o Obersturmführer das SS, número 272284, espécime eminente da raça dos senhores, não temia Deus nem o diabo. Fanfarrão, era visto percorrendo com frequência as ruas de Lyon acompanhado de três ou quatro homens, não mais.

Nessa época, ainda não era chamado de o carrasco de Lyon - um achado do pós-guerra. Mas o Obersturmführer Klaus Barbie já tinha um considerável currículo como caçador. Clandestinos ligados a redes de resistência francesas ou britânicas, maquis, judeus - inclusive crianças, como em Izieu. Centenas de deportações raciais ou não, assassinatos, torturas, execuções. E o fino do fino, a captura dos chefes da Resistência - entre eles Jean Moulin, reunidos para designar o novo chefe do exército secreto - em Caluire, no dia 21 de junho de 1943.

Brutal, sádico, desprovido de escrúpulos: assim era Klaus Barbie. Um puro produto do fanatismo ideológico nazista, com seu desfile de racismo, de desprezo pelos seres inferiores.

EUA protegem o nazista

A estada de Barbie em Lyon foi agradável. Depois da derrota do III Reich começam os dias penosos em que o caçador se faz caça, e o oficial das SS passa a se esquivar. Promovido a Hauptsturmführer (capitão) em novembro, o ex-chefe do Amt IV do KdS de Lyon retornou a uma Alemanha que, sob as bombas dos aliados, não para de se encolher.
Barbie figura como criminoso de guerrano Central Registry of Wanted War Criminals and Security Suspects, o Crowcass, um arquivo organizado pelos aliados. Na lista dos agentes alemães que atuaram na França, criada pela polícia do exército francês, ele aparece com o nome de "Barbier".

Mas é preciso ter cuidado,pois uma guerra pode esconder outra, e a Segunda Guerra Mundial dá lugar à Guerra-Fria. Em abril de 1947, Barbie é recrutado em Munique por uma unidade especial do Counter Intelligence Corps americano. Os objetivos do CIC não eram a perseguição de criminosos de guerra, atributo de outro ramo da organização, mas a luta contra a espionagem soviética na zona de ocupação americana, a infiltração no KPD, o partido comunista alemão, e a obtenção de informações sobre o aliado francês - alvo de desconfianças.

Teria o ex-chefe do Amt de Lyonrelatado a seus superiores americanos o martírio de Jean Moulin, o representante pessoal do general de Gaulle na França ocupada, e de seus camaradas de Caluire? É pouco provável. Mas por que não mencionar as operações que efetuou em maio de 1944? Com as informações de um agente duplo, o franco-alemão Lucian Wilhelm Iltis, responsável pelo aparelho clandestino da Internacional Comunista e simultaneamente informante da Gestapo de Estrasburgo, Barbie desarticulou o estado-maior da resistência militar comunista da zona sul da cidade em apenas três dias.

Cerca de 40 dirigentes, dezenas de franco-atiradorese de combatentes caíram na armadilha nazista apenas um mês antes do desembarque na Normandia: um exemplo eloquente de eficiência, apropriado para ser exposto a seus interlocutores - e logo patrões - americanos.

Vida na Bolívia

No começo de 1951, depois de cinco anos de bons e leais serviços, Klaus Barbie e sua família seguem a linha dos ratos, esta sucessão de etapas que conduz antigos nazistas para a América do Sul. É na Bolívia que ele se instala, um país de 3 milhões de habitantes, onde os imigrantes alemães são tradicionalmente numerosos. Naturalizado boliviano em outubro de 1957, sob o falso sobrenome de Altmann, começa a engordar seu patrimônio. Acolhe com fleuma a visita oficial do general de Gaulle em setembro de 1963. Por que deveria inquietar-se, já que o presidente francês, em seus projetos de reaproximação com a Alemanha Federal, já libertou seus dois ex-chefes, os generais Oberg e Knochen? Dois meses mais tarde, o exército francês, tendo localizado Barbie em La Paz, solicita que o Sdece, os serviços especiais franceses, se ocupem do caso, mas o pedido não dá resultados.
Em 1966, o ex-agente das SS número 272284começa a lidar com armamento naval. Com o apoio do general-presidente Barrientos, ele cria a Transmaritima Boliviana, uma sociedade da qual possui 49% das ações (os 51% restantes pertencem ao Estado).

Colaboração com a ditadura boliviana

Localizado pelos serviços franceses, Barbie também é encontrado pelos americanos. A CIA chegou a cogitar propor-lhe uma nova colaboração antes de desistir da oferta, depois de uma queixa feita por um senador influente, Jacob Javits, alertado por um de seus eleitores. Pior para a CIA que, inquieta por causa do crescimento das ideias castristas na América do Sul, procura informantes na região. Ela localiza Che Guevara na Bolívia, onde o revolucionário argentino tenta implantar uma oposição armada ao regime de Barrientos. Pouco depois, a polícia boliviana captura um jovem militante de extrema-esquerda, Régis Debray, teórico do foco guerrilheiro.

Com a ajuda da CIA, os militares bolivianoscercam Che Guevara que, ferido, será executado sem processo a 9 de outubro de 1967. Uma complicação surge dois anos mais tarde: informado da presença de Barbie pelo cônsul da França em La Paz, o embaixador e o ex-chefe da Resistência do maquis de Glières, Joseph Lambroschini, reconhece sua impotência.

Negociando com as autoridades bolivianas para obter a libertação de Régis Debray, condenado a 30 anos de prisão, os diplomatas franceses não estão em condições de exigir a extradição de Barbie simultaneamente. Libertado, Debray volta a Paris em 1970. No ano seguinte, o ex-oficial nazista recolhe contribuições na região de Cochabamba, onde tem vários negócios.
O carrasco de Lyon trabalha para o general Hugo Banzer,
um militar de extrema direita decidido a derrubar o governo de esquerda do general Torres. A missão foi cumprida em junho de 1971. Como recompensa pelos bons e leais serviços, os amigos de Banzer nomeiam Barbie tenente-coronel honorário dos serviços secretos. Onipresente, o ex-oficial das SS também serve de intermediário com a Alemanha para a compra de armas. Mas um dia o vaso se quebra. Beate e Serge Klarsfeld, os caçadores de nazistas seguem seu rastro. Em janeiro de 1972, Beate vai ao Peru, onde Barbie passa férias, e depois chega à Bolívia. Sua iniciativa permite tornar público o caso. No dia 1.o de fevereiro, a França pede a extradição. Evidentemente, La Paz não se empenha em agir rapidamente.

Régis Debray reaparece a esta altura dos acontecimentos.Ele se tornara conselheiro do presidente socialista chileno Salvador Allende, e toma a iniciativa de entrar em contato com Klarsfeld durante uma visita a Paris. Um projeto ambicioso nasce do encontro dos dois, num café de Saint-Germain-des-Prés: oficiais ligados à oposição de esquerda ao regime de Banzer e guerrilheiros bolivianos raptariam Barbie, que seria levado ao Chile, de onde seguiria por barco à França. Refugiado político no Chile, Gustavo Sánchez, ex-chefe da polícia de Cochabamba, também de passagem pela França, se une ao complô que apoia o ex-presidente Torres, agora refugiado no Uruguai, onde será assassinado pouco tempo depois.

Com o passaporte de um amigo,Serge Klarsfeld vai ao Chile no fim de dezembro de 1972. Leva 5 mil dólares para comprar um carro destinado a levar Klaus Barbie clandestinamente. Klarsfeld e Debray vão até a fronteira, onde encontram Sánchez e outros bolivianos, entre eles dois oficiais.

Nos meses seguintes, dois acontecimentosinesperados mudam infelizmente o quadro. Primeiro, um acidente com o carro comprado graças aos 5 mil dólares de Klarsfeld; em seguida, a prisão momentânea de Barbie, em 2 de março de 1973, por causa de dívidas não pagas e do exame do pedido de extradição feito pela França. Conforme o previsto, no dia 5 de julho a corte suprema da Bolívia recusa o pedido de extradição: Herr Altmann não pode ser extraditado para a França, pois não há nenhum tratado neste sentido entre os dois países. Mas Barbie só sai de sua cela na prisão de San Pedro no dia 25 de outubro, um mês e meio depois do golpe contra Allende no Chile, o que torna impossível a realização do plano de Debray e dos Klarsfeld.
Prisão perpétua

Mas o desfecho da história foi apenas adiado. O casal de caçadores de nazistas logo consegue infiltrar uma amiga alemã - cuja identidade se recusam até hoje a revelar - nos círculos frequentados por Barbie. Sempre protegido pelas autoridades bolivianas, Barbie esconde cada vez menos seu passado nazista. Mas em julho de 1978, seu amigo, o general Banzer, renuncia e foge. Golpes de Estado (o ex-SS desempenha, às vezes, papel importante, como em julho de 1980), demissões forçadas, manifestações. No começo de 1982, os EUA, cansados das ditaduras militares latino-americanas, impõem o retorno ao poder do democrata Hernán Siles Zuazo, cujo secretário de Estado da Informação, e logo chefe da polícia do exército, é Gustavo Sánchez, velho cúmplice de Debray e dos Klarsfeld. Debray se tornou conselheiro do presidente Mitterrand. Com o apoio dos Klarsfeld, o ex-companheiro do Che exuma o dossiê de Barbie. Tudo se acelera. Privado de sua nacionalidade boliviana por causa de falsas declarações de identidade quando de sua entrada no país, o carrasco de Lyon é preso. É necessário entregá-lo à França, onde cometeu uma boa parte de seus crimes; ou à Alemanha, seu país de origem, que o reclama para julgá-lo.

Depois de hesitações e ofertas comerciais e econômicas,Sánchez e os bolivianos escolhem a França. No dia 4 de fevereiro de 1983, às 21 horas, oficialmente extraditado para o único país que aceita acolhê-lo, Barbie deixa algemado a prisão de San Pedro. No aeroporto, aviadores franceses e agentes da DGSE se ocupam dele. No dia seguinte, às 22h25, um camburão leva o carrasco de Lyon para a prisão de Montluc, lugar de suas sinistras façanhas, 40 anos antes. Na sexta-feira, dia 3 de julho de 1987, Klaus Barbie é condenado pelo tribunal de Lyon à prisão perpétua por crimes contra a humanidade. Em 1991, no dia 25 de setembro, o ex-oficial nazista morre na prisão, vítima de câncer.
Rémi Kaufferé professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris.



Aventuras na História -  Fevereiro 2009
Pio XII: bendito ou maldito?
Pio XII foi eleito papa no mesmo ano em que a Segunda Guerra Mundial estourou: 1939. Até hoje não se chegou a uma conclusão sobre a postura do religioso durante o Holocausto. Afinal, a Igreja foi omissa? Uma reação firme teria evitado ou aumentado o número de inocentes mortos?
A reconciliação entre a Igreja e os judeus avançou mais nos últimos 40 anos do que em toda a História do cristianismo. Mas resta um grande obstáculo a superar: a campanha pela beatificação de Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, o papa Pio XII (1876-1958). Iniciada em 1965, a causa estava suspensa pelo Vaticano até outubro último, quando, durante a missa do aniversário de 50 anos da morte de seu antecessor, Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, argumentou pela retomada do caso. O problema é que líderes de organizações judaicas e famílias de sobreviventes do Holocausto acusam o sumo pontífice de omissão ante as atrocidades nazistas na Segunda Guerra Mundial, iniciada em setembro de 1939. Já o Vaticano assegura que Pio XII, que assumiu o papado há 70 anos, em março de 1939, atuou em silêncio para evitar o pior.

Essa controvérsia causaria surpresapara muitos judeus que viveram durante o conflito. Albert Einstein (1879-1955), um refugiado do nazismo, e a primeira-ministra israelense Golda Meir (1898-1978), por exemplo, expressaram publicamente sua gratidão ao Santo Padre por salvar judeus do genocídio. A polêmica só ganhou força em 1963, com a peça de teatro O Vigário, do protestante alemão Rolf Hochhuth, hoje com 77 anos. Nela, Pacelli era retratado como um sujeito calculista e sem moral, que ignorou o sofrimento dos judeus em nome de interesses próprios. É uma obra de ficção, embora ancorada em ampla pesquisa do autor. Até que ponto ela teria algo de verdade?

Essa é a pergunta que ainda hoje instiga os historiadores. Nos últimos anos, mais de dez livros foram lançados, com diferentes interpretações sobre a conduta do pontífice antes e durante o regime nazista. Em geral, eles podem ser divididos entre os pró e os contra Pio XII. Uns o acusam de ser cúmplice do Holocausto, enquanto outros garantem que ele atuou nos bastidores para salvar quantas pessoas pôde. Mas, antes de conhecer os argumentos dos dois lados, é preciso entender a situação do Vaticano nos anos anteriores à Segunda Guerra.

Igreja ameaçada
O poder dos papas vinha naufragando desde a Revolução Francesa, em 1789. Na época, a razão começava a reinar sobre a fé, e os Estados modernos estavam dispostos a separar a religião da política. Durante o século 19, as propriedades da Igreja foram saqueadas e seus territórios viviam sob constante ameaça. Em 1809, o imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821) chegou a sitiar o Vaticano e prender Pio VII (1742-1823). Na tentativa de diminuir o poder do catolicismo na França, ele manteve o pontífice confinado durante mais de quatro anos.

Napoleão foi derrotado em 1815,mas o processo de unificação da Itália botou as terras da Igreja novamente em risco. Em 1860, o rei piemontês Vitório Emanuel II (1820-1878) já controlava quase todos os domínios papais do centro da Itália. Nessa época, surgiram duas correntes dentro da Santa Sé. Uma delas insistia no poder papal absolutista: a outra queria repartir esse poder com Igrejas nacionais independentes de Roma. A primeira alternativa levou a melhor no Concílio Vaticano I. A Igreja proclama, em texto de 1870, o dogma do papa incontestável e infalível. Os líderes nacionalistas logo deram o troco. Na Alemanha, na Bélgica e na Suíça, ordens religiosas foram expulsas pelos governos locais e o ensino ficou nas mãos do Estado. Na Itália, manifestantes protestaram durante o cortejo fúnebre de Pio IX (1792-1878) e só não jogaram o caixão no rio Tibre porque os seguranças agiram rápido e salvaram o cadáver do papa.

Diplomata centralizador
Diante da crise, os novos líderes da Igreja tinham agora um duplo desafio: defender a integridade da instituição e recuperar o poder político entre os donos da Europa. Para isso, a Santa Sé investiu pesado na formação de diplomatas - entre eles Eugenio Pacelli, um romano nascido em 1876 numa família de juristas a serviço do Vaticano. Ele ajudou a reformular a legislação católica, a fim de conceder aos pontífices uma autoridade indiscutível. Em 1917, essas leis foram compiladas no Código de Direito Canônico.

Partidos fechados
O outro trunfo de Pacelliera um doutorado sobre as concordatas, nome dado aos tratados que a Santa Sé usava (e continua usando) para regular suas relações com os Estados - por exemplo, para garantir o direito da Igreja de controlar escolas religiosas ou celebrar casamentos. Em novembro último, o Brasil assinou um acordo desse tipo com o Vaticano, que gerou críticas de entidades contrárias ao ensino religioso em escolas públicas e a outros privilégios de caráter não-laico.

Durante décadas, o conteúdo desses tratados(em geral assinados pelo papa com os soberanos, ou por cardeais-secretários de Estado com embaixadores autorizados) tinha variado de acordo com o país. "Com o código de 1917, porém, a concordata virou um instrumento que impunha condições a bispos, padres e fiéis, sem consultas e em qualquer lugar do mundo", diz o jornalista britânico John Cornell, autor de O Papa de Hitler - A História Secreta de Pio XII.

Foi uma dessas concordatas que o papa Pio XI (1857-1939) assinou em 1929, com o ditador italiano Benito Mussolini (1883-1945): o Tratado de Latrão. Elaborado pelo irmão mais velho de Pacelli, Francesco, o documento reconhecia o Vaticano como Estado soberano e o catolicismo como a única religião da Itália. Em troca, fechava o Partido Popular Católico. Por quê? Simples: o Vaticano queria os fiéis fora da política para não prejudicar sua hierarquia e influência.

Muito antes de se tornar líder máximo dos católicos, Pacelli estava convencido de que a Igreja só permaneceria unida no mundo moderno com o fortalecimento da autoridade dos papas. Na década de 20, quando era embaixador do Vaticano na Baviera, ele tinha assinado esses acordos com a Rússia, a Letônia e a Polônia. Em 1933, já secretário de Estado do Vaticano, ele via no Tratado de Latrão o modelo perfeito para seu maior objetivo: uma concordata com a Alemanha, onde viviam cerca de 23 milhões de católicos.

O único problema era o chanceler Adolf Hitler (1889-1945). "Pacelli e Hitler nutriam um desprezo mútuo. Cada um se sentia ameaçado pelo potencial do outro de exercer poder mundialmente", escreve o jornalista americano Dan Kurzman no livro Conspiração contra o Vaticano. "Apesar da desconfiança, os dois viram vantagens - pelo menos temporárias - em frear o conflito com a assinatura de uma concordata em 1933." O acordo tornou todos os alemães sujeitos às leis canônicas e acabou com o Partido do Centro Católico, a única agremiação democrática que ainda restava no país.
Até aqui,não há grandes dúvidas a respeito do religioso. Os historiadores começam a se dividir a partir do momento em que o cardeal se tornou papa, em 1939. Afinal, ele foi omisso ou discreto durante o Holocausto?

Contra Pio XII
Para Cornwell, o italiano não foi apenas omisso; ele ajudou o Führer: "Como disse Hitler, numa reunião ministerial de 14 de julho de 1933, a garantia de não-intervenção de Pacelli deixava o regime livre para resolver a questão judaica". Isso não significa que Pacelli simpatizasse com o Partido Nazista. Ao contrário: não apoiava sua plataforma racista e via nele uma ameaça à religião. "Mas o temor ao nazismo era ofuscado por um medo ainda maior de Pacelli, o comunismo", diz o historiador Michael Phayer, da Universidade de Marquette, nos Estados Unidos. Foi com essa mesma lógica antimarxista que a Igreja apoiou ditadores como Benito Mussolini, na Itália, e Francisco Franco (1892-1975), na Espanha. Valia tudo para conter o "perigo vermelho". Até mesmo fazer um pacto com o diabo.
Mas o ponto é: Pio XII ficou mesmo em silênciodurante o Holocausto? Nem tanto. O papa falou, sim, mas poucas vezes e de forma ambígua. Nos discursos de Natal que fez em 1941 e 1942, por exemplo, condenou a violência, sem mencionar "nazistas" nem "judeus". No discurso de 1942, o mais importante, quando as atividades dos campos de concentração estavam no auge, ele afirmou: "A humanidade deve esse voto às centenas de milhares de pessoas que, sem qualquer culpa pessoal, às vezes apenas por motivo de sua nacionalidade ou raça, estão marcadas para a morte ou extinção gradativa". Foi o ponto máximo de seu protesto diante das atrocidades de um regime que, ao fim da guerra, teria matado cerca de 6 milhões de judeus.
A historiadora Susan Zucotti, da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, não tem dúvida: se Pio XII tivesse sido mais incisivo, teria ajudado a salvar muitas vítimas. No livro Under His Very Windows: The Vatican and the Holocaust in Italy ("Sob suas próprias janelas: o Vaticano e o Holocausto na Itália", sem edição no Brasil), ela lembra que os croatas fascistas eram muito devotos e, por isso, suscetíveis a acatar pedidos feitos pelo papa. "Como as autoridades da Igreja deixaram os católicos em ambiguidade moral ao não falar, a grande maioria deles se manteve como espectadora", afirma o historiador Michael Phayer em seu livro The Catholic Church and the Holocaust ("A Igreja Católica e o Holocausto", sem edição disponível no Brasil).
É certo que muitos católicos arriscaram a vidapara esconder os judeus em suas casas, igrejas e escolas. No entanto, para Zucotti e Phayer, eles prestaram essa ajuda apesar do papa, e não por causa do que ele disse ou fez. "Pio XII fez relativamente pouco pelos judeus, quando eles necessitavam, e os católicos fizeram muito mais", diz Phayer. Os críticos do sumo pontífice também questionam por que ele nunca excomungou Hitler, Heinrich Himmler (1900-1945) e outros chefes nazistas, que eram católicos batizados. Essa simples ação, argumentam, teria tido um importante efeito sobre fiéis - algo de que os defensores de Pio XII duvidam.
Mais espinhoso que acusar o papade omisso é considerá-lo antissemita. É o que faz o jornalista e escritor John Cornwell, que cita uma carta escrita por Pacelli na época em que ele era embaixador do Vaticano em Munique. Ao relatar seu espanto com uma manifestação de bolcheviques na cidade, ele se referiu ao líder do grupo, Max Levien (1885-1937), como "russo e judeu; pálido, sujo, olhos de drogado, vulgar, repulsivo". Na carta, ele também diz que a namorada de Levien era "judia" e que integrava “um bando de mulheres de aparência duvidosa, judias, como todos ali”. Pode ser coincidência, mas essa referência ao fato de serem judeus, em meio a descrições de repulsa física, é um velho clichê antissemita.
O historiador americano Daniel J. Goldhagen, autor do livro Uma Dívida Moral, vai além. Ele acusa a Igreja Católica de ser a maior responsável pelo racismo que desembocou no Holocausto. Para Goldhagen, a Igreja abrigou durante milênios o antissemitismo como parte integral de sua doutrina.

A favor de Pio XII
O principal argumento em defesa do papa é simples: se ele tivesse se posicionado com mais vigor, haveria retaliação. E alguns dos especialistas que dizem isso são judeus. “Uma condenação pública mais forte teria provocado represálias nazistas contra o clero católico na Alemanha e nos países ocupados. Também colocaria em risco a vida dos milhares de judeus escondidos no Vaticano, em igrejas e conventos da Itália, além dos católicos que os protegiam”, diz o rabino e historiador americano David Dalin, autor do livro The Myth of Hitler’s Pope (“O mito do papa de Hitler”, sem tradução).
De acordo com o rabino,Pio XII pediu às igrejas italianas que abrigassem judeus quando as tropas alemãs ocuparam Roma, em 1943, e assim evitou que milhares deles fossem deportados a Auschwitz. “Na cidade, 155 conventos e mosteiros abrigaram cerca de 5 mil judeus durante a ocupação alemã. E outros 3 mil se refugiaram em Castel Gandolfo, a residência de verão do papa”, afirma. Dalin rejeita a ideia de que Pio XII era antissemita: pelo contrário, ele o indicou ao título de “Justo entre as Nações”, utilizado em Israel para descrever não-judeus que arriscaram suas vidas durante o Holocausto para salvar vidas. Afinal, Pio XII tinha motivos para temer por sua própria vida: Hitler planejava invadir o Vaticano e sequestrá-lo.


Outro defensor de Pio XIIé o historiador e diplomata israelense Pinchas Lapide, ex-cônsul de Israel em Milão. Em sua obra Three Popes and the Jews (“Três papas e os judeus”, sem versão no Brasil), Lapide conclui que o líder religioso “foi instrumental para salvar pelo menos 700 mil judeus, e provavelmente 860 mil, da morte certa na mão dos nazistas”. Uma cifra exagerada, segundo os críticos. Seja como for, Lapide justifica a tese de “maior protesto, maior retaliação” citando o exemplo da Holanda, país onde os bispos católicos mais resistiram às perseguições nazistas. Em cada igreja, eles leram uma carta denunciando o “tratamento sem misericórdia aos judeus”. O resultado? “Enquanto os bispos protestavam, mais judeus, cerca de 110 mil, ou 79% do total, eram deportados aos campos de extermínio”, diz o historiador.
Os partidários do papa também argumentam que seu silêncio é uma falácia. Garantem que seus discursos de Natal foram entendidos como uma clara denúncia do extermínio judeu. E citam como prova os editoriais que o jornal americano The New York Times (hoje crítico do pontífice) escreveu na época. “A voz de Pio XII é a única no silêncio e na escuridão envolvendo a Europa neste Natal”, afirmava um texto, em edição de 1941. A homilia de 1942 teria deixado os nazistas furiosos, afirma o historiador irlandês Eamon Duffy, autor de Santos e Pecadores — História dos Papas. “A Alemanha considerou que o papa tinha abandonado qualquer pretensão de neutralidade”, diz.
Tem mais.Para o escritor americano Kenneth D. Whitehead, é ingênuo pensar que maior protesto de Pio XII levaria os católicos a se opor aos nazistas, como se os fiéis seguissem automaticamente suas recomendações — o que não ocorre nem com a proibição à camisinha. “O fato é que a maioria dos católicos alemães, especialmente no início, viu em Hitler o salvador de seu país, em meio à crise pela derrota na Primeira Guerra. Os nazistas chegaram ao poder de forma totalmente legal. Só depois impuseram um regime totalitário”, diz Whitehead no artigo The Pope Pius XII Controversy (“A controvérsia do papa Pio XII”, inédito em português).
Em meio ao debate, o papa Bento XVI decidiucongelar novamente a campanha de beatificação de Pio XII e aguardar até que seja feita uma pesquisa mais conclusiva e esclarecedora sobre sua história. Enquanto isso, o sucessor do polêmico papa, João XXIII (1881-1963), já foi beatificado e a campanha por João Paulo II (1920-2005) corre a passos largos.
Líder infalível
A abertura de arquivos do Vaticano sobre os anos do Holocausto seria o primeiro passo nesse estudo aprofundado sobre as ações de Pio XII durante a guerra, embora muitos considerem que mesmo isso não vá adiantar nada. “Se existisse um documento mostrando claramente o envolvimento de Pio XII em favor dos judeus, o Vaticano já o teria mostrado. E se algum outro revelasse que ele foi colaborador dos nazistas, com certeza, já teria sido removido”, diz o jornalista Anshel Pfeffer, do diário israelense Haaretz.
Segundo ele, a polêmica em torno da beatificação de Pacelli vai além do debate sobre fatos históricos e da disputa entre o Vaticano e as organizações judaicas. Ela também reflete uma disputa interna católica que vem desde o século 19: a briga entre os que defendem o poder papal infalível e os que o rejeitam. “As atitudes de Pio na guerra não são o principal argumento dentro do Vaticano para torná-lo santo. Os que o defendem preservam sua imagem de último líder católico conservador do século. Sua adoração é central para os que creem na versão mais extrema da infalibilidade papal”, diz Pfeffer.
No fim das contas, quem sabe o papa seja bem menos do que falam sobre ele — para o bem ou para o mal. Talvez seu grande problema tenha sido a obrigação de exercer, ao mesmo tempo, o papel de líder político e de chefe religioso numa época difícil, tendo que conjugar seu dever moral com os interesses de um Estado. Talvez ele tenha sido apenas uma pessoa ambígua, num período ainda mais ambíguo. Ou, quem sabe, o embaixador do Vaticano que virou Vigário de Cristo jogou com as regras da diplomacia, enquanto esperava com paciência pelo fim da guerra. A mesma paciência que, hoje, as pessoas precisam ter para saber quem realmente foi Eugenio Pacelli.
Enviados especiais
Hitler e Pio XII nunca se encontraram, mas usaram intermediários para negociar
Hitler e o cardeal Eugenio Pacelli (futuro papa Pio XII) foram os protagonistas da concordata de 1933, pela qual o Estado alemão e o Vaticano se reconheceram mutuamente. Mas outros personagens atuaram para facilitar o diálogo. Conheça alguns deles.

Pietro Gasparri
Esteve à frente da elaboração do Código Canônico e foi quem negociou com Benito Mussolini o Tratado de Latrão, na gestão do papa Pio IX. Em 1901, o monsenhor convidou Eugenio Pacelli (na época, um jovem padre) para trabalhar com ele na Secretaria de Estado do Vaticano. Nos 30 anos seguintes, Gasparri e Pacelli formaram uma parceria que arquitetou a política de concordatas e moldou o crescimento do poder papal ao longo do século 20.
Ludwig Kaas
Líder do Partido do Centro Católico alemão, era padre e íntimo colaborador de Pacelli. Em suas viagens constantes entre Berlim e Roma, foi uma peça-chave na negociação da concordata de 1933 — que extinguiu seu próprio partido para que o papa assumisse maior controle sobre os católicos na Alemanha. Também teria atuado em uma frustrada tentativa de aproximação com membros das Forças Armadas alemãs que buscavam uma negociação de paz, à revelia de Hitler.

Franz von Papen
Ultradireitista, de inclinações monarquistas, teve atuação importante na dissolução da República de Weimar. Foi chanceler alemão em 1932 e vice-chanceler após a subida de Hitler, para o que contribuiu diretamente. Manteve uma relação dúbia com o nazismo e foi quem assinou a concordata com Pacelli, na Secretaria de Estado do Vaticano, em julho de 1933.
Ernst von Weizsacker
Embaixador alemão no Vaticano, recebeu de Hitler a missão de encorajar Pacelli a manter a imparcialidade da Santa Sé durante a guerra. Comunicou ao papa que seu governo respeitaria a integridade do Vaticano e suas propriedades em Roma. A condição: ficar calado sobre as perseguições nazistas. Mas ameaçou instituições católicas suspeitas de abrigar judeus e socialistas.
Vaticano na linha de frente
Enquanto os EUA bombardeiam Roma, nazistas tentam raptar o papa

Em 9 de julho de 1943, Pio XII não teve dúvidas ao ouvir os estrondos que ecoavam em Roma: ele estava encurralado no meio da guerra. Apesar de seu esforço para que a capital italiana fosse declarada cidade aberta, aviões americanos bombardearam a cidade. O ataque precipitou a queda do ditador Benito Mussolini, que foi deposto duas semanas depois pelo rei Vitório Emanuel III e um grupo fascista rival. A situação piorou em setembro, quando os alemães ocuparam a Cidade Eterna e colocaram os judeus na mira. Eugenio Pacelli se viu num dilema: se protestasse contra a invasão, poderia sofrer uma represália violenta contra o Vaticano. Os alemães temiam que uma crítica do papa gerasse uma reação em cadeia na população italiana, o que colocaria em risco a ocupação. Mas Pio XII sabia que sua própria vida estava em risco, pois os nazistas planejavam sequestrá-lo. A advertência tinha sido feita pelo embaixador alemão na Santa Sé, Ernst von Weizsacker. “Os nazistas deram duas opções a Pio XII: selar os lábios ou o seu destino”, escreve o jornalista americano Dan Kurzman no livro Conspiração contra o Vaticano. Hitler tinha encomendado o sequestro ao general Karl Wolff, chefe das SS na Itália. A missão era invadir o Vaticano, raptar o papa e levá-lo à Alemanha ou ao território neutro de Liechtenstein. Mas Wolff titubeou. “Até então, ele havia atendido a qualquer ordem do Führer. Mas sequestrar o papa era uma loucura. Poderia colocar toda a Itália e a Igreja contra a Alemanha”, diz Kurzman. Wolff temia ser enforcado, se os aliados vencessem a guerra, e decidiu sabotar o plano de Hitler esperando se salvar com o apoio do papa. Deu certo. Pio XII também adotou dupla postura. Permitiu que judeus fossem abrigados em igrejas, mas nunca abriu a boca contra a ocupação, nem quando viu de suas próprias janelas milhares de judeus sendo amontoados em caminhões e deportados de trem rumo a Auschwitz.

Rota de fuga
Pio XII ajudou nazistas a escapar para a América do Sul
Ninguém sabe ao certo até que ponto Pio XII protegeu os judeus. Mas já não há dúvida de que ele ajudou nazistas católicos a escapar da Europa para Buenos Aires, na Argentina. A rota de fuga foi armada, logo após a Segunda Guerra, pelo Vaticano, a Igreja Católica argentina e o governo de Juan Domingo Perón (1895-1974). É o que afirma o jornalista argentino Uki Goñi, que rastreou o plano em arquivos da inteligência americana, da Cruz Vermelha e de países europeus. “Documentos que encontrei no Escritório de Registro Público de Londres demonstram que o papa sabia da fuga e intercedeu para evitar que alguns criminosos croatas chegassem à Justiça”, diz Uki, que conta essa história no livro A Verdadeira Odessa. A rede funcionava basicamente assim: o Vaticano pagava as passagens e dava passaportes com pseudônimos aos criminosos de guerra, e Perón lhes garantia o visto para entrar na Argentina. A Cruz Vermelha fornecia os passaportes. Os Estados Unidos e a Inglaterra não se intrometiam, mas as autoridades suíças foram além. Permitiram o trânsito ilegal dos nazistas por dentro de seu território. Foi graças a esse plano que Adolf Eichmann (1906-1962), Josef Mengele (1911-1979), Erich Priebke e outros genocidas encontraram um porto seguro na América do Sul. Eichmann só foi preso em 1960, em Buenos Aires (e enforcado depois pelo governo de Israel). Priebke foi localizado em 1991 no mesmo país (e condenado por tribunal italiano à prisão domiciliar). E Mengele morreu afogado em 1979, sob nome falso, no Brasil.
Relação tumultuada
Ao longo da História, a Igreja bateu de frente com a comunidade judaica
Século 4


O cristianismo se torna a religião oficial do Império Romano. O teólogo João Crisóstomo (349-407) qualifica os judeus de inimigos da raça humana. Diz que “a sinagoga é um bordel” e que “judeus são possuídos por demônios”. Em 325, o I Concílio de Nicéia culpa-os pela morte de Jesus — acusação só retirada em 1965, no Concílio Vaticano II.

Séculos 5 a 12


Na Europa medieval, o cristianismo avança sua hegemonia e surgem leis discriminatórias contra todas as demais práticas religiosas, principalmente o judaísmo. Espalham-se as lendas de que os judeus têm chifres e rabos e realizam rituais usando sangue de crianças cristãs.

Séculos 13 e 14
Em novembro de 1215, o IV Concílio de Latrão, convocado pelo papa Inocêncio III, obriga os judeus a usar distintivos sobre as roupas e os proíbe de exercer funções públicas e de casar com não-judeus — sete séculos depois, as mesmas medidas seriam adotadas pelos nazistas. A Inquisição condena judeus à fogueira e, para escapar, muitos procuram o batismo. Diversos papas apoiam a expulsão de judeus da Inglaterra, França, Holanda e Espanha.
Século 15
O papa Xisto IV (1414-1484) autoriza a rainha Isabel de Castela (1451-1504) e o rei Fernando de Aragão (1452-1516), chamados de os Reis Católicos, a criarem o Tribunal da Inquisição na Espanha. O alvo, nesse caso, são judeus convertidos ao cristianismo, os cristãos-novos.

Século 19
Na península Ibérica, colégios ainda proíbem pessoas “com sangue judeu ou mouro” de se matricular. No Brasil desse período, as ordens religiosas fornecem “atestados de pureza de sangue”, criados nos tempos da Inquisição. Alguns judeus falsificavam seus documentos para exercerem atividades comerciais.Carrascos nazistas:
felizes para sempre
Como carrascos nazistas, acusados e condenados por alguns dos mais terríveis crimes contra a humanidade, conseguiram escapar da justiça e viver em liberdade após o fim da guerra, em 1945
Celso Miranda e Giovana Sanchez
Assim que a Segunda Guerra acabou na Europa, em junho de 1945, a derrotada Alemanha foi dividida em quatro zonas, controladas pelos três grandes vencedores – americanos, soviéticos e britânicos – e pelos franceses. Cerca de 1,5 milhão de ex-combatentes alemães voltavam a seu país, vindos de locais como França, Itália e Polônia. Por todo o continente, havia ainda 2,5 milhões de prisioneiros: soldados, oficiais, políticos e colaboradores nazistas, entre os quais estavam responsáveis por um conflito que causou pelo menos 40 milhões de mortes e pelo extermínio de cerca de 6 milhões de judeus, 2 milhões de eslavos e outros 200 mil civis (como ciganos e testemunhas de Jeová).
Quando cessaram os tiros, um objetivo dominou os vencedores: punir os perdedores. “A punição de criminosos de guerra não se trata de vingança”, afirmou o historiador britânico Eric Hobsbawm no livro Era dos Extremos. “Trata-se de trazer de volta a ordem e a normalidade, restabelecendo a confiança dos povos nos organismos legalmente constituídos.” Segundo Hobsbawm, esse processo de “desnazificação da Europa” não pretendia condenar milhares, mas “punir aqueles que servissem de exemplo”.
Logo se percebeu que separar quem era culpado de quem era muito culpado seria um desafio enorme. Cerca de 40 mil funcionários públicos americanos, franceses e britânicos foram convocados: um exército de escrivães, advogados e juízes. Só na zona americana, foram instauradas 545 cortes civis para analisar 900 mil casos.
Menos de seis meses depois da queda de Hitler, os vitoriosos já estavam prontos para acusar e julgar os maiores culpados. Entre 20 de novembro de 1945 e 1º de outubro do ano seguinte, o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg decretou 11 condenações à morte, três prisões perpétuas, duas sentenças de 20 anos de prisão, uma de 15 e outra de dez anos. Três acusados foram absolvidos. E pronto. Nos dois anos que se seguiram ao julgamento, 1 milhão de alemães deixaram o país legalmente. Estima-se que outros 100 mil o fizeram de forma ilegal. Entre eles estavam criminosos, carrascos e assassinos. Muitos ficaram impunes para sempre. Quem? Como? Você vai ver a seguir.
FUGA EM MASSAJá era noite de 26 de junho de 1945 quando uma patrulha do Exército americano avistou um homem andando numa estrada de terra entre Stuttgart e Ulm, no sul da Alemanha. Detido e interrogado, disse ser Adolf Barth, cabo da Força Aérea alemã. Foi preso. Nos meses seguintes, foi transferido de campo seis vezes e, em cada um deles, apresentou-se com um nome diferente. No início de 1946, conseguiu escapar, atravessou o país e se estabeleceu na zona rural de Eversen, onde viveu isolado. Seu verdadeiro nome era Adolf Eichmann. Ex-coronel da tropa de elite SS e chefe da Gestapo (a polícia secreta de Hitler), ele foi um dos mentores da “solução final”, a operação que pretendia exterminar os judeus da Europa.
Em 1950, quando as coisas esfriaram, Eichmann decidiu deixar a Alemanha e foi para a Itália. Lá, em 14 de junho, o consulado argentino em Gênova lhe concedeu visto de imigração em um passaporte com o nome de Ricardo Klement. Comprou uma passagem no navio Giovanna C e, um mês depois, desembarcou em Buenos Aires. Arrumou emprego e levou a família para lá. Sequestrado por espiões israelenses, foi levado a Telavive, onde foi condenado e executado em 1962.
O senso comum sugere que, antes do fim da guerra, líderes nazistas já tinham planos secretos para salvar a própria pele. Uma dessas rotas de fuga ficaria famosa com o livro O Dossiê Odessa, do britânico Frederick Forsyth. Apesar de ser um romance, baseou-se numa organização real chamada Odessa (sigla em alemão para “Organização de Ex-membros da SS”). Entretanto, pesquisas recentes mostram que esse tipo de iniciativa foi responsável por poucas fugas. “Governos nacionais e instituições completamente legais livraram a cara de muito mais nazistas que organizações secretas”, diz Jorge Camarasa, historiador argentino, autor de Odessa al Sur (“Odessa do Sul”, inédito no Brasil).
A rota que Eichmann usou para deixar a Europa, por exemplo, era coordenada pelo bispo austríaco Alois Hudal, reitor de um seminário para padres alemães e austríacos em Roma. Nazista professo, ele foi nomeado pelo Vaticano para visitar os prisioneiros de guerra detidos na Itália. Segundo Camarasa, Hudal usou sua posição para dar fuga a criminosos nazistas procurados. No início, o bispo conseguia documentos falsos para que os prisioneiros fossem libertados e depois os ajudava a se esconder, geralmente no interior da Itália. Quando autoridades começaram a desconfiar do esquema, Hudal percebeu que precisava tirar seus protegidos da Europa. Recorreu a identificações falsas emitidas pela Comissão de Refugiados do Vaticano. “Esses papéis não serviam como passaportes, mas era com eles que os fugitivos adquiriam nova identidade e, assim, conseguiam auxílio junto à Cruz Vermelha, que, por sua vez, era usada para conseguir vistos”, afirma o jornalista australiano Mark Aarons, coautor de Unholy Trinity (“Trindade profana”, sem versão em português). “Em teoria, a Cruz Vermelha deveria checar os registros de quem solicitava vistos de saída, mas na prática a palavra de um padre ou, principalmente, de um bispo era suficiente.”
A maior rota de fuga de nazistas, porém, foi criada por uma rede de padres liderada pelo bispo croata Krunoslav Draganovic. “A organização fixou seu quartel-general no Seminário de São Girolamo, em Roma. Inicialmente, seu foco era tirar dos territórios ocupados pelos soviéticos os membros do partido nazista croata”, afirma Uki Goñi, historiador argentino, autor de A Verdadeira Odessa. “Com o tempo, a rota de Draganovic tornou-se a principal via de fuga dos criminosos nazistas, tirando mais de 5 mil deles da Europa.”
AMÉRICA LATINA
Entre os picos nevados de Bariloche, nos Andes argentinos, um imigrante alemão levou uma vida pacata por quase 50 anos. Dono de uma confeitaria chamada Viena, don Erico morava com a mulher, Alice, no segundo e último andar de um prédio na praça Belgrano, alugando o primeiro pavimento para um orfanato. A dois quarteirões dali, um certo Juan Maler ergueu o hotel Campana, onde vivia, escrevendo livros de pregação nazista. Em 1994, a rede de TV americana ABC descobriu que Maler era Reinhard Kops, ex-capitão da SS. Desmascarado diante das câmeras, Kops dedurou: “Por que correm atrás de mim, se o pior dos nazistas da Argentina vive aqui ao lado?” Don Erico, o simpático confeiteiro, era Erich Priebke, ex-capitão da Gestapo e coautor de um massacre de 330 civis italianos em Roma, em 1944.
Acusar o vizinho deu certo para Kops, que se escondeu no Chile. Ele nunca foi julgado e, dois anos depois, retornou a Bariloche, onde publicou textos hitleristas até sua morte, em 2001. Já Priebke, após uma batalha judicial de 17 meses, foi extraditado para a Itália. Lá, foi condenado por homicídio múltiplo, mas escapou da prisão perpétua – seu crime prescrevera em 1974, 30 anos depois de ser cometido. Ele foi solto, mas a Justiça italiana anulou o julgamento. Hoje, Priebke está em prisão domiciliar em Roma. Não há data para um novo julgamento. Com 94 anos, ele é o prisioneiro mais velho da Europa.
Para o argentino Uki Goñi, interesses econômicos e pressão da Igreja Católica e das comunidades de imigrantes podem explicar por que a América Latina se tornou o destino predileto dos nazistas. “Meu país tem uma peculiaridade, por ter feito um esforço dirigido – ou iniciado – pelo presidente Juan Perón para trazer esses criminosos de guerra”, afirma Goñi. As razões de Perón, segundo ele, incluíam gratidão (os nazistas o ajudaram entre 1943 e 1945) e simpatia pelos ideais fascistas.
O primeiro passo para contrabandear nazistas da Europa para a Argentina, de acordo com Goñi, foi dado em janeiro de 1946, quando Antonio Caggiano, bispo de Rosário, foi a Roma para ser ordenado cardeal. Lá, segundo arquivos diplomáticos argentinos, ele transmitiu ao cardeal francês Eugéne Tisserant a mensagem de que “o governo da República da Argentina está disposto a receber cidadãos franceses, cuja atitude política durante a recente guerra pode tê-los exposto a medidas cruéis e retaliações”. Nos meses seguintes, entre 300 e 500 colaboracionistas franceses foram para a Argentina com passaportes fornecidos pela Cruz Vermelha em Roma.
Outro fator que engrossou o número de nazistas na América Latina foi o uso de criminosos de guerra como informantes e espiões na Guerra Fria (por britânicos e americanos de um lado e soviéticos de outro). Muitos deles foram salvos da prisão e encaminhados ao Cone Sul. Foi o caso de Klaus Barbie, ex-diretor da Gestapo, que ordenou, na França, a execução de civis e o envio de crianças para Auschwitz. Em 1947, ele se tornou agente do serviço secreto americano e, depois, acabou fugindo para a Bolívia. Descoberto em 1971, só foi deportado em 1983. Quatro anos depois, foi condenado na França pela morte de 177 pessoas. Morreu de leucemia em 1991, numa prisão de Lyon.
PORTO SEGURO
No Brasil, a presença de criminosos nazistas também foi grande. O caso mais famoso foi o do médico Josef Mengele, que usava humanos como cobaias de suas experiências macabras em Auschwitz (ele morreu impune, afogado após uma bebedeira em Bertioga, no litoral paulista, em 1979). O envolvimento das autoridades brasileiras na entrada de criminosos de guerra é um assunto polêmico. Mas chovem indícios de que os nazistas contaram com boa vontade para entrar no país. Nos mais de 20 mil documentos dos arquivos da antiga Delegacia de Ordem Política e Social (Deops) liberados pelo governo federal em 1997, há cartas trocadas entre as representações brasileiras em Roma e Berlim que mostram como nossa diplomacia fechou os olhos para o passado nazista de empresários, engenheiros e ex-militares – que eram encorajados a declarar falsos nomes e profissões ao vir para cá.
Especialistas levantam a hipótese de que o próprio presidente Eurico Gaspar Dutra, que assumiu em 1946, sabia do que se passava. Para Marionilde Brephol Magalhães, historiadora da Universidade Federal do Paraná e autora de Pangermanismo e Nazismo – A Trajetória Alemã Rumo ao Brasil, além da simpatia que setores do governo e do meio militar tinham pelos nazistas, Dutra acreditava que técnicos e cientistas alemães poderiam ajudar na industrialização do país.
Um problema ainda maior que a falta de controle na entrada teria sido a falta de disposição para prender e extraditar os criminosos descobertos por aqui. A tolerância do governo brasileiro logo ficou conhecida e intensificou a vinda de nazistas. Alguns nem se deram ao trabalho de mudar de nome, como Franz Stangl. Comandante dos campos de extermínio de Sobibor e Treblinka, na Polônia, ele chegou a ser preso na Áustria em 1945, mas conseguiu escapar para a Síria, onde reuniu-se à esposa e aos filhos. Segundo registros da Deops, desembarcou no Brasil em 1951 e, tempos depois, conseguiu emprego numa fábrica da Volkswagen, em São Paulo.
Stangl só foi preso em 1967, após denúncia do “caçador de nazistas” Simon Wiesenthal Levado para a então Alemanha Ocidental, foi julgado pela morte de 900 mil pessoas – fato que admitiu à jornalista de origem húngara Gitta Sereny, em depoimento publicado no livro Into the Darkness (“Nas Trevas”, inédito no Brasil). “Minha consciência está limpa. Eu só estava fazendo meu dever”, disse. Condenado à prisão perpétua em outubro de 1970, Stangl morreu de ataque do coração oito meses depois, numa prisão de Dusseldorf.
Outro que ostentou o próprio nome no Brasil foi o austríaco Gustav Wagner, um dos responsáveis pelo campo de extermínio de Sobibor. Enquanto era condenado à morte pelo Tribunal de Nuremberg, o fugitivo Wagner trabalhava como operário em Graz, na Áustria. Ali encontrou o ex-colega Stangl e com ele escapou para a Síria. Chegou a São Paulo com passaporte suíço em 12 de abril de 1950 e foi morar em um sítio em Atibaia, São Paulo, onde fez um chalé no estilo da Bavária. Chamado de “seu Gustavo” pelos vizinhos, foi detido em maio de 1978, ao se apresentar na Deops para desmentir uma reportagem em que era acusado de participar de uma festa em homenagem a Hitler.
Por sua idade avançada, Wagner foi transferido para uma clínica e depois mandado para casa. As autoridades brasileiras já haviam recusado pedidos de extradição feitos por Israel, Áustria e Polônia quando, em 18 de junho de 1979, a rede de TV britânica BBC levou ao ar uma entrevista com Wagner. “Eu não guardo nenhum sentimento daqueles dias (...). À noite, nós nunca discutíamos nosso trabalho, só bebíamos e jogávamos cartas”, disse. Quatro dias depois, seu pedido de extradição para a Alemanha Ocidental também foi negado. Em outubro de 1980, Wagner foi achado morto com uma facada no peito. A polícia concluiu que ele se matou.
A lista não acaba aí. Acusado de participar da morte de 30 mil judeus em Riga, na Letônia, o capitão-aviador Herbert Cukurs fugiu para a França, onde obteve visto para vir ao Brasil em 1946. No Rio de Janeiro, ele trabalhou na Fábrica Brasileira de Aviões. Logo depois montou um negócio, alugando pedalinhos na praia de Icaraí, em Niterói. Em 1948, foi reconhecido. Sua casa foi pichada e seu nome saiu nos jornais, mas ele nunca foi preso. Na década de 1950, mudou-se com a família para Santos e depois para São Paulo.
Em 1960, Cukurs tentou se naturalizar. Foi quando a polícia paulista tomou seu único depoimento, em 6 de junho. No dia 7, os policiais ouviram Frida Schmuskovits, sobrevivente dos campos de extermínio da Letônia. Sobre os massacres de judeus, ela relatou que “a matança era feita por ordem de Herbert Cukurs”. Com a naturalização negada, Cukurs foi para Montevidéu em 1965, ao lado de um amigo que ele conhecera um ano antes e se apresentava como o austríaco Anton Kunzle. Dois dias após chegar ao Uruguai, Cukurs foi encontrado numa mala. Tinha marcas de tiros e a cabeça destruída a marteladas. Num comunicado à imprensa, um grupo autodenominado “Aqueles que Não Esquecem” assumiu o assassinato.
ÚLTIMA CHANCE
Chovia pouco em Viena, na manhã de 16 de dezembro de 2005, quando alguns familiares viram o corpo de Heinrich Gross, morto na véspera, aos 91 anos, ser baixado ao túmulo. Psiquiatra e neurologista de renome, Gross ocupava, desde 1962, uma cadeira na Academia Austríaca de Ciência. Mas é outra parte de sua biografia que nos interessa. Entre 1940 e 1945, o doutor Gross dirigiu o programa nazista de pesquisas de eugenia baseado em Viena. Em sua clínica, ele coordenou experimentos médicos e farmacológicos que vitimaram mais de 700 crianças. Após a guerra, Gross desapareceu. Ressurgiu seis anos depois, em Viena, como professor. Em 1956, foi nomeado perito da Justiça para avaliar criminosos com problemas mentais. Só em 1994 acadêmicos da Universidade de Viena perceberam que o simpático velhinho e o cruel cientista eram a mesma pessoa.
Apesar das tentativas de levar Gross aos tribunais, ele nunca foi preso – houve pouca movimentação por parte de promotores e juízes, com quem tantas vezes ele havia trabalhado. Em 2002, quando foi enfim convocado por uma corte vienense, Gross, aos 89 anos, mostrou-se senil e, segundo seu advogado, não conseguia entender o interrogatório. O médico foi declarado inapto para ser julgado e saiu pela porta da frente do prédio, caminhando com uma bengala. Viveu em paz até morrer.
Gross se enquadra num grupo de nazistas que nunca fugiu, mas desapareceu nos desvãos da burocracia. Há quem aceite o esquecimento. Não é o caso do Centro Simon Wiesenthal (CSW), que desde 1977 reúne informações sobre nazistas. “Genocídio e assassinato em massa nunca prescrevem”, afirma o israelense Efraim Zuroff, diretor do CSW em Jerusalém. Segundo o último relatório da entidade, de 2006, 458 pessoas estão sendo investigadas por crimes de guerra e, de janeiro de 2001 a dezembro de 2006, 41 nazistas foram condenados no mundo. Segundo Zuroff, outros poderiam ir a julgamento se houvesse mais empenho dos países que os abrigam. “O mais difícil não é encontrar os criminosos, mas levá-los a julgamento.”
O nome mais recente entrou na lista da CSW em julho de 2006. Num evento social, um sujeito não parava de se gabar de seu papel na deportação de judeus para Auschwitz. Um jovem anotou seu nome e procurou o CSW. “Descobrimos que era Sandor Kepiro, húngaro condenado pela morte de mais de 1200 civis em janeiro de 1942, na cidade de Novi Sad, então parte da Hungria, atualmente na Sérvia”, conta Zuroff. Aos 93 anos, Kepiro mora em Budapeste e aguarda a Justiça determinar se ele terá de cumprir a pena de 14 anos de prisão que recebeu em 1948.
Entre os nazistas ainda foragidos, o mais eminente é o médico austríaco Aribert Heim, que serviu em três campos de extermínio, Sachsenhausen, Buchenwald e Mauthausen, onde centenas de pessoas foram mortas com injeções de fenol no coração. “Heim foi preso pelos americanos na Bélgica em março de 1945, mas foi solto dois anos depois”, diz Zuroff. Livre, Heim voltou à medicina e, em 1962, foi processado na Alemanha Ocidental. Enquanto aguardava julgamento, fugiu. Desde então, foi visto na Argentina, Egito, Uruguai e Espanha. Era dado como morto até que, três anos atrás, a polícia alemã descobriu uma conta bancária em nome de Heim com mais de 1 milhão de euros. O fato de seus filhos nunca terem sacado o dinheiro levou as autoridades a concluir que ele ainda está vivo. Uma força-tarefa foi montada para encontrá-lo. Seu paradeiro, no entanto, permanece um mistério.
Más companhias
Os americanos usaram ex-nazistas como arma na Guerra Fria
Dois anos antes de Adolf Eichmann ser achado na Argentina, em 1960, os americanos já sabiam seu paradeiro, incluindo o nome que ele usava: Ricardo Klement. Quem afirma isso é Timothy Naftali, da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos. O historiador é um dos quatro membros do Grupo de Trabalho sobre Crimes de Guerra Nazistas, encarregado pelo governo americano de examinar arquivos liberados pela CIA desde 2004 – são 27 mil páginas sobre a atuação da central de inteligência no pós-guerra. Segundo Naftali, os Estados Unidos esconderam a identidade de ex-nazistas e os usaram como espiões contra a antiga União Soviética. “A CIA e o governo da antiga Alemanha Ocidental cooperaram para encobrir o paradeiro de Eichmann.” Americanos e alemães achavam que, se descoberto, Eichmann comprometeria Hans Globke, chefe da Casa Civil do então primeiro-ministro da Alemanha, Konrad Adenauer. Como Eichmann, Globke pertencera ao alto escalão nazista – fora um dos criadores das chamadas Leis de Nuremberg (que, entre outras coisas, cassaram direitos civis dos judeus alemães nos anos 30). Os documentos revelados mostram ainda que, depois da execução de Eichmann, em 1962, a CIA pressionou a revista americana Life, que detinha os direitos de publicação das memórias do nazista, para que ela omitisse o nome de Globke da narrativa. O conselheiro acabou deixando o governo alemão em 1963.
A ampla rede de ex-nazistas a serviço dos Estados Unidos era liderada pelo major-general Reinhard Gehlen, ex-chefe da espionagem de Hitler na frente oriental. Em 1956, essa rede se tornou o núcleo da Bundesnachrichtendienst (conhecida, graças a Deus, pela sigla BND), o serviço de espiões da Alemanha Ocidental. Gehlen dirigiu a BND até 1968 e morreu do coração em 1979, em Bonn. Nunca foi acusado de crime algum. “Após o fim dos julgamentos de desnazificação, era política dos Estados Unidos deixar a perseguição aos criminosos para os alemães ocidentais. Mas esses não mostraram nenhum interesse em fazê-lo”, diz Elizabeth Holtzman, ex-deputada americana e também membro do grupo que analisa os documentos. “Os arquivos nos forçaram a enfrentar não somente os prejuízos morais, mas também os prejuízos práticos que tivemos ao confiar serviços de inteligência a ex-nazistas.”
"Justiça, não vingança"Quando morreu, em setembro de 2005, em Viena, Simon Wiesenthal tinha 96 anos. Boa parte deles fora gasta repetindo a frase acima. Ele a usava para justificar sua incansável perseguição a criminosos nazistas. Judeu, Wiesenthal nasceu no então Império Austro-Húngaro e foi preso em 1941, durante a ocupação nazista da Polônia. Após ter sobrevivido a 12 campos de concentração, foi libertado por tropas americanas no campo austríaco de Mauthausen. Na época, com 1,82 metro, pesava 45 quilos. “A força para sobreviver veio da decisão de cobrar a punição dos responsáveis pelo Holocausto”, costumava dizer ele. Essa tarefa, cumprida por décadas, tornou-o alvo de diversos atentados e ameaças de morte.
Wiesenthal começou com uma lista de 91 nomes de criminosos de que ele próprio tinha conhecimento. Ela foi crescendo com depoimentos e denúncias de sobreviventes de campos de concentração que, logo após a guerra, estavam espalhados por acampamentos na Áustria, Alemanha e Itália. Wiesenthal foi o primeiro a aplicar sistematicamente o método da história oral nas pesquisas sobre o Holocausto, e fundou um centro judaico de documentação. No livro Justiça, Não Vingança, publicado em 1988, Wiesenthal contabilizou ter contribuído para a investigação de 6 mil casos e para a punição de 1100 criminosos nazistas.
De Nuremberg a Bagdá
Como chefes de Estado têm sido julgados por seus atos
Criado em agosto de 2004, o Tribunal de Criminosos de Guerra Iraquianos foi instituído para julgar crimes cometidos desde a tomada do poder pelo partido Baath, em julho de 1968, até a derrubada do regime de Saddam Hussein, em maio de 2003. No fim do ano passado, numa decisão anunciada por Abdel Asis el Hakim, chefe do Conselho de Governo e histórico opositor de Saddam, o ex-presidente do Iraque foi condenado à morte e executado. Países como Brasil, Rússia e França reagiram negativamente à pena capital, com o argumento de que se deveria evitar a “justiça dos vencedores”. Ou seja, temia-se que não houvesse justiça, mas vingança.
O primeiro chefe de Estado a ser julgado por crimes de guerra deveria ter sido Adolf Hitler. Isso se ele não tivesse se matado dias antes do fim da guerra. “Não se pode culpar um país, mas deve-se responsabilizar seus líderes. Aqueles que lideraram o destino de milhões devem responder pelos seus atos”, dizia o documento de abertura do tribunal de Nuremberg, em 1945.
Embora o direito militar tenha contornos definitivos desde a Convenção de Genebra, de 1949, só após o fim da Guerra Fria a Organização das Nações Unidas (ONU) pôde ressuscitar as cortes internacionais para julgar crimes de guerra e contra a humanidade. E o primeiro réu levado a julgamento, em 2002, foi Slobodan Milosevic, ex-presidente da Sérvia e da antiga Iugoslávia, cujas tropas foram acusadas de atrocidades na província de Kosovo e na Bósnia. O Tribunal Internacional estabelecido em Haia, na Holanda, teve juízes de várias nacionalidades – mas nem assim escapou das polêmicas. Milosevic foi levado a Haia sem que a Sérvia aprovasse a extradição, o que feriu o direito internacional. Seu julgamento não chegou ao fim: em 11 de março de 2006, ele apareceu morto em sua cela, vítima de problemas cardíacos. Outro ex-chefe de governo julgado numa corte da ONU – o Tribunal Internacional de Arusha, na Tanzânia – foi o ex-primeiro-ministro de Ruanda, Jean Kambanda, que está preso. Em 1998, ele admitiu a culpa pela morte de milhões de pessoas em seu país, quatro anos antes. Atualmente, em Serra Leoa, um tribunal especial criado em 2002 está julgando o ex-presidente da Libéria, Charles Taylor, acusado de crimes durante a guerra civil naquele país.



Aventuras na História – Março 2006Nazismo no Brasil
Eles estão entre nós

Texto: Leandro Narloch
No dia 20 de abril de 1940, Adolf Hitler completava seus 51 anos. Para comemorar o aniversário do Führer, que nos dois meses seguintes dominaria Holanda, Bélgica e Dinamarca e, em junho, descansaria à sombra da torre Eiffel, em Paris, o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels preparou uma festa. Desde a manhã milhões de pessoas foram às ruas e curtiram o feriado ouvindo discursos inflamados ou seguindo desfiles nas principais cidades alemãs. Longe de sua terra natal, 456 alemães preferiram uma festa reservada, mas também animada. No salão social do Clube de Atiradores de Blumenau, em Santa Catarina, eles se reuniram para um almoço típico, brindaram e deram vivas a Hitler. Na véspera, os 815 alunos entre 7 e 15 anos da Escola Alemã da Vila Mariana, em São Paulo, chegaram às 7 da manhã, como todos os dias. Como todos os dias, saudaram a chegada dos professores em coro: “Heil, Hitler”. Na mesma época, no Rio de Janeiro, uma enorme bandeira vermelha com a suástica preta podia ser vista hasteada, tremulando no alto do morro de Santa Tereza.
A existência de simpatizantes nazistas no Brasil, nos anos 30 e 40, não é novidade. Porém, a partir de 1997, quando se tornaram públicos os arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social (Deops) do governo Getúlio Vargas, os pesquisadores não passam um dia sem descobrir algo novo e surpreendente sobre o nazismo no país. É o caso da historiadora Ana Maria Dietrich, professora da Universidade de São Paulo, que há anos pesquisa os milhares de documentos entre inquéritos, fotos, panfletos, depoimentos e relatórios do Deops, atualmente sob a guarda do Arquivo do Estado de São Paulo. Segundo Ana Maria, os documentos revelam um nível surpreendente de influência do nazismo na sociedade brasileira, detalhando não apenas atividades partidárias e de propaganda, mas de espionagem e fraudes, além da conivência, e até da simpatia, com que essa ideologia contou entre as autoridades brasileiras.
Amigos, amigos
Para entender o fenômeno do nazismo entre nós, é preciso lembrar como era o Brasil nos anos 30. Vivíamos sob a ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Partidos haviam sido proibidos, políticos foram cassados, jornais e revistas que não fossem simpáticos ao governo eram perseguidos. A Constituição imposta pelo getulismo era praticamente uma cópia da carta do ditador fascista italiano Benito Mussolini, de quem Getúlio não escondia ser admirador. Uma sofisticada máquina publicitária que incluía centenas de emissoras de rádio propagava a imagem do presidente e fomentava o sentimento ultranacionalista. Dito assim, não parece um ambiente tão impróprio para o surgimento de ideais totalitários. E não era. No Brasil ainda circulavam ideias de dominância racial formuladas no século 19 e defendidas por intelectuais como Sílvio Romero. Jovens que se tornariam figurões da nossa cultura, como o poeta Vinicius de Moraes e o folclorista Câmara Cascudo, declaravam-se integralistas – a corrente de ultradireita que queria um Brasil totalitário e cujos membros se metiam em espancamentos de negros, estrangeiros e judeus.
“A política e a sociedade brasileiras refletiamas influências internacionais”, afirma Priscila Ferreira Perazzo, historiadora da USP e autora de O Perigo Alemão e a Repressão Policial no Estado Novo. De fato, mundo afora os ideais fascistas vicejavam. “Entre 1918 e 1920, dois Estados europeus fecharam seus parlamentos e implementaram governos absolutistas. Nos anos 20 foram seis, e na década seguinte mais nove países sucumbiram a governos ditatoriais”, afirma o historiador britânico Eric Hobsbawm, em Era dos Extremos. “Na América, a lista de países não-autoritários incluía apenas Canadá, Colômbia, Estados Unidos, Costa Rica e Uruguai.”
Além de compartilhar ideais autoritários, o Brasil de Vargas mantinha relações para lá de amistosas com a Alemanha nazista. Na década de 30, os alemães viraram o segundo maior mercado consumidor de produtos brasileiros, saltando de 10% para 22% de nossas exportações. Em 1936, policiais e militares brasileiros visitaram a Alemanha, onde treinaram com a Gestapo, a polícia política de Hitler. Em retribuição, o governo brasileiro entregou aos nazistas comunistas e judeus alemães residentes no Brasil, como Olga Benário, Erna Krüger, Elise e Arthur Ewert. Dito assim, parece que Getúlio estava muito mais próximo de apoiar o Eixo que os Aliados, na guerra que se aproximava.
Nazismo legal
Datam de 1924 os primeiros registros sobre um grupo chamado genericamente de Landesgruppe Brasilien (ou “o grupo do país Brasil”), que pode ser identificado como um partido nazista no Brasil. Segundo Ana Maria Dietrich, desde o início a organização não era uma célula isolada e integrava uma rede mundial com outras filiais do partido presentes em 83 países, com 29 mil integrantes. Quando foi oficializado, em 1928, seu líder, Hans Henning von Cossel, estava apenas a dois degraus hierárquicos do próprio Hitler. “O partido chegou a ter 2 900 integrantes e era, de longe, o maior entre os partidos nazistas que operavam fora da Alemanha”, diz Ana Maria. O segundo maior era o da Holanda, com 1 600 membros.
Em dez anos de atuação, o partido teve estatuto, uma sede nacional em São Paulo, escritórios regionais em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, então capital federal, e sedes municipais. Dos quase 3 mil membros, 785 estavam em São Paulo, 528 em Santa Catarina, 447 no Rio de Janeiro. Havia “agentes de divulgação” em Pernambuco e Bahia. Alguns de seus líderes, como o chefão Von Cossel e o tesoureiro Otto Braun, receberam treinamento especial em Munique, na Alemanha, para se tornarem “agentes políticos”. Os membros também se organizavam em associações, como a Juventude Hitlerista, a Associação de Professores e a Associação de Mulheres Nazistas.
Ao contrário do que se pensa, o tipão mais comumde um nazista no Brasil tinha pouco a ver com os colonos alemães que chegaram no século 19. Geralmente, eram técnicos e empresários urbanos que viam o Brasil como uma gastland – “terra de hospedagem”, um abrigo temporário. “A principal missão dos membros era difundir o nazismo entre os alemães longe da Alemanha”, diz Ana Maria. “Professores foram enviados de Berlim para lecionar em escolas alemãs e pregar o nazismo para os alunos.”
Foi o que ocorreu na Escola Alemã da Vila Mariana,hoje Escola Benjamin Constant, em São Paulo. Ali, as crianças estudavam em alemão, davam vivas a Hitler e entoavam canções nazistas como a patriótica “Alemanha Acima de Tudo”, que começava assim: “Levanta a bandeira da luta e da liberdade,/ as fileiras bem unidas,/ e marcha com os passos calmos e firmes”. No Colégio Visconde de Porto Seguro, também em São Paulo, o diretor Gustaf Hoch foi denunciado pelo pai de um aluno em carta ao próprio Goebbels por não defender o nazismo.
“Tudo indica que o nazismo no Brasil se difundiu,pelo menos no início, para os alemães e entre os alemães. Eles não queriam saber da política interna, de tomar o poder do Brasil ou convencer mestiços e não-arianos a adotarem as ideias de Hitler”, diz Priscila Perazzo. O partido trabalhava de olho nos problemas da Alemanha e dos alemães que viviam no exterior. Sequer estavam registrados no Tribunal Superior Eleitoral, e descendentes nascidos no Brasil eram proibidos de entrar. “Não acredito e não há indício confiável de que os nazistas pretendessem influenciar drasticamente a política brasileira”, afirma Priscila. No entanto, um estudo do historiador Francisco Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, baseado em documentos do Arquivo Federal da Alemanha, mostra que diante da iminência da guerra, entre 1936 e 1939, o partido recebeu do III Reich a missão de paquerar a opinião pública brasileira. Para isso, os nazistas controlavam pelo menos 15 emissoras de rádios espalhadas pelo país que transmitiam noticiários em português feitos em Berlim. Notícias da rádio Tupy, de São Paulo, em outubro de 1936, diziam que a Alemanha estava uma maravilha sob o comando do Führer. A produção industrial crescia, os alimentos abundavam, o perigo semita estava sendo afastado e, em breve, a raça alemã estaria toda reunida. Os ideais nazistas chegavam ao grande público brasileiroainda em panfletos, livros e pelo jornal Deutscher Morgen (ou “Aurora Alemã”), que custava 200 réis e publicava na capa trechos de discursos de Hitler como esse, de junho de 1934: “Devemos assegurar a permanência da nossa raça e de nosso povo, o alimento de nossos filhos, preservar a pureza do sangue, a liberdade e independência da pátria”. Editado no bairro da Mooca, em São Paulo, o jornal convidava os leitores a participar de reuniões sobre o nazismo e para tomar um chope Antarctica na Gruta Alemã, bar na avenida São João que estampava uma suástica atrás do balcão.
Em abril de 1938, no auge da onda nacionalista,o governo Vargas restringiu a participação política partidária aos brasileiros natos e o Partido Nazista – tanto quanto o Comunista – foi extinto. Mas não acabou. Documentos encontrados no arquivo do Itamaraty pela historiadora Ana Maria Dietrich mostram que, antes de o decreto começar a valer, o presidente recebeu o embaixador alemão no Brasil, Karl Ritter, para uma conversa. “Getúlio disse ao diplomata que a medida não era punitiva aos alemães, à Alemanha ou ao Partido Nazista”, afirma Ana Maria. Como compensação pela proibição, o embaixador aceitou a doação de sacas de café, para ajudar no Programa de Auxílio Alemão de Inverno. O que não se sabe se ficou combinado entre Getúlio e o embaixador foi a garantia de que os nazistas não seriam perseguidos. Mas o fato é que, pelo menos nos primeiros anos após a proibição, o governo nada fez para reprimir as atividades dos nazistas. “Até a entrada do Brasil na guerra, em agosto de 1942, mesmo ilegal o partido seguiu funcionando numa boa”, diz a historiadora. Na embaixada alemã no Rio, uma bandeira nazista permaneceu hasteada até outubro de 1941. Em abril de 1942, uma passeata reuniu cerca de 2 mil nazistas uniformizados à luz do dia, no centro de Florianópolis.
Agora é guerra
Em janeiro de 1942, após o ataque dos japoneses a Pearl Harbor, o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Eixo. E em 31 de agosto, depois de seis navios brasileiros serem afundados por submarinos alemães em quatro dias, Getúlio declarou guerra. “Não há como negar que a Alemanha e a Itália praticaram atos de guerra, criando uma situação de beligerância que seremos forçados a reconhecer, em defesa de nossa soberania, da nossa segurança e da América, e a repelir, na medida de nossas forças”, discursou o presidente. A declaração pôs fim à pendular atuação de Vargas, que ora adulava os alemães – num discurso em 1940, no dia em que os nazistas tomaram Paris, ele elogiou as “nações fortes que se impõem pela organização baseada no sentimento da pátria e sustentando-se na convicção da própria superioridade” –, ora sorria para os aliados, de olho nos investimentos que os americanos prometiam fazer por aqui.
De um dia para o outro, alemães, italianos e japonesesviraram inimigos da pátria. Os alemães residentes ou de passagem pelo Brasil foram convidados a deixar o país e intimados a comparecer à delegacia mais próxima. Alguns foram presos acusados de “falar alemão em público”. Como mostra o filme Cinema, Aspirinas e Urubus, do cineasta Marcelo Gomes, que estreou no fim de 2005, empresas alemãs como a Bayer, que difundia pelo país as pílulas para dores de cabeça, sofreram intervenção federal. Mas, se por um lado a perseguição policial causou vítimas inocentes, também revelou uma bem organizada rede de espionagem.
Uma das primeiras pessoas detidas pelo Deops, em setembro de 1942, se tornaria um dos mais famosos espiões nazistas no Brasil. Era o alemão Otto Braun, tesoureiro e membro da direção nacional do Partido Nazista Brasileiro. Nos sete meses em que ficou preso, Braun não pôde falar com a família nem com amigos, permanecendo, como diz seu prontuário, “em regime de rigorosa incomunicabilidade”. Em seus mais de 200 depoimentos aos agentes do Deops, ele nomeou, um a um, todos os integrantes do partido, inclusive os que ocupavam cargos de direção. “Morando no Brasil desde 1924, Braun conhecia tudo e revelou detalhes de ações de espionagem e fraudes cambiais”, conta Ana Maria. Funcionário do Banco Alemão Transatlântico, Braun coordenava uma série de transações proibidas de câmbio. O dinheiro de alemães residentes no Brasil era enviado para cofres na Suíça e de lá chegava à Alemanha e às mãos do III Reich. Pelo menos 12 funcionários do banco eram membros do partido ou ligados a ele. Acabaram presos.
Otto Braun declarou também que o partido era “uma instituiçãoconhecida pelas autoridades brasileiras, que muitas vezes compareceram às reuniões e festejos da mesma”. Era verdade. O governo brasileiro monitorava os nazistas havia dez anos. Os policiais estavam infiltrados em igrejas luteranas e clubes como o Germânia, no Rio de Janeiro, e enviavam relatórios às vezes semanais, descrevendo de animadas perseguições de suspeitos, no melhor estilo James Bond, a tediosas tocaias, que só servem para quem quer conhecer o cotidiano de pessoas supostamente nazistas e falam de fins de semana na praia, partidas de biriba e aniversários de família.
“Esses relatos mostram que grande parte das fontesde informação do serviço de espionagem nazista era composta por amadores. Gente comum que falava o que sabia ou ouvia dizer aos informantes do III Reich”, diz a historiadora Priscila Perazzo. Entre esses faladores havia operários, comerciantes e industriais, gente que, às vezes, ocupava cargos importantes e até estratégicos em empresas brasileiras. Frederico Weissflog, dono da Companhia Melhoramentos de São Paulo, ouviu de alguns amigos americanos que os Estados Unidos preparavam um golpe para derrubar Getúlio. Tudo bobagem, é claro, mas, em vez de informar o governo brasileiro, Weissflog contou o boato para Niels Christian Christensen.
Christensen (que, aliás, não acreditou na lorota) era um espião de carteirinha, um dos mais profícuos informantes nazistas que atuaram no país. As transcrições de suas mensagens interceptadas pelo Deops somam quase oito pastas. “Ele era a face profissional da rede de informações nazista no Brasil”, diz Priscila. Treinado pelo serviço de informação alemão, ele liderou uma das seis células que operavam no país. Sua base era a cidade de Santos, no litoral paulista, onde se apresentava como dinamarquês e comerciante. Christensen na verdade era alemão e chamava-se Josef Starziczny. Havia chegado ao Brasil em abril de 1941 e montado uma estação de rádio que funcionou secretamente por mais de um ano, passando informações sobre o porto e sobre a presença de navios aliados na costa brasileira.
Em 1940, em São Paulo, o alemão Hans Christian von Kotzeabriu um escritório comercial no centro da cidade. Os vizinhos pensavam que ele administrava investimentos para empresários graúdos. Balela. Kotze era um espião nazista e o que ele conseguia saber com os endinheirados era passado para a Alemanha por uma rádio clandestina no bairro do Jabaquara.
Você deve estar se perguntando: o que tanto queriam os espiões nazistas no Brasil?A resposta pode ser simples: como todos os alemães – ou pelo menos a esmagadora maioria deles –, eles queriam que a Alemanha ganhasse a guerra. Por isso, passavam informações que pudessem ajudar a máquina de guerra alemã contra os aliados.
Mas há quem ache que Hitler tivesse outros planos para o Brasil. Primeiro, como fonte de recursos para uma guerra prolongada. Depois para, vencido o inimigo, contar com um aliado de porte para se recuperar dos esforços de guerra. “Entre as autoridades havia o medo, mesmo que remoto, de Hitler invadir o Brasil depois de conquistar a Europa”, diz a historiadora Ana Maria Dietrich. E o próprio Führer dava corda para essa desconfiança. “Precisamos de dois movimentos no exterior: um leal e um revolucionário. Não vamos desembarcar tropas e conquistar o Brasil com armas na mão. As armas que temos não se veem”, afirmou Hitler em 1933.
Se isso fosse verdade, gente como Gustav Engels, um pacato pai de família que chegara ao Rio de Janeiro nos anos 20 para trabalhar na Siemens, estaria pronto a ajudar. Em 1939, Engels passou um tempo na Alemanha. Voltou com um codinome – Alfredo – e a missão de proliferar espiões, estações clandestinas e códigos telegráficos pela América do Sul. Durante três anos, ele coordenou uma extensa rede que contava com informantes em companhias aéreas, funcionários do governo, jornalistas, executivos de empresas de energia, num total de mais de 50 pessoas, entre elas o engenheiro Ludwig Weber e o mecânico Alberto Hofstetter, ambos funcionários da Vasp. No fim de 1942, a polícia interceptou uma série de mensagens enviadas por Engels via rádio que surpreenderam as autoridades pela precisão e diversidade. Há dados sobre o trânsito de aviões norte-americanos nas bases aéreas do Nordeste, informações sobre a capacidade dos depósitos de gasolina nos portos e o comprimento das pistas dos aeroportos brasileiros. Além de transmitir o que sabia para a Alemanha, Engels compartilhava tudo com colegas no Chile, Argentina e Equador. Para saber se uma mensagem havia chegado à Alemanha, ele pedia sinais pelo noticiário da rádio alemã: “Como confirmação mandar tocar algumas passagens da marcha ‘Fridericus’ ao terminar o programa em ondas curtas às 22 horas hora do Rio”, telegrafou “Alfredo” em janeiro de 1942. Preso em novembro, foi condenado a 14 anos e cumpriu cinco.
Outro suposto chefão da espionagem nazista foi revelado em 1983(bem antes, portanto, de os arquivos do Deops serem abertos), quando o historiador americano Stanley Hilton lançou A Guerra Secreta de Hitler no Brasil. Nele, Hilton apontava o alemão Hans Curt Werner Meyer-Clason como líder da rede que funcionava no Rio Grande do Sul. Foi um espanto. Não tanto para os historiadores, mas para os literatos brasileiros. É que Meyer-Clason é o maior tradutor de literatura brasileira para a língua alemã. Ele, que passou cinco anos preso em Ilha Grande, nega até hoje a acusação.
Caça aos nazistas
Quando foi declarada guerra entre Brasil e Alemanha, houve em São Paulo e no Rio uma debandada de empresários alemães rumo ao país natal. Já os imigrantes alemães do Sul não tiveram a mesma chance. Em 1942, espionagem era – e ainda é – crime no Brasil. Segundo o Código Penal Militar (pela convenção de Genebra, de 1929, espiões são criminosos de guerra), o acusado pode ser condenado de quatro a 20 anos de prisão. Mas a aplicação da lei no Brasil, já naquele tempo, teve excessos de um lado e “jeitinhos” do outro.
Numa tarde, no verão de 1942, o estudante Max Will, então com 12 anos, voltava da escola em Agrolândia, em Santa Catarina. “Em casa, encontrei todo mundo chorando. Os policiais tinham invadido nossa casa e levado meu pai”, lembra. O pai de Max, o agricultor Leopoldo Will, viera da Alemanha quando criança e jamais aprendera o português. Na praça da cidade, os policiais obrigaram-no a beber óleo de rícino com diesel e defecar em público. “Enfiaram-lhe o fuzil na boca e passaram o diesel por ali”, conta Max, hoje com 75 anos.
Com medo de atos assim, um grupo de 12 marinheiros alemãesfez uma tentativa desesperada durante o Carnaval de 1942. Em São Vicente, litoral de São Paulo, eles tentaram fugir, atravessando o Atlântico num barco de 10 metros de comprimento. “No segundo dia no mar, depois de uma tempestade, vimos que era preciso voltar à terra para consertar o barco. Acabamos naufragando pouco antes de atingir o litoral de Praia Grande”, conta Heinz Lange, hoje com 85 anos, o único tripulante da aventura ainda vivo. “A polícia nos pegou e fomos direto para a cadeia.”
Heinz e os amigos faziam parte da tripulação do Windhuk, um navio de turismo que zarpou da Alemanha em julho de 1939 rumo à África com cerca de 650 pessoas a bordo. Quando a guerra estourou, a maioria resolveu ficar na África, mas cerca de 250 resolveram permanecer a bordo e tentar voltar à Alemanha. No caminho, para fugir de navios de guerra britânicos, o Windhuk teve que mudar de rumo e virar à esquerda. “Eles chegaram ao Porto de Santos em dezembro de 1939 e ficaram morando no barco até 1942”, conta Peter Böhme, filho de um tripulante do Windhuk, que prepara um livro baseado no diário que seu pai escreveu na época. Os tripulantes do Windhuk chegaram a trabalhar em Santos como carpinteiros, mecânicos e cozinheiros, mas depois da entrada do Brasil na guerra acabaram em campos de prisioneiros acusados de “nazismo leve”. De 1942 a 1945, cerca de 3 mil alemães, japoneses e italianos foram presos pelo governo em 13 campos de concentração em oito estados. Em Santa Catarina foram 200 presos num hospício desativado de Joinville. Em Curitiba e Porto Alegre foram colocados em presídios comuns. Em Recife, o campo de Chã de Estevam abrigou os funcionários da Companhia Paulista de Tecidos (que depois viraria Casas Pernambucanas), cujos donos, os Lundgren, eram alemães. “Quase ninguém ali tinha nada a ver com nazismo”, diz a historiadora Susan Lewis, da Universidade Federal de Pernambuco.
Os maiores campos foram montadosem Pindamonhangaba e Guaratinguetá, em São Paulo, para abrigar a turma do Windhuk. No primeiro, os prisioneiros criaram um grupo de teatro e a orquestra do navio seguiu tocando todas as noites. Heinz Böhme escreveu em seu diário: “Domingo fizemos jogo de futebol entre os com-camisa e sem-camisa. Consegui ler um jornal contando que uma bomba caiu em Berlim”.
Em 1945, com a rendição alemã, a coisa esfriou e, quando a guerra acabou, muitos processos foram abandonados e a maioria dos detidos foi simplesmente libertada. Do campo de Pindamonhangaba todos os presos saíram andando, pela porta da frente. A maioria ficou pelos arredores, outros partiram atrás de parentes, alguns não deixaram pistas. O cozinheiro do Windhuk, Kurt Brenneck, foi trabalhar num hotel em Campos do Jordão. Três de seus colegas se casaram com moças da região e seus filhos e netos ainda estão por lá. Os espiões graúdos, presos em Ilha Grande, também foram libertados. Niels Christensen, condenado a 30 anos, saiu em 1947. O carpinteiro Heinz Lange só voltou a sua terra no fim da década de 50. Encontrou um país transformado, bem diferente daquele que tinha deixado em 1939 a bordo do Windhuk. “Não gostei nem um pouco. Eu já estava acostumado com o Brasil”, diz. Sem pensar duas vezes, ele preferiu voltar e se aposentar como um tranquilo mestre-de-obras em Praia Grande, no litoral de São Paulo.
Nazismo em verde e amarelo
Integralismo chegou a ter entre 600 mil e 1 milhão de membros no Brasil
Entre os brasileiros, as ideias de Hitler e Mussolini tinham um correspondente fiel: o integralismo. Assim como nazistas alemães e fascistas italianos, os integralistas pregavam disciplina militar, superioridade dos brancos, nacionalismo radical, antissemitismo, governo autoritário e luta contra o comunismo. Eram liderados por intelectuais como o jornalista Plínio Salgado e os advogados Gustavo Barroso e Miguel Reale. O partido contava com uma milícia cujos membros, para se cumprimentar, levantavam o braço direito e diziam “anauê”, que, em tupi, significa “você é meu irmão”. Os “irmãos”, é claro, não incluíam negros, judeus e estrangeiros. O racismo por vezes acabava em violência, como em 1936, quando, durante um desfile, milicianos espancaram negros no centro do Rio. A Ação Integralista Brasileira, que chegou a dividir o mesmo escritório com sedes do Partido Nazista em cidades como Rio do Sul, em Santa Catarina, elegeu oito prefeitos nesse estado em 1936, quando chegou a ter entre 600 mil e 1 milhão de membros. Tamanha popularidade daria a Salgado grandes chances na eleição presidencial de 1938. No entanto, em setembro de 1937, Vargas deu um golpe de Estado e se tornou ditador. A desculpa para o surto autoritário foi a descoberta do Plano Cohen, que revelaria um projeto comunista contra o governo, mas que na verdade era uma papelada falsa de autoria do capitão do Exército Olympio de Mourão Filho, notório simpatizante das teses integralistas. Apesar de apoiar o golpe de Getúlio, foram alijados do poder e o partido foi proibido. Em maio de 1938, integralistas atacaram o Palácio Guanabara, sede do governo federal, foram reprimidos e alguns morreram fuzilados. Plínio Salgado acabou exilado. Depois da derrota dos nazistas na guerra, o integralismo perdeu o encanto. Mas seus líderes continuaram integrados à política. O capitão Mourão Filho se tornou o general que, em 1964, deflagrou o golpe contra o presidente João Goulart, apoiado por políticos como Miguel Reale, secretário de Estado de São Paulo. Outro integralista, Raymundo Padilha, virou deputado em 1952 e, em 1971, foi nomeado pela ditadura governador do Rio. Plínio Salgado se elegeu deputado várias vezes. A última pela Arena, em 1977.
"Nunca fui espião nazista"Aos 95 anos, tradutor alemão preso por espionagem conta sua vida no Brasil
Seis décadas depois de ter sido preso no Brasil por crime de espionagem, o tradutor Hans Curt Werner Meyer-Clason,  por meio de quem os alemães conheceram João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, vive em Munique, na Alemanha, de onde falou por telefone com História. Aos 95 anos, mantém um português impecável e é capaz de lembrar detalhes dos cinco anos que passou em Ilha Grande, época que, insiste em dizer, considera a melhor de sua vida. Membro correspondente da Academia Brasileira de Letras, ele sempre evitou falar sobre o tempo em que, segundo a polícia, foi espião em Porto Alegre, mas diz que as acusações não passam de um engano: “Não tenho nada a encobrir ou silenciar”. Para Priscila Perazzo, uma das maiores especialistas no estudo dos documentos do Deops sobre o período, no entanto, ele pode não ter sido um espião clássico, o tipo que se conhece no cinema, mas certamente cometeu atos de espionagem. “Vários alemães foram presos por engano, mas com condenados a 20 anos, como Meyer-Clason, há poucas dúvidas. Compreensivelmente, ele vai negar o vínculo ao nazismo até a morte”, acredita a historiadora.
História – O senhor é considerado chefe de uma rede de espionagem nazista no Brasil. É verdade?
Meyer-Clason – Não, as acusações não são verdadeiras. Eu era comerciante, não era espião. Fui para o Brasil justamente porque queria sair da Alemanha hitlerista. Meu contato em Porto Alegre foi única e exclusivamente comercial. No porto de Bremen, consegui um cargo no Brasil, como representante de uma empresa de Boston, Massachusetts, que controlava estoques de algodão. A polícia achou que eu era espião porque era um jovem alemão que dizia trabalhar para americanos, falava muitas línguas e viajava pela costa falando com empresas alemãs na Bahia, no Recife.
Mas, na época, o senhor confessou ter sido espião, não?
A polícia foi muito violenta com a gente. Os policiais nos mandavam abrir os braços e brincar de “Cristo Redentor”. Ficávamos encostados em uma parede com os braços levantados e eles batiam no peito e do lado sem que pudéssemos abaixar o braço. Depois, fizeram uma confissão de espionagem falsa e fui condenado a 20 anos de prisão. Embora maltratado pela polícia, o melhor da minha vida devo ao Brasil. Eu temia ser maltratado enquanto fiquei preso, mas na prisão, em Ilha Grande, acabei mudando radicalmente. Devo ao Brasil minha mudança filosófica, existencial. Depois de Ilha Grande, passei da vida europeia, do “penso, logo existo”, para o jeito brasileiro, “sinto, logo existo”.
O senhor conheceu a literatura brasileira na prisão?
Em Ilha Grande tive acesso à literatura mundial. Foi ali que conheci meu grande professor de vida, o poeta e barão alemão Gerd von Rhein. Ele tinha sido preso pela Gestapo e depois deixou a Alemanha com seu parceiro – era homossexual. Por intermédio dele, conheci toda a literatura de Homero a Sartre. Eu fui educado como filho de oficial alemão, de uma família burguesa, sem educação literária. Não fosse a prisão, eu seria um empresário, não um escritor e tradutor.
Como o senhor conseguiu sair de lá?
Depois da guerra, consegui um advogado que me defendeu gratuitamente e a condenação foi arquivada. Fui inocentado, saí livre para a rua. Depois, passei mais uns anos trabalhando numa firma de importação de gêneros alimentícios no Rio, para ganhar dinheiro. Em 1954, voltei para a Alemanha para começar uma vida nova, de escritor, crítico literário e tradutor. De tanta saudade do Brasil, comecei a ir às festas do Consulado Geral do Brasil. Um dia, perguntei ao cônsul-geral qual era a novidade literária do Brasil. Ele me falou de um colega, também diplomata, um tal de Guimarães Rosa.
O senhor e Guimarães Rosa ficaram amigos?
Sim, ficamos amigos até a sua morte. Depois que o cônsul me falou de Grande Sertão: Veredas, eu escrevi para o Guimarães. Ele me respondeu e mandou o romance. Assim começou uma amizade de muitos anos. Depois, tive a sorte de lançar no mercado alemão os grandes gênios latino-americanos. Até hoje, recebo livros e cartas de poetas e romancistas brasileiros.


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