domingo

Campanha & Batalhas

1.       Invasão da Europa
2.       França: Queda e Resistência
3.       O milagre de Dunquerque
4.       Batalha da Inglaterra
5.       Ataque à União Soviética
6.       Pearl Harbor
7.       Batalha de Stalingrado
8.       Caça à Raposa do Deserto
9.       Ação de Guerrilhas
10.   Guerra no Pacífico

11.           Cinzas de Hiroxima
Invasão da Europa

                     Newton Carlos



Em 1922, a mais gloriosa unidade da Marinha de Guerra norte-americana, o encouraçado Kentucky, foi escolhido para vítima de um sacrifício que simbolizaria a paz entre os homens. Com todas as honras de estilo, cercado de unidades de elite das potências mundiais, seria ele posto a pique no meio do Atlântico. O ato, de alta pompa, marcaria o início da execução de um acordo geral de desarmamento.
           Desde o fim da Primeira Guerra Mundial, uma mistura de estadistas e idealistas vinha tentando construir uma mecânica de paz, para evitar que os homens se envolvessem, pela segunda vez, num conflito de dimensões universais. Por iniciativa dos Estados Unidos, foi criada a Liga das Nações, que deveria conduzir a solução das questões internacionais por meio do processo parlamentar. Mas os próprios Estados Unidos jamais se incorporaram a ele, insistindo num isolacionismo que iria encorajar Hitler e deflagrar a Segunda Grande Guerra.
         A 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadia a Polônia. Dois dias depois, Inglaterra e França declaravam guerra à Alemanha, que atacou a União Soviética em junho de 1941, após haver dominado a Europa continental. Em fins de 1941, com o ataque japonês a Pearl Harbor, entravam na guerra os Estados Unidos. A Segunda Grande Guerra terminou em 1945, com um saldo de 40 milhões de mortos, entre soldados e civis. Custo total: quatro trilhões de dólares.

                                        * * *

           A 15 de março de 1928, depois de anos de exaustivas negociações que não haviam conduzido a nada, inaugurou-se a grande conferência de Desarmamento da Liga das Nações, em presença de delegações de 24 países, inclusive a Alemanha, cujas relações com as potências do Ocidente eram cada vez mais tensas. A Alemanha retirou-se de todas as conversações de desarmamento antes da ascensão dos nazistas ao poder, em 1933. Hitler, feito chanceler, concordou em discutir novamente o problema, desde que fosse reconhecida à Alemanha “uma situação de igualdade num sistema de segurança internacional”. Já aceitando condições dos derrotados de 1918, que se sentiam suficientemente seguros para voltarem a impor-se no jogo mundial, tentaram os ingleses enquadrar as exigências de Hitler num projeto de convenção de desarmamento. Mas as discussões se tornaram inúteis, diante do belicismo nazista.
           Em outubro de 1933 (Hitler chegou a chanceler em janeiro do mesmo ano) abandonaram os alemães as negociações de desarmamento, e a própria Liga das Nações. O enorme aumento das verbas militares consignadas no orçamento da para 1934 levou franceses a se recusarem a continuar discutindo reduções de armamentos. Até 1939, ainda procuraram os ingleses conter a corrida armamentista que de novo assaltara a Europa. Nada conseguiram.
            Quando a batalha do desarmamento foi considerada perdida, em definitivo, já não havia nem esperanças de que se respeitassem os tratados existentes, inclusive o de Locarno. Os alemães recusavam-se a reconhecer o Tratado de Versalhes, que lhes tirou o porto de Dantzig, o Sarre, a Alsácia-Lorena e outros territórios incorporados à Polônia, Lituânia, Tchecoslováquia, Bélgica e Dinamarca, por considerar que ele havia sido ditado pelas potências vendedoras da Primeira Grande Guerra e assinado por “traidores” do povo alemão. Mas o Tratado de Locarno fora firmado espontaneamente por um Governo alemão cuja representação popular ninguém discutia. Apenas não se tratava de um Governo nazista.
            Em 1925, a Alemanha, França, Bélgica e Inglaterra assinaram o tratado de Locarno, prevendo:

1.     Alemanha, França e Bélgica manteriam suas fronteiras da época e os três países evitariam o uso da força entre si;
2.     A Alemanha reconheceria o estatuto da Renânia, desmilitarizada perpetuamente pelo Tratado de Versalhes;
3.     Inglaterra e Itália garantiriam o Tratado.

        Em março de 1936, aproximaram o mundo, ainda mais, de uma guerra que muitos já consideravam inevitável:

1.     Desistiram os ingleses de patrocinar discussões inúteis de desarmamento; e
2.     Hitler denunciou o Tratado de Locarno e mandou que suas tropas entrassem no território desmilitarizado.

          O Governo nazista acompanhou a denúncia de Locarno com uma oferta de paz de longo alcance, para evitar um choque armado imediato, com a França e a Inglaterra. Necessitando de mais algum tempo para preparar-se militarmente, anunciou Hitler que a Alemanha voltaria à Liga das Nações, mediante determinadas condições, uma delas exigindo o reconhecimento de uma “igualdade de direitos” aos alemães, na área colonial (as colônias alemãs haviam sido rateadas entre os vencedores da Primeira Guerra Mundial). A manobra foi aceita pelas demais potências europeias. Enquanto estudavam elas a proposta da Alemanha, fortalecia Hitler, política e militarmente, a sua máquina de guerra. O eixo Roma-Berlim foi proclamado em novembro de 1936. Três semanas depois, Alemanha e Japão, firmavam o pacto Anti-Komitern: Itália e Japão já haviam violentado a Liga das Nações, com as invasões da Abissínia e da Manchúria, que abriram o processo de desmoralização do instrumento criado para garantir a paz mundial. Embora proclamado em novembro, o eixo Hitler-Mussolini funcionava desde julho, em ajuda a Franco, que se levantara contra o regime republicano espanhol. Aviões de guerra alemães começaram a descer no Marrocos espanhol, de onde partiu Franco, três dias depois de iniciado o levante, em julho de 1936. A revolução espanhola seria o laboratório onde alemães e italianos experimentariam seus engenhos de guerra.
          Em 1937, continuou Hitler o seu jogo de boas intenções. Em janeiro desse ano, declarou num discurso que passaria à História como uma peça clássica de cinismo:
        - Terminou o período das chamadas surpresas. A Alemanha está mais consciente do que nunca de que tem diante de si um dever europeu: o de colaborar lealmente na supressão daqueles problemas que são causa de ansiedade para nós próprios e também para as demais nações.                                
          Em 1938, a Alemanha anexou a Áustria e iniciou o assédio à Tchecoslováquia, abrindo uma crise que terminaria temporariamente com o Pacto de Munique  A essa altura, Hitler já não podia mais esconder o jogo. Na realidade, ele nunca o escondeu. Seu plano original, o Drang nach osten, o avanço para o Leste por cima dos corpos prostrados da Polônia e da Tchecoslováquia, foi exposto no Mein Kampf mais de 15 amos antes de executado pelo Estado-Maior alemão.

                                         * * *

          A Tchecoslováquia nasceu no dia seguinte à assinatura do armistício de 1918. Surgiu ela do desmembramento do Império Austro-Húngaro. Tendo Hitler a obsessão de criar um Estado alemão com base na unidade da raça, os tchecoslovacos de língua alemã, habitantes dos Sudetos, estavam forçosamente incluídos nos seus planos. Num discurso que pronunciou em 1938, para comemorar o Anschluss, a anexação da Áustria, falou ele nos dez milhões cujo direito de voltar à mãe-pátria era legítimo e indispensável. Os austríacos somavam mais de seis milhões e meio. Os três e meio milhões restantes eram, sem dúvida, os alemães da Tchecoslováquia.
        Um movimento inspirado na doutrina racista, reclamando direitos de administração para a minoria alemã, começou a funcionar nos Sudetos desde o momento da ascensão de Hitler ao poder. Depois da anexação da Áustria à Alemanha, a ação da minoria alemã tornou-se mais intensa, nos Sudetos, terminando ela por exigir completa autonomia dentro do quadro das instituições da Tchecoslováquia. Em setembro de 1938, no Congresso nacional-socialista de Nuremberg, Hitler assegurou todo apoio às reivindicações aos alemães-tchecos, advertindo às potências ocidentais dos perigos que corriam, caso incentivassem uma resistência ao Governo de Praga. Chegava ao seu ponto crítico a crise que levaria ao tristemente famoso Pacto de Munique e ao desmembramento da Tchecoslováquia.
        Depois do discurso de Hitler, uma sucessão de fatos, que foram desde a mobilização da esquadra inglesa aos bons ofícios anglo-franceses concordasse com as reivindicações dos alemães dos Sudetos, agora exigindo incorporação à Alemanha, quase precipitou a guerra:
1. A 26 de setembro de 1938 deu Hitler seis dias ao Governo tcheco para resolver entre a paz e a guerra;
2. A 28, sugeriu Mussolini a reunião das quatro potências (Inglaterra, França, Alemanha e Itália), para tratar do problema tcheco;
3. A 30 reúnem-se, em Munique, Hitler, Mussolini e os primeiros-ministros da Inglaterra e França, Chamberlain e Daladier;
     A incorporação dos Sudetos à Alemanha, bem como a cessão de outros territórios tchecos à Hungria e à Polônia, foram decididos em Munique com a chancela dos anglo-franceses, que julgavam salvar, assim, a Tchecoslováquia e a própria paz mundial. Mas seis meses depois, em março de 1939, entrava Hitler em Praga, “em flagrante violação do acordo de Munique”, conforme fizeram notar, polidamente, as chancelarias da Inglaterra e da França. A invasão da Tchecoslováquia punha fim à política de apaziguamento com os nazifascistas.
     Nos Sudetos, tinha Hitler, desde 1933, um gauleiter a seu serviço, Conrad Henlein. Um ao depois do avanço alemão sobre parte da Tchecoslováquia, feito com o consentimento dos anglo-franceses (avanço que se completaria com a marcha sobre Praga), um outro gauleiter nazista, Albert Roster, saudaria as tropas alemães que chegavam a Dantzig, após a invasão da Polônia. Dizia ele, em sua proclamação:
      - A hora esperada há vinte anos soou. Voltamos ao seio do Grande Reich. Nosso Führer libertou-nos. A bandeira da cruz gamada tremula nos edifícios públicos. Agradecemos a Deus a nossa libertação!
     .Desta vez, porém as potências do Ocidente decidiram reagir. Era a guerra.

[Do livro 25 depois: de Hitler à Terceira Guerra Mundial ]

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França: queda e resistência
                    Newton Carlos
A 3 de junho de 1940,  quando era completada a retirada de Dunquerque, a aviação alemã bombardeou Paris. Mil bombas foram jogadas sobre a capital francesa, matando um total de 906 pessoas. Ocupadas a Polônia, Noruega, Dinamarca e os países Baixos (Holanda, Bélgica e Luxemburgo), ganha a batalha de Flandres e expulso o grosso do Corpo expedicionário Britânico  (três divisões inglesas permaneceram lutando ao lado dos franceses) abriam os alemães a batalha da França.
     Depois de declarada cidade aberta, Paris foi ocupada pelos nazistas a 4 de junho. O Governo francês, ainda liderado por Paul Reynaud, que prometera a Churchill resistir onde fosse possível, na metrópole ou em territórios coloniais, já se havia retirado para Tour. Com a continuidade do avanço alemão, recuou ainda mais para Bordeaux, onde a 16 o Ministério, por uma maioria de três votos e contra a vontade do Primeiro-Ministro, decidiu pedir o Armistício à Alemanha. Demite-se Reynaud e é nomeado Primeiro-Ministro o velho Marechal Pétain, cuja primeira tarefa seria completar a rendição da França.
     A 21 de junho, apenas 18 dias depois do bombardeio de Paris,
representante do Governo de Bordeaux eram recebidos por Hitler
em Compiègne, no mesmo vagão ferroviário no qual os alemães se
haviam curvado às exigências dos aliados, em 1918. Hitler,
acompanhado de Göring, Rudolf Hess, Ribbentrop  e dos generais
Brauchitsch e Keitel, ocupava a cadeira onde, 23 anos antes, se
sentara o Marechal francês Foch. Além de derrotada, era a França
humilhada.

                            *  *  *

     Como se explica tamanho desastre? A 10 de junho de 1940,
com a declaração de Guerra da Itália, a França fora vítima de um
ato de oportunismo sem precedentes na história moderna (atacou
Mussolini um país em luta desesperada por sobreviver), mas isto
não é uma justificativa. No terreno estritamente militar, são
significativos os seguintes dados:

1.Durante a batalha de Flandres, que terminou com a retirada de
Dunquerque, as unidades blindadas alemãs avançaram uma
média de quatro quilômetros por dia.

2.De 10 de junho, quando se travou a batalha da França e se
completou o processo de rendição, as unidades blindadas alemãs
avançaram um total de 300 quilômetros.

     Somente numa fase da luta, a que resultou na ocupação da
margem direita do rio Aisne, empregaram os alemães dois mil
tanques, que operavam em grupos compactos de até 300. Revelou,
depois da derrota, Guy de la Chambre, Ministro da Aviação na
época em que a guerra foi deflagrada:

1. Em setembro de 1939, tinha a França apenas 1.070 aviões, entre
os quais somente 442 caças modernos. Eram de modelos antiquados
os 390 bombardeios franceses;

2. Dez mil aviões, modernos em sua quase totalidade,
integravam a força aérea alemã.

       Com orgulho, exibiam os franceses, no começo da guerra, a sua
Linha Maginot, imponente, mas imóvel, guardando em seus fortins,
também imobilizada, à espera de um inimigo que iria mover-se a
toda velocidade, em todas as direções, grande parte do Exército
francês. No plano militar, a França foi vítima, portanto, dos
métodos ortodoxos, facilmente superados pela blitzkrieg alemã, a,
um gênero revolucionário de guerra que se apoiava, especialmente,
na aviação e nas unidades blindadas. Em julho de 1939, dois meses
antes de iniciada a guerra, afirmou o General Gamelin, comandante
chefe das forças francesas, à Comissão do Exército da Câmara
Nacional:
     - A aviação não terá um papel importante na guerra, porque o desgaste de pessoal e de material será muito rápido. Poderá vir a ser, quando muito, fogo de palha. A respeito de tanques, não deve ser levado a sério o conceito de que poderão ser utilizados em grande unidades autônomas, perdendo sua característica principal, e única possível, de acompanhantes da infantaria.
     Já ás vésperas da guerra, escrevia o Marechal Pétain:
     - Quanto aos tanques, que deveriam encurtar as guerras, seu fracasso é chocante, como arma militar.
     Mas mesmo surpreendida pela Blitzkrieg alemã, que encontrou pela frente o academicismo dos principais chefes militares franceses, a França ainda poderia ter resistido, terminando a guerra sem a humilhação de Compiègne. A rendição encontrou quase intacto um exército de um milhão de franceses, cuja ação se limitou a uns poucos dias de combates com os italianos. Um outro exército, também de um milhão de homens, estava no Marrocos. Mais de 600 mil franceses permaneciam prontos para a luta, na Síria. A poderosa esquadra, depois de quase toda desarmada, segundo os termos do armistício, e parte da qual os ingleses se viram obrigados a destruir, no porto argelino de Orã, poderia ter escapado para bases no Norte da África. Resistir de Argel, ou mesmo de Londres, era a decisão de Reynaud, Primeiro-Ministro francês.
     Procurando salvar Reynaud, evitando a rendição, já pregada abertamente por Pétain, propôs Churchill, a 16 de junho, que a Inglaterra e a França se juntassem numa “união indivisível”. O documento a respeito elaborado pelo Conselho de Ministros britânico é uma peça de enorme importância histórica.Eis seu texto completo:
     “Neste momento, o mais decisivo da história do mundo
moderno, o Governo do Reino Unido e a República Francesa fazem
esta declaração de união indissolúvel e inflexível resolução. Na
defesa comum da Justiça e da Liberdade, contra a submissão
a um sistema  que reduz os homens a escravos. Os dois governos declaram que a Grã Bretanha e a França deixarão de constituir duas nações e passarão a integrar  uma união franco britânica. Serão constituídos organismos comuns de defesa e de política
externa, financeiros e econômicos. Todos os franceses se
beneficiarão, imediatamente, da nacionalidade britânica, e todos os
súditos britânicos passarão a ser cidadãos franceses. Ambos os
países partilharão a responsabilidade da reparação dos prejuízos
de guerra, em qualquer parte que lhes ocorram, dentro de seus
territórios. Durante a luta, haverá um único Gabinete de Guerra, que
dirigirá todas as forças de terra, mar e ar, inglesas e francesas. Esse
gabinete governará os dois países, do local onde melhor puder fazê-
lo. Os dois Parlamentos se associarão, formalmente. As nações do
Império britânico já estão formando novos exércitos. A França
manterá disponíveis suas forças na terra, no mar e no ar. A União
apela para que os estados Unidos fortaleçam os recursos
econômicos dos Aliados, trazendo seu poderoso auxílio material à
causa comum. A União concentrará toda a sua energia contra o
poder do inimigo, não importa onde a luta seja travada. E assim
venceremos.”

     O Governo francês, liderado por Reynaud, tomou conhecimento da oferta inglesa, mas não chegou a decidir sobre ela. Pierre Laval, um oportunista sem escrúpulo, reaparecera em Bordeaux, como pregoeiro do derrotismo. Pétain, cujos conceitos militares acadêmicos, associados aos de camaradas seus, haviam aberto caminho ao desastre militar, insistia para que o desastre fosse completado. Vivia ele lembrando que a resistência dos franco-atiradores em Paris em 1871, resultara na Comuna, como se quisesse dizer que a França estava, em 1940, diante da alternativa do nazismo ou comunismo. Era ceder ao nazismo para conter o comunismo. Sem condições para suportar tamanha carga de derrotismo, renunciou Reynaud, levando no bolso a última tentativa inglesa para evitar a rendição da França. A 17 de junho de 1940, já Primeiro-Ministro, fez e Pétain a sua Declaração aos Franceses. Era, na realidade, um convite para que o país se curvasse diante do invasor. Disse ele:

     - Franceses. Em face do apelo do Sr. Presidente da República, assumo a partir de hoje a direção do Governo. Certo da afeição do nosso admirável Exército, que luta com um heroísmo digno de suas antigas tradições; certo de que, por sua magnífica resistência, ele se desincumbiu de suas obrigações para com os Aliados; certo do apoio dos antigos combatentes, que me orgulho de comandar; certo da confiança de todo o povo, ofereço-me à França, cuidando atenuar-lhe a desgraça. Nestas horas de dor, volta-se o meu pensamento para os infelizes refugiados, que, em extrema miséria, percorrem nossas estradas, e lhes exprimo minha compaixão e minha solicitude. É de coração oprimido que vos digo: é preciso cessar o combate. Dirigi-me à noite passada ao adversário, consultando-o sobre se está disposto a procurar, comigo, entre soldados e com honra. Os meios de pôr fim às hostilidades. Que todos os franceses se reúnam em torno do Governo a que presido, durante as duras provações, e calem sua angústia, para não obedecer senão a fé que abrigam nos destinos da Pátria.
     A 2 de junho, controlando teoricamente apenas um terço do território francês (os dois terços restantes receberam o estatuto de áreas ocupadas), todo o Ministério Pétain chegou a Vichy, sob a escolta alemã. Desaparecia a República Francesa e surgia, em seu lugar, l’État français, com Pétain e Laval à sua frente, um regime que em breve revelaria suas tendências antidemocráticas (Reynaud, Daladier e Léon Blum, antigos Primeiros-Ministros, foram presos) e antissemitas. Transformou-se, ainda, num ativo instrumento de propaganda contra a Inglaterra, à qual atribuía a maior parcela de responsabilidade pelo desastre francês.
     Com o Governo fantoche de Vichy, completou-se uma fase negra da história da França, vítima, sucessivamente, de militares incapazes e de todo um processo de traição, cuja marca exterior era o derrotismo – ou a necessidade de cessar os combates, segundo Pétain, Laval etc.

                                      *  *  *

     A França, como um todo, não estava, porém, derrotada. Na manhã de 17 de junho de 1940, um dos Subsecretários de Estado do Primeiro-Ministro Reynaud, que acabara de renunciar, deixou Bordeaux com destino a Londres, acompanhado de seu ajudante-de-ordens. Era o General De Gaulle, que partia para a criação de uma França livre, que continuasse a luta contra os nazistas. Além de algum dinheiro, De Gaulle levava apenas as chaves de um apartamento de um amigo. Em Seamore Place, 8, perto do Hyde Park, com seu pequeno living, dois quartos e uma cozinha, nasceu o movimento de resistência gaullista.
     Ainda a 17, depois de um encontro com Churchill, que recebeu com agrado sua disposição de resistir, De Gaulle reluta em atender a apelos de amigos, para que utilize uma autorização do Primeiro-Ministro inglês e fale aos franceses, através da BBC. Não queria se antecipar à ordem de cessar fogo e se esforçava por acreditar nas palavras de Pétain, segundo as quais o Exército francês “lutava ainda com um heroísmo digno de suas tradições militares contra um inimigo superior em número e em armas”. Mas um dia depois, com as informações que recebeu, dando conta da engrenagem de traição e derrotismo que entrara a funcionar a todo pano, seus escrúpulos desapareceram. Após um novo encontro com Churchill, e no mesmo momento em que o Governo Pétain continuava afirmando que só aceitaria uma solução honrosa e não a rendição incondicional, chegou ao mundo o apelo de De Gaulle. Registram os jornais da época:

     “O General de Gaulle, ex-chefe militar do Gabinete Reynaud, em uma transmissão feita de Londres, apelou aos soldados franceses na Inglaterra e aos que estão chegando, bem como aos engenheiros e operários em armamentos, para que se mobilizem, a fim de continuar a guerra. Disse que a França não está perdida, acrescentando:

     - Apesar de todos os nossos erros, deficiências e sofrimentos,
existem no mundo recursos bastantes para permitir-nos derrotar o
inimigo. Desfeitos, hoje, pela força mecanizada, brevemente
estaremos  com uma força mecanizada mais poderosa.  Disso
dependerá a sorte do mundo.  A França não está só.  Tem atrás de si
um imenso império, pode-se unir domina os mares e continua a
luta. Conta plenamente com todos os recursos da Inglaterra e com
os que podem enviar os Estados Unidos.

                                      *  *  *
     Quem era De Gaulle? Um general pouco conhecido na França, mas cujas teorias, expostas em seu livro L’Armée de Métier, de 1933, eram a espinha dorsal da guerra relâmpago alemã. Gamelin, Pétain e outros chefes militares franceses negavam valor à guerra veloz, aos aviões e aos tanques, dizia De Gaulle em seu livro:
     - Os exércitos de amanhã rolarão sobre lagartas.
     Reynaud foi um dos raros estadistas franceses a aceitar as teses de De Gaulle, mesmo assim somente depois aplicadas pelos alemães, na campanha da Polônia. Mas era tarde. De Gaulle foi convocado por Reynaud a 7 de junho de 1940. Sua ascensão a Subsecretário de Estado teve, no entanto, uma grande utilidade, para ele. Nesse cargo, que o obrigou a sucessivas viagens a Londres, para contatos oficiais com os ingleses, travou conhecimento com Churchill, cujo apoio foi decisivo para o sucesso de seu movimento de resistência. A 28 de junho de 1940, dez dias depois de seu apelo, obteve o reconhecimento do Governo francês “como chefe de todos os franceses livres”. Embora pouco conhecido, De Gaulle calou fundo na França, com seu apelo. Após a transmissão desse apelo, falou-se, inclusive, na volta de Reynaud ao poder, para que a França continuasse lutando. Mas os homens que iriam depois para Vichy e que condenariam, em ausência, à morte, o general da resistência, já haviam levado muito longe seu derrotismo e sua traição.


                    3
O milagre de Dunquerque
Newton Carlos
A 10 de maio de 1940, depois de conquistadas  a Polônia, a Dinamarca e a Noruega, as tropas alemãs avançaram sobre a Holanda e a Bélgica. Holandeses e belgas verificaram, ao mesmo tempo, que suas posições de neutralidade (ambos os países sempre se recusaram, mesmo diante da guerra, a integrar qualquer frente anti-Hitler) de nada valiam diante da mecânica de expansão do nazismo. Três dias antes da invasão, negou Berlim que estivesse prevista qualquer ação visando a Holanda, o que depois levou a Rainha Guilhermina a protestar contra o que ela chamou de “violação sem precedente da boa-fé e de tudo o que é decente nas relações entre países civilizados”.
         No mesmo dia da invasão da Holanda e da Bélgica, quando Hitler dizia aos alemães que iniciava a batalha decisiva para o futuro da Alemanha, como nação, ocorreu um outro fato, cuja importância somente mais tarde poderia ser avaliada. Winston Churchill, liderando um governo de coalizão, substituiu Neville Chamberlain, como Primeiro-Ministro inglês.

                                      *  *  *
         A tarefa de Churchill, que fora um crítico severo da política de apaziguamento com os nazistas, era gigantesca. Quatro dias depois de sua ascensão ao poder, capitulava a Holanda. Em apenas quatro dias, ações de guerra em sua maioria inortodoxas (atuação da quinta-coluna, de alemães residentes no país e de paraquedistas alemães disfarçados de holandeses) desarticularam completamente as defesas holandesas. A 15 de maio, já refugiado em Paris, declarou o Primeiro-Ministro da Holanda, Van Kleffens:
         - Aqui nos encontramos porque fomos expulsos de nosso país pela agressão brutal da Alemanha. Ao nos atacar, usaram os alemães processos que ultrapassaram, em traição, os empregados na Noruega. Com a Noruega houve, pelo menos, um simulacro de negociações.
         A Bélgica, submetida à guerra relâmpago (bombardeio aéreo e desembarque de paraquedistas, seguidos das divisões Panzer e da infantaria motorizada, em avanços através de várias frentes), não iria durar muito. O Exército francês já dava sintomas de desagregação. A 18 de maio de 1940, abriam os alemães a primeira brecha na Linha Maginot. Para os ingleses, tudo isto representava ameaça direta às suas melhores tropas, na época.
         Em outubro de 1939, um mês depois de deflagrada a guerra, quatro divisões inglesas, vanguarda do Corpo Expedicionário Britânico, tropa de elite, desembarcaram no continente europeu, tomando posições de combate na fronteira franco-belga. A neutralidade dos belgas não permitia que elas fossem adiante. Os serviços de informações aliados sabiam, no entanto, que Hitler não tinha nenhuma intenção de respeitar a neutralidade dos Países baixos (Holanda, Bélgica e o pequeno ducado de Luxemburgo) e que a invasão da Holanda estava prevista para novembro de 1939.
         Foi adiada, conforme documentos apreendidos depois da guerra, a conselho do General Von Brauchitsch. Com o ligeiro alívio de tensão na fronteira entre os Países Baixos, em fins de 1939, o Governo inglês decidiu retirar suas forças do continente, para usá-las em frentes de maior pressão. Mas a decisão de retirada foi cancelada em janeiro de 1940, quando os alemães iniciaram uma nova concentração de tropas junto à Holanda e à Bélgica. Em março, mais seis divisões inglesas foram mandadas para a fronteira franco-belga. Quando Hitler determinou a invasão dos Países Baixos, o Corpo Expedicionário Britânico, que recebeu ordens de penetrar fundo em território da Bélgica, em socorro dos belgas, ultrapassava 300 mil homens e estava integrado das melhores divisões inglesas, operando na Bélgica, se viram isoladas. A ofensiva alemã, em várias frentes, havia separado o Corpo Expedicionário Britânico do grosso dos Exércitos franceses. Nesse mesmo dia, as vanguardas mecanizadas alemãs mudaram bruscamente de direção, numa tentativa de alcançar o mais breve possível os portos franco-belgas do Canal da Mancha. Paralelamente, concentraram os nazistas seus esforços numa ofensiva visando a subjugar, completamente, três departamentos franceses do Canal: os departamentos de Nord, Passo do Calais e Somme. A intenção era mais do que evidente. Depois de separar o Corpo Expedicionário Britânico do grosso dos Exércitos franceses, queria Hitler tirar aos ingleses qualquer possibilidade de volta à sua ilha, através do Canal.
         O primeiro grande problema de Churchill, como novo Primeiro-Ministro inglês, era, portanto, salvar o corpo expedicionário Britânico, retirando-o do continente.

                                      *  *  *
         A ideia de uma retirada maciça ficou completada a 19 de maio de 1940, nove dias depois de constituído o governo de coalização nacional. O conjunto de ações se chamaria “Operação Dínamo”, que deveria utilizar tudo o que estivesse em condições de flutuar, na Inglaterra. A arregimentação de barcos começou imediatamente: foram convocados, para uma reunião em locais previamente estabelecidos, destróieres, barcaças, rebocadores, iates, limpa-minas, salva-vidas e até conhecidos navios de passageiros, como o Bringhton Belle e o Crested Eagle. Conseguiu o Governo inglês reunir cerca de mil embarcações, para uma operação que desenrolaria, pouco depois, num canal juncado de minas e num porto francês, Dunquerque, sob bombardeio impiedoso da artilharia e aviação alemãs. As previsões mais otimistas se fixavam na possibilidade de salvação de uns 50 mil homens. O próprio Churchill não esperava salvar mais que 30 mil.
         O porto francês de Calais, frente aos rochedos de Dover, é o ponto da França mais próximo da Inglaterra. Entre Calais e Dover, os dois lados da Mancha fazem sua maior aproximação. Mas Dunquerque foi escolhido para funil da retirada por motivos de outra ordem:

1. Manter os alemães fora de Calais parecia, quando se decidiu a retirada, uma tarefa impossível de ser realizada:
2. Sendo praça militar circundada por fortes formações de trincheiras, Dunquerque, para onde convergiam normalmente reforços militares, diante do avanço alemão, era o local em melhor situação militar, para suportar uma operação do gênero.
3. Dunquerque possuía excelentes instalações marítimas e um porto capaz de aceitar navios de qualquer calado, além de extenso molhe que permitia a atracação de muitos navios, ao mesmo tempo;
4. Em seu litoral, cheio de altos e baixos e constantemente batido pelo mar, poderiam, concentrar-se as tropas à espera de embarque; 5. Parte dos embarques, principalmente os que seriam feitos em embarcações menores, poderiam realizar-se nas praias, liberando o porto para os barcos de calado maior.
         Foi este o cenário da retirada histórica da Segunda grande guerra mundial. Para que ela se tornasse possível, era necessário conter a vanguarda alemã em passo de Calais, localidade francesa, onde se desenvolveu heroica luta de resistência, enquanto o Corpo Expedicionário Britânico voltava à sua ilha.

[ Extraído do livro 25 anos depois: de Hitler à 3ª Guerra Mundial ]





                 4
Batalha da Inglaterra
                 Newton Carlos
 Em junho de 1940, quando Hitler impôs à França a cerimônia de rendição no mesmo vagão de Compiègne, onde fora assinado o armistício com a Alemanha, em 1918, uma pergunta corria mundo:
         - Por que os alemães não invadem a Inglaterra?
         Em apenas dez meses, de setembro de 1939 a junho de 1940, a Alemanha havia subjugado, um após outro, a Polônia,  Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França. A 4 de junho, o Corpo Expedicionário Britânico, a melhor tropa inglesa, expulso do continente pelos alemães, completara seu regresso à ilha, cuja queda daria aos nazistas o completo domínio da Europa.
         Por que, então, hesitaria Hitler? Estrategistas e autores militares parecem convencidos, hoje, de que a Alemanha esperava, como certa, a capitulação da Inglaterra, sem a necessidade de maus luta. Com a esquadra francesa anulada e com a margem continental da Mancha totalmente ocupada pelos alemães, a situação no Canal se tornara intolerável para a Armada britânica. Suas tarefas no mar, já pesadas, haviam sido multiplicadas pela ação da esquadra italiana no Mediterrâneo. A ajuda norte-americana apenas começava e mesmo a chegada dessa ajuda dependia, fundamentalmente, do predomínio e da habilidade dos ingleses no mar. Os italianos ameaçavam as posições britânicas no Oriente Médio e Norte da África. No Sudeste asiático, a situação se complicava com a passagem da Indochina francesa para o Japão, fato que determinaria, mais tarde, a perda de Cingapura.
         Como pensar em resistir, diante desse quadro? E diante,
ainda, da ameaça de uma invasão alemã, pela Mancha, a qualquer
momento? Mas os ingleses não cederam à pressão psicológica de
uma situação desfavorável, decidindo fincar pé em sua decisão,
ajudada pela hesitação alemã, talvez tenha mudado o curso da
História.

                                      *  *  *

         Desde Dunquerque, viviam os ingleses diante da
expectativa diária de um desembarque alemão. As palavras de
Churchill ecoavam por todo o país como grito de socorro de uma
comunidade pronta para uma sacrifício coletivo:
         - Se o invasor chegar, o povo não irá curvar-se submisso diante dele, como aconteceu, desgraçadamente, em outros países. Defenderemos aldeias, povoados e cidades. Preferimos ver Londres reduzida a cinzas e ruínas, a vê-la reduzida a uma abjeta e dócil servidão.
         Durante os meses de julho e agosto de 1940, em face da falsidade da premissa de que os ingleses capitulariam, sem luta, concentraram-se os alemães nos preparativos para a invasão da ilha. Já que iria haver luta, queriam uma decisão rápida, encerrando a guerra na Europa (a abertura de outras frentes foi determinada pelo fracasso em subjugar a Inglaterra) antes de terminado o ano de 1940. Enquanto as forças de terra preparavam o desembarque, a Luftwaffe se encarregaria de destruir comboios costeiros ingleses, de imobilizar a Armada Real, limpando a passagem pela Mancha, e, principalmente, de aniquilar a RAF, para que a invasão pudesse processar-se sem, nenhum apoio marítimo e aéreo.
         Mas a hesitação alemã dera tempo aos ingleses para transformar sua ilha numa fortaleza, sem que nenhuma medida de segurança fosse negligenciada. Elementos suspeitos de quinta-coluna, estrangeiros e mesmo ingleses, como o veterano camisa-preta  Sir Oswald Mosley, e até um deputado conhecido pelas suas atividades fascistas, foram presos. Criou-se a Home Guard, que em menos de dois meses recebeu mais de um milhão de voluntários, entre 17 e 65 anos, e cuja tarefa seria defender objetivos locais (em cidades, vilas e aldeias) até a chegada de forças regulares. Procurou-se retirar as crianças dos centros mais populosos, enquanto toda a população adulta de Inglaterra, homens e mulheres, se comprometia, direta ou indiretamente, com tarefas militares.
         Barragens de balões surgiram por cima das principais cidades inglesas, ao mesmo tempo que a costa virava uma muralha. Transformou-se em espécie de lenda a barragem de fogo, provocada pela combustão de uma linha flutuante de óleo, que os ingleses estariam em condições de levantar, caso a invasão fosse tentada. Mas travou-se no ar a primeira e única fase da batalha da Inglaterra. Seu herói seria um avião de combate batizado como Spitfire, o cospe-fogo, cujo desenho fora concebido 18 anos antes, pelo engenheiro R.J. Mitchell, ao observar o voo deslizante das gaivotas. Os heróis humanos dessa batalha histórica, os pilotos da RAF, ficariam imortalizados na frase de Churchill:
         -- No campo dos conflitos humanos, nunca tantos deveram tanto a tão poucos. 
         Cientes de sua supremacia aérea, não esperavam os alemães nenhuma dificuldade de monta, na primeira fase de sua ofensiva sobre a Inglaterra. Iria, simplesmente, ser repetida a tática já utilizada na Polônia, Noruega e Países Baixos, de confiar à Luftwaffe tarefa inicial de estabelecer seu domínio no ar, tornando praticamente inviável a ação do oponente em terra. Sem obstáculos, passariam a ser destruídos portos e meios de comunicação internos, da Inglaterra, e danificadas as unidades da Armada Real. Paralisadas as forças de terra inglesas, as divisões alemães estariam em condições de operar sem resistência considerável. O êxito do plano militar provocaria o aniquilamento do moral da população civil, seguindo-se a desagregação interna e a rendição. Mas Göring, chefe da Luftwaffe, decidiu escalonar de modo diferente sua ação contra os ingleses.        
         A 8 de agosto de 1940, iniciaram os alemães a Batalha da Inglaterra, com a quase certeza de que antes do inverno desse mesmo ano (o inverno da Europa começa em dezembro) teriam em mãos a rendição dos ingleses. Nesse dia, dois comboios ingleses foram ferozmente atacados, um deles por duas vezes. Pela manhã, 60 aviões alemãs, e mais uma centena pouco depois do meio-dia, desdobrados numa frente de mais de 30 quilômetros, tentaram afundar ou dispersar um comboio ao largo das ilhas Wright. Somente dois navios foram afundados. À tarde, uma nova onda de aviões alemães (cerca de 130) atacou um outro comboio inglês, ao largo de Bournemaouth. Conseguindo dispersá-lo, mas à custa de perdas pesadas. Três dias depois, o assalto foi renovado, tendo como alvo as cidades de Portland e Weymouth, e os comboios navegando pelo estuário do Tâmisa. Nesses ataques, empregaram os alemães seus famosos bombardeios de piquê, contra os quais pouco podiam os Hurricanes ingleses. O sucesso inicial encorajou-os. A 12 de agosto, duzentos aparelhos, em onze ondas sucessivas, caíram sobre o Dover, e mais 150 sobre Portsmouth e a ilha Wright. Portsmouth continuou sendo massacrado durante mais de três dias. Na tarde do dia 15, de 300 a 400 aparelhos da Luftwaffe metralharam o bombardearam o importante porto inglês.
         O primeiro objetivo alemão era claro: sem dar a devida importância à capacidade de resistência da RAF, decidiram os nazistas começar a tarefa de aniquilamento da Inglaterra pelas instalações portuárias e pela imobilização dos ingleses, no mar. Mas em poucos dias mudariam de ideia, voltando à tática original, de começar pela imobilização da força aérea oponente. De 8 a 12 de agosto de 1940, os caças ingleses abateram 182 aviões alemães. Embora os ataques às cidades costeiras continuassem, foi iniciada a ação de profundidade, contra aeródromos e defesas do interior.
         A 18 de agosto, as perdas da Luftwaffe já alcançavam 697 aparelhos, contra apenas 153 da RAF. As façanhas dos Spitfire, bem como dos Hurricanes e Defiants, em luta contra os Junkers-87 ou os Stukas (bombardeios de mergulho), Messerschmitt, Donier e Heinekel alemães, corriam mundo. A 24 de agosto, depois de uma pausa de cinco dias, durante a qual os alemães perderam mais 39 aviões, em voos de reconhecimento, uma formação de 110 aparelhos da Luftwaffe penetrou até a região de Maidstone. Entre esse dia e cinco de setembro, 35 ataques aéreos de envergadura foram realizados contra objetivos no interior da Inglaterra, especialmente contra aeródromos e fábrica de aviões. Não foram poupados, no entanto, zonas totalmente residenciais, como Kent, o estuário do Tâmisa e Essex. A dois de setembro, uma formação alemã chegou a 15 quilômetros de Londres.
         O ataque, que chegou às vizinhanças de Londres, foi o último de importância dos 35 iniciados em Maidstone, visando, especialmente, à imobilização da RAF. Nesses 35 ataques, perderam os alemães 562 aviões, contra 219 aviões ingleses destruídos, aos quais salvaram-se 132 pilotos.
         Era a Alemanha obrigada a novamente mudar de tática. Fracassada a operação de imobilização da RAF, os objetivos da Luftwaffe, passariam a ser os grandes centros indústrias, especialmente Londres. Entre 7 de setembro e 5 de outubro de 1940, 38 ataques de importância foram realizados contra Londres, Southampton e Kent. Era a última tentativa desesperada de vitória imediata. Destruir Londres e ganhar a guerra logo. A capital inglesa sofreu danos sérios, em edifícios portuários, fábricas, comunicações ferroviárias, usinas de gás e centrais elétricas, mas somente no primeiro ataque, a 7 de setembro, perderam os alemães 103 aviões. Num só dia, a 15 de setembro, as perdas da Luftwaffe chegaram a 185 aparelhos. Nenhuma força aérea poderia suportar, na época, tantas perdas.
         A 31 de outubro cessaram praticamente os ataques aéreos alemães à luz do dia, contra a Inglaterra. Essa data marca o fim da Batalha da Inglaterra, que os alemães deflagraram pensando numa vitória fulminante e que terminou em derrota, em menos de três meses. Nesse período perderam eles, segundo estimativas oficiais, pelo menos 2.375 aviões.

                                      *  *  *

         Os ataques noturnos continuaram, alguns deles com características de massacre. A tentativa, agora, era aterrorizar a população civil, com o bombardeio sistemático, protegido pela noite, de concentrações urbanas. Londres foi visada regularmente, à noite, por formações alemães, até o dia 10 de maio de 1941. Numa só noite, mil pessoas perderam a vida em Conventry, que teve completamente destruída sua catedral medieval. Nessa noite, 14 de novembro de 1940, foram jogadas, somente sobre Conventry, 500 toneladas de explosivos.
         Mas os ingleses souberam resistir, porque sabiam que a Batalha da Inglaterra estava ganha. Desde o dia 25 de agosto de 1940, 18 dias depois de começados os ataques aéreos alemães contra posições inglesas, a RAF bombardeava Berlim, para surpresa do Alto Comando Alemão. A partir da noite de 10 de maio de 1941, quando se realizou um dos mais pesados ataques contra Londres, a ação aérea contra a Inglaterra foi baixando de intensidade, até terminar por completo.
     A fase dos bombardeios noturnos deixou suas marcas trágicas,
como a destruição de Conventry, onde 35 mil pessoas ficaram sem
teto, mas dessa época lembram os ingleses, especialmente do dia 15
de setembro de 1940, quanto a Luftwaffe lançou seu mais pesado
ataque diurno, contra a Inglaterra. Na manhã desse dia, um
domingo, mais de 250 aviões alemães, entre bombardeios e caças,
levantaram voo, em formação cerrada, contra o território inglês.
Poucos conseguiram chegar a Londres. Ao meio-dia o ataque
matinal estava contido. À tarde, outra formação de 250 aviões
alemães levanta voo para tentar realizar o que a primeira
formação não conseguira: o massacre: o massacre de Londres.
Somente nesse dia perdeu a Luftwaffe 185 aviões, dos 500 que
empregou na operação. As perdas da RAF limitaram-se a 25 caças,
dos quais salvaram-se 14 pilotos.
           
[ Extraído do livro 25 Anos depois: de Hitler à Terceira Guerra Mundial ]


            5
Ataque à União Soviética
                 Newton CarlosA22 de junho de 1941, depois de perdida a Batalha da Inglaterra e de levada a guerra ao Norte da África e aos Bálcãs (a suas frentes foram abertas com os ataques italianos ao Cairo e à Grécia, em setembro e novembro de 1940), começou uma nova blitzkrieg alemã. O alvo era, agora a União Soviética, país com o qual Hitler assinara um pacto de não-agressão menos de dois anos antes, a 23 de agosto de 1939.        O ataque à União Soviética coincidiu com os primeiros dias do verão europeu. Avançando, ao mesmo tempo, em três direções estratégicas, numa frente que se estendia do Báltico ao Mar Negro, enquanto a Luftwaffe bombardeava impiedosamente cidades e aeroportos; esperavam os alemães terminar a campanha russa em menos de seis meses, antes da chegada do inverno. Para isso, concentraram junto às fronteiras soviéticas 153 divisões com uma experiência de quase dois anos de guerra moderna, além de outras 37 divisões finlandesas, romenas e húngaras. O assalto ao território foi iniciado com um total de 190 divisões que iriam enfrentar um exército inexperiente, ainda mal armado, cujos melhores comandantes haviam sido assassinados por ordem de Stálin, durante os expurgos de 1937-1938. Além disso, esse exército não se concentrava nos pontos onde irromperam os nazistas. Encontraram estes, como primeiros obstáculos, guarnições fronteiriças, apenas.

         Em julho, os alemães já dominavam a Lituânia, parte considerável da Letônia, a Bielorrússia (Rússia Branca) ocidental e parte da Ucrânia ocidental. A técnica da blitzkrieg voltava a ser utilizada com rendimento máximo. Toda a campanha continuava, porém, na dependência da conquista de três cidades-chaves, Leningrado, Kiev e Moscou, especialmente da Capital Soviética. Kiev, a capital da Ucrânia, entregou-se em setembro, mas os alemães jamais entrariam em Leningrado e Moscou. No começo de dezembro de 1941, já com o auxílio do frio mais rigoroso da Europa, fez o Exército Vermelho sua primeira grande ofensiva, contendo o inimigo em toda a frente. Em janeiro de 1942, numa ofensiva geral, penetraram os soviéticos até 400 quilômetros adentro das linhas alemãs, completando a limpeza da região de Moscou, cujos arredores chegaram a ser ocupadas pelos nazistas. A partir de então, a derrota da Alemanha passou a ser questão de tempo.
         Por que decidiu Hitler atacar a União Soviética, desrespeitando um pacto de não-agressão sem fazer uma prévia declaração de guerra? Que causas determinaram o fracasso alemão? Diz-se, em geral, que os nazistas, como Napoleão, em 1812, foram derrotados pelo inverno. É a parte folclórica de uma guerra cruenta, que matou 20 milhões de russos. Quando determinou o ataque, Hitler e parcela considerável do Alto Comando Alemão pareciam seguros de que a vitória sobre a União Soviética seria rápida. Pensavam o seguinte:
1. Iriam jogar 190 divisões contra um Estado corrupto, o regime comunista soviético, e um povo escravizado, o soviético, que receberia os alemães como libertadores;

2. Os Estados Unidos e a Inglaterra, mesmo que não adotassem uma posição de neutralidade absoluta, pelo menos hesitariam em sair prontamente em defesa de um estado comunista. Não tinha a União Soviética, segundo Hitler e os estrategistas auxiliares, condições mínimas de resistência. Em três meses, no máximo, se apossaria a Alemanha das riquezas do mais vasto território da Europa, ficando em condições de enfrentar a eventualidade de uma frente anglo-americana. Essa perspectiva justificaria, segundo a moral nazista, o rompimento de qualquer pacto.
         As previsões nazistas falharam completamente. Não se conhece resistência mais heroica do que a do povo russo ao invasor alemão, que praticou, contra as populações civis e indefesas, a maior soma de crueldades que a história moderna registra. 
         - Trata-se de esmagar uma ideologia e não da nobre arte da guerra – foi como o Marechal Keitel, Chefe do Estado-Maior alemão, justificou as atrocidades no front russo. Leningrado suportou, sem se entregar, um cerco de 900 dias, de mais de dois anos e meio. Depois de haver ocupado quase toda a Europa continental, encontravam-se os alemães, pela segunda vez (a primeira experiência do gênero foi contra os ingleses), diante de um povo que se recusava a aceitar a derrota, embora o desastre parecesse iminente.
         Os ingleses haviam resistido de uma ilha. A resistência russa era corpo a corpo. Durante a Batalha de Stalingrado, de agosto de 1942 a janeiro de 1943,  russo e alemães lutaram nas ruas da cidade, dentro das casas e até mesmo no interior dos quartos. Estes são episódios de grande encenação, cuja fama corre mundo. Mas há outros. Na Fortaleza de Brest, logo no início da guerra, as vanguardas alemãs foram contidas durante vinte dias por uma reduzida guarnição, comandada por um capitão. Não sobreviveu um único soldado dessa guarnição.
         Os capítulos da resistência não se limitam à luta com o invasor. Mal preparados para a guerra moderna praticada pelos alemães, viram-se os russos obrigados a construir todo um aparelho militar, ao mesmo tempo em que lutavam. Durante os primeiros seis meses de guerra, foram retiradas das regiões ocidentais do país, por onde avançavam os nazistas, e levados para o leste, cerca de 1.360 grandes empresas industriais, de importância fundamental para tarefas de defesas. É este, talvez, o maior deslocamento de homens e máquinas da história. Permitiu ele que a União Soviética desenvolvesse uma vasta economia de guerra no Volga, nos Urais, na Sibéria ocidental, no Casaquistão e na Ásia Central.
Falharam, igualmente, as previsões de Hitler quanto ao comportamento da Inglaterra e dos Estados Unidos. No mesmo dia da invasão, a 22 de junho de 1941, o Governo inglês declarou-se disposto a prestar toda a ajuda à União Soviética. Declaração igual foi feita pelos Estados Unidos, dois dias depois. Para acertar os termos dessa ajuda (os russos necessitavam de aviões, tanques e armamentos de infantaria, e não de combatentes), chegou a Moscou, a 28 de setembro, uma missão anglo-americana, chefiada por Lorde Beaverbrook e Averrel Harriman, que depois da guerra seria nomeado embaixador dos Estados Unidos em Moscou. Em fins de 1941, estava formada uma poderosa coligação anti-Hitler, na qual sobressaíam os Estados Unidos, a União Soviética e a Inglaterra, à frente de contingentes livres de todos os países ocupados pelos nazistas. Junto aos ingleses, aliou-se a Comunidade Britânica.
         Hitler sabia antecipadamente que não iria contar com a neutralidade do resto do Ocidente, numa guerra contra a União Soviética. Embora previsse reação considerável de certos setores norte-americanos, a uma ajuda dos Estados Unidos ao regime comunista soviético, pôde ele informar-se, através da aventura rocambolesca vivida por um de seus lugares-tenentes, Rudolf Hess, da disposição inglesa de não aceitar, em nome do anticomunismo, uma aventura com o nazismo. O que surpreendeu o dirigente alemão foi a rapidez com que mesmo os ingleses, e especialmente os norte-americanos, se dispuseram a ajudar Stálin. Na noite de 10 de maio de 1941, um pequeno avião alemão, conduzido por um piloto solitário, pousou quase junto a uma casa de campo, na Escócia. Levado à Polícia, identificou-se no piloto como sendo Rudolf Hess, a quem Hitler ditara o Mein Kampf, em 1925. Queria ele estabelecer contato com o Duque de Hamilton, cuja propriedade ficava nas vizinhanças, para sondar setores ingleses de direita sobre a possibilidade de a Inglaterra permanecer neutra num conflito russo-alemão. O Duque de Hamilton, personalidade influente, conhecida por seu anticomunismo, negou qualquer participação na aventura de Hess, cujo fracasso se completou com a decisão do Governo inglês de tratar o dirigente nazista como prisioneiro de guerra, tendo Churchill se recusado a recebê-lo em audiência.
               
                                  [ Extraído do livro e Hitler à Terceira Guerra Mundial ]


                6
        Pearl Harbor
                  Newton CarlosAs primeiras horas da manhã dezembro de 1941, um domingo ensolarado, um único avião sobrevoava Honolulu, capital das Ilhas Havaí, em cujas vizinhanças está Pearl Harbor, base naval que abrigava, na época, o grosso da frota norte-americana no pacífico. Era um avião civil, de turismo. Pouco depois da sete horas, seu piloto viu surgir entre as montanhas que fazem fundo à cidade a vanguarda de uma força aérea em formação de combate. Julgando tratar-se de amigos, saudou-os com movimentos de asas. Recebeu, em troca, rajadas de metralhadoras.
         O último avião que levantou voo de Honolulu, manhã de 7 de dezembro 1941, escapou por milagre do ataque traiçoeiro do Japão a Pearl Harbor. Em terra, foram destruídos 127 aviões militares, da Marinha e do Exército norte-americanos. Somente nessa ação, executada a partir de porta-aviões que se aproximaram do Havaí protegidos pela noite e pela madrugada, japoneses colocaram fora de combate mais da metade da força aérea dos Estados Unidos. As baixas humanas, entre militares, e estavam dormindo, fazendo esporte ou assistindo a missas, somaram 285 mortos, 960 desaparecidos (oficiais e marinheiros cujos corpos afundaram junto com os navios nos quais serviam) e 599 feridos. As baixas civis foram pesadas, também.
         Estavam em guerra Japão e Estados Unidos. A guerra se estendia, finalmente, a todo o mundo. No Leste da Europa, o Exército soviético desenvolvia suas primeiras ofensivas, limpando de alemães área de Moscou. Utilizando, de uma só vez, cerca de 300 aviões, RAF fizera, dias antes, seu ataque mais devastador ao território alemão. O Norte da África, Tobruk, cidadela no deserto a Líbia, transformara em símbolo do duelo de dois gênios militares da Segunda Grande Guerra, inglês Montgomery e o alemão Rommel, estava em véspera de recair em mãos aliadas. O ataque a Pearl Harbor e a outras ilhas do Pacífico sob bandeira norte-americana, como Guam, Wake e Midway, foi acompanhado de ações militares contra Xangai, Malásia, Cingapura e Hong Kong, territórios ingleses. Sedimentava-se a polarização de forças. Lutavam juntos, agora, os Estados Unidos, União Soviético, Inglaterra e todos os povos atingidos pela agressão nazifascista (a Holanda, por exemplo, dispunha de importantes territórios asiáticas). Enfrentavam o eixo Berlim-Roma-Tóquio numa guerra envolvendo  Europa, África, Ásia e América, que só iria terminar quatro anos depois, com a capitulação do Japão.

                                      *  *  *

         A surpresa do ataque a Pearl Harbor parece ter determinado a concisão dramática do primeiro comunicado de guerra norte-americano:
         “Na zona do Havaí, nossas forças sofreram baixas e o
ataque inimigo foi mais sério do que se supôs, princípio. Em Pearl
Harbor, afundou-se um couraçado antigo. Várias outras  unidades
sofreram avarias. Um contratorpedeiro voou pelos ares.
Aeródromos da Marinha e do Exército foram bombardeados, com a
destruição de hangares de hangares e de  um   grande número de
aparelhos”.
         Na mensagem o Presidente Roosevelt ao Congresso, pedindo a declaração formal de guerra, estava a indignação de um povo agredido à traição (a agressão verificou no momento em que emissários do Governo japonês discutiam em Washington a situação no Pacífico e na Ásia Oriental). Eis o texto da mensagem de Roosevelt:
“Ao Congresso dos Estados Unidos. Ontem, 7 de dezembro
de 1941, data que guardaremos como a de uma infâmia, os Estados
Unidos foram súbita e deliberadamente atacados por forças
aeronavais do Império do Japão. Os Estados Unidos estavam em
paz com aquele nação e ainda, por solicitação do Japão, em
conferências com o seu Governo e o Imperador, procurando a
solução dos problemas do Pacífico. Na realidade, uma hora
depois de esquadrilhas japonesas terem começado a agir, o
embaixador do Japão nos Estados Unidos e o seu companheiro de
negociações entregavam ao Secretário de Estado a resposta formal à
recente mensagem norte-americana. Embora essa resposta
dissesse que parecia inútil a continuação das negociações
diplomáticas, não continha ela qualquer ameaça, nem qualquer
significado de guerra ou de um ataque armado.
         Cumpre lembrar que a distância entre o Havaí e o Japão torna
óbvio que o ataque foi planejado, deliberadamente, com muitos dias
ou mesmo semanas de antecedência. Durante esse espaço de tempo,
o Governo japonês procurou, propositalmente, enganar os Estados
Unidos, por meio de declarações falsas, expressando sua esperança
na manutenção da paz. O ataque de ontem às ilhas Havaí provocou
graves danos às forças militares norte-americanas. Muitas vidas se
perderam. Além disso, anuncia-se que navios dos Estados Unidos
foram torpedeados em alto mar, entre São Francisco e Honolulu.
        Também ontem atacou o Japão a Malásia. Ainda ontem foram
atacadas Hong Kong e Guam, bem como as ilhas Filipinas e Wake.
Hoje pela manhã, o alvo foi a ilha Midway. Empreendeu o Japão,
portanto, uma ofensiva de surpresa, que se estende por toda a área
do Pacífico. Os fatos de ontem falam por si mesmos. O povo dos
Estados Unidos já tem a sua opinião formada a respeito, e
compreende muito bem o que tudo isso significa para a própria vida
e segurança de nosso país. Como comandante-em-chefe da Marinha
e do Exército, tomei todas as medidas necessárias à nossa defesa.
Lembrar-nos-emos, para todo o sempre, do caráter desse assalto que
nos é dirigido. Seja qual for o tempo que tivermos de empregar
para superar essa invasão premeditada, o povo norte-americano,
apoiado no Direito, há de encontrar o caminho da vitória. Acredito
que interpreto a vontade do Congresso e do Povo, ao afirmar que
nos defenderemos com vigor, como tornaremos certo que uma
traição dessa natureza nunca mais nos colocará em situação igual à
de hoje. Existem as hostilidades. Não se pode mais duvidar de que
o nosso povo, o nosso território e os nossos interesses estão em
perigo. Com plena confiança em nossas forças armadas, com a
resolução ilimitada de nosso povo, com a ajuda de Deus,
conseguiremos a vitória final. Diante do ataque não provocado e
mortal, por parte do Japão, executado a 7 de dezembro, peço ao
Congresso que declare a existência de um estado de guerra entre os
Estados Unidos e o Império Japonês”.

         Como documento de grande importância, reproduzimos, também, o texto da proclamação do Imperador Hiroíto ao povo japonês :

   “Nós, pela graça do Céu, Imperador do Japão, sentado no trono de
uma linha jamais quebrada através de idades eternas, proclamamos
nossa união convosco, bravos e leais súditos. Decidimos declarar
guerra aos Estados Unidos e ao Império Britânico. Soldados e
oficiais de nossa Marinha e de nosso Exército devem fazer,
portanto, o máximo para levar avante essa guerra. Nossos
funcionários públicos devem cumprir com fidelidade e diligência
todas as tarefas pelas quais são responsáveis. A nação deve
mobilizar o total de suas forças, para que nada falte e nada
prejudique os nossos objetivos reais.
É indubitável que nos vimos, contra os nossos desejos, forçados a
lutar com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Mais de quatro anos
de passaram desde que a China, não compreendendo as intenções
verdadeiras de nosso Império, provocou agitação, perturbando a paz
na Ásia Oriental e obrigando nosso Exército a pegar em armas.
Embora o Governo Nacional da China tenha sido restabelecido, Governo que colabora amistosamente com o Japão, seu vizinho,
o regime de Chunking (Governo liderado por Chiang Kai-Chek
com hegemonia sobre a parte da China não ocupada pelos
japoneses), protegido por norte-americanos e ingleses, continua
resistindo. Para realizar sua ambição de dominar o Oriente, os
Estados Unidos e a Inglaterra apoiam esse regime,
agravando as perturbações da Ásia Oriental. Além disso, essas duas
potências fomentam preparativos militares em torno de nosso
Império, desafiando-nos.
         “Por todos os meios, dificultam nosso comércio pacífico,
chegando a cortar relações econômicas conosco, o que ameaça
gravemente a existência de nosso Império. Pacientemente,
aguardamos um longo tempo, na esperança de que o nosso Governo
conseguisse manter a paz, mas nossos adversários não
demonstraram nenhum espírito de conciliação, dilatando
indefinidamente as negociações visando a um acordo e
intensificando, ao mesmo tempo, a pressão política e econômica
cujo objetivo é levar nosso Império à submissão. Tudo isto
anulou nossos reforços para estabilizar a paz na Ásia Oriental,
pondo em perigo, também, a nossa própria existência como nação.
Não tivemos outro recurso senão pregar em armas, para esmagar
os obstáculos que se opõem aos nossos objetivos. Temos plena
confiança no nosso coração de nossos súditos, certos de que,
abençoados pelos nossos ancestrais, cumprirão seu dever,
fazendo com que as forças do mal sejam rapidamente dominadas,
para que uma paz duradoura se estabeleça na Ásia Oriental,
preservando, em consequência, a glória do nosso Império.”

         Na mensagem de Roosevelt estava a indignação de um povo contra um ataque traiçoeiro. A de Hiroíto refletia a ânsia de expansão de um Império sufocado pela presença de outras formas numa região, a Ásia Oriental ou Extremo Oriente, que julgava propriedade sua e à qual acenava com programas de “prosperidade comum a todas as nações asiáticas”. Invadindo a Manchúria, em 1931, começava o Japão a retirar do papel seus planos para a criação de um grande império asiático, sob a hegemonia japonesa. Em 1937, foi iniciada a invasão da China, que os japoneses nunca conseguiram ocupar totalmente. O Governo Nacional chinês, ao qual se refere a mensagem de Hiroíto, era um governo fantoche, instalado pelo Japão em Pequim. Também a Manchúria estava sob a administração de um governo supostamente autônomo.
         Na sua História da II Guerra Mundial, escreveu Henry Steele Commanger:
         “Ao alcance deles (japoneses), jazia um império que se estirava do Ártico ao Antártico, das ilhas Havaí às Índias – império com uma população de um bilhão de trabalhadores escravos, infinitas reservas de matérias-primas, fabulosas riquezas. Nunca antes na História tão esplêndida perspectiva se descortinava aos olhos dos conquistadores.”
         Depois da ocupação da Manchúria e do assalto à China, abriram os japoneses, com a o ataque a Pearl Harbor, o processo de conquista de seu império asiático.

                                      *  *  *

         Pouco acreditavam que a paz no Pacífico e no Extremo Oriente pudesse ser preservada por meio de acordos. A mecânica de expansão do Império Japonês era essencialmente igual à do nazismo. Como os alemães, teve o Japão o cuidado de firmar um pacto de não-agressão com a União Soviética, para que o território soviético, o porto siberiano de Vladivostok, especialmente, não se transformasse em base de ataques aéreos ao território japonês. Eliminava-se, assim, por antecipação, uma frente perigosa. De seu lado, Estados Unidos, Inglaterra e Holanda, esta ainda controlando as Índias Orientais Holandesas, já tinham chegado ao bloqueio econômico, em seu esforço para provocar uma retirada japonesa da China. Uma estrada fora construída ligando o porto de Rangum, na Birmânia (na época território inglês), a Chunking, sede do Governo de Chang-Kai-Check. Por essa estrada passava toda a ajuda do Ocidente aos chineses em luta. A 18 de junho de 1941, procurando evitar a precipitação de uma guerra com o Japão, decidiram os ingleses fechá-la, mas ele foi reaberta a 18 de outubro, dois dias depois da queda do governo japonês presidido pelo Príncipe Kanoye e sua substituição por uma equipe dominada por militares. O General Tojo foi nomeado Primeiro-Ministro; o Almirante Togo. Ministro do Exterior. Para embaixador nos Estados Unidos seguiu o Almirante Nomura.
         Desde a capitulação da França que um novo elemento de inquietação se instalara no Extremo Oriente. Pelos acordos de Vichy, o Japão poderia concentrar 25 mil soldados na Indochina Francesa. Mas a Indochina passou, em pouco tempo, ao controle virtual dos japoneses, que mandaram para a estratégica região mais de 100 mil homens. Em princípio de dezembro de 1941, às vésperas do ataque a Pearl Harbor, quando negociadores japoneses e norte-americanos ainda discutiam em Washington, material de guerra e tropas do Japão chegavam maciçamente a Saigon.
         O advento de um governo controlado por militares e a concentração militar na Indochina, bem como o fato de que a criação de um grande império asiático já fora definida como política oficial japonesa, juntados a outras indicações, entre elas o pacto russo-japonês, pereciam dizer que a guerra no Pacífico era inevitável. Nesse ambiente, decidiu-se fazer, em Washington, a derradeira tentativa para uma solução pacífica da situação no Extremo Oriente e no Pacífico. Mas a intenção dos japoneses era apenas ganhar tempo. Os preparativos para o ataque a Pearl Harbor já estavam sendo feitos nas ilhas Marshall, a mais de três mil quilômetros do Havaí.
         A 26 de novembro de 1941, Cordell Hull, Secretário de Estado norte-americano, entregou aos negociadores japoneses uma nota contendo as condições norte-americanas para um acordo. Essa nota repetia, em termos gerais, os princípios defendidos pelos Estados Unidos desde 1937, quando a China foi invadida em larga escala, para a solução dos problemas da região. A 16 de julho de 1937, o próprio Hull divulgou esses princípios:

1.Condenação do uso da força como meio de alcançar objetivos
nacionais;
2. Não interferência em negócios internos de outros países;
3. Solução dos problemas internacionais por meio de negociações;
4. Fiel observância dos acordos internacionais.

         Quatro anos depois, esses princípios era acompanhados de exigências específicas, entre as quais destacamos duas:

1. Retirada das tropas japonesas de China e da Indochina; e
2.Promessa japonesa de que não seriam feitos novos avanços
em território asiático.

         A 29 de novembro de 1941, o General Tojo, Primeiro-Ministro japonês, fez um discurso no qual afirmava que “deve ser expurgada da Ásia Oriental a exploração anglo-americana”. Disse, ainda, que os Estados Unidos e a Inglaterra tentavam conseguir a hegemonia da Ásia Oriental “incitando os povos asiáticos à luta uns contra os outros.” O discurso de Tojo era uma resposta virtual à nota norte-americana, mas mesmo assim as negociações continuaram, entre recuos estratégicos e avanços agressivos dos japoneses:

         A 1O de dezembro, declarou o Ministro do Exterior japonês:
“Existem grandes divergências entre os Estados Unidos e o Japão.
Mas o Japão redobrará os esforços para fazer com que os Estados
Unidos reconsiderem o problema do Pacífico, continuando as
negociações”. Nesse mesmo dia, o Ashai Shimbum, um dos mais
influentes jornais de Tóquio, acusou os Estados Unidos de adesão
ao “fantástico princípio” de obstruir “a sagrada missão do Japão, de
estabelecer uma nova ordem na Ásia Oriental”.
         Ao mesmo tempo, aviões japoneses bombardearam a
estrada da Birmânia, para evitar, pela força, que a China
combatente continuasse recebendo ajuda do Ocidente.
         A 2 de dezembro de 1941, o Presidente Roosevelt interpelou pessoalmente os negociadores japoneses, sobre os objetivos que levaram o Japão a concentrar forças militares na Indochina. Para os estrategistas do Ocidente, essa concentração era o prelúdio de um ataque à Tailândia, país independente que se via entre a contingência de dobrar-se ao Japão ou recusar a aventura do grande império asiático (depois de Pearl Harbor ela não teve outro recurso senão ceder aos japoneses) e à Birmânia, isolando a China e chegando à porta de acesso à Índia, com reservas de petróleo estimadas em 10 milhões de barris anuais.
         A primeira reposta à interpelação de Roosevelt veio de Vichy. Porta-voz autorizado do governo Pétain afirmou que o total de contingentes militares japoneses concentrados Indochina “não excedia ao previsto no acordo” e que a França não se opõe a que o Japão utilize eventualmente a Indochina como base de operações contra qualquer potência que ameace a Tailândia”. A 4 de dezembro realizou-se em Xangai uma conferência entre os alemães e japoneses. A 5, o Japão respondeu às interpelações de Roosevelt, negando que estivesse concentrando tropas na Indochina. Mas não chegava a resposta que todos esperavam, isto é, a resposta à nota de Cordell Hull, de 26 de novembro. Uma agência oficiosa japonesa, a Domei, havia informado que ela não seria aceita, dizendo:
         “Os Estados Unidos insistem em impor ao Japão certas manipulações baseadas em princípios obsoletos, inteiramente compatíveis com as próprias condições reais que vigoram no Extremo oriente de outrora”.
         A 6 de dezembro,  véspera do ataque a Pearl Harbor, a resposta japonesa sobre a concentração de tropas na Indochina foi considerada insatisfatória, ao mesmo tempo que Roosevelt, numa mensagem pessoal ao Imperador Hiroíto, insistia numa resposta à nota de 26   de novembro.
[Do livro 25 depois: de Hitler à Terceira Guerra Mundial ]


                7
    Batalha de Stalingrado
  Newton Carlos

Em meados de 1942, quando Rommel, à frente do Afrika Korps, recuperava o terreno perdido pelos italianos, na Líbia, e no momento em que os Estados Unidos e a Inglaterra decidiram preparar a invasão da África do Norte, lançaram os alemães uma nova ofensiva em larga escala, na União Soviética.  Era verão, outra vez, e Hitler visava, agora, como objetivos principais, o rio Volga e o Cáucaso. Atingindo o Volga, cortaria ele uma das mais importantes vias de abastecimento dos soviéticos, pela qual descia o petróleo dos campos de Grosny, nos confins dos Cáucasos.
         Essa ofensiva era vital, para os alemães. Embora contidos na frente de Moscou, ainda dispunham, ele e seus aliados, de posições favoráveis em todas as outras frentes de guerra, e somente a obtenção rápida de situações cômodas na União Soviética permitiria a consolidação dessas posições. Quando iniciou a sua ofensiva em 1942, em território soviético, ocupava a Alemanha toda a Europa e quase toda a faixa africana do Mediterrâneo, retomada dos ingleses pelo Afrika Korps. No Pacífico e no Índico estavam os japoneses de posse de territórios imensos, incluindo a Malásia, a Indonésia, as Filipinas e uma parte do arquipélago da Polinésia. Na imprensa alemã e dos países eram contados os dias que ainda faltavam para que as tropas do III Reich pudessem ir sendo retiradas da frente soviética e levadas para algum ponto do Oriente Médio, onde se juntariam aos Afrika Korps também em ofensiva.
         A nova ofensiva, na União Soviética, começou a ser movimentada em julho de 1942, só terminando em janeiro de 1942, na ruínas de Stalingrado, com a derrota dos alemães. Estava derrotado, igualmente, o Afrika Korps, que não conseguira ultrapassar o Egito, e contingentes anglo-americanos consolidavam suas posições na África do Norte. A partir de então, os alemães entrariam em defensiva, em todas as frentes da guerra.

                                      *  *  *

         Tendo fracassado em seu intento de derrotar a União Soviética até fins de 1941, antes que o inverno chegasse, decidiram os alemães jogar a sua segunda cartada, que viria ser a última, no verão de 1942 (o verão na Europa começa em junho). Durante o primeiro semestre desse ano foram deslocadas para a frente soviética novas divisões e quantidades enormes de material de guerra. A 22 de junho de 1941, jogou Hitler, contra a União Soviética, 190 divisões. Para a ofensiva de 1942, contou ele com 237 divisões, que aumentaram para 266 diante da resistência soviética e da aproximação de um novo inverno.
         No começo de julho de 1942, as vanguardas alemães romperam as defesas soviéticas na região de Kursk-Voroinezh e tomaram o rumo sul, em direção ao Volga e ao Cáucaso. A cidade de Stalingrado (hoje rebatizada de Volgogrado), junto ao Volga, foi escolhida como o primeiro grande objetivo. Nela se travou, durante duzentos dias e duzentas noites, a batalha mais cruel da história militar. Nenhuma outra batalha teve uma importância tão grande: pode-se afirmar que o Reich entrou em processo agônico em Stalingrado.
         Depois de cruzar o Rio Don, avançaram os alemães para o Volga. Em meados de setembro de 1942, entravam nos subúrbios de Stalingrado. Os soviéticos recuavam passo a passo, lutando em casa em casa, de quarto em quarto, de porão em porão. A situação voltava a ser dramática para a União Soviética. No território ocupado pelos alemães viviam, antes da guerra, 45 por cento de sua população. Nele, estavam, ainda, 33 por cento da produção industrial soviética e 47 por cento das terras cultivadas. A perda do baluarte do Volga, isolando a parte livre da União Soviética de seus ricos mananciais, completaria o desastre. A ordem foi, portanto, defendê-lo, custasse o que custasse. Da parte de Hitler, a ordem era conquistá-la, a qualquer preço.
         Nunca se viu, numa só cidade, tamanha mobilização. Enquanto eram travados os combates, nos acessos à cidade, mais de 150 mil pessoas, homens e mulheres, trabalhavam diariamente, em obras de defesa. Mais de 75 mil habitantes de Stalingrado se alistaram no Exército Vermelho, em meio mesmo à batalha. Cerca de oito mil combatiam nas milícias populares e nos batalhões de caçadores. As fábricas rodavam dia e noite. Dezenas de tanques saíam todos os dias das fábrica de tratores de Stalingrado diretamente para a frente de luta. Em geral, suas equipagens eram constituídas pelos próprios operários que os fabricavam. A flotilha do Volga, ao mesmo tempo que ajudava a conter os alemães com o fogo de suas canhoneiras, se encarregava do transbordo no Volga, depositando feridos na margem segura e levando tropas e materiais para a margem de Stalingrado.
         Em 13 de setembro de 1942, o comando alemão anunciou a tomada de Stalingrado. Na realidade, a tomada da cidade pelos alemães era antecipada: restava ainda, em mãos dos soviéticos, um edifício onde estava uma fábrica de tratores. Mas não se julgava que resistissem por muito mais tempo. Resistiram, no entanto, ainda recuperando o terreno pouco a pouco, até que os exércitos soviéticos do Don e do Volga pudessem passar à contraofensiva. A 30 de setembro, os alemães já não eram tão categóricos nesse dia, num discurso em Berlim, disse Hitler ao povo alemão:
         - Stalingrado será tomada. Vocês podem estar certos disto.
         Dois milhões de homens, 26 mil canhões e morteiros, mais de seis mil carros de combate e um número quase equivalente de aviões estiveram empenhados na Batalha de Stalingrado. Lutaram, furiosamente, num território de cerca de 100 mil quilômetros quadrados. Durante duzentos dias e duzentas noites, lançaram os alemães 700 ataques contra a cidade. O número de contra-ataques soviéticos foi quase o mesmo.
         Dia a dia, semana a semana, continuava a batalha numa escala de ferocidade até então inédita, nos anais da humanidade. A despeito do bombardeio continuado e impiedoso da cidade, reforços em homens e suprimentos cruzavam diariamente o Volga. Cada metro de avanço alemão era contestado até onde fosse humanamente impossível. Em apenas um mês, fizeram os alemães nada menos de 117 ataques contra Stalingrado. Em apenas um dia, foram realizados 23 assaltos contra um setor de pouco  mais de um quilômetro de largura, onde um regimento siberiano defendia a fábrica de tratores que jamais caiu em mãos dos alemães. Por várias vezes, aviões alemães fizeram dois mil voos sobre a cidade, num único dia. Nos combates corpo a corpo, cantos de rua, casas, corredores, escadas, quartos e porões eram disputados encarniçadamente.
         A promessa de Hitler ao povo alemão não pôde ser cumprida. Em meados de novembro de 1942, depois de haver perdido em Stalingrado centenas de milhares de homens e uma grande quantidade de material de guerra, os alemães foram obrigados a entrar em defensiva. Também no Cáucaso, o segundo grande objetivo da ofensiva de verão de 1942, os alemães haviam sido detidos, junto à cordilheira que tem o nome da região,  próximo à cidade de Ordzhonikidze.
         A contraofensiva soviética, na frente Volga-Don, foi iniciada a 19 de novembro de 1942. Nesse dia, começou, segundo os alemães, o “morrer em massa” na região de Stalingrado: 13.500 peças de artilharia russas despejaram seus projéteis sobre as posições alemães, num trabalho de limpeza de terreno para a infantaria, a pé e blindada, jamais visto, até então. Um dia depois, a 20 de novembro, os exércitos soviéticos movimentam-se, numa operação de envolvimento do 6O e 4O Exércitos alemães, o primeiro, de infantaria; o segundo, blindado. Treze dias depois, o cerco foi-se fechando na direção da localidade de Kalatsch, junto ao Don, cuja tomada significaria o completo isolamento do 6O Exército alemão, comandando pelo General von Paulus e com efetivos de mais de 300 mil homens.
         Na manhã de 23 de novembro, von Paulus e suas tropas estavam completamente cercados. Hitler não encarou o fato na sua exata medida. Julgava dispor, ainda, de forças suficientes para romper os regimentos soviéticos que haviam fechado o anel em torno de Stalingrado, dentro do qual estava o 6O Exército. Mas os soviéticos, revigorados militarmente e já com a ajuda do inverno, outra vez, empurraram ainda mais para trás as tropas mandadas em socorro de von Paulus. A 16 de dezembro, uma segunda ofensiva soviética foi lançada, desta vez no Cáucaso. Em 14 dias, avançaram os soviéticos 200 quilômetros, numa frente igualmente de 200 quilômetros. A operação visava a junção na frente de Stalingrado dos exércitos em contraofensiva, o que foi conseguido.
         Iniciaram-se, então, os preparativos para uma terceira batalha: cindir o exército sitiado de von Paulus. A 8 e 9 de janeiro de 1943, mandaram os russos parlamentares ao general alemão, para solicitar que ele se rendesse, diante da situação desesperada de suas tropas. Confiante num apoio aéreo maciço, prometido por Hitler, von Paulus recusou-se a render-se. A 10 de janeiro, 7.000 mil peças de artilharia e a aviação soviética começaram o trabalho de liquidação dos últimos focos de resistência do 6O Exército alemão. Em assaltos sobre assaltos, contingentes de infantaria e de tanques o cortaram em várias seções, que eram liquidadas uma a uma, sem que o apoio aéreo prometido por Hitler chegasse. Milhares de soldados e de oficiais alemães, depois de combaterem até o extremo de suas forças, preferiram a morte ao cativeiro. A 13 de janeiro, von Paulus, agora com o bastão de marechal que Hitler lhe havia outorgado fazia pouco, foi feito prisioneiro juntamente com seu estado-maior. O primeiro comissári0o político que encontrou, no cativeiro, foi Nikita Kruschev, na época membro do Politiburo do Partido Comunista na União Soviética.
         Dois dias depois, estava completamente terminada a Batalha de Stalingrado. Os alemães e seus aliados italianos e romenos haviam perdido 800.000 homens, 10 mil peças de artilharia e 2.000 carros de combate. |O Exército Vermelho passou a uma ofensiva que só iria terminar com a tomada de Berlim.

                                      *  *  *

         Vinte anos depois da Batalha de Stalingrado, o exame de documentos russos e alemães permitiu estabelecer a verdade sobre o fim trágico do 6O Exército alemão, que resistiu até ao suicídio maciço por ordem direta de Hitler. Cerca de 150 mil homens, metade desse Exército, morreram em nome da loucura de um homem, que os mandou resistir, embora não tivessem eles nenhuma condição de resistência, na frente de Stalingrado. Sabia Hitler que o recuo no Volga significaria o começo do fim de sua aventura. Procurou retardá-lo o mais que pôde, com o sacrifício maciço de vidas humanas, na esperança de que um outro verão chegasse a tempo, em seu auxílio.
         Quando o 6O Exército estava ameaçado de cerco, o General Zeitzler, chefe do Estado-Maior do Exército alemão, propôs a Hitler que fosse iniciada uma manobra de recuo, utilizando von Paulus seus próprios recursos, para abrir caminho às suas tropas. Hitler negou-se a dar ordem de recuo, mesmo diante da advertência de von Paulus em breve estaria completamente cercado. Irritado com a perspectiva do desastre completo, esmurrava a mesa, gritando:
         - Fico no Volga! Fico no Volga!
         Passava o tempo, avançaram os russos, e Hitler tomava uma decisão da qual jamais voltaria atrás: o 6O Exército deveria permanecer em Stalingrado, custasse o que custasse. Na noite de 22 de novembro de 1942, von Paulus comunicou a ele, pelo rádio, o cerco de suas tropas:
         - O 6O Exército ficará onde está, à espera de socorro.
         Diante das ponderações do Estado-Maior do Exército, de que o 6O Exército não poderia ser abastecido, recorreu Hitler a Göring, seu companheiro desde o Putsch fracassado de Munique, em 1923, agora Marechal do Reich, fundador e chefe da força aérea alemã: obteve dele a garantia de que von Paulus  seria abastecido e apoiado pelo ar. O Estado-Maior do Exército tentou anular a afirmação de Göring, informando a Hitler que esse abastecimento exigiria o transporte diário de uma carga de cerca de 500 toneladas. A promessa de abastecimento por via aérea, mantida por Göring, mesmo dos números revelados a ele pelo Estado-Maior do Exército, decretou o fim do 6O Exército.
         Na frente de Stalingrado alguns oficiais insistem para que von Paulus ordene o recuo. A todos eles responde que a autorização para o recuo, pedida por ele a Hitler, fora negada. A 23 de novembro, já completamente cercado, reduz à metade as rações de seus soldados e manda um telegrama Hitler expondo a situação, cuja frase derradeira é a seguinte:
         -- Peço, devido às circunstâncias, liberdade de ação.
         A ordem de liberdade de ação, assinada por Hitler, jamais chegou às mãos de von Paulus.

               [ do livro 25 Anos Depois: de Hitler à Terceira Guerra Mundial



                    8
Caça à Raposa do Deserto
 Newton Carlos
 A8 de novembro de 1942, três anos e meio depois de deflagrada a guerra, norte-americanos e ingleses desembarcaram em três pontos previamente escolhidos da África do Norte: Orã e Argel, portos da Argélia, e Casablanca, no Marrocos francês. Com essa primeira grande operação conjunta anglo-americana (os Estados Unidos estavam na guerra há menos de um ano), a ofensiva na frente europeia passava, finalmente, aos Aliados. O 8O Exército inglês, comandando por Montgomery, já havia rompido as linhas do Afrika Korps, no deserto egípcio, e avançava a passos largo para Trípoli, última cidadela ítalo-alemã, na Líbia. Na União Soviética, o assédio a Stalingrado diminuía de intensidade, ao mesmo tempo que se desenvolviam, com, sucesso, contraofensivas em outras regiões do país, especialmente no Cáucaso. Entre 19 e 29 de novembro de 1942, enquanto Montgomery, avançando pela Líbia, procurava juntar-se aos norte-americanos, que se viam em dificuldades diante da Tunísia (da Itália puderam os alemães levar reforços consideráveis para suas guarnições tunisianas), os exércitos soviéticos, agora sob o comando do Marechal Zukhov, fizeram 65 mil prisioneiros e apreenderam duas mil armas.
     Em abril de 1943, já com auxílio de contingentes franceses antes leais ao Governo de Vichy, entraram os norte-americanos em Túnis, capital da Tunísia, e em Bizerta, a mais importante base militar do território. Montgomey dominava a Líbia. O General Rommel, cuja fama corria mundo como comandante do Afrika Korps, conseguira escapar para a Europa, mas o General von Armin, comandante alemão na Tunísia, fora aprisionado. A campanha da África do Norte terminou completamente em maio de 1943. Os Aliados sofreram 70 mil baixas, entre mortos e feridos, tendo capturado 266 mil alemães, cujas baixas foram a 60 mil. Em junho iniciou-se o ataque à Sicília. Estava iniciada a marcha para o continente europeu.

                                      *  *  *

     A guerra foi levada à África pelos italianos, que cruzaram a fronteira do Egito, partindo da Líbia, em setembro de 1940. O contingente italiano visava a conquistar, especialmente, o porto de Alexandria, colocando suas mãos sobre a válvula do Canal de Suez para o Mediterrâneo. Não conseguiu, no entanto, avançar além da localidade de Sidi Barrani. A Itália, já em dificuldades na frente grega, iria experimentar derrotas humilhantes também no deserto africano. O ataque italiano ao Egito verificou-se pouco depois da queda da França e no momento em que Selassiê sentou-se de novo no trono, em Adis-Abeba, terminando cinco anos de ocupação italiana. O Duque de Aosta, comandante-chefe das tropas italianas no Leste Africano, rendeu-se, com sete mil prisioneiros, nesse mesmo mês.
     Mas a campanha da África, na estratégica África do Norte, ainda não estava terminada. Iriam entrar em cena os alemães, com o seu Afrika Korps, sob o comando do General von Rommel, que havia chegado à Líbia em março de 1941 e já em abril iniciava uma contraofensiva utilizando contingentes alemães e italianos. A guerra no deserto iria ter um símbolo, o porto de Tobruk, tomado pelos ingleses pouco mais de dois meses antes.
     Tobruk, que se transformou num dos objetivos mais arduamente disputados, na Segunda Guerra Mundial, é um porto líbio situado na margem sul e desértica do Mediterrâneo. Na paz, suas funções eram modestas: limitava-se a ser o porto de saída de dois oásis. Ao seu largo, passavam os navios que vinham do oriente, pelo Canal de Suez, ou que buscavam o Oriente, pela mesma via. Foi necessária uma guerra para celebrizá-lo.
     É fácil compreender por que Tobruk tornou-se importante, como objetivo de guerra. Entre o porto egípcio de Alexandria e a Tunísia se estendem dois mil quilômetros de costa. São raros, em toda a extensão da costa, os portos. Excetuando o de Trípoli capital da Líbia, nenhum outro oferece melhores condições de operação do que o de Tobruk. É um porto pequeno, mas profundo., A superfície de suas águas está protegida, por trás da colina, dos ventos do deserto., É um refúgio seguro para os navios, quando as tempestades de areia removem o deserto vizinho.
     Para a Inglaterra, que já dominava, de sua fortaleza em Gibraltar, a parte ocidental do Mediterrâneo, a conquista de Tobruk era da maior importância. O plano inglês de conquista da Líbia previa, em sua forma inicial, um avanço das tropas de terra pela faixa costeira, em direção a Trípoli, com o apoio das forças navais, que acompanhariam, juntos, a ofensiva terrestre. Para a execução desse plano, era necessário criar pontos de apoio à ação naval, na árida costa Líbia. O porto de Tobruk figurava como o principal ponto de apoio dessa ação. Sua tomada era importante, ainda, para o encurtamento da linha de abastecimento do Exército britânico em operações na região.
     Tobruk surgiu pela primeira vez no noticiário internacional em, janeiro de 1941, quando foi cercado e tomado, em 11 dias, pelo 8O Exército Britânico, na época sob o comando de do General Wavell. Os italianos vinham recuando desde Sidi Barrani, no Egito, perseguidos por tropas inglesas que supriam sua escassez de recursos com audácia e disposição de luta. Mas em Tobruk iria desenvolver-se uma batalha pelo primeiro objetivo realmente importante, no avanço inglês. A guarnição italiana do porto, comandada pela General Barberis, fora reforçada pela 61A Divisão Metropolitana, do General Della Mura. Ancorado, estava o cruzador San Giorgio, com seus canhões de 250 milímetros.
     As tropas do general Wavell iniciaram o cerco de Tobruk a 11 de janeiro de 1941, exatamente um mês depois de iniciada a contraofensiva inglesas no Egito. O ataque final, feito com o auxílio de unidades da França combatente, foi desfechado na madrugada do dia 21 e a 22 Tobruk estava em poder dos Aliados. Além dos Generais Barveris e Della Mura e do Almirante Vietina, aprisionaram os ingleses 14 mil italianos, entre eles 700 marinheiros do San Giorgio, cujas caldeiras foram explodidas, antes da rendição.
         No dia seguinte à tomada do pequeno porto, a vanguarda do 8o Exército avançou mais 160 quilômetros para o Ocidente. A campanha da Líbia se desenvolvia a todo pano, com Tobruk desempenhando a importante função de base de abastecimentos. Mas os acontecimentos iriam mudar de rumo. Correndo em socorro dos italianos na Iugoslávia e na Grécia, os alemães forçaram o deslocamento, para os Bálcãs, de tropas inglesas que combatiam na África do Norte. Quando o Afrika Korps, sob o comando de Rommel, iniciou sua ofensiva na Líbia, em março de 1941, o 8o Exército britânico, sem meios de conter os alemães, retirou-se para a fronteira com o Egito, mas com a decisão de não entregar Tobruk.
         Rommel iniciou o cerco de Tobruk a 13 de abril. A resistência dos ingleses duraria, porém, 14 meses. Embora isolada dos efetivos britânicos de terra, a guarnição do porto, apoiada por forças navais, manteve pé em suas posições, dificultando o sistema de abastecimento dos exércitos ítalo-alemães e contribuindo, de modo decisivo, para que Rommel não conseguisse ir muito além da fronteira com o Egito, em sua ofensiva de 1941.
         A guerra no deserto, cuja intensidade foi caindo no segundo semestre de 1941, só iria retornar sua violência em dezembro desse ano, quando ingleses e alemães  se empenharam em furiosa batalha no oásis de Jalo. Com uma vitória dos ingleses, cujas forças conseguiram recuperar um pouco de terreno, a luta entrou de novo em recesso, para recomeçar, com toda fúria, em maio de 1942. Nesse mês, tinha Rommel 250 tanques em ação no deserto. Uma tentativa de desembarque alemão entre Tobruk e Gazala, foi anulada pela Marinha inglesa, com, apoio de forças de terra. O objetivo principal dos alemães era cortar as linhas costeiras de comunicações do 8o Exército, liquidando, ao mesmo tempo, com seu último bolsão em território líbio reconquistado pelo Afrika Korps, o porto de Tobruk.
         A 13 de junho, as forças mecanizadas inglesas caíram numa emboscada e perderam 230 tanques, de um total de 300. Esse golpe deixou o 8o Exército praticamente à mercê do Afrika Korps. Tobruk caiu, finalmente, a 21 de junho, tendo feito os alemães 21.000 prisioneiros. Em três colunas, avançaram as forças de Rommel pelo Egito adentro, chegando a poucos quilômetros de Alexandria, junto à boca ocidental do canal de Suez, por onde passavam os recursos necessários á continuação da luta no Extremo Oriente, contra o Japão. Exaustos pela rapidez de seu avanço, os alemães foram contidos em El Alamein e se viram sem fôlego para desenvolver uma ofensiva total, contra o Egito. Mas permaneciam dentro do Egito, ameaçando bases aliadas cuja queda seria um desastre de consequências imprevisíveis.

                                      *  *  *

         A perda de Tobruk provocou um enorme choque, na Inglaterra. Churchill estava nos Estados Unidos, na época, e um inquérito parlamentar sobre a derrota foi adiado, até sua volta. A 1o de julho de 1942, uma moção de desconfiança a ele recebeu 21 votos, revelando um profundo descontentamento em relação ao Governo. Muitos afirmam que a moção foi derrotada principalmente porque não havia quem colocar no lugar de Churchill, como Primeiro-Ministro.
         A desforra dos ingleses viria em outubro. Já com Montgomery no comando do 8o Exército. Pouco antes, a 30 de agosto, Rommel havia iniciado sua esperada ofensiva em larga escala, sendo derrotado, pela segunda vez, em El Alamein, a 23 de outubro. Montgomery mandou que suas tropas se jogassem num ataque frontal, contra as de Rommel. As linhas alemãs foram rompidas em El Alamein. Oito dias depois, Rommel voltou à ofensiva, retomada pelos ingleses a 30 de outubro. A guerra no deserto entrava numa fase de vaivém, mas Rommel, praticamente sem apoio aéreo, não conseguira resistir à ação combinada de Montgomery com a RAF. A 4 de novembro, o comando britânico anunciava que 260 tanques inimigos tinham sido capturados ou destruídos. A 12 de novembro de 1942, O Afrika Korps já tinha sido expulso do Egito. Tobruk foi retomado um dia depois. Toda a Inglaterra comemorou, então, a primeira grande vitória contra a Alemanha. Os sinos das igrejas, silenciosos desde 1940, voltaram a replicar com alegria.
         A invasão da África do Norte, por contingentes ingleses e norte-americanos, foi decidida em junho de 1942, como um primeiro passado para a invasão da Europa.
         Em outubro, quando eram rompidas as defesas do Afrika Korps em El Alamein, um enorme comboio de tropas deixou os estados Unidos, com destino a Argel, Orã e Casablanca. Na madrugada de 8 de novembro, os 85 navios do comboio se dividiram entre os três objetivos previamente estabelecidos. Três dias depois, as tropas francesas de Vichy, que ensaiaram uma resistência, por determinação do Almirante Darlan, assassinado na noite de Natal desse ano por um jovem patriota francês, receberam ordem de cessar fogo em toda a Argélia e Marrocos. A 8 de dezembro, renderam-se aos Aliados Dacar e toda a África Ocidental Francesa.
         O Presidente Roosevelt e o Primeiro-Ministro Churchill se reuniram em Casablanca a 14 de janeiro de 1943, antes mesmo que os contingentes aliados, em ação na Tunísia, conseguissem juntar-se ao 8o Exército, de Montgomery, avançando pela Líbia. Na reunião de Casablanca, ficou decidido que uma rendição alemã só seria aceita incondicionalmente.

                    [ do livro 25 Anos Depois: de Hitler à Terceira Guerra Mundial ]



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                       Ação de Guerrilhas
                                 Newton CarlosOs lances mais significativos da II Guerra Mundial não se limitaram às grandes frentes. Muitos deles se verificaram na Iugoslávia, onde a técnica de guerrilhas foi pela primeira vez aplicada maciçamente, com sucesso, no seio da guerra moderna. Praticamente sozinhos, durante quatro anos de combate incessante contra os invasores alemães, italianos, húngaros e romenos, exigiram os “partisans”  iugoslavos a presença em seu país de 40 divisões inimigas, ou meio milhão de homens.
         O fracasso dos italianos na Grécia e na Albânia criou uma situação embaraçosa para os alemães. Mal sucedido na tentativa de subjugar a Inglaterra, logo depois de subjugada a França, armava Hitler seus planos para o ataque à União Soviética com a esperança de que a Itália neutralizasse os Bálcãs, o que não sucedeu. Necessitando, para a sua ação contra os soviéticos, da cooperação ou, em último caso, na neutralidade dos países balcânicos, decidiu a Alemanha agir por conta própria. De novembro de 1040 a março de 1941 foram incorporadas ao Eixo a Hungria, Romênia e Bulgária. A Turquia assinaria mais tarde um “tratado de amizade” com os alemães. Mas era a Iugoslávia, de cujo território suas tropas poderiam agir contra a Grécia e a Albânia, o principal alvo de Hitler. A 10 de março de 1941, Berlim solicitou formalmente a Belgrado que se submetesse ao Eixo. O Governo iugoslavo cedeu, mas o povo iugoslavo decidiu resistir. A 27 de março, uma revolta popular explodiu em Belgrado, resultando na derrubada dos ministros que haviam assinado o pacto com a Alemanha. O Príncipe Paulo, que ocupava o trono como regente, colocou-se sob a proteção dos alemães, e o jovem Rei Pedro formou um novo governo, que renegava todo compromisso com Hitler.
         Os iugoslavos iriam pagar um alto preço pela sua coragem. Mal preparados militarmente, e sem nenhuma ajuda externa, não puderam conter a avalancha nazista que desabou sobre eles. A invasão começou a seis de abril de 1941, quando Belgrado sofreu um dos mais violentos bombardeios aéreos de toda a guerra. Em poucos dias, os combates formais terminavam, mas uma surpresa estava reservada aos alemães: a guerra de guerrilhas, primeiro conduzida unicamente por grupos de “partisans” organizados por Mihailovitch, em sua maioria integrados por sérvios (a Iugoslávia é um estado comum de cinco povos eslavos do sul, sérvios, croatas, eslovenos, macedônios e montenegrinos). Os italianos, que se constituíam numa das principais forças de ocupação da Iugoslávia, procuraram acabar com a resistência, jogando os croatas, que são católicos, contra os sérvios, ortodoxos. Mas em 1942, “partisans” croatas e eslovenos já lutavam com suas próprias guerrilhas, e uma rádio clandestina, denominada “Iugoslávia Livre”, transmitia boletins diários sobre a luta contra os alemães. Foi quando se impôs Tito como chefe supremo do Exército na Libertação Nacional iugoslavo, criado pela unificação de comandos dos grupos de guerrilhas em operações esparsas. Os guerrilheiros sérvios se juntam a Tito ao descobrirem que Mihailovitch fazia jogo duplo.
         Iugoslávia foi ocupada por alemães, italianos, búlgaros e romenos, mas nunca conquistada. A guerra de guerrilhas, cuja principal matéria-prima é a disposição de um povo em não deixar subjugar-se, fazia seu primeiro teste numa guerra moderna.

                                                       *  *  *

         Desde o começo, verificaram os alemães que a sua tarefa seria árdua na Iugoslávia. Em maio de 1941, cartazes, assinados pelo comando alemão, foram pregados nas paredes de Belgrado:

                                       “À população de Belgrado:

                   As forças armadas alemães se queixam de que a população civil não tributa aos oficiais e soldados a atenção e o respeito que lhe são devidos. Verifica-se sobretudo que a maioria dos pedestres não se mostra disposta a abrir caminho para os oficiais e soldados alemães, muitas vezes barrados ostensivamente quando caminham pelas ruas. O comando alemão adverte a população que serão tomadas medidas cada vez mais rigorosas contra atos desta natureza”.

         As advertências nazistas não tiveram resultado. A resistência dos iugoslavos cresceu. Mas cresceu também a reação das tropas de ocupação. Eis outro cartaz dirigido aos iugoslavos:

                   “Soldados alemães foram mortos numa emboscada. A paciência dos alemães está se esgotando. Como represália, cem sérvios foram fuzilados. De agora em diante, cem sérvios serão passados pelas armas, a cada alemão assassinado.”

         Mesmo a reação desumana não conteve os iugoslavos. Em junho de 1941, grupos de partisans executaram golpes de mão armada em vários pontos do país. A guerra insurrecional contaminava toda a Iugoslávia, forçando o invasor a concentrar-se nos centos urbanos. À exceção de três cidades, onde se juntara o que restava dos contingentes italianos, toda a região de Montenegro foi logo libertada. As três divisões alemãs que ocupavam a Sérvia, depois de sofrerem grandes perdas, se puseram ao abrigo em algumas cidades. O movimento partisan passou a operar livremente em dois terços do território sérvio. Nas partes restantes do país, Eslovênia, Macedônia e Croácia, a ação dos partisans, embora continuada, só se faria sentir com peso no ano seguinte, 1942.
         A invasão da Iugoslávia transformara-se num pesadelo para os nazifascistas. Em fins de 1941, 80 mil iugoslavos compunham os grupos de “partisans” em atividade, contra o invasor. As 18 divisões alemães, italianas, búlgaras e romenas concentradas no país se mostraram incapazes de conter a insurreição. Novos contingentes foram transferidos para a Iugoslávia, o que favorecia a ação dos aliados em outras frentes. Quando terminou o ano de 1941, cerca de 30 divisões inimigas, algumas retiradas da Frente Russa, da França e da própria Alemanha, operavam contra os guerrilheiros iugoslavos. Aumentariam em breve para 40.
         Os partisans começaram a lutar com armas ligeiras. Os fuzis eram raros. O meio de conseguir armas melhores era tomá-las dos ocupantes. Mas no início não havia outro recurso senão usar as armas brancas e os engenhos rudimentares, fabricados pelos próprios partisans. Durante certo tempo, a cidade de Uzice, na Sérvia, fez o papel de arsenal da insurreição: ali  se fabricava armas ligeiras e munição.
         Incapazes de conter a insurreição, vingaram-se os ocupantes na população civil, vítima de verdadeira massacre. Em sua ordem de 16 de setembro de 1941, escreveu Keitel, chefe do Estado-Maior alemão:
                  
                   “A fim de esmagar a desordem em seu nascedouro, é preciso adotar imediatamente as medidas mais rigorosas. É preciso ter em conta o fato de que, nestes países, a vida humana não tem nenhum valor. Tome-se, como norma,   que deverão ser executados de 50 a 100 iugoslavos, em pagamento à vida de cada alemão. As execuções deverão ser feitas de modo a acentuar o efeito da intimidação”.

         Somente numa região da Sérvia, denominada Macva, massacraram os alemães cerca de seis mil homens, mulheres e crianças. Na região de Krahuejejevac o massacre foi maior: sete mil pessoas. Milhares de Iugoslavos morreram, igualmente, nos campos de concentração. Durante a curta guerra de abril de 1941, quando forças regulares tentaram opor-se ao invasor, foram feitos prisioneiros e mandados para países do Eixo, mais de 300.000 oficiais e soldados iugoslavos. As deportações continuaram, como parte do programa de intimidação dos guerrilheiros. Do programa constou, também, o arrasamento de localidades inteiras.
         As notícias que chegaram a Berlim pouco variavam do teor de um relatório enviado por Herold Turner, chefe da administração civil na Sérvia, no qual dizia:

                  1.“Neste país, o povo ignora a autoridade;

2.”As posições dos partisans dentro das florestas são tão invulneráveis que
     é impossível golpeá-los no coração”.

         Constatariam os alemães, com o tempo, que as afirmações de “Herr” Turner eram absolutamente verdadeiras. A luta se prolongou, sem descanso, durante quatro anos, e a vitória final pertenceu aos iugoslavos. Quarenta divisões do Eixo foram imobilizadas por eles, ao mesmo tempo em que os alemães lutavam contra os aliados na Itália com apenas 28 divisões. Em quatro de anos de luta, morreram, em território iugoslavos, 450 mil alemães, italianos, búlgaros e romenos. As perdas do Eixo foram de 4.630 canhões, 928 carros de combate, 309 aviões, 7.150 morteiros, 13.400 metralhadoras, 500.000 fuzis e 20 mil veículos. O sucesso das operações de guerrilhas, na Iugoslávia, deve ser creditado, em grande parte, à audácia dos atos de sabotagem. Em meados de 1943, o sistema de comunicações do país estava reduzido a 16 por cento de sua capacidade máxima. Os guerrilheiros iugoslavos destruíram ou danificaram mais de 700 instalações industriais. Para uma ideia da ferocidade com que se travou a luta, na Iugoslávia, basta lembrar o seguinte detalhe: mesmo depois do cessar fogo na Europa, a 8 de maio de 1945, recusaram-se a depor as armas as tropas alemães em território iugoslavos. Queriam, a todo custo, passar a outro país, para escapar às punições pelos seus crimes contra a população civil. A luta na Iugoslávia prolongou-se até 15 de maio.
Quando terminou a guerra, 800 mil iugoslavos estavam a em armas. Era o maior e mais eficiente movimento de resistência de toda a Europa.

                                                       *  *   *
                 
         O Governo formado pelo Rei Pedro, e surpreendido pela invasão alemã, refugiou-se no estrangeiro (Londres), adotando o estatuto de Governo no exílio. Mas em meados de 1943 os aliados começaram a compreender que uma nova administração se forjara na luta, dentro da própria Iugoslávia. Às vésperas do seu desembarque na Itália, em junho de 1943, norte-americanos e ingleses procuraram estabelecer contatos com o Movimento de Libertação Nacional, corpo político da resistência  iugoslava.
         Nessa época, conseguiu chegar ao centro de operações dos guerrilheiros iugoslavos a primeira missão militar aliada. Em novembro de 1943, reunidos em Teerã, Roosevelt, Churchill e Stálin decidiram dar a maior ajuda possível ao Exército da Libertação Nacional iugoslavo. Nesse mesmo mês, foi metralhado pelos alemães o avião que conduzia os membros do Estado-Maior iugoslavo, no Cairo. A partir de então, a ajuda aliada em material facilitaria enormemente a ação das guerrilhas iugoslavas.
         A 25 de dezembro de 1943, o embaixador inglês junto ao governo iugoslavo no exílio mandou uma carta ao seu ministro do Exterior, na qual se lia:
         “Nossa política deve fundamentar-se em três fatos novos. Os partisans serão          senhores da Iugoslávia. Representam eles, para nós, uma grande importância militar. Devemos, portanto, apoiá-los totalmente, subordinando as considerações políticas às necessidades militares. É duvidoso que a monarquia possa ser ainda considerada, na Iugoslávia, como elemento de unificação do país”.

         A 22 de fevereiro de 1944, evocou Churchill, no Parlamento britânico, a luta dos iugoslavos, dizendo:

       1. Conduzidos com grande habilidade, organizados segundo os princípios da guerrilha, mostraram-se eles (os iugoslavos) ao mesmo tempo imbatíveis e impiedosos. Estavam aqui como lá; estavam em toda a parte. Os alemães jogaram contra eles ofensivas de grande envergadura, mas mesmo cercados escapavam os guerrilheiros iugoslavos, ainda infringindo pesadas perdas ao triunfar.

     2. Todo o movimento de resistência organizou-se sem perder a característica de guerrilha, sem a qual não poderia triunfar.

                   Era a consagração da guerra de guerrilhas no seio da guerra moderna. Fixava-se, como elemento fundamental à ação de guerrilheiros, a obstinação de um povo em ser livre.
                               [Do livro 25 depois: de Hitler à Terceira Guerra Mundial ]



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Guerra no Pacífico
Newton CarlosDepois do ataque traiçoeiro a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de 1941,  lançou-se o Japão à conquista do sudeste asiático, de recursos naturais praticamente inesgotáveis.  A 12 de dezembro de 1941, cinco dias após a deflagração da guerra no Pacífico, estavam ao mãos dos japoneses as ilhas de Guam e Wake, as duas mais importantes bases avançadas dos Estados Unidos, no enorme oceano. A 9 de dezembro, haviam começado os desembarques na Malásia, cuja tomada foi rápida. Hong Kong caiu a 25 de dezembro e Cingapura, a 15 de fevereiro de 1942. Simultaneamente, entraram os japoneses na Birmânia, chegando a alcançar as fronteiras da Índia, em abril. Em março, cessou a resistência dos holandeses na Indonésia. Em maio, com a queda de Corregedor, completava o Japão a ocupação do arquipélago as Filipinas.
         Em cinco meses, empregando um conjunto de forças militares relativamente pequeno (cerca de 400 mil homens e três mil aviões, apoiados pela esquadra imperial) conseguira o Japão conquistar um império de quatro milhões de quilômetros quadrados, no qual estavam alguns dos territórios mais ricos do mundo, como a Birmânia, Java e Malásia. Isto fora possível porque a esquadra japonesa anulara o poder naval dos Aliados antes de iniciadas as operações de conquista. Três dias depois do desastre de Pearl Harbor, os japoneses puseram a pique, nas costas malaias, os dois únicos encouraçados ingleses em ação na região, o Prince of Wales e o Repulse. A partir de então, o plano de ocupação dos ricos territórios do sudeste asiático pôde ser desenvolvido sem empecilhos sérios.

                               *  *  *

         Um das linhas mestras do plano básico de guerra do Japão era a consolidação e fortalecimento do sistema de defesa estabelecido ao longo do Pacífico, eliminando a possibilidade de os norte-americanos chegarem às zonas asiáticas já ocupadas ou simplesmente visadas. Mas entre 6 e 8 de maio de 1942 sofreram os japoneses sua primeira grande derrota, na batalha do Mar de Coral. Seu avanço para o sul, para Austrália e a Nova Zelândia, estava contido. Esse fato provocou, a curto prazo, a alteração do curso da guerra. Impressionado com ele, o Estado-Maior Imperial decidiu levar ainda mais para o leste, para mais junto ao território norte-americano, o cordão defensivo estabelecido ao longo do Pacífico. A operação prevista incluía, especialmente, a tomada de Midway, formação coralina a 10.000 quilômetros do Havaí e das Aleutas Ocidentais. Com a posse de Midway, reforçariam os japoneses sua linha de defesa no Pacífico central, permitindo que a aviação imperial executasse voos de reconhecimento até ao Havaí. A tomada das duas pequenas ilhas perdidas na imensidão do oceano (Sand Island e Eastern Island compõem Midway) figurava com dois itens a mais, no plano de operações traçado pelos japoneses após a inesperada derrota no Mar de Coral:

1. Seria eliminada uma base de submarinos, que começavam a
operar próximo ao Japão, e de bombardeios de longo alcance. Para os
japoneses, os aviões do Coronel Doolitle, que bombardearam Tóquio, em
abril de 1942, haviam partido de Midway, quando na realidade decolaram
do porta-aviões Hornet;

2. A esquadra norte-americana seria atraída a um combate decisivo, dando
aos japoneses a oportunidade de completar o trabalho iniciado em Pearl
Harbor. A batalha do Mar de Coral mostrara que o poder naval dos
Estados Unidos não fora varrido do Pacífico.
         A 7 e 8 de junho de 1942, forças navais japonesas ocuparam, sem resistência, as localidades de Kiska e Attu, nas Aleutas Ocidentais, numa manobra que visava a anular o Alasca, como base de operações contra o Japão. Essa manobra jamais foi completada, com a ocupação da parte oriental do arquipélago, de onde o Alasca poderia ser mais bem defendido. Mas pouco antes da ocupação sem resistência da parte ocidental das Aleutas os japoneses foram derrotados na batalha de Midway, que os norte-americanos chamam de “a Stalingrado do Pacífico.” A partir dessa batalha, a balança do poder no Pacífico começou a inclinar-se, num processo irreversível, para os Estados Unidos. Depois de detidos no Mar de Coral, em seu avanço para o sul, estavam os japoneses detidos em Midway, em seu avanço pelo centro. Em novembro de 1942, eram detidos a sudeste, em Guadalcanal.
         Os norte-americanos venceram em Midway contra todas as previsões. As forças japonesas, comandadas pelo Almirante Yamamoto, de bordo com encouraçado (63 mil toneladas) Yamato, capitânia da esquadra imperial, eram muitas vezes superiores. Dispunham elas de cinco porta-aviões, sete encouraçados, 13 cruzadores e 45 destróieres, além de 12 navios-transporte com os cinco mil soldados que deviam ocupar as duas ilhas. As forças norte-americanas incluíam três porta-aviões, oito cruzadores e 20 destróieres. Nenhum encouraçado.
         Os Estados Unidos foram beneficiados por um erro fatal de Yamamoto: dividiu ele sua frota, com receio de que o Almirante Nimitz, comandante da frota norte-americana no Pacífico, desviasse parte da dele para as Aleutas, onde também se iria lutar. Os norte-americanos preferiram, no entanto, concentrar-se em Midway, reservando apenas cinco cruzadores (dois pesados e três leves) para a defesa das Aleutas.
         Outro fator favoreceu a vitória aliada. Desde maio de 1942 que o Almirante Nimitz, cujos serviços de informações haviam conseguido decifrar os códigos secretos japoneses, estava a par da decisão japonesas de tomar Midway no dia 4 de junho. Rapidamente, as duas pequenas ilhas receberam todo o reforço militar possível. Para elas foram deslocados cerca de 4.000 homens, a maioria fuzileiros navais. Minas, dispositivos de lança-chamas e cercas de arame farpado passam a cobrir totalmente suas praias, numa muralha defensiva até o mar. Caças Buflos e Wildcats, bombardeios Dauntless, Vibrators, Avangers, B-26 e B-19, hidroaviões PBY, de conhecimento, uma mistura confusa de aparelhos novos, meio usados e obsoletos são empilhados sobre Sand Island e Eastern Island, cujas partes mais largas não excedem dois quilômetros. Todos estavam a postos, para o combate, em Midway, quando a vanguarda naval japonesa iniciou seu movimento de aproximação, na madrugada de 4 de junho de 1942.
         O Almirante Nimitz, dispunha, porém de forças limitadas. De seus três porta-aviões, um deles o Yorktown, esteve no estaleiro, em Pearl Harbor, até às vésperas do combate. A força naval norte-americana ainda estava a caminho de Midway, quando o ataque japonês foi anunciado pelo rádio. Os aviões japoneses decolaram de seus porta-aviões, a pouco mais de 300 quilômetros do objetivo, às 4h 30 do dia 4. Uma hora e 15 minutos depois fazia contato com eles num avião de patrulha de Midway, um velho Catalina, cuja ação seria classificada, mais tarde, pelo Almirante Nimitz, como “o mais importante contato da batalha”. Às 6 horas, todos os aviões baseados nas duas ilhas estavam no ar, mas inferiorizados na proporção de quatro para um. Não puderam conter o inimigo. Durante 20 minutos, das 6h 30 às 6h50, sofreram as instalações de Midway pesado bombardeio. Embora as pistas de aviação não tivessem sido atingidas, os danos provocados por esse primeiro ataque aéreo foram sérios, abrangendo a usina elétrica e o sistema mecânico de colocação de combustíveis nos aviões.
         Embora abastecidos manualmente, com um grande prejuízo para o resto das operações, os aviões norte-americanos baseados nas duas ilhas permaneceram contra-atacando. Às 7h 10, os porta-aviões japoneses enfrentaram a primeira incursão contra eles, executada por quatro bombardeios B-26, do Exército, equipados com torpedos, e seis torpedeiros da Marinha, que haviam decolado antes da chegada dos aviões inimigos a Midway. Essa operação resultou na perda de cinco aviões, pelos norte-americanos. Seguiu-se o ataque de bombardeios de mergulho navais, realizado em duas vagas. Os resultados foram igualmente negativos. O submarino Nautilus, recém-chegado à área de combate, tentou afundar, também sem sucesso, um encouraçado japonês. A batalha de desenvolvia de modo totalmente favorável aos atacantes, mas Midway ainda não estava subjugada.
         Os grupamentos norte-americanos se aproximaram da área de combate sem que os japoneses soubessem exatamente a sua localização. Poucos minutos depois das 6 horas do dia quatro, antes, portanto, do primeiro ataque a Midway, o porta-aviões Enterprise, um dos dois (o outro era o Hornet) da Força Tarefa 17, já estava de posse da localização dos porta-aviões japoneses. Conseguira interceptar as informações do avião de patrulha que fizera o primeiro contato com o inimigo. A Força Tarefa 16, com o porta-aviões Yorktown, também avançava.
         Somente às 7h 30 chegaram às mãos do Almirante Naguno, comandante do ataque a Midway, as primeiras informações sobre a presença de navios norte-americanos. Mas continuava ele ignorando quantos porta-aviões teria de enfrentar. De posse dessas primeiras informações, decidiu adiar o segundo bombardeio das ilhas, para mandar seus aviões ao encontro da força naval que se aproximava. Desde as 7 horas, no entanto, que levantam voo, em direção à força de ataque japonesa, os aviões do Hornet e do Enterprise. São 67 bombardeios de mergulho, 29 torpedeiros e 20 caças, num total de 116 aviões. O lançamento desses aviões foi iniciado com uma antecipação de duas horas, decidida pelo comando norte-americano, com a esperança de que o trabalho de reabastecimento dos aviões japoneses empregados no primeiro ataque a Midway anulasse as operações de interceptação. Não encontrariam os norte-americanos resistência aérea durante o voo para seus objetivos. O primeiro ataque, realizado pelos torpedeiros do Hornet, foi um desastre completo. Muitos aviões nem chegaram a encontrar seus alvos. Estavam ainda os japoneses em meio a intensos preparativos para um contra-ataque em larga escala à força naval norte-americana, quando caíram sobre eles os torpedeiros do Enterprise. Novo desastre: 10 aviões norte-americanos e nenhum dano sério ao inimigo. A terceira leva de torpedeiros, do Yorktown, teve um destino idêntico.
         Mas o sacrifício não fora inútil e a operação continuaria, com os bombardeios de mergulho. Obrigados, pela ação dos torpedeiros, a manobras defensivas que os impediam de lançar seus bombardeios de mergulho e forçavam seus aviões de combate a voar a baixa atitude (julgavam que a maior ameaça vinha dos aviões torpedeiros que voam baixo) estavam os japoneses em situação desfavorável quando chegaram os bombardeios do Enterprise e o Yorktown. Três porta-aviões japoneses, o Kaga, o Aka e o Soryi, foram postos fora de combate. Soryi foi a pique na tarde do dia 4, com um torpedo de misericórdia do submarino Nautilus. O Kaga afundou à noite, e os próprios japoneses afundaram o Aka na madrugada do dia 5. Antes de ser afundado, um quarto porta-aviões japonês, o Hiryi, conseguiu destruir o porta-aviões norte-americano Yorktown. Quando soube do afundamento do Hiryi, o Almirante Yamamoto decidiu cancelar o ataque a Midway, mandando que suas forças se retirassem. Terminada a batalha de Midway, havia o Japão perdido quatro porta-aviões, um cruzador pesado, 253 aviões e 3.500 homens. Os Estados Unidos perderam um porta-aviões, um contratorpedeiro, me150 aviões e 350 homens.

         A batalha de Midway, que mudaria o curso da guerra no Pacífico, foi ganha pelos norte-americanos, que se lançaram a ela em situação desfavorável, devido principalmente aos seguintes fatores:

1. Erro do Almirante Yamamoto, que dividiu sua frota entre Midway e as Aleutas, cuja parte ocidental os japoneses tomaram sem nenhuma resistência:
2. A ação quase suicida dos pilotos dos aviões torpedeiros do Enterprise, Hornet e Yorktown, que abriram caminho para os bombardeios de mergulho, permitindo a complementação, com êxito, do ataque de surpresa;
3. Descoberta dos códigos secretos japoneses, que levaram o Almirante Nimitz a saber, com antecipação, dos preparativos e da data de ataque a Midway.

                                        *  *  *

         O ano de 1942 marcou a reabilitação dos Estados Unidos na guerra do Pacífico. Depois de Mar de Coral e de Midway, mais quatro importantes batalhas navais (Cabo Esperança, Santa Cruz, Guadalcanal e Lunga Point) foram ganhas pelos norte-americanos. Tentando avançar pelos terrenos difíceis da Nova Guiné, para alcançar Port Moresby e daí cortar o caminho para a Austrália ou mesmo pular para a Austrália, viram-se os japoneses contidos e rechaçados pelos australianos, que ainda lhes tomaram as bases de Buna e de Gona, sem as quais ficavam impossibilitados de executar qualquer nova ofensiva.
         Em agosto de 1942, já fixados em Guadalcanal, estabeleceram os norte-americanos uma cabeça-de-ponte entre as ilhas Salomão, criando uma situação inteiramente nova para a continuação da guerra no Pacífico. A luta cruenta travada entre o agosto e dezembro, pela posse de Guadalcanal, mostrou que os norte-americanos se adaptavam às exigências de uma guerra selvagem e esgotante. Durante a batalha naval de Guadalcanal, que durou três dias, destruíram os norte-americanos nada menos de 23 navios da Armada Imperial. Vinte e quatro mil soldados japoneses se afogaram, em navios-transportes destruídos. Na semana de fevereiro de 1943, Guadalcanal estava totalmente em mãos de forças dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, abandonavam os japoneses seu esforço para expulsar os norte-americanos das ilhas Salomão.
         Durante 1943, seguros em posições favoráveis, prepararam os Estados Unidos a sua grande ofensiva no Pacífico, que os levaria à vitória final.

[Do livro 25 depois: de Hitler à Terceira Guerra Mundial ]


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Cinzas de Hiroxima
            Newton CarlosTerminada a guerra na Europa, a 8 de maio de 1945, o problema era saber por quanto tempo ainda se prolongaria a guerra do Pacífico. A ação suicida dos kamikazes, pilotos que se jogavam contra alvos norte-americanos com aviões carregados de explosivos, parecia dizer que o fanatismo japonês não tinha limites. As perdas dos Estados Unidos no Pacífico já atingiam 300 mil mortos e estimava-se que uma invasão do território metropolitano poderia aumentá-las para um milhão.
         Na esperança de que os japoneses acabassem reconhecendo, o  mais cedo possível, sua derrota, decidiram os Aliados lançar uma ofensiva global, na região, combinando operações militares com operações psicológicas. Nas três últimas semanas de julho, perdeu o Japão 1.023 navios de superfície e 1.257 aviões. A 1o de agosto, 820 fortalezas voadoras jogaram 6.630 toneladas de bombas sobre as cinco principais cidades japonesas. Ao mesmo tempo, outros aviões deixavam cair uma carga diferente: cerca de 200 mil panfletos pedindo aos japoneses que exigissem a rendição de seu Governo.
         Os Aliados avançavam em todas as frentes do Pacífico. A principal base japonesa na Nova Guiné caiu no último dia de julho. A 4 de agosto de 1943 tomaram os chineses a base de Sinning, rompendo a principal linha de defesa da Indochina ocupada. Na Birmânia, estavam os japoneses em retirada completa e apressada. Mas o Japão recusava render-se.
         A proclamação dos Aliados, datada de 26 de junho, pedindo a rendição imediata, permanecia sem resposta. Prometia ela que o Japão conservaria sua soberania sobre as quatro principais ilhas do arquipélago: Honshu. Hokkaido, Kyu-shu e Shiukoku. As autoridades que haviam levado o país à guerra seriam eliminadas. Os militares, no entanto, depois de desarmados, poderiam recomeçar a vida pacificamente. Nesse meio tempo, uma grave decisão estava para ser tomada. A 16 de julho de 1945, em Potsdam, um antigo castelo de príncipes alemães, para onde se dirigira a fim de conferenciar com Stálin e Churchill, recebeu Truman a informação de que fora testada com êxito a primeira bomba atômica. A explosão, com poder destruidor equivalente a 20 mil toneladas de dinamite, se verificara às 5h 30 desse dia, no deserto do Novo México. Cabia ao Presidente norte-americano decidir se o novo e terrível engenho seria usado contra o Japão.
         O mundo conheceu a decisão de Truman a 6 de agosto. À 1h 45 da madrugada do dia 6 de agosto de 1945, uma B-29, batizada pelos seus tripulantes de Enola Gay, decolou da ilha de Tinian, levando em seu bojo uma bomba atômica. Ás 8h 15 o engenho foi lançado sobre Hiroxima, matando, de um só golpe, 78.150 japoneses. A cidade foi arrasada. Espantado, o Governo japonês deslocou para o local seus melhores cientistas, com a missão de verificarem que espécie de arma era aquela. Três dias depois, uma outra bomba atômica caiu sobre Nagazaki, matando 23.753 japoneses. Entre 6 e 9 de agosto, aviões norte-americanos jogaram três milhões de panfletos no Japão, numa manobra visando a levar a população civil a pedir a paz ao Imperador. Mas o anúncio de que a rendição fora decidida só veio a 14, sendo comemorada a 15 o dia da vitória. Apesar disso, remanescentes japoneses lutaram até o dia 19 em Java e até 21 na Manchúria, contra tropas soviéticas que haviam entrado na guerra contra o Japão a 8 de maio.
         A 2 de setembro de 1945, no convés do encouraçado Missouri, ancorado na baía de Tóquio, foi assinado o ato final de rendição. Terminava a guerra no Pacífico, menos de quatro meses depois de terminada na Europa. Onze milhões de americanos vestiam uniformes, nesse dia.

                                                       *  *  *
                 
         A bomba atômica, isto é, a utilização, como arma de guerra, da energia liberada pela fragmentação de átomos, começou a tornar-se uma perspectiva real logo depois de terminada a Primeira Guerra Mundial. É justo afirmar-se que a história da energia nuclear tem sua origem no famoso laboratório de Cavendish, da Universidade inglesa de Cambridge, onde, em 1919, Ernest Rutherford conseguiu, pela primeira vez, fragmentar o átomo. Fornecia ele, assim, a chave para a liberação de certos tipos de matéria sólida, de energia praticamente ilimitada.
         Inúmeras experiências acompanharam as de Rutheford, levando a comunidade científica a compor, no silêncio dos laboratórios, um engenho terrível, contra o qual se voltaria mais tarde. Mil novecentos e trinta e dois foi um ano decisivo. James Chadwick colocou à disposição da ciência, nesse ano, o instrumento definitivo para a fissão do átomo: o nêutron. As experiências dos ingleses John Cockroft e E.T. Walton resultaram na descoberta de novos meios para o desenvolvimento futuro de uma grande variedade de transformações nucleares, do núcleo do átomo.
         A primeira advertência contra os perigos que representavam as pesquisas no campo da física nuclear foram feitas em 1935 pelo francês Fréderic Joliot-Curie. Quando recebia o Prêmio Nobel, em Estocolmo, disse ele:
                           - Temos razões suficientes para achar que os pesquisadores, construindo e destruindo elementos à sua vontade, um dia descobrirão os meios de como fazer transmutações nucleares de caráter explosivo.

         Joliot-Curie, filho de Madame Curie, era premiado por haver conseguido produzir a radiatividade artificial. Sua advertência significava, ao mesmo tempo, uma predição: anunciava ele, com uma antecipação de 10 anos, as bombas atômicas. Sua fala, no entanto, despertou um interesse pouco mais do que passageiro. Somente um cientista, o físico húngaro Leo Szilard, pareceu compreendê-la de imediato, fazendo, intimamente, um completo levantamento das consequências políticas do desenvolvimento científico posto em marcha pela descoberta do nêutron. Os nomes de Szilard e Joliot-Curie, juntamente com o do italiano Enrico Fermi, o primeiro a construir uma pilha atômica, apareciam destacados na carta que Albert Einstein mandou ao Presidente Roosevelt em 1939, comunicando ao Governo dos Estados Unidos a possibilidade de construir-se a bomba atômica. Nessa carta, era anunciado um novo resultado das pesquisas de que o urânio poderia transformar-se, em futuro próximo, em importante fonte de energia.
         Na realidade, o urânio já estava sendo utilizado como fonte de energia, pelos alemães. Em fins de 1938, os cientistas alemães Otto Hahn e Fritz Strassman conseguiram realizar a desintegração dos átomos de urânio. Em 1939, em viagens pelos Estados Unidos, revelou Niels Bohr, famoso físico dinamarquês, que o átomo do urânio do qual Hahn e Strassman haviam conseguido provocar a cisão era um átomo de urânio 235, isto é, de urânio puro. O Projeto Urânio, em execução na Alemanha e aos poucos sendo revelado ao mundo, começou a inquietar os cientistas ingleses, norte-americanos e europeus, muitos fugitivos do nazifascismo, que residiam nos Estados Unidos: sabiam eles que Hitler passaria a dispor de bombas atômicas, caso seus cientistas lograssem garantir uma “reação em cadeia” da desintegração dos átomos do urânio 235. Era isso, exatamente, o que visava o Projeto Urânio, o que levou um grupo de cientistas preeminentes,  representados por Einstein, a advertir o Presidente Roosevelt de que os Estados Unidos deviam pôr-se em campo para construir primeiro o engenho terrível.
         A carta firmada por Einstein, mas concebida por Szilard, na época já trabalhando em território norte-americano, foi entregue a Roosevelt pessoalmente por Alexandre Sachs, físico de renome, no dia 11 de outubro de 1939, a menos de um mês do início da guerra. O Presidente considerou prematura qualquer intervenção do Governo no assunto, mas Sachs conseguiu, pelo menos, ser convidado para um almoço na Casa Branca, no dia seguinte. Nesse almoço contou a Roosevelt o seguinte fato histórico:
         - Durante as guerras napoleônicas, um jovem inventor chamado Fulton ofereceu ao Imperador construir para a França uma frota de navios a vapor, com a ajuda da qual os franceses poderiam desembarcar na Inglaterra sem a preocupação das mudanças de tempo. A ideia da construção de barcos sem velas pareceu disparatada a Napoleão, que descartou-se de Fulton. Segundo a opinião do historiador inglês Lord Acton, este é o exemplo mais eloquente de como a Inglaterra se salvou graças somente à falta de visão de um inimigo. Tivesse Napoleão uma imaginação mais fértil e fosse ele mais modesto, talvez a história do século 19 fosse outra.
         Calado, mandou Roosevelt que um servente trouxesse uma garrafa de conhaque do tempo de Napoleão, há muitos anos propriedade de sua família, e dela retirou dois tragos, uma para ele e outro para Sachs. Bebido o conhaque, chamou seu adido militar, o General Watson, para dizer-lhe, com os documentos de Sachs nas mãos:
                           - Precisamos agir imediatamente.
         Nasceu, assim, o projeto Manhattan, que daria a bomba atômica aos Estados Unidos. A 2 de dezembro de 1942, num laboratório elementar instalado pela Universidade de Chicago nos porões do estádio da cidade, Enrico Fermi e mais 48 colaboradores, entre os quais estavam as mais altas personalidades científicas da época, conseguiram, finalmente, uma “reação atômica em cadeia”. Desde novembro que funcionava em Los Alamos, Novo México, o centro atômico encarregado de completar a execução do Projeto Manhattan. Los Alamos era dirigido por um jovem cientista norte-americano, Robert Oppenheimer, que depois receberia o título de “pai da bomba atômica”. No centro construído numa área de 54 mil acres, desapropriada pelo Governo em pleno deserto do Novo México, estavam ao lado de Oppenheimer, nome célebres da física: Fermi, Szilard, Bruno Rossi, Niels Bohr, Edward Teller, Stanislau Ulam e muitos outros.
         Por que os alemães, que haviam conseguido a fissão do urânio puro em fins de 1938, não chegaram primeiro às bombas atômicas? Sabe-se que Hitler, diante da lentidão com que se desenvolvia o Projeto Urânio, decidiu concentrar suas pesquisas científicas no campo militar nas bombas V-1 e V-2, que tanto dano causaram à Inglaterra, no fim da guerra. Mas o Projeto Manhattan, dos Estados Unidos, progrediu de modo lento, igualmente, apesar do interesse direto de Roosevelt por ele. Mais de três anos transcorreram entre a visita de Sachs à Casa Branca e a construção de Los Alamos e a “reação em cadeia” de Fermi, conseguida num laboratório improvisado. Muitas das causas do fracasso alemão devem ser procuradas, portanto, fora da ciência.
         No início de 1943, os Estados Unidos criaram um serviço especial de informações que deveria desembarcar no continente europeu com as primeiras tropas de invasão. A missão desse serviço era fazer um levantamento do programa alemão de armas nucleares, evitando que os Aliados fossem apanhados de surpresa por uma bomba atômica. Em novembro de 1944, com a queda de Strasburg, conseguiram os Aliados as primeiras informações importantes a respeito do andamento das pesquisas atômicas, na Alemanha. Documentos encontrados no Instituto de Física da cidade permitiram estabelecer o seguinte:
         1. Os trabalhos alemães estavam com um atraso de pelo dois anos, em relação aos dois aliados;
                          
                           2.Não dispunham os alemães de nenhuma fábrica para a
produção de urânio puro (325) em quantidade necessária à construção de armas atômicas;
        
         3. Não dispunham, também, de pilhas de urânio (reatores), comparáveis aos Estados Unidos.

         Por que o atraso? Tem-se como correta, hoje em dia, a informação de que o Projeto Urânio foi retardado propositalmente por uma importante parcela da comunidade científica alemã, que temia entregar armas atômicas à loucura de Hitler. Mas existem outras razões. Hitler, por exemplo, teria repetido o erro de Napoleão, determinando em 1942 que só se levassem em consideração projetos capazes de resultar em armas prontas para utilização em seis semanas. Estava convencido de que a vitória final não tardaria.
         O aparecimento da bomba atômica apressou o fim da guerra. Não fez só isso, no entanto. O mundo passou a ser outro, depois da explosão de Hiroxima, quando nasceu a are atômica. A guerra fria foi deflagrada com a explosão da primeira bomba atômica.
         No seu Massacre e Supermassacre (Kill and Overkill),  o cientista norte-americano Raph Lapp, um dos construtores das bombas atômicas e principal teórico das bombas-satélites (engenhos nucleares em órbita em torno da Terra), cita a seguinte afirmação do professor W. Pickering, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, um dos mais importantes dos Estados Unidos:
                  ‘        - No estado da automação militar em que nos encontramos, cada cidade importante de nosso planeta corresponde a um botão. É só apertar um desses botões e uma dessas cidades desaparecerá, sob foguetes com ogivas atômicas.
         Conhecemos o destino que tiveram alguns homens que viram, de seus postos de combate nas B-29, bombas atômicas explodirem sobre Hiroxima e Nagazaki. A equipagem do Enola Gay só veio a saber depois que o seu gesto, também o gesto de apertar um botão, havia matado quase 80 mil pessoas, em Hiroxima. Leppy Lehman, um dos membros da equipagem, foi localizado num mosteiro da Calábria, como membro da Ordem Cartuxa. É o padre Antônio. Terminar seus dias numa ordem que inclui o silêncio absoluto entre suas leis foi o meio encontrado por Leppy Lehman para esquecer o dia 6 de agosto de 1945. Eat Erly, que participou do ataque a Nagazaki, perdeu a razão e esteve muito tempo internado. Condecorado com a Distinghuish Ed Flying Cross, a mais alta condecoração da Força Aérea norte-americana, foi detido duas vezes, depois de desmobilizado, sob a acusação de assaltos a mão armada. Em sua correspondência com o psiquiatra austríaco Robert Young confessa que se sente responsável pelo massacre de Nagazaki.

  

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