1.
O cadáver que enganou Hitler
2.
Nazismo no Brasil: eles estão entre nós.
3.
Mistérios Nazistas em Pelotas
4.
Um
brasileiro naturalizado foi o
primeiro a denunciar os campos de
extermínio
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Espionagem
O cadáver que enganou Hitler
Realidade e Ficção
Esta história exemplar de
espionagem
rendeu um livro e um filme inglês
Corre o ano de 1943. Os aliados já
haviam botado para correr do Norte da África as tropas do general Erwin von
Rommel, a Raposa do Deserto. O objetivo
seguinte, do ponto de vista da importância militar, teria que ser a Sicília, uma
ilha que ocupa um lugar estratégico por controlar as rotas do Mediterrâneo. A
operação leva o nome de Mincemeat
(recheio) e é executada pela inteligência inglesa na Espanha - então presidida
pelo ditador Francisco Franco, o Generalíssimo, aliado da Alemanha e da Itália.
A
operação consistiu em fazer chegar à praia de Huelva o corpo de um homem
vestido com um uniforme dos Reais Fuzileiros Navais, como se fosse um
mensageiro militar, com uma pasta com documentos aparentemente oficiais. Era preciso que os alemães (a quem os espanhóis
certamente entregariam, como entregaram, os documentos achados no corpo)
acreditassem que se tratava de um militar que morrera afogado depois que o
avião dele caiu no mar. Os documentos mais
convincentes são três cartas pessoais para chefes militares ingleses.
Um drible nos alemães
A
falsificação nos mínimos detalhes
Tudo para enganar os alemães: a falsa
identidade do “Major William Martin, os canhotos de 2 entradas para uma peça de
teatro e a carta de Mountbatten ao Almirante Cunningham
... e os nazistas acreditaram Um noivado
faz-de-conta
O
recibo de um anel comprado pelo
falso
Major para a falsa noiva, Pam
Uma das cartas era do chefe do Estado-Maior do Ministério da Guerra
britânico, Sir Archibald Nye, ao general Sir Harold Alexander, comandante do
18º Grupo de Exércitos, na Tunísia. A
carta dava a entender que os Aliados iam atacar a Sardenha, mas que o serviço
secreto militar estava desenvolvendo uma operação de despiste, para fingir que
a invasão seria na Sicília - que, no fim
das contas, era alvo real das tropas
anglo-americanas.
A segunda carta é do chefe de Operações Combinadas, Lorde Louis Mountbatten,
ao comandante da Esquadra no Mediterrâneo, almirante Andrew Cunningham, dizendo
que o Major Martin levava um documento que não poderia ser passado pelo
telégrafo. Na carta, Mountbatten
pede que Cunningham libere logo o Major Martin para que ele (o Major), pudesse
trazer a Londres algumas “sardinhas” – um referência à ilha da Sardenha.
A terceira carta é também de Lorde
Mountbatten, desta vez para o
general Dwight Eisenhower, Comandante dos Aliados na Europa Ocidental, e
não trata de nenhum assunto estritamente militar. É um pedido ao chefe das
Forças Aliadas na Europa para que escrevesse o prefácio de um livro do escritor
inglês Hilary Saint George Saunders, na época um autor muito popular nos EUA e
na Grã-Bretanha. O conteúdo dessa terceira carta foi só mais um despiste.
É uma operação demorada e preparada nos mínimos detalhes. Primeiro, foi
preciso arranjar o corpo de um homem que pudesse se passar como afogado (tinha
que ter água no pulmão). O cadáver - de um homem que morrera de pneumonia,
portanto, com água nos pulmões - é batizado com o nome de Major William (Bill)
Martin. Além das três cartas, outros itens
foram plantados para dar - por assim dizer - vida ao
Major:
1.
Uma notificação, enviada pelo correio, da gerência-geral do Loyds Bank, relembrando que a conta do Major Martin
estava no vermelho (em 79 libras esterlinas);
2. Uma conta do Clube Naval e Militar, de Londres, como se o Major
tivesse se hospedado lá dias antes de embarcar para o Norte da África;
3.
Uma foto, um recibo de compra de uma anel de diamante e uma carta de uma
mulher, Pam, como se ela fosse noiva do Major (a foto plantada foi a da mais
bonita funcionária do Ministério da Guerra britânico);
4. Uma carta do pai do Major Martin, dando notícias da sua família, que vivia em Cardiff, no País de Gales;
5. Duas entradas para um show de um
artista chamado Sid Field, no Teatro Príncipe de Gales, em Londres, um dia
antes de o Major viajar.
O
corpo foi levado ao litoral da Espanha pelo submarino HMS Seraph. O serviço
secreto inglês usou cigarro, chave e lápis para
enganar os alemães
São plantados ainda: dois
bilhetes de ônibus, uma caixa de fósforo, um maço de cigarros, chaves, um
lápis, um recibo de alfaiataria e dinheiro em notas -- uma de cinco libras e outra três de uma libra
-- e moedas -- uma de dois shillings,
uma de meia coroa, e duas de seis pence (na época, a Grã-Bretanha ainda não
havia adotada o sistema decimal em sua moeda).
O corpo do Major – com um tipo
de salva-vidas que os militares chamavam de Mae
West, nome de uma famosa atriz do cinema americano da época – é colocado
num cilindro de aço com gelo seco (para retardar a decomposição) e lançado,
pelo submarino Seraph, num ponto
próximo ao litoral da Espanha onde há uma corrente marítima que passa pela
praia de Huelva. O Major chega à
praia no dia 1O de maio – e
cumpre a sua missão com louvor.
O Almirante Dönitz cai no engodo “Não
há dúvida sobre a autenticidade dos documentos capturados” – escreveu o
Almirante, como mostra este memorando encontrado depois da guerra.
O serviço secreto militar
britânico vive sob tensão durante mais de dois meses, sem saber se o despiste
dera certo. Só quando as tropas desembarcam na Sicília, a 10 de julho de 1943,
é que os ingleses constatam o êxito da operação, porque constatou-se as tropas
alemãs na Itália estavam dispersas em toda a região do Mediterrâneo, e não
concentrada na Sicília. E a confirmação do êxito vem depois da rendição da
Alemanha, quando são encontrados, no Almirantado, em Berlim, memorandos
considerando autênticos os documentos do Major Martin
Um dos memorandos é do comandante-chefe da Marinha alemã, almirante Karl
Dönitz (mais tarde, escolhido por Hitler, poucas horas de se suicidar, como o
novo Führer da Alemanha). No dia 14 de maio – duas semanas depois da chegada do
cadáver à praia de Huelva - Dönitz
escreveu:
“Não
há dúvida sobre a autenticidade dos documentos capturados. Continuam a ser examinadas as hipóteses de os
documentos haverem sido colocados em nossas mãos propositadamente – hipótese
muito remota – ou de o inimigo só ter conhecimento do desaparecimento dos
documentos no mar, sem saber que o capturamos. É
possível que o inimigo não saiba da captura dos documentos. Por outro lado, o inimigo tem certeza absoluta de
que os documentos não chegaram ao destino.”
E, para completar, o próprio Hitler foi enganado, ignorando a opinião de
Mussolini, como registra o mesmo almirante Dönitz:
“O Führer não concorda com o Duce em considerar a Sicília como local
provável da invasão. Além disso, acredita que a descoberta de ordens
anglo-americanas confirma a hipótese de que o ataque planejado será dirigido
principalmente contra a Sardenha e o
Poleponeso” (na Grécia).
No fundo, a Operação Mincemeat foi uma versão militar de uma célebre e folclórica frase
de um jogador de futebol brasileiro, para explicar uma jogada em que enganara
seu marcador: “Fiz que fui, mas não fui, mas acabei fondo ... ).
Nazismo no
Brasil
Eles estão
entre nós
Texto: Leandro Narloch
No
dia 20 de abril de 1940, Adolf Hitler completava seus 51 anos. Para comemorar o
aniversário do Führer, que nos dois meses seguintes dominaria Holanda, Bélgica
e Dinamarca e, em junho, descansaria à sombra da torre Eiffel, em Paris, o
ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels preparou uma festa. Desde a
manhã milhões de pessoas foram às ruas e curtiram o feriado ouvindo discursos
inflamados ou seguindo desfiles nas principais cidades alemãs. Longe de sua
terra natal, 456 alemães preferiram uma festa reservada, mas também animada. No salão social do Clube de Atiradores de Blumenau, em
Santa Catarina, eles se reuniram para um almoço típico, brindaram e deram vivas
a Hitler. Na véspera, os 815 alunos entre 7 e 15 anos da Escola Alemã da Vila
Mariana, em São Paulo, chegaram às 7 da manhã, como todos os dias. Como todos
os dias, saudaram a chegada dos professores em coro: “Heil, Hitler”. Na
mesma época, no Rio de Janeiro, uma enorme bandeira vermelha com a suástica
preta podia ser vista hasteada, tremulando no alto do morro de Santa Tereza.
A
existência de simpatizantes nazistas no Brasil, nos anos 30 e 40, não é
novidade. Porém, a partir de 1997, quando se tornaram públicos os arquivos da
Delegacia de Ordem Política e Social (Deops) do governo Getúlio Vargas, os
pesquisadores não passam um dia sem descobrir algo novo e surpreendente sobre o
nazismo no país. É o caso da historiadora Ana Maria Dietrich, professora da
Universidade de São Paulo, que há anos pesquisa os milhares de documentos entre
inquéritos, fotos, panfletos, depoimentos e relatórios do Deops, atualmente sob
a guarda do Arquivo do Estado de São Paulo. Segundo Ana Maria, os documentos
revelam um nível surpreendente de influência do nazismo na sociedade
brasileira, detalhando não apenas atividades partidárias e de propaganda, mas
de espionagem e fraudes, além da conivência, e até da simpatia, com que essa
ideologia contou entre as autoridades brasileiras.
Amigos, amigos
Para
entender o fenômeno do nazismo entre nós, é preciso lembrar como era o Brasil
nos anos 30. Vivíamos sob a ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas.
Partidos haviam sido proibidos, políticos foram cassados, jornais e revistas
que não fossem simpáticos ao governo eram perseguidos. A Constituição imposta
pelo getulismo era praticamente uma cópia da carta do ditador fascista italiano
Benito Mussolini, de quem Getúlio não escondia ser admirador. Uma sofisticada
máquina publicitária que incluía centenas de emissoras de rádio propagava a
imagem do presidente e fomentava o sentimento ultranacionalista. Dito assim,
não parece um ambiente tão impróprio para o surgimento de ideais totalitários.
E não era. No Brasil ainda circulavam ideias de dominância racial formuladas no
século 19 e defendidas por intelectuais como Sílvio Romero. Jovens que se
tornariam figurões da nossa cultura, como o poeta Vinicius de Moraes e o
folclorista Câmara Cascudo, declaravam-se integralistas – a corrente de
ultradireita que queria um Brasil totalitário e cujos membros se metiam em
espancamentos de negros, estrangeiros e judeus.
“A política e a sociedade
brasileiras refletiamas
influências internacionais”, afirma Priscila Ferreira Perazzo, historiadora da
USP e autora de O Perigo Alemão e a Repressão Policial no Estado Novo. De fato,
mundo afora os ideais fascistas vicejavam. “Entre 1918 e 1920, dois Estados
europeus fecharam seus parlamentos e implementaram governos absolutistas. Nos
anos 20 foram seis, e na década seguinte mais nove países sucumbiram a governos
ditatoriais”, afirma o historiador britânico Eric Hobsbawm, em Era dos
Extremos. “Na América, a lista de países não-autoritários incluía apenas
Canadá, Colômbia, Estados Unidos, Costa Rica e Uruguai.”
Além de compartilhar ideais
autoritários, o
Brasil de Vargas mantinha relações para lá de amistosas com a Alemanha nazista.
Na década de 30, os alemães viraram o segundo maior mercado consumidor de
produtos brasileiros, saltando de 10% para 22% de nossas exportações. Em 1936,
policiais e militares brasileiros visitaram a Alemanha, onde treinaram com a
Gestapo, a polícia política de Hitler. Em retribuição, o governo brasileiro
entregou aos nazistas comunistas e judeus alemães residentes no Brasil, como
Olga Benário, Erna Krüger, Elise e Arthur Ewert. Dito assim, parece que Getúlio
estava muito mais próximo de apoiar o Eixo que os Aliados, na guerra que se
aproximava.
Nazismo legal
Datam
de 1924 os primeiros registros sobre um grupo chamado genericamente de
Landesgruppe Brasilien (ou “o grupo do país Brasil”), que pode ser identificado
como um partido nazista no Brasil. Segundo Ana Maria Dietrich, desde o início a
organização não era uma célula isolada e integrava uma rede mundial com outras
filiais do partido presentes em 83 países, com 29 mil integrantes. Quando foi
oficializado, em 1928, seu líder, Hans Henning von Cossel, estava apenas a dois
degraus hierárquicos do próprio Hitler. “O partido chegou a ter 2 900
integrantes e era, de longe, o maior entre os partidos nazistas que operavam
fora da Alemanha”, diz Ana Maria. O segundo maior era o da Holanda, com 1 600
membros.
Em dez anos de atuação, o
partido teve estatuto, uma
sede nacional em São Paulo, escritórios regionais em Minas Gerais, Rio Grande
do Sul e Rio de Janeiro, então capital federal, e sedes municipais. Dos quase 3
mil membros, 785 estavam em São Paulo, 528 em Santa Catarina, 447 no Rio de
Janeiro. Havia “agentes de divulgação” em Pernambuco e Bahia. Alguns de seus
líderes, como o chefão Von Cossel e o tesoureiro Otto Braun, receberam
treinamento especial em Munique, na Alemanha, para se tornarem “agentes
políticos”. Os membros também se organizavam em associações, como a Juventude
Hitlerista, a Associação de Professores e a Associação de Mulheres Nazistas.
Ao contrário do que se pensa,
o tipão mais comumde
um nazista no Brasil tinha pouco a ver com os colonos alemães que chegaram no
século 19. Geralmente, eram técnicos e empresários urbanos que viam o Brasil
como uma gastland – “terra de hospedagem”, um abrigo temporário. “A principal
missão dos membros era difundir o nazismo entre os alemães longe da Alemanha”,
diz Ana Maria. “Professores foram enviados de Berlim para lecionar em escolas
alemãs e pregar o nazismo para os alunos.”
Foi o que ocorreu na Escola
Alemã da Vila Mariana,hoje
Escola Benjamin Constant, em São Paulo. Ali, as crianças estudavam em alemão,
davam vivas a Hitler e entoavam canções nazistas como a patriótica “Alemanha
Acima de Tudo”, que começava assim: “Levanta a bandeira da luta e da
liberdade,/ as fileiras bem unidas,/ e marcha com os passos calmos e firmes”.
No Colégio Visconde de Porto Seguro, também em São Paulo, o diretor Gustaf Hoch
foi denunciado pelo pai de um aluno em carta ao próprio Goebbels por não
defender o nazismo.
“Tudo indica que o nazismo no
Brasil se difundiu,pelo
menos no início, para os alemães e entre os alemães. Eles não queriam saber da
política interna, de tomar o poder do Brasil ou convencer mestiços e
não-arianos a adotarem as ideias de Hitler”, diz Priscila Perazzo. O partido
trabalhava de olho nos problemas da Alemanha e dos alemães que viviam no exterior.
Sequer estavam registrados no Tribunal Superior Eleitoral, e descendentes
nascidos no Brasil eram proibidos de entrar. “Não acredito e não há indício
confiável de que os nazistas pretendessem influenciar drasticamente a política
brasileira”, afirma Priscila. No entanto, um estudo do
historiador Francisco Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
baseado em documentos do Arquivo Federal da Alemanha, mostra que diante da
iminência da guerra, entre 1936 e 1939, o partido recebeu do III Reich a missão
de paquerar a opinião pública brasileira. Para isso, os nazistas
controlavam pelo menos 15 emissoras de rádios espalhadas pelo país que
transmitiam noticiários em português feitos em Berlim. Notícias da rádio Tupy,
de São Paulo, em outubro de 1936, diziam que a Alemanha estava uma maravilha
sob o comando do Führer. A produção industrial crescia, os alimentos abundavam,
o perigo semita estava sendo afastado e, em breve, a raça alemã estaria toda
reunida. Os ideais nazistas chegavam
ao grande público brasileiroainda
em panfletos, livros e pelo jornal Deutscher Morgen (ou “Aurora Alemã”), que
custava 200 réis e publicava na capa trechos de discursos de Hitler como esse,
de junho de 1934: “Devemos assegurar a permanência da nossa raça e de nosso
povo, o alimento de nossos filhos, preservar a pureza do sangue, a liberdade e
independência da pátria”. Editado no bairro da Mooca, em São Paulo, o jornal
convidava os leitores a participar de reuniões sobre o nazismo e para tomar um
chope Antarctica na Gruta Alemã, bar na avenida São João que estampava uma
suástica atrás do balcão.
Em abril de 1938, no auge da
onda nacionalista,o
governo Vargas restringiu a participação política partidária aos brasileiros
natos e o Partido Nazista – tanto quanto o Comunista – foi extinto. Mas não
acabou. Documentos encontrados no arquivo do Itamaraty pela historiadora Ana
Maria Dietrich mostram que, antes de o decreto começar a valer, o presidente
recebeu o embaixador alemão no Brasil, Karl Ritter, para uma conversa. “Getúlio
disse ao diplomata que a medida não era punitiva aos alemães, à Alemanha ou ao
Partido Nazista”, afirma Ana Maria. Como compensação pela proibição, o
embaixador aceitou a doação de sacas de café, para ajudar no Programa de
Auxílio Alemão de Inverno. O que não se sabe se ficou combinado entre Getúlio e
o embaixador foi a garantia de que os nazistas não seriam perseguidos. Mas o
fato é que, pelo menos nos primeiros anos após a proibição, o governo nada fez
para reprimir as atividades dos nazistas. “Até a entrada do Brasil na guerra,
em agosto de 1942, mesmo ilegal o partido seguiu funcionando numa boa”, diz a
historiadora. Na embaixada alemã no Rio, uma bandeira nazista permaneceu
hasteada até outubro de 1941. Em abril de 1942, uma passeata reuniu cerca de 2
mil nazistas uniformizados à luz do dia, no centro de Florianópolis.
Agora é guerra
Em
janeiro de 1942, após o ataque dos japoneses a Pearl Harbor, o Brasil rompeu
relações diplomáticas com o Eixo. E em 31 de agosto, depois de seis navios
brasileiros serem afundados por submarinos alemães em quatro dias, Getúlio
declarou guerra. “Não há como negar que a Alemanha e a Itália praticaram atos
de guerra, criando uma situação de beligerância que seremos forçados a
reconhecer, em defesa de nossa soberania, da nossa segurança e da América, e a
repelir, na medida de nossas forças”, discursou o presidente. A declaração pôs
fim à pendular atuação de Vargas, que ora adulava os alemães – num discurso em
1940, no dia em que os nazistas tomaram Paris, ele elogiou as “nações fortes que
se impõem pela organização baseada no sentimento da pátria e sustentando-se na
convicção da própria superioridade” –, ora sorria para os aliados, de olho nos
investimentos que os americanos prometiam fazer por aqui.
De um dia para o outro,
alemães, italianos e japonesesviraram
inimigos da pátria. Os alemães residentes ou de passagem pelo Brasil foram
convidados a deixar o país e intimados a comparecer à delegacia mais próxima.
Alguns foram presos acusados de “falar alemão em público”. Como mostra o filme
Cinema, Aspirinas e Urubus, do cineasta Marcelo Gomes, que estreou no fim de
2005, empresas alemãs como a Bayer, que difundia pelo país as pílulas para
dores de cabeça, sofreram intervenção federal. Mas, se por um lado a
perseguição policial causou vítimas inocentes, também revelou uma bem
organizada rede de espionagem.
Uma das primeiras pessoas
detidas pelo Deops,
em setembro de 1942, se tornaria um dos mais famosos espiões nazistas no
Brasil. Era o alemão Otto Braun, tesoureiro e membro da direção nacional do
Partido Nazista Brasileiro. Nos sete meses em que ficou preso, Braun não pôde
falar com a família nem com amigos, permanecendo, como diz seu prontuário, “em
regime de rigorosa incomunicabilidade”. Em seus mais de 200 depoimentos aos
agentes do Deops, ele nomeou, um a um, todos os integrantes do partido,
inclusive os que ocupavam cargos de direção. “Morando no Brasil desde 1924,
Braun conhecia tudo e revelou detalhes de ações de espionagem e fraudes
cambiais”, conta Ana Maria. Funcionário do Banco Alemão Transatlântico, Braun
coordenava uma série de transações proibidas de câmbio. O dinheiro de alemães
residentes no Brasil era enviado para cofres na Suíça e de lá chegava à
Alemanha e às mãos do III Reich. Pelo menos 12 funcionários do banco eram membros
do partido ou ligados a ele. Acabaram presos.
Otto Braun declarou também
que o partido era “uma instituiçãoconhecida
pelas autoridades brasileiras, que muitas vezes compareceram às reuniões e
festejos da mesma”. Era verdade. O governo brasileiro monitorava os nazistas
havia dez anos. Os policiais estavam infiltrados em igrejas luteranas e clubes
como o Germânia, no Rio de Janeiro, e enviavam relatórios às vezes semanais,
descrevendo de animadas perseguições de suspeitos, no melhor estilo James Bond,
a tediosas tocaias, que só servem para quem quer conhecer o cotidiano de
pessoas supostamente nazistas e falam de fins de semana na praia, partidas de
biriba e aniversários de família.
“Esses relatos mostram que
grande parte das fontesde
informação do serviço de espionagem nazista era composta por amadores. Gente
comum que falava o que sabia ou ouvia dizer aos informantes do III Reich”, diz
a historiadora Priscila Perazzo. Entre esses faladores havia operários,
comerciantes e industriais, gente que, às vezes, ocupava cargos importantes e
até estratégicos em empresas brasileiras. Frederico Weissflog, dono da
Companhia Melhoramentos de São Paulo, ouviu de alguns amigos americanos que os
Estados Unidos preparavam um golpe para derrubar Getúlio. Tudo bobagem, é claro,
mas, em vez de informar o governo brasileiro, Weissflog contou o boato para
Niels Christian Christensen.
Christensen (que, aliás, não
acreditou na lorota)
era um espião de carteirinha, um dos mais profícuos informantes nazistas que
atuaram no país. As transcrições de suas mensagens interceptadas pelo Deops
somam quase oito pastas. “Ele era a face profissional da rede de informações
nazista no Brasil”, diz Priscila. Treinado pelo serviço de informação alemão,
ele liderou uma das seis células que operavam no país. Sua base era a cidade de
Santos, no litoral paulista, onde se apresentava como dinamarquês e
comerciante. Christensen na verdade era alemão e chamava-se Josef Starziczny.
Havia chegado ao Brasil em abril de 1941 e montado uma estação de rádio que funcionou
secretamente por mais de um ano, passando informações sobre o porto e sobre a
presença de navios aliados na costa brasileira.
Em 1940, em São Paulo, o
alemão Hans Christian von Kotzeabriu
um escritório comercial no centro da cidade. Os vizinhos pensavam que ele
administrava investimentos para empresários graúdos. Balela. Kotze era um
espião nazista e o que ele conseguia saber com os endinheirados era passado
para a Alemanha por uma rádio clandestina no bairro do Jabaquara.
Você deve estar se
perguntando: o que tanto queriam os espiões nazistas no Brasil?A resposta pode ser simples: como
todos os alemães – ou pelo menos a esmagadora maioria deles –, eles queriam que
a Alemanha ganhasse a guerra. Por isso, passavam informações que pudessem
ajudar a máquina de guerra alemã contra os aliados.
Mas há quem ache que Hitler
tivesse outros planos para o Brasil. Primeiro,
como fonte de recursos para uma guerra prolongada. Depois para, vencido o inimigo,
contar com um aliado de porte para se recuperar dos esforços de guerra. “Entre
as autoridades havia o medo, mesmo que remoto, de Hitler invadir o Brasil
depois de conquistar a Europa”, diz a historiadora Ana Maria Dietrich. E o
próprio Führer dava corda para essa desconfiança. “Precisamos de dois
movimentos no exterior: um leal e um revolucionário. Não vamos desembarcar
tropas e conquistar o Brasil com armas na mão. As armas que temos não se veem”,
afirmou Hitler em 1933.
Se isso fosse verdade, gente
como Gustav Engels,
um pacato pai de família que chegara ao Rio de Janeiro nos anos 20 para
trabalhar na Siemens, estaria pronto a ajudar. Em 1939, Engels passou um tempo
na Alemanha. Voltou com um codinome – Alfredo – e a missão de proliferar
espiões, estações clandestinas e códigos telegráficos pela América do Sul.
Durante três anos, ele coordenou uma extensa rede que contava com informantes
em companhias aéreas, funcionários do governo, jornalistas, executivos de
empresas de energia, num total de mais de 50 pessoas, entre elas o engenheiro
Ludwig Weber e o mecânico Alberto Hofstetter, ambos funcionários da Vasp. No
fim de 1942, a polícia interceptou uma série de mensagens enviadas por Engels
via rádio que surpreenderam as autoridades pela precisão e diversidade. Há
dados sobre o trânsito de aviões norte-americanos nas bases aéreas do Nordeste,
informações sobre a capacidade dos depósitos de gasolina nos portos e o
comprimento das pistas dos aeroportos brasileiros. Além de transmitir o que
sabia para a Alemanha, Engels compartilhava tudo com colegas no Chile,
Argentina e Equador. Para saber se uma mensagem havia chegado à Alemanha, ele
pedia sinais pelo noticiário da rádio alemã: “Como confirmação mandar tocar
algumas passagens da marcha ‘Fridericus’ ao terminar o programa em ondas curtas
às 22 horas hora do Rio”, telegrafou “Alfredo” em janeiro de 1942. Preso em
novembro, foi condenado a 14 anos e cumpriu cinco.
Outro suposto chefão da
espionagem nazista foi revelado em 1983(bem
antes, portanto, de os arquivos do Deops serem abertos), quando o historiador
americano Stanley Hilton lançou A Guerra Secreta de Hitler no Brasil. Nele,
Hilton apontava o alemão Hans Curt Werner Meyer-Clason como líder da rede que
funcionava no Rio Grande do Sul. Foi um espanto. Não tanto para os
historiadores, mas para os literatos brasileiros. É que Meyer-Clason é o maior
tradutor de literatura brasileira para a língua alemã. Ele, que passou cinco
anos preso em Ilha Grande, nega até hoje a acusação.
Caça aos nazistas
Quando
foi declarada guerra entre Brasil e Alemanha, houve em São Paulo e no Rio uma
debandada de empresários alemães rumo ao país natal. Já os imigrantes alemães
do Sul não tiveram a mesma chance. Em 1942, espionagem era – e ainda é – crime
no Brasil. Segundo o Código Penal Militar (pela convenção de Genebra, de 1929,
espiões são criminosos de guerra), o acusado pode ser condenado de quatro a 20
anos de prisão. Mas a aplicação da lei no Brasil, já naquele tempo, teve
excessos de um lado e “jeitinhos” do outro.
Numa tarde, no verão de 1942,
o estudante Max Will,
então com 12 anos, voltava da escola em Agrolândia, em Santa Catarina. “Em
casa, encontrei todo mundo chorando. Os policiais tinham invadido nossa casa e
levado meu pai”, lembra. O pai de Max, o agricultor Leopoldo Will, viera da
Alemanha quando criança e jamais aprendera o português. Na praça da cidade, os
policiais obrigaram-no a beber óleo de rícino com diesel e defecar em público.
“Enfiaram-lhe o fuzil na boca e passaram o diesel por ali”, conta Max, hoje com
75 anos.
Com medo de atos assim, um
grupo de 12 marinheiros alemãesfez
uma tentativa desesperada durante o Carnaval de 1942. Em São Vicente, litoral
de São Paulo, eles tentaram fugir, atravessando o Atlântico num barco de 10
metros de comprimento. “No segundo dia no mar, depois de uma tempestade, vimos
que era preciso voltar à terra para consertar o barco. Acabamos naufragando
pouco antes de atingir o litoral de Praia Grande”, conta Heinz Lange, hoje com
85 anos, o único tripulante da aventura ainda vivo. “A polícia nos pegou e
fomos direto para a cadeia.”
Heinz e os amigos faziam
parte da tripulação do Windhuk, um
navio de turismo que zarpou da Alemanha em julho de 1939 rumo à África com
cerca de 650 pessoas a bordo. Quando a guerra estourou, a maioria resolveu
ficar na África, mas cerca de 250 resolveram permanecer a bordo e tentar voltar
à Alemanha. No caminho, para fugir de navios de guerra britânicos, o Windhuk
teve que mudar de rumo e virar à esquerda. “Eles chegaram ao Porto de Santos em
dezembro de 1939 e ficaram morando no barco até 1942”, conta Peter Böhme, filho
de um tripulante do Windhuk, que prepara um livro baseado no diário que seu pai
escreveu na época. Os tripulantes do Windhuk chegaram a trabalhar em Santos
como carpinteiros, mecânicos e cozinheiros, mas depois da entrada do Brasil na
guerra acabaram em campos de prisioneiros acusados de “nazismo leve”. De 1942 a
1945, cerca de 3 mil alemães, japoneses e italianos foram presos pelo governo
em 13 campos de concentração em oito estados. Em Santa Catarina foram 200
presos num hospício desativado de Joinville. Em Curitiba e Porto Alegre foram
colocados em presídios comuns. Em Recife, o campo de Chã de Estevam abrigou os
funcionários da Companhia Paulista de Tecidos (que depois viraria Casas Pernambucanas),
cujos donos, os Lundgren, eram alemães. “Quase ninguém ali tinha nada a ver com
nazismo”, diz a historiadora Susan Lewis, da Universidade Federal de
Pernambuco.
Os maiores campos foram
montadosem
Pindamonhangaba e Guaratinguetá, em São Paulo, para abrigar a turma do Windhuk.
No primeiro, os prisioneiros criaram um grupo de teatro e a orquestra do navio
seguiu tocando todas as noites. Heinz Böhme escreveu em seu diário: “Domingo
fizemos jogo de futebol entre os com-camisa e sem-camisa. Consegui ler um
jornal contando que uma bomba caiu em Berlim”.
Em 1945, com a rendição
alemã, a coisa esfriou
e, quando a guerra acabou, muitos processos foram abandonados e a maioria dos
detidos foi simplesmente libertada. Do campo de Pindamonhangaba todos os presos
saíram andando, pela porta da frente. A maioria ficou pelos arredores, outros
partiram atrás de parentes, alguns não deixaram pistas. O cozinheiro do
Windhuk, Kurt Brenneck, foi trabalhar num hotel em Campos do Jordão. Três de
seus colegas se casaram com moças da região e seus filhos e netos ainda estão
por lá. Os espiões graúdos, presos em Ilha Grande, também foram libertados.
Niels Christensen, condenado a 30 anos, saiu em 1947. O carpinteiro Heinz Lange
só voltou a sua terra no fim da década de 50. Encontrou um país transformado,
bem diferente daquele que tinha deixado em 1939 a bordo do Windhuk. “Não gostei
nem um pouco. Eu já estava acostumado com o Brasil”, diz. Sem pensar duas
vezes, ele preferiu voltar e se aposentar como um tranquilo mestre-de-obras em
Praia Grande, no litoral de São Paulo.
Nazismo em verde e amarelo
Integralismo chegou a ter entre 600 mil e 1 milhãode membros no
Brasil
Entre
os brasileiros, as ideias de Hitler e Mussolini tinham um correspondente fiel:
o integralismo. Assim como nazistas alemães e fascistas italianos, os
integralistas pregavam disciplina militar, superioridade dos brancos,
nacionalismo radical, antissemitismo, governo autoritário e luta contra o
comunismo. Eram liderados por intelectuais como o
jornalista Plínio Salgado e os advogados Gustavo Barroso e Miguel Reale. O
partido contava com uma milícia cujos membros, para se cumprimentar, levantavam
o braço direito e diziam “anauê”, que, em tupi, significa “você é meu irmão”.
Os “irmãos”, é claro, não incluíam negros, judeus e estrangeiros. O racismo por
vezes acabava em violência, como em 1936, quando, durante um desfile,
milicianos espancaram negros no centro do Rio. A Ação
Integralista Brasileira, que chegou a dividir o mesmo escritório com sedes do
Partido Nazista em cidades como Rio do Sul, em Santa Catarina, elegeu oito
prefeitos nesse estado em 1936, quando chegou a ter entre 600 mil e 1 milhão de
membros. Tamanha popularidade daria a Salgado grandes chances na eleição
presidencial de 1938. No entanto, em setembro de 1937, Vargas deu um golpe de
Estado e se tornou ditador. A desculpa para o surto autoritário foi a
descoberta do Plano Cohen, que revelaria um projeto comunista contra o governo,
mas que na verdade era uma papelada falsa de autoria do capitão do Exército
Olympio de Mourão Filho, notório simpatizante das teses integralistas. Apesar de apoiar o golpe de Getúlio, foram alijados do poder
e o partido foi proibido. Em maio de 1938, integralistas atacaram o
Palácio Guanabara, sede do governo federal, foram reprimidos e alguns morreram
fuzilados. Plínio Salgado acabou exilado. Depois da derrota dos nazistas na
guerra, o integralismo perdeu o encanto. Mas seus líderes continuaram
integrados à política. O capitão Mourão Filho se tornou o general que, em 1964,
deflagrou o golpe contra o presidente João Goulart, apoiado por políticos como
Miguel Reale, secretário de Estado de São Paulo. Outro integralista, Raymundo
Padilha, virou deputado em 1952 e, em 1971, foi nomeado pela ditadura
governador do Rio. Plínio Salgado se elegeu deputado várias vezes. A última
pela Arena, em 1977.
"Nunca fui espião
nazista" Aos 95 anos, tradutor alemão preso por espionagem conta sua vida no
Brasil
Seis
décadas depois de ter sido preso no Brasil por crime de espionagem, o tradutor Hans Curt Werner Meyer-Clason, por meio de quem os alemães conheceram
João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, vive em
Munique, na Alemanha, de onde falou por telefone com História. Aos 95 anos,
mantém um português impecável e é capaz de lembrar detalhes dos cinco anos que
passou em Ilha Grande, época que, insiste em dizer, considera a melhor de sua
vida. Membro correspondente da Academia Brasileira de Letras, ele sempre evitou
falar sobre o tempo em que, segundo a polícia, foi espião em Porto Alegre, mas
diz que as acusações não passam de um engano: “Não tenho nada a encobrir ou
silenciar”. Para Priscila Perazzo, uma das maiores especialistas no estudo dos
documentos do Deops sobre o período, no entanto, ele pode não ter sido um
espião clássico, o tipo que se conhece no cinema, mas certamente cometeu atos
de espionagem. “Vários alemães foram presos por engano, mas com condenados a 20
anos, como Meyer-Clason, há poucas dúvidas. Compreensivelmente, ele vai negar o
vínculo ao nazismo até a morte”, acredita a historiadora.
História – O senhor é considerado chefe de uma rede de espionagem
nazista no Brasil. É verdade?
Meyer-Clason – Não,
as acusações não são verdadeiras. Eu era comerciante, não era espião. Fui para
o Brasil justamente porque queria sair da Alemanha hitlerista. Meu contato em
Porto Alegre foi única e exclusivamente comercial. No porto de Bremen, consegui
um cargo no Brasil, como representante de uma empresa de Boston, Massachusetts,
que controlava estoques de algodão. A polícia achou que eu era espião porque
era um jovem alemão que dizia trabalhar para americanos, falava muitas línguas
e viajava pela costa falando com empresas alemãs na Bahia, no Recife.
Mas, na época, o senhor confessou ter sido espião, não?
A
polícia foi muito violenta com a gente. Os policiais nos mandavam abrir os
braços e brincar de “Cristo Redentor”. Ficávamos encostados em uma parede com
os braços levantados e eles batiam no peito e do lado sem que pudéssemos
abaixar o braço. Depois, fizeram uma confissão de espionagem falsa e fui
condenado a 20 anos de prisão. Embora maltratado pela polícia, o melhor da
minha vida devo ao Brasil. Eu temia ser maltratado enquanto fiquei preso, mas
na prisão, em Ilha Grande, acabei mudando radicalmente. Devo ao Brasil minha
mudança filosófica, existencial. Depois de Ilha Grande, passei da vida
europeia, do “penso, logo existo”, para o jeito brasileiro, “sinto, logo
existo”.
O senhor conheceu a literatura brasileira na prisão?
Em
Ilha Grande tive acesso à literatura mundial. Foi ali que conheci meu grande
professor de vida, o poeta e barão alemão Gerd von Rhein. Ele tinha sido preso
pela Gestapo e depois deixou a Alemanha com seu parceiro – era homossexual. Por
intermédio dele, conheci toda a literatura de Homero a Sartre. Eu fui educado
como filho de oficial alemão, de uma família burguesa, sem educação literária.
Não fosse a prisão, eu seria um empresário, não um escritor e tradutor.
Como o senhor conseguiu sair de lá?
Depois
da guerra, consegui um advogado que me defendeu gratuitamente e a condenação
foi arquivada. Fui inocentado, saí livre para a rua. Depois, passei mais uns
anos trabalhando numa firma de importação de gêneros alimentícios no Rio, para
ganhar dinheiro. Em 1954, voltei para a Alemanha para começar uma vida nova, de
escritor, crítico literário e tradutor. De tanta saudade do Brasil, comecei a
ir às festas do Consulado Geral do Brasil. Um dia, perguntei ao cônsul-geral
qual era a novidade literária do Brasil. Ele me falou de um colega, também
diplomata, um tal de Guimarães Rosa.
O senhor e Guimarães Rosa ficaram amigos?
Sim, ficamos amigos até a sua
morte. Depois que o cônsul me falou de Grande Sertão: Veredas, eu escrevi para
o Guimarães. Ele me respondeu e mandou o romance. Assim começou uma amizade de
muitos anos. Depois, tive a sorte de lançar no mercado alemão os grandes gênios
latino-americanos. Até hoje, recebo livros e cartas de poetas e romancistas
brasileiros.
Revista
de História da Biblioteca Nacional Junho 2008
Mistério em Pelotas: Nazistas, rádios piratas e túneis subterrâneos
Túneis subterrâneos que ligariam a cervejaria de
duas famílias alemãs à Santa Casa de Pelotas e que supostamente teriam servido
a espiões nazistas para transmissões secretas por rádio para o Terceiro Reich, com
a colaboração de um enfermeiro. O caso envolveria o próprio gerente da
cervejaria, presidente do partido nazista na cidade, que chegou a se esconder
nos porões da fábrica antes de ser preso e levado para Porto Alegre.
Essa
é uma das muitas histórias que o povo
conta
sobre os túneis de Pelotas. Sua construção seria atribuída aos jesuítas, aos
escravos ou aos diferentes exércitos que ocuparam a região. Mas o que deu
origem a essas lendas? Existem mesmo antigos túneis sob a cidade?



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