domingo

A Guerra em Pernambuco

Pernambuco: a guerra no mar, no ar e nas
    ruas
2. Caça aos nazistas no Recife
3. A indústria da Quinta-Coluna
4. Estátua de herói em Pernambuco
5. Pesquisa reconstitui a vida de alemães
em campo de concentração de Pernambuco
6. Pesquisadora descenda Nazismo
7. Vila mantida pelos Lundgrens
abrigou alemães na 2ª Guerra
8. Nazistas ficaram presos no Quartel do Derby
9. Os planos de Hitlerem Pernambuco

A Guerra em Pernambuco




Pernambuco: a guerra

no mar, no ar e nas ruas
Os militantes do Partido Nazista em Pernambuco
foram confinados na fábrica dos Lundgren, em  Paulista]
Quando estoura a II Guerra, no dia 1 de setembro de 1939,  em Pernambuco   Mussolini tem mais adeptos em Pernambuco do que Hitler. Em parte, graças à propaganda que o consulado italiano faz desde a década de 1920, quando o Duce assumiu o poder. Além disso, o fascismo conta com muitos simpatizantes entre os integralistas, que, um ano antes, tentaram assassinar o presidente Getúlio Vargas e a família dele, no Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. Os italianos são mais presentes em várias atividades, além do comércio: mecânica leve, funilaria, músicae na fabricação de alimento e de refrigerante (a Fratelli Vita, na Boa Vista, depredada em agosto de 1942, quando do afundamento dos navios mercantes).
A colônia alemã é menor, porém mais influente,  especialmente nos meios industriais. Além disso, a propaganda alemã também é eficiente, especialmente depois da ascensão do nazismo – que adota um tom anticomunista:
“A Segunda Guerra Mundial empolgou a população de Pernambuco que logo se dividiu entre os partidários do Eixo e os dos aliados. No Recife, havia uma velha tradição de admiração pela Alemanha que vinha da época em que Tobias Barreto introduziu o germanismo no Estado, o que era reforçado pela admiração que muitas pessoas tinham pela decantada inteligência, competência e dedicação ao trabalho do povo alemão, herdada da Primeira Guerra, quando eles quase conquistaram Paris. A Colônia Alemã era expressiva, sobretudo nos meios industriais. Essa admiração havia aumentado na década de trinta, devido a intenso divulgação devido à divulgação que o consulado entre estudantes e profissionais e na propaganda contra o comunismo russo, procurando amedrontar a população com a hipótese de os comunistas um dia chegarem ao poder no Brasil. (Manuel Correia de Andrade - Pernambuco Imortal - Agamenon e o Estado Novo)
O Partido Nazista existiu em Pernambuco, entre meados da década de 1930 até Getúlio Vargas proibir que estrangeiros participassem da política, em 1938.  Até então, os nazistas nunca precisaram agir na clandestinidade: seus integrantes – na maioria absoluta funcionários da família Lundgren, em Paulista – iam às reuniões uniformizados (inclusive com uma braçadeira com a cruz suástica) e até assinavam atas. E não era só em Pernambuco que os nazistas eram ativos. Havia núcleos importantes nos três estados do Sul (Paraná, Rio e Santa Catarina), São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Essas representações do Partido Nazista foram instaladas por Hans Hanning von Consul, oficialmente adido-cultural na embaixada da Alemanha no Brasil.

Caça aos nazistas no Recife
 
O DOPS apreendeu muito material de propaganda nazista
 Foram ao todo 83 células com 2.822 militantes, o maior número de filiados ao Partido Nazista fora da Alemanha (os Landesgruppe). Esses militantes, mesmo depois da proibição de fazer política, continuaram na ativa – tanto na espionagem como na propaganda. Recife interessava à espionagem por causa do movimento do Porto, que passou a ser uma base da Marinha dos EUA e da proximidade com a Base Aérea de Natal (RN), montada pela Força Aérea americana. No Recife, o Estado Maior da 4ª Esquadra da Marinha foi instalado em três andares do Edifício Sulacape, na Avenida Guararapes, no Centro. Os americanos montaram também a Rádio Pina, incorporada à Marinha brasileira em 1956 e recentemente desativada.
Uma parte considerável da história da atuação dos nazistas no Nordeste,está nos arquivos do extinto Departamento de Polícia Política e Social de Pernambuco. O DOPS, depois que o Brasil entrou na guerra – ao lado, entre outros,  da URSS – teve que parar de caçar comunista para caçar nazista e fascista. O Arquivo Público do Estado está fazendo a pesquisa DOPS: Imagens Censuradas (dividida em Nazismo, Integralismo e Comunismo), coordenada pela historiadora Marcília Gama, com apoio da Facepe (Fundação de Amparo à Ciência e à Tecnologia de Pernambuco). Uma das revelações dos 39 arquivos (com 45 mil prontuários e  327 imagens), é que houve, em Pernambuco, durante a II Guerra, uma espécie de campo de confinamento em Igarassu, mas muito longe de ser um campo de extermínio como os que os alemães montaram em vários países da Europa, onde morreram milhões de pessoas, principalmente  judeus. Por exemplo: os funcionários da Fábrica Lundgren iam trabalhar todo dia em Paulista.
Até o fim da Guerra, em todo o país, são presos 47 espiões, todos condenados pelo Tribunal de Segurança do Estado Novo. Em Recife, o DOPS teve muito trabalho com os espiões alemães. Dois processos, ambos assinados pelo delegado Pedro Corrêa - um de espionagem e outro de propaganda -  ilustram essa atuação.
O inquérito sobre da propaganda,  indicia Evaldo Stalleiken, que, se vivesse hoje, seria considerado um designer de primeira: ele fez um desenho da  carteira de um cigarro da época, (“Nacionaes") de modo que a junção de quatro dessas carteiras, formava uma cruz suástica. E mais: quatro carteiras colocadas em outra posição, formavam uma Cruz de Ferro, uma das maiores condecorações militares do Exército Alemão. Chamado pelo delegado para explicar essa propaganda, Evaldo Stalleiken disse que fizeram o desenho de múltipla utilidade sem querer...
O inquérito sobre a espionagem foi sobre a tentativa de montar uma rádio de ondas curtas, para aproveitar a posição geográfica do Nordeste, chamado de Trampolim do Atlântico Sul. Dois alemães, Hans Heinrich Sirvert e Herbert Friedich Julius von Heyer, ofereceram dinheiro para que o técnico Walter Grapetim instalasse a rádio, que já estava montada. Grapetim procurou o alemão Oscar Shiler, responsável pela parte técnica da Rádio Clube de Pernambuco, que o aconselhou a “não se meter em tal assunto” – conselho seguido por Grapetim.

A indústria da Quinta-Coluna



A II Guerra estoura em Pernambuco: o afundamento dos navios no litoral da Bahia e de Sergipe provoca, também aqui, um monumental quebra-quebra. O DEIP (Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda, o braço do DIP em Pernambuco) libera noticiário sobre os corpos que chegavam ao litoral, mas veta qualquer menção ao quebra-quebra, testemunhado pelo escritor e ex-deputado Paulo Cavalcanti, militante do PCB (Partido Comunista do Brasil):
“Durante todo um dia, grupos numerosos de populares depredaram casas comerciais de alemães, italianos e japoneses, nada poupando em seus transbordamentos. Na Rua da Imperatriz, na Rua Nova, na Rua do Imperador, nos bairros portuários da capital, onde se localizavam,as Avenidas Rio Branco e Marquês de Olinda, sobretudo, subirama dezenas de casas comerciais invadidas pela massa enfurecida, a polícia a princípio querendo reagir, mas, no fim, quedando-se impassível diante da avalanche humana em desatino. Perfumarias, sorveterias, casas de representação comercial, lojas de instrumentos agrícolas de máquinas e tratores, de material elétrico, de tintas, escritórios de empresas de propriedades de  súditos do “Eixo” –tudo, tudo foi esmigalhado, o povo correndo por todos os cantos, protestando contra o nazifascismo, erguendo brados e urros de vingança. Em cada esquina de rua, levantava-se um orador anônimo, chamando de revanche”.           
Parte da população do Recife volta às ruas em 1944, mas desta vez em paz: no dia 25 de agosto, para comemorar a libertação de Paris. Há uma enorme passeata no centro do Recife, permitida pelo interventor Agamenon Magalhães. A passeata reúne um verdadeiro arco da sociedade: o prefeito Reginaldo Martins, chefe de Polícia, tenente Olímpio de Souza Ferraz, o pároco monsenhor Urbano de Carvalho (tido como pró-Alemanha) e esquerdistas, como Paulo Cavalcanti:
“(No Recife) tive o ensejo de tomar parte das comemorações da libertação de Paris – na grande passeata que se organizou então. Era de ver-se um espetáculo quase cômico: toda a polícia de Agamenon Magalhães à frente da passeata, delegados e comissários ombro a ombro com o povo “festejando” a retomada da capital francesa.
“Como já existira, até então, a indústria do anticomunismo, a polícia arrecadando dinheiro para “salvar a civilização cristã e ocidental”, surgia agora outra indústria, a do combate à “quinta-coluna”, comerciantes súditos do “Eixo” sendo chamadas repentinamente às delegacias para serem libertados, dias depois, em face de custosos habeas-corpus, de que se locupletaram policiais e advogados, mancomunadamente”
Estátua de herói em Pernambuco


Sargento Wolff :
O busto em Afogados (inaugurado pela filha dele, Hilda), em ação na Itália e a sepultura no cemitério de Pistóia
Uma das mais famosas crônicas que Joel Silveira mandou da Itália foi sobre o sargento paranaense, Max Wolff Filho, um herói da FEB que, por ironia do destino, era descendente de alemão. Pouco antes de o sargento sair para a missão da qual não voltaria, o correspondente de guerra dos Diários Associados o entrevista. Wolff, viúvo, falou sobre sua filha de 10 anos, Hilda (atualmente morando no Rio de Janeiro) a quem escreve uma mensagem no caderno de anotações do jornalista, com “sua letra delicada e certa”:
“Aos parentes e amigos. Estou bem. `À minha querida filhinha – papai vai bem e voltará breve”.
 “Eu vi perfeitamente quando a rajada de metralhadora rasgou o peito do sargento Max Wolff Júnior. Instintivamente ele juntou as mãos sobre o ventre e caiu de bruços. Não se mexeu mais. O tenente Otávio Costa, que estava a meu lado no Posto de Observação, apertou os dentes com força, mas não disse uma palavra. Quando lhe perguntei se o homem que havia tombado era o sargento Wolff, ele balançou afirmativamente com a cabeça.” (Joel Silveira)
A crônica Eu vi o Sargento Wolff Morrer repercute no Brasil inteiro. Em Pernambuco, quatro Sargentos do 7º RO, em Olinda, o homenageiam, dando deram o nome do militar, morto no dia 12 de abril de 1945, a uma Associação de Subtenentes e Sargentos criada em 1949. O clube ainda é basicamente de militares, mas hoje admite sócios civis convidados. Tem 2.550 associados pagantes e três sedes (Afogados, Pau Amartelo e Aldeia). Em frente à de Afogados, há uma estátua de Max Wolff, inaugurada em 1993 pela filha dele, Hilda. O Clube Sargento Wolff fica na Rua Sargento Wolff, em Afogados, quecruza com a Rua Pistóia, nome da cidade onde estão enterradospracinhas na Itália.
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Revista Veja
18. Março.1998
O inimigo light
Pesquisa reconstitui a vida de alemães
em campo de concentração de Pernambuco
Agamenon com representantes da comunidade judaica e os nazistas do Recife
Em um trabalho para a Universidade Federal de Pernambuco, a jornalista e pesquisadora Susan Lewis, 27 anos, uma brasileira filha de judeu americano, descobriu um curioso pedaço da História do Brasil entre os documentos do Departamento da Ordem Política e Social, Dops. Cartas, telegramas e ofícios revelam que existiu em Pernambuco durante a II Guerra Mundial um campo de concentração para nazistas — o único de que se tem notícia além de dois outros no Vale do Paraíba, em São Paulo. Localizado no município de Araçoiaba, a 60 quilômetros do Recife, o Campo Chã de Estevam foi criado em 22 de novembro de 1942 e funcionou até 1945, nas terras da Fábrica de Tecidos Paulista, da família Lundgren, fundadora das Casas Pernambucanas. Ao todo, os Lundgren tinham cerca de 100 funcionários alemães e italianos, contratados para operar as máquinas importadas. Pelos documentos, sabe-se que foram confinados pelo menos trinta estrangeiros e seus familiares, incluindo suas mulheres e filhos brasileiros. O campo de concentração pernambucano, contudo, era muito diferente dos campos para judeus na Europa. Não há registro de que alguém tenha morrido ou sofrido maus-tratos por lá. Ao contrário, as condições de vida eram bastante razoáveis e há motivos para crer que o lugar era cercado de certa boa vontade.
Para começar, até a entrada do Brasil na guerra, o então interventor federal em Pernambuco, Agamenon Magalhães, era ferrenho defensor da amizade entre Brasil e Alemanha. Em artigos no jornal A Folha da Manhã, exaltava os vínculos entre as duas nações. Após as pressões dos Estados Unidos para que o Brasil declarasse guerra ao Eixo, Agamenon trocou de lado. Chegou a posar para fotografias recebendo um cheque de 50.000 réis da comunidade judaica como contribuição ao Aeroclube de Pernambuco. No ofício 374-C dos arquivos do Dops, datado de outubro de 1942, o Ministério da Guerra propõe a Agamenon que tome precauções contra os alemães da Lundgren. A criação do campo de concentração aconteceu um mês depois da chegada do ofício.       Conforto na cadeia
Para os alemães, foi um alívio. "Acho que o campo na verdade foi criado para evitar que os funcionários dos Lundgren, pessoas bastante influentes na sociedade da época, sofressem de verdade na cadeia", diz Franz Joseff Hermann, 79 anos, ex-funcionário da Companhia de Tecidos Paulista, um dos poucos que não foi enviado ao campo, por ter deixado a empresa onze meses antes da guerra. No campo Chã de Estevam, os confinados moravam com as famílias em pequenas casas de alvenaria, com três cômodos. Recebiam visitas e tinham direito a manter correspondência com parentes na Alemanha. Continuavam até ganhando metade do ordenado de 2 contos de réis e iam à feira sem vigilância ostensiva. Deviam pedir permissão apenas para consultas médicas no Recife. Em suas cartas e telegramas, eles registram o conforto do local e mencionam suas maiores angústias — a proibição do idioma alemão e o afastamento do trabalho.
Durante a II Guerra, os Lundgren estavam consolidando o que seriam as Casas Pernambucanas. Em 1904, os filhos mais jovens de Hermann Lundgren, Arthur e Frederico, compraram a Companhia de Tecidos Paulista, que no seu auge chegou a ter 15.000 funcionários. Os alemães eram na maioria ex-integrantes do Partido Nazista, criado no Estado em 1936 e desfeito dois anos depois, quando o Estado Novo extinguiu todos os partidos. Os novos documentos mostram que os Lundgren, de certa forma, protegeram alemães em Pernambuco da mesma forma que Oscar Schindler salvou judeus da Alemanha.
Pesquisadora desvenda Nazismo
Susan Lewis descobre existência de Campo de Concentração em Araçoiaba, na região metropolitana do Recife
                         Ricardo Novelino
      Da equipe do DIÁRIO DE PERNAMBUCO
                        17.Março. 1998
O dia 22 de novembro de 1942 pode ser considerado um dos principais marcos da Segunda Guerra Mundial em Pernambuco. Precisamente nessa data, ignorada até agora pela história recente do país, a Secretaria de Segurança Pública do estado acatou a decisão do Ministério da Guerra e autorizou criação de um dos únicos locais de confinamento de supostos espiões nazistas no Brasil: o Campo de Concentração Chã de Estevam. Localizado no atual município de Araçoiaba, distante 60 quilômetros do Recife, o campo fazia parte das terras da família Lundgren, proprietária da Fábrica de Tecidos Paulista, sediada na cidade de mesmo nome. Por coincidência, em Chã de Estevam ficaram confinados apenas os alemães contratados pelos Lundgren para operar as máquinas de tecelagem na empresa. Até o dia 30 de agosto de 1945, quando foi extinto, Chã de Estevam, estiveram no campo de Araçoiaba pelo menos 50 alemães. A existência de Chã de Estevam foi revelada pela tese de Mestrado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) O Antissemitismo em Pernambuco no Estado Novo, defendida em dezembro do ano passado, pela jornalista e pesquisadora pernambucana, Susan Lewis, 27 anos.
Até a apresentação da tese de Susan Lewis,a única referência sobre locais de confinamento para alemães na Segunda Guerra era um campo, localizado no Vale do Paraíba, em São Paulo. Esse campo ficou conhecido como Campo do Vento. Descobrir essa importante etapa da história brasileira, perdida nos arquivos do Departamento de Ordem Político Social (Dops), atualmente, guardados no Arquivo Público de Pernambuco, foi um choque para a pesquisadora. Na verdade, a tese de Susan enfocaria a perseguição dos governos federal e estadual aos judeus de Pernambuco, durante os mandatos de Getúlio Vargas e Agamenon Magalhães, respectivamente. "Estava abrindo alguns prontuários de judeus quando me deparei com uma pasta fechada com uma etiqueta. Estava escrito: campo de concentração Chã de Estevam. Mudei o direcionamento do trabalho e investi seis meses na pesquisa", conta.
Durante a pesquisa, Lewis descobriu uma explícita preocupaçãodo Governo estadual com a situação da Fábrica de Tecidos Paulista, da família Lundgren. além dos alemães, trabalhavam na empresa alemães e ingleses, totalizando mais de cem estrangeiros. Em Paulista também existia uma subsede do Partido Nazista, criado em 1936. Para piorar a situação, durante uma inspeção cinco anos antes do início da guerra, foram descobertas na empresas dos Lundgren mais de mil balas de rifle, pistolas e espingardas. "Antes mesmo de criar o campo, o Governo do Estado já estava cumprindo as determinações do Governo federal, fiscalizando os alemães em Pernambuco. Quem trabalhava na fábrica deveria apresentar-se periodicamente à Secretaria de Segurança e sequer podiam residir em outros municípios,", comenta Susan Lewis.

                    .  HISTÓRIA - I

         Jornal do Commercio – 17.março.1998
 Vila mantida pelos Lundgrens
abrigou alemães na 2ª Guerra
          por FERNANDO MENEZES
             Repórter especial                                                          
O campo de concentração em que viveram alemães e italianos, todos funcionários da Fábrica de Tecidos Paulista, propriedade da família Lundgren, de origem germânica, na verdade foi uma vila instalada nas terras da fábrica, no hoje município de Araçoiaba, destinada a proteger aqueles funcionários. Como eram em sua maioria alemães e vivia-se o auge da 2ª Guerra Mundial, o povo passou a chamar de campo de concentração. A revelação é da revista Veja desta semana, baseada na pesquisa da jornalista Susan Lewis, em trabalho para o Mestrado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
A vila foi instalada em novembro de 1942 e funcionou até o fim da guerra, em maio de 1945, sendo composta por pequenas casas de alvenaria. Os segregados podiam circular livremente, recebiam metade dos seus salários e até iam à feira do município. Só para ir ao Recife, distante 60 quilômetros, é que precisavam de licença. Além disso, podiam escrever para seus familiares na Alemanha e receber correspondência. Tais condições diferem fundamentalmente de um campo de concentração no verdadeiro significado do termo.
QUEBRA-QUEBRA - O que a revista omitiu é precisamente a razão mais importante para o confinamento dos funcionários alemães e italianos da fábrica paulista. É verdade que o governo Vargas, ainda simpático aos nazistas, pelo sim e pelo não, pediu vigilância com relação ao pessoal da fábrica Lundgren. Mas, o que foi decisivo veio do povo. Após o torpedeamento de vários navios brasileiros, o povo revoltado destruiu inúmeras lojas, escritórios e outros estabelecimentos de alemães, italianos e japoneses no Recife. Foi o chamado quebra-quebra. Lojas tradicionais e mesmo da preferência dos moradores do Recife, como a Ótica Talmon, cujo proprietário era alemão, e a famosa sorveteria Gemba, de um japonês, foram completamente destruídas.
A revolta cresceu com a repetição dos ataques dos submarinos alemães, embora o Brasil ainda mantivesse relações diplomáticas com o governo de Adolf Hitler. Então, para proteger seus funcionários e atender ao governo federal, os Lundgren instalaram o "campo de concentração", na verdade um confinamento, muitíssimo mais liberal do que os campos de confinamento de japoneses na Califórnia.
A pesquisa de Susan Lewis resulta da consulta às fichas do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Mas, ali não constam assuntos secretos do Exército. Do Recife saíram para o Rio militares alemães, feito prisioneiros próximo às nossas costas. Um oficial da PMPE foi o responsável pela missão, então tenente Otacílio Ferraz.
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                       HISTÓRIA - II
Nazistas ficaram presos
no Quartel do Derby
Em novembro de 1942, a guerra naval tinha chegado com toda força ao Atlântico Sul. Os submarinos alemães infestavam os limites de nossas águas territoriais. Os alemães queriam evitar a chegada de matéria-prima da América do Sul para o esforço de guerra aliado, sobretudo em demanda da África. Os combates entre os submarinos e os navios americanos de escolta eram frequentes, o que breve envolveria também os aviões-patrulha da FAB. Após os combates, os náufragos eram recolhidos, mas se constituíam em elementos de insegurança a bordo dos navios de guerra americanos. O país mais perto e já prestes a romper com a Alemanha era o Brasil. O Recife foi então o porto escolhido para receber os prisioneiros.
NO DERBY - E foi por isso que, na manhã de 24 de novembro daquele ano, a 7ª Região Militar fez entrega ao comando da Polícia Militar, no quartel do Derby, de um grupo de 62 prisioneiros de guerra alemães. Eram 14 oficiais, 13 suboficiais e 35 praças. As instruções eram severas. Eles não tinham permissão de sair do alojamento, que era coletivo, não ouviam rádio, não recebiam correspondência e tomavam banho de sol três vezes por semana, em grupo. Um médico servia de intérprete e, ao mesmo tempo, os assistia nos problemas de saúde. Ninguém tinha permissão para se aproximar dos prisioneiros.
A maioria deles pertencia à Marinha Mercante, o que deixa a entender que foram torpedeados mercantes alemães, provavelmente os que navegavam para a Argentina ou mesmo para entregar mercadorias no Brasil, o que aconteceu até o começo de 1943. Mas, havia oficiais e marinheiros da marinha de guerra, provavelmente sobreviventes de afundamento de algum submarino. Eles eram o médico naval Leo Hofmann, o aspirante Victor Erich Betz, o suboficial Auguste Kruse e os marinheiros Herbert Eisemhammer, Hinz Hochwald, Friedrich Pieper, Wolfgang Trimpler, Josef Fuchs, Peter Gottsche, Friedrich Griger, Walter Schlumpberger, Heirich Neestendiedroch, Albert Salewski, Johannes Marzinuiak, Siegrede Brotzann, Josef Kieffer, Edmund Reisewitz, Werner Hammer e Franz Pohl.
Como única regalia, um mês depois de presos no quartel da PMPE, os prisioneiros passaram a assistir, de vez em quando, a uma sessão de cinema, no teatro do Derby, separados dos poucos oficiais da PMPE que recebiam permissão para assistir ao mesmo filme.
Uma manhã, o então tenente Otacílio Ferraz foi convocado ao gabinete do comandante-geral, coronel José Arnaldo de Vasconcelos, que sem maiores preparações disse secamente: "Otacílio, você foi escolhido para levar os prisioneiros para o Rio de Janeiro. Tem uma semana para escolher 30 homens de sua confiança. A missão é secreta e perigosa". O tenente fez um gesto de concordância, bateu continência e saiu.
Uma semana depois, com os homens escolhidos e advertidos dos perigos da missão, embarcaram no navio Poconé, escoltados por quatro navios de guerra. Viajaram em rigoroso blecaute e na altura de Abrolhos, o radar captou a presença de um submarino. Os oficiais da marinha estavam certos de que a espionagem já avisara que no Poconé viajavam 62 prisioneiros alemães, uma garantia de que não seriam atacados. De qualquer forma, lembra o hoje coronel da reserva Otacílio Ferraz, "foram minutos de alta tensão que pareceram horas". Os prisioneiros foram entregues ainda na Baía da Guanabara. O coronel Otacílio e seu pelotão desembarcaram e se apresentaram ao Ministério da Guerra. Foram elogiados e receberam uma missão ainda mais dura. Deveriam regressar levando prisioneiros brasileiros, suspeitos de espionagem, de pertencerem ao que na época se chamava de "quinta coluna".
PELO SERTÃO - A viagem de volta trazendo os suspeitos que deveriam ser transferidos para a Ilha de Fernando de Noronha foi extremamente penosa. Para evitar o perigo dos submarinos, que naquela altura simplesmente perseguiam os navios brasileiros, Otacílio e seu pelotão viajaram de trem até Pirapora, em Minas, e daí de navio "gaiola" pelo São Francisco até Petrolina, de onde embarcaram em caminhões do Exército para alcançar Arcoverde. Na porta do Sertão pernambucano o pelotão e os prisioneiros tomaram um trem para o Recife.
Próximo de Caruaru, um dos prisioneiros que Otacílio havia amarrado no navio, por indisciplina, um homem forte e violento, atacou o tenente na passagem entre um vagão e outro. Em meio a luta, surgiu um soldado, quando Otacílio já estava quase sendo atirado do trem, e simplesmente derrubou o agressor com uma pancada na cabeça. O hoje coronel lembra o episódio, meio risonho: "O homem era forte pra burro, equilibrei o corpo a corpo até quando foi possível, mas se não fosse meu soldado eu teria me estrepado! O que interessa mesmo é que cumprimos nossa missão, e regressamos todos vivos".
Durante muitos anos a missão de Otacílio e seus soldados, escolhidos a dedo, ficou em segredo. Hoje, o coronel reformado, que foi chefe da Casa Militar do seu amigo Nilo Coelho, lamenta não ter mais documentos, fotos da viagem e do seu pessoal, roteiro da missão e coisas assim. O sigilo absoluto não permitiu que ele guardasse esse material, quase tudo era memorizado, não se facilitava nada por causa da "quinta coluna", que, devido às facilidades de um governo que se mantinha em cima do muro, informava tudo à embaixada alemã.

Os planos de Hitler
em Pernambuco
Diário de Pernambuco – domingo 10 junho 2011
Texto: Cláudia Elói


Prédio com tijolos aparentes e mobília requintada – tudo ao gosto da arquitetura e decoração germânicas, combinadas com uma grande bandeira com a suástica estampada, estrategicamente colocada na área central de uma das paredes da sala. No local, uma concorrida reunião do Partido Nazista, iniciada com a tradicional saudação “Heil Hitler!”, numa referência ao “Terceiro Reich”, Adolf Hitler. Nos planos, a expansão da ideologia nazista no Brasil e na América Latina.
Apesar de a descrição do parágrafo acima sugerir um encontro na distante e fria Berlin, na Alemanha, o local referido fica bem mais próximo. Para ser mais exato, no palacete pertencente à família Lundgren, em Paulista (PE), Região Metropolitana do Recife. O casarão, assim como a fábrica, era usado como uma espécie de “quartel-general” pelo Partido Nazista em Pernambuco.
Os encontros aconteceram oficialmente de 1932 a 1938, quando a existência do movimento foi proibida em solo brasileiro. A partir daí, eles passaram a acontecer na clandestinidade e foram acompanhados de perto, na época, pelo serviço de espionagem brasileiro. O governo queria estar a par de qualquer movimentação e cada passo dos alemães era cuidadosamente registrado.
Oficialmente, os alemães vieram a Pernambuco para trabalhar na Fábrica de Tecidos Paulista, que deu origem à rede de lojas Casas Pernambucanas, de propriedade dos Lundgren. Mas algumas reuniões, de acordo com os arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), tinham como propósito difundir entre os “espiões nazistas” a propagação da ideologia de Hitler, os planos de expansão do regime e os preparativos para a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
O tema vai ilustrar a exposição “Nazismo em Pernambuco”, que está sendo organizada pelo Arquivo Público do estado, com base em dados do Dops, responsável pela espionagem durante o período. O evento acontecerá no próximo mês e pretende recontar a história da presença nazista no estado, mostrando as atividades partidárias e de propaganda, a espionagem, além da atuação da delegacia na vigilância ostensiva aos estrangeiros, seguida de perseguições e prisões.
Com a mudança de lado do ex-presidente Getúlio Vargas, que passou de simpatizante a inimigo do nazismo, em 1942, já com a guerra em curso, por pressão do governo norte-americano, diversos alemães foram levados para o campo de concentração batizado de Chã de Estevam, em Araçoiaba, antigo distrito de Igarassu. “O Dops de Pernambuco, além de caçar comunistas, teve forte atuação na perseguição dos supostos espiões nazistas. Não eram apenas os funcionários da fábrica. Muitos deles atuavam como empresários, em instituições financeiras, no comércio e na indústria”, explicou o chefe de apoio técnico do Arquivo Público do Estado, Roberto Moura.
A presença nazista em Pernambuco é comprovada pelos documentos do Dops que vão de 1930 a 1945, período conhecido como Era Vargas. Na exposição, que será realizada na sede do Arquivo Público, na Rua do Imperador, Centro do Recife, os visitantes poderão visualizar fotos de integrantes do partido nazista, mapas, plantas do Recife, de Fernando de Noronha e do Rio de Janeiro, além de carteira do partido nazista, passaporte, broches, pôster de Hitler e bracelete original com a suástica (símbolo adotado pelos nazistas). Somente de materiais iconográficos são mas de 300 peças.
O acervo possui mais de 200 prontuários individuais. Além dos funcionais dos supostos espiões nazistas, há também a relação dos estrangeiros que foram confinados em Chã de Estevam. Os documentos revelam que na década de 1940 o Partido Nazista, já na clandestinidade, contabilizava mais de 500 integrantes.
Também estão catalogadas fotografias que exibem aparelhos de radiodifusão, máquinas fotográficas apreendidas e embalagens de cigarros com o desenho da suástica. Há ainda fotos de garrafas com produtos químicos que teriam sido usados pelos nazistas para impedir que as correspondências com planos do regime fossem lidas por adversários do movimento.
Alemães postos em  confinamento

Imagem: FOTOS: JULIO JACOBINA/DP/D.A PRESS/REPRODUÇÃO
Com o advento da II Guerra Mundial e a entrada do Brasil na luta, os integrantes do Partido Nazista passaram a ser vistos como espiões e considerados inimigos do governo brasileiro. Muitos deles, principalmente os alemães, foram levados para o campo de confinamento Chã de Estevam, em Araçoiaba, tratado pelo Dops e pelas autoridades como campo de concentração. O local pertencia à Companhia de Tecidos Paulista, da família Lundgren, e foi criado em 22 de novembro de 1942, portanto depois que o governo brasileiro declarou guerra à Alemanha nazista.
A pesquisadora Priscila Ferreira Perazzo relata em seu livro O perigo alemão e a repressão policial do Estado Novo, que os parentes, esposas e filhos dos estrangeiros também podiam ser internados com os alemães, desde que tivessem autorização do Dops. O campo de concentração, apesar do que o nome sugere, não era um local de suplício. Havia uma certa liberdade. No entanto, existia uma lista extensa de restrições para os confinados. Eles não podiam se ausentar da cidade sem licença prévia da Secretaria de Segurança Pública, mesmo que fosse para consultas médicas ou ir ao dentista. Também não podiam frequentar as praias e eram proibidos da fazer reuniões ou manifestações coletivas.
De acordo com a historiadora e professora da Universidade de Pernambuco (UPE), Maria Lana Monteiro, o confinamento dos alemães em Chã de Estevam não tinha nenhuma relação com os campos de concentração construídos pelos alemães durante a guerra. “Em Chã de Estevam eles eram confinados, mas não sofriam torturas. Podiam sair campo para trabalhar na fábrica e voltar. Com a guerra, os alemães passaram a correr risco de vida no Brasil. Muitos estabelecimentos e residências deles foram apedrejados pela população”, disse.
Lana lembra que a partir de 1938, com a entrada em vigor da legislação brasileira que determinava o fechamento de partidos políticos e organismos estrangeiros, a legenda nazista no país ficou inviabilizada para atuar oficialmente e passou a agir na clandestinidade. “A legislação impedia que eles pudessem oficialmente se manifestar e se organizar”, destacou. (C.E.)
América do Sul era vista como ponto estratégico

Há uma tese defendida por alguns historiadores de que Hitler, além de conquistar a Europa e o Norte da África, pretendia expandir seu domínio também para a América do Sul. A historiadora Maria Lana Monteiro lembra que o regime tinha “tentáculos” em vários continentes e a ação internacional do partido nazista abrigava diversos núcleos. No Brasil, havia ramificações do Partido Nazista em 17 estados. Eles eram comandados por alemães e descendentes residentes no país.
Lana admite que há indícios de uma suposta pretensão de Hitler em dominar a América do Sul por ser uma área estratégica. Ela argumenta, no entanto, que não é possível afirmar categoricamente essa teoria estrategista, uma vez que a confirmação exigiria mais documentos comprobatórios. “Na América do Sul, o Brasil era uma dos focos por sua posição geográfica, pela questão comercial e pela navegação de cabotagem. Era um complexo estratégico e tinha uma população germânica representativa”, afirmou.
A pesquisadora lembra que não eram apenas os funcionários da fabrica de Tecidos Paulista que faziam parte da célula nazista no estado: “Havia gente de instituições financeiras, do comércio, da indústrias e empresários”. De acordo com Lana, as instalações da fábrica da família Lundgren não eram os únicos locais de reunião dos supostos espiões nazistas.
Os estrangeiros usavam os mais diversos espaços sociais, de convivência e de lazer para difundir o ideário de Hitler. “A organização maior era na fábrica, mas tinha outros eventos de lazer e político. Eles se encontravam no Clube Alemão, no antigo Clube Campestre, também chamado de Austríaco, que ficava no bairro da Torre. No período carnavalesco chegavam a fazer apologia ao nazismo. Há uma foto tirada no Clube Internacional que mostra uma das pilastras com a suástica (símbolo nazista)”, disse Lana Monteiro.
Grupo preenchia cargos importantes


Imagem: ALCIONE FERREIRA/DP/D.A PRESS
Os alemães com cargos de direção vindos para trabalhar na Fábrica dos Lundgren passaram a morar na Vila Sumaré, em Paulista. Trata-se de um residencial formado por 11 casas. O local está atualmente preservado por uma lei municipal que trata de imóveis especiais de preservação. As casas que serviram de moradia para os supostos nazistas alemães passaram a ser alugadas pela companhia de tecidos Paulista e estão ocupadas por ex-operários da fábrica e outros inquilinos.
Segundo o historiador e coordenador do Movimento Pró-Museu de Paulista, Ricardo Andrade, a prefeitura não vem fazendo o trabalho de conservação nas residências como exige a legislação municipal. “Não há calçamento na rua onde os imóveis estão localizados”, criticou. Ele revela, ainda, que os alemães vieram trabalhar na fábrica dos Lundgren porque não havia na época mão de obra especializada no estado para gerenciar e ensinar a usar um maquinário de última geração.
Já a Casa Grande da família Lundgren, que servia de ponto de apoio para os supostos espiões alemães, está tombada pelo patrimônio estadual. O pessoal do Pró-Museu defende que o espaço seja transformado num museu para abrigar a rica história da cidade. De acordo com Lana, o governo brasileiro mantinha, inicialmente, um comportamento de conivência com a ideologia de Hitler. “Eles permitiam que existisse o partido nazista com fins de divulgar a cultura alemã, mas com a entrada do Brasil na guerra em favor dos aliados e contra os países do eixo, os alemães passam a ser considerados espiões, sendo enquadrados e perseguidos pelo Dops”, contou.
Fonte: Diário/PE



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