Agamenon com representantes da comunidade judaica e os nazistas do Recife
Em um trabalho para a
Universidade Federal de Pernambuco, a jornalista e pesquisadora
Susan Lewis, 27 anos, uma brasileira filha de judeu americano,
descobriu um curioso pedaço da História do Brasil entre os documentos do
Departamento da Ordem Política e Social, Dops. Cartas, telegramas e ofícios
revelam que existiu em Pernambuco durante a II Guerra Mundial um campo de
concentração para nazistas — o único de que se tem notícia além de
dois outros no Vale do Paraíba, em São Paulo. Localizado no município de
Araçoiaba, a 60 quilômetros do Recife, o Campo Chã de Estevam foi
criado em 22 de novembro de 1942 e funcionou até 1945, nas terras da Fábrica de
Tecidos Paulista, da família Lundgren, fundadora das Casas Pernambucanas.
Ao todo, os Lundgren tinham cerca de 100 funcionários alemães e italianos,
contratados para operar as máquinas importadas. Pelos documentos, sabe-se que
foram confinados pelo menos trinta estrangeiros e seus familiares, incluindo
suas mulheres e filhos brasileiros. O campo de concentração
pernambucano, contudo, era muito diferente dos campos para judeus na Europa.
Não há registro de que alguém tenha morrido ou sofrido maus-tratos por lá. Ao
contrário, as condições de vida eram bastante razoáveis e há motivos para crer
que o lugar era cercado de certa boa vontade.
Para começar, até a entrada do Brasil na
guerra, o então interventor federal em Pernambuco,
Agamenon Magalhães, era ferrenho defensor da amizade entre Brasil e Alemanha. Em
artigos no jornal A Folha da Manhã, exaltava os vínculos entre as duas
nações. Após as pressões dos Estados Unidos para que
o Brasil declarasse guerra ao Eixo, Agamenon trocou de lado.
Chegou a posar para fotografias recebendo um cheque de 50.000 réis da
comunidade judaica como contribuição ao Aeroclube de Pernambuco. No
ofício 374-C dos arquivos do Dops, datado de outubro de 1942, o Ministério da
Guerra propõe a Agamenon que tome precauções contra os alemães da Lundgren. A
criação do campo de concentração aconteceu um mês depois da chegada do ofício. Conforto na cadeia
Para os alemães, foi um
alívio. "Acho que o campo na verdade foi criado para
evitar que os funcionários dos Lundgren, pessoas bastante influentes na
sociedade da época, sofressem de verdade na cadeia",
diz Franz Joseff Hermann, 79 anos, ex-funcionário da Companhia de Tecidos
Paulista, um dos poucos que não foi enviado ao campo, por ter deixado a empresa
onze meses antes da guerra. No campo Chã de Estevam, os confinados
moravam com as famílias em pequenas casas de alvenaria, com três cômodos.
Recebiam visitas e tinham direito a manter correspondência com parentes na
Alemanha. Continuavam até ganhando metade do ordenado de 2 contos de réis e iam
à feira sem vigilância ostensiva. Deviam pedir permissão
apenas para consultas médicas no Recife. Em suas cartas e telegramas, eles
registram o conforto do local e mencionam suas maiores angústias — a proibição
do idioma alemão e o afastamento do trabalho.
Durante a II Guerra, os
Lundgren estavam consolidando o que seriam as Casas Pernambucanas. Em 1904, os
filhos mais jovens de Hermann Lundgren, Arthur e Frederico, compraram a
Companhia de Tecidos Paulista, que no seu auge chegou a ter 15.000 funcionários.
Os alemães eram na maioria ex-integrantes do Partido Nazista, criado
no Estado em 1936 e desfeito dois anos depois, quando o Estado Novo extinguiu
todos os partidos. Os novos documentos mostram que os
Lundgren, de certa forma, protegeram alemães em Pernambuco da mesma forma que
Oscar Schindler salvou judeus da Alemanha.
Pesquisadora desvenda Nazismo
Susan Lewis descobre
existência de Campo de Concentração em Araçoiaba, na região metropolitana do
Recife
Ricardo Novelino
Da equipe do DIÁRIO DE PERNAMBUCO
17.Março. 1998
O dia 22 de novembro de 1942
pode ser considerado um dos principais marcos da Segunda Guerra Mundial em
Pernambuco. Precisamente nessa data, ignorada até agora
pela história recente do país, a Secretaria de Segurança Pública do estado
acatou a decisão do Ministério da Guerra e autorizou criação de um dos únicos
locais de confinamento de supostos espiões nazistas no Brasil: o Campo de
Concentração Chã de Estevam. Localizado no atual município de Araçoiaba,
distante 60 quilômetros do Recife, o campo fazia parte das terras da família
Lundgren, proprietária da Fábrica de Tecidos Paulista, sediada na cidade de
mesmo nome. Por coincidência, em Chã de Estevam ficaram confinados apenas os
alemães contratados pelos Lundgren para operar as máquinas de tecelagem na
empresa. Até o dia 30 de agosto de 1945, quando foi extinto, Chã de Estevam,
estiveram no campo de Araçoiaba pelo menos 50 alemães. A existência de Chã de
Estevam foi revelada pela tese de Mestrado em Ciência Política da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE) O Antissemitismo em Pernambuco no Estado Novo,
defendida em dezembro do ano passado, pela jornalista e pesquisadora
pernambucana, Susan Lewis, 27 anos.
Até a
apresentação da tese de Susan Lewis,a única referência sobre
locais de confinamento para alemães na Segunda Guerra era um campo, localizado
no Vale do Paraíba, em São Paulo. Esse campo ficou conhecido como Campo do
Vento. Descobrir essa importante etapa da história brasileira, perdida nos
arquivos do Departamento de Ordem Político Social (Dops), atualmente, guardados
no Arquivo Público de Pernambuco, foi um choque para a pesquisadora. Na
verdade, a tese de Susan enfocaria a perseguição dos governos federal e
estadual aos judeus de Pernambuco, durante os mandatos de Getúlio Vargas e
Agamenon Magalhães, respectivamente. "Estava abrindo alguns prontuários de
judeus quando me deparei com uma pasta fechada com uma etiqueta. Estava
escrito: campo de concentração Chã de Estevam. Mudei o direcionamento do
trabalho e investi seis meses na pesquisa", conta.
Durante a pesquisa, Lewis descobriu uma explícita preocupaçãodo
Governo estadual com a situação da Fábrica de Tecidos Paulista, da família
Lundgren. além dos alemães, trabalhavam na empresa alemães e ingleses,
totalizando mais de cem estrangeiros. Em Paulista também existia uma subsede do
Partido Nazista, criado em 1936. Para piorar a situação, durante uma inspeção
cinco anos antes do início da guerra, foram descobertas na empresas dos
Lundgren mais de mil balas de rifle, pistolas e espingardas. "Antes mesmo
de criar o campo, o Governo do Estado já estava cumprindo as determinações do
Governo federal, fiscalizando os alemães em Pernambuco. Quem
trabalhava na fábrica deveria apresentar-se periodicamente à Secretaria de
Segurança e sequer podiam residir em outros municípios,", comenta Susan
Lewis.
. HISTÓRIA - I
Jornal do Commercio – 17.março.1998
Vila mantida pelos Lundgrens
abrigou alemães na 2ª Guerra
por
FERNANDO MENEZES
Repórter especial
O campo de concentração em
que viveram alemães e italianos, todos funcionários da Fábrica de Tecidos
Paulista, propriedade da família Lundgren, de origem germânica, na verdade foi
uma vila instalada nas terras da fábrica, no hoje município de Araçoiaba,
destinada a proteger aqueles funcionários. Como eram em sua maioria
alemães e vivia-se o auge da 2ª Guerra Mundial, o povo passou a chamar de campo
de concentração. A revelação é da revista Veja desta
semana, baseada na pesquisa da jornalista Susan Lewis, em trabalho para o
Mestrado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
A vila foi instalada em novembro de 1942 e
funcionou até o fim da guerra, em maio de 1945, sendo composta por pequenas
casas de alvenaria. Os segregados podiam circular livremente,
recebiam metade dos seus salários e até iam à feira do município. Só para ir ao
Recife, distante 60 quilômetros, é que precisavam de licença. Além
disso, podiam escrever para seus familiares na Alemanha e receber
correspondência. Tais condições diferem fundamentalmente de um campo de
concentração no verdadeiro significado do termo.
QUEBRA-QUEBRA - O
que a revista omitiu é precisamente a razão mais importante para o confinamento
dos funcionários alemães e italianos da fábrica paulista. É verdade que o
governo Vargas, ainda simpático aos nazistas, pelo sim e pelo não, pediu
vigilância com relação ao pessoal da fábrica Lundgren. Mas, o que foi decisivo
veio do povo. Após o torpedeamento de vários navios
brasileiros, o povo revoltado destruiu inúmeras lojas, escritórios e outros
estabelecimentos de alemães, italianos e japoneses no Recife. Foi
o chamado quebra-quebra. Lojas tradicionais e mesmo da preferência dos
moradores do Recife, como a Ótica Talmon, cujo proprietário era alemão, e a
famosa sorveteria Gemba, de um japonês, foram completamente destruídas.
A revolta cresceu com a repetição dos
ataques dos submarinos alemães, embora o Brasil ainda mantivesse relações
diplomáticas com o governo de Adolf Hitler. Então, para proteger seus
funcionários e atender ao governo federal, os Lundgren instalaram o "campo
de concentração", na verdade um confinamento, muitíssimo mais liberal do
que os campos de confinamento de japoneses na Califórnia.
A pesquisa de Susan Lewis
resulta da consulta às fichas do antigo Departamento de Ordem Política e Social
(Dops). Mas, ali não constam assuntos secretos do Exército. Do
Recife saíram para o Rio militares alemães, feito prisioneiros próximo às
nossas costas. Um oficial da PMPE foi o responsável pela
missão, então tenente Otacílio Ferraz.
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HISTÓRIA - II
Nazistas
ficaram presos
no
Quartel do Derby
Em novembro de 1942, a
guerra naval tinha chegado com toda força ao Atlântico Sul. Os submarinos
alemães infestavam os limites de nossas águas territoriais. Os alemães
queriam evitar a chegada de matéria-prima da América do Sul para o esforço de
guerra aliado, sobretudo em demanda da África. Os
combates entre os submarinos e os navios americanos de escolta eram
frequentes, o que breve envolveria também os aviões-patrulha da FAB. Após
os combates, os náufragos eram recolhidos, mas se constituíam em elementos de
insegurança a bordo dos navios de guerra americanos. O país mais perto e já
prestes a romper com a Alemanha era o Brasil. O Recife foi então o porto
escolhido para receber os prisioneiros.
NO DERBY -
E foi por isso que, na manhã de 24 de novembro daquele ano, a
7ª Região Militar fez entrega ao comando da Polícia Militar, no quartel do
Derby, de um grupo de 62 prisioneiros de guerra alemães. Eram
14 oficiais, 13 suboficiais e 35 praças. As instruções eram severas. Eles não
tinham permissão de sair do alojamento, que era coletivo, não ouviam rádio,
não recebiam correspondência e tomavam banho de sol três vezes por semana, em
grupo. Um médico servia de intérprete e, ao mesmo tempo, os assistia nos problemas
de saúde. Ninguém tinha permissão para se aproximar dos prisioneiros.
A maioria deles pertencia à Marinha
Mercante, o que deixa a entender que foram torpedeados mercantes alemães,
provavelmente os que navegavam para a Argentina ou mesmo para entregar mercadorias
no Brasil, o que aconteceu até o começo de 1943. Mas,
havia oficiais e marinheiros da marinha de guerra, provavelmente
sobreviventes de afundamento de algum submarino. Eles
eram o médico naval Leo Hofmann, o aspirante Victor Erich Betz, o suboficial
Auguste Kruse e os marinheiros Herbert Eisemhammer, Hinz Hochwald, Friedrich
Pieper, Wolfgang Trimpler, Josef Fuchs, Peter Gottsche, Friedrich Griger,
Walter Schlumpberger, Heirich Neestendiedroch, Albert Salewski, Johannes
Marzinuiak, Siegrede Brotzann, Josef Kieffer, Edmund Reisewitz, Werner Hammer
e Franz Pohl.
Como única regalia, um mês depois de
presos no quartel da PMPE, os prisioneiros passaram a assistir, de vez em
quando, a uma sessão de cinema, no teatro do Derby, separados dos poucos
oficiais da PMPE que recebiam permissão para assistir ao mesmo filme.
Uma manhã, o então tenente Otacílio
Ferraz foi convocado ao gabinete do comandante-geral, coronel José Arnaldo de
Vasconcelos, que sem maiores preparações disse secamente:
"Otacílio, você foi escolhido para levar os prisioneiros para o Rio de
Janeiro. Tem uma semana para escolher 30 homens de sua confiança. A missão é
secreta e perigosa". O tenente fez um gesto de concordância,
bateu continência e saiu.
Uma semana depois, com os homens
escolhidos e advertidos dos perigos da missão, embarcaram no navio Poconé,
escoltados por quatro navios de guerra. Viajaram em rigoroso blecaute e na
altura de Abrolhos, o radar captou a presença de um submarino. Os oficiais da
marinha estavam certos de que a espionagem já avisara que no Poconé viajavam
62 prisioneiros alemães, uma garantia de que não seriam atacados. De qualquer
forma, lembra o hoje coronel da reserva Otacílio Ferraz, "foram minutos
de alta tensão que pareceram horas". Os prisioneiros foram
entregues ainda na Baía da Guanabara. O coronel Otacílio e seu
pelotão desembarcaram e se apresentaram ao Ministério da Guerra. Foram
elogiados e receberam uma missão ainda mais dura. Deveriam
regressar levando prisioneiros brasileiros, suspeitos de espionagem, de
pertencerem ao que na época se chamava de "quinta coluna".
PELO SERTÃO -
A viagem de volta trazendo os suspeitos que deveriam ser
transferidos para a Ilha de Fernando de Noronha foi extremamente penosa. Para
evitar o perigo dos submarinos, que naquela altura simplesmente perseguiam os
navios brasileiros, Otacílio e seu pelotão viajaram de trem até Pirapora, em
Minas, e daí de navio "gaiola" pelo São Francisco até Petrolina, de
onde embarcaram em caminhões do Exército para alcançar Arcoverde. Na
porta do Sertão pernambucano o pelotão e os prisioneiros tomaram um trem para
o Recife.
Próximo de Caruaru, um dos prisioneiros
que Otacílio havia amarrado no navio, por indisciplina, um homem forte e
violento, atacou o tenente na passagem entre um vagão e outro. Em
meio a luta, surgiu um soldado, quando Otacílio já estava quase sendo atirado
do trem, e simplesmente derrubou o agressor com uma pancada na cabeça. O
hoje coronel lembra o episódio, meio risonho: "O homem era forte pra
burro, equilibrei o corpo a corpo até quando foi possível, mas se não fosse
meu soldado eu teria me estrepado! O que interessa mesmo é que cumprimos
nossa missão, e regressamos todos vivos".
Durante muitos anos a
missão de Otacílio e seus soldados, escolhidos a dedo, ficou em segredo.
Hoje, o coronel reformado, que foi chefe da Casa Militar do seu amigo Nilo
Coelho, lamenta não ter mais documentos, fotos da viagem e do seu pessoal,
roteiro da missão e coisas assim. O sigilo absoluto não
permitiu que ele guardasse esse material, quase tudo era memorizado, não se
facilitava nada por causa da "quinta coluna", que, devido às
facilidades de um governo que se mantinha em cima do muro, informava tudo à
embaixada alemã.
Os
planos de Hitler
em
Pernambuco
Diário de
Pernambuco – domingo 10 junho 2011
Texto: Cláudia Elói
Prédio com tijolos aparentes e mobília requintada –
tudo ao gosto da arquitetura e decoração germânicas, combinadas com uma
grande bandeira com a suástica estampada, estrategicamente colocada na área
central de uma das paredes da sala. No local, uma concorrida reunião do
Partido Nazista, iniciada com a tradicional saudação “Heil Hitler!”, numa
referência ao “Terceiro Reich”, Adolf Hitler. Nos planos, a expansão da
ideologia nazista no Brasil e na América Latina.
Apesar de a descrição do parágrafo acima sugerir um
encontro na distante e fria Berlin, na Alemanha, o local referido fica bem
mais próximo. Para ser mais exato, no palacete pertencente à família
Lundgren, em Paulista (PE), Região Metropolitana do Recife. O casarão, assim
como a fábrica, era usado como uma espécie de “quartel-general” pelo Partido
Nazista em Pernambuco.
Os encontros aconteceram oficialmente de 1932 a
1938, quando a existência do movimento foi proibida em solo brasileiro. A
partir daí, eles passaram a acontecer na clandestinidade e foram acompanhados
de perto, na época, pelo serviço de espionagem brasileiro. O governo queria
estar a par de qualquer movimentação e cada passo dos alemães era
cuidadosamente registrado.
Oficialmente, os alemães vieram a Pernambuco para
trabalhar na Fábrica de Tecidos Paulista, que deu origem à rede de lojas
Casas Pernambucanas, de propriedade dos Lundgren. Mas algumas reuniões, de
acordo com os arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), tinham
como propósito difundir entre os “espiões nazistas” a propagação da ideologia
de Hitler, os planos de expansão do regime e os preparativos para a Segunda
Guerra Mundial (1939-1945).
O tema vai ilustrar a exposição “Nazismo em Pernambuco”,
que está sendo organizada pelo Arquivo Público do estado, com base em dados
do Dops, responsável pela espionagem durante o período. O evento acontecerá
no próximo mês e pretende recontar a história da presença nazista no estado,
mostrando as atividades partidárias e de propaganda, a espionagem, além da
atuação da delegacia na vigilância ostensiva aos estrangeiros, seguida de
perseguições e prisões.
Com a mudança de lado do ex-presidente Getúlio
Vargas, que passou de simpatizante a inimigo do nazismo, em 1942, já com a
guerra em curso, por pressão do governo norte-americano, diversos alemães
foram levados para o campo de concentração batizado de Chã de Estevam, em
Araçoiaba, antigo distrito de Igarassu. “O Dops de Pernambuco, além de caçar
comunistas, teve forte atuação na perseguição dos supostos espiões nazistas.
Não eram apenas os funcionários da fábrica. Muitos deles atuavam como
empresários, em instituições financeiras, no comércio e na indústria”,
explicou o chefe de apoio técnico do Arquivo Público do Estado, Roberto
Moura.
A presença nazista em Pernambuco é comprovada pelos
documentos do Dops que vão de 1930 a 1945, período conhecido como Era Vargas.
Na exposição, que será realizada na sede do Arquivo Público, na Rua do
Imperador, Centro do Recife, os visitantes poderão visualizar fotos de
integrantes do partido nazista, mapas, plantas do Recife, de Fernando de
Noronha e do Rio de Janeiro, além de carteira do partido nazista, passaporte,
broches, pôster de Hitler e bracelete original com a suástica (símbolo
adotado pelos nazistas). Somente de materiais iconográficos são mas de 300
peças.
O acervo possui mais de 200 prontuários individuais.
Além dos funcionais dos supostos espiões nazistas, há também a relação dos
estrangeiros que foram confinados em Chã de Estevam. Os documentos revelam
que na década de 1940 o Partido Nazista, já na clandestinidade, contabilizava
mais de 500 integrantes.
Também estão catalogadas fotografias que exibem
aparelhos de radiodifusão, máquinas fotográficas apreendidas e embalagens de
cigarros com o desenho da suástica. Há ainda fotos de garrafas com produtos
químicos que teriam sido usados pelos nazistas para impedir que as
correspondências com planos do regime fossem lidas por adversários do
movimento.
Alemães postos em confinamento
Imagem: FOTOS: JULIO JACOBINA/DP/D.A PRESS/REPRODUÇÃO
Com o advento da II Guerra Mundial e a entrada do Brasil na luta, os
integrantes do Partido Nazista passaram a ser vistos como espiões e
considerados inimigos do governo brasileiro. Muitos deles, principalmente os
alemães, foram levados para o campo de confinamento Chã de Estevam, em
Araçoiaba, tratado pelo Dops e pelas autoridades como campo de concentração.
O local pertencia à Companhia de Tecidos Paulista, da família Lundgren, e foi
criado em 22 de novembro de 1942, portanto depois que o governo brasileiro
declarou guerra à Alemanha nazista.
A pesquisadora Priscila
Ferreira Perazzo relata em seu livro O perigo alemão e a repressão policial
do Estado Novo, que os parentes, esposas e filhos dos estrangeiros também
podiam ser internados com os alemães, desde que tivessem autorização do Dops.
O campo de concentração, apesar do que o nome sugere, não era um local de
suplício. Havia uma certa liberdade. No entanto, existia uma lista extensa de
restrições para os confinados. Eles não podiam se ausentar da cidade sem
licença prévia da Secretaria de Segurança Pública, mesmo que fosse para
consultas médicas ou ir ao dentista. Também não podiam frequentar as praias e
eram proibidos da fazer reuniões ou manifestações coletivas.
De acordo com a
historiadora e professora da Universidade de Pernambuco (UPE), Maria Lana
Monteiro, o confinamento dos alemães em Chã de Estevam não tinha nenhuma
relação com os campos de concentração construídos pelos alemães durante a
guerra. “Em Chã de Estevam eles eram confinados, mas não sofriam torturas.
Podiam sair campo para trabalhar na fábrica e voltar. Com a guerra, os
alemães passaram a correr risco de vida no Brasil. Muitos estabelecimentos e
residências deles foram apedrejados pela população”, disse.
Lana lembra que a partir
de 1938, com a entrada em vigor da legislação brasileira que determinava o
fechamento de partidos políticos e organismos estrangeiros, a legenda nazista
no país ficou inviabilizada para atuar oficialmente e passou a agir na
clandestinidade. “A legislação impedia que eles pudessem oficialmente se
manifestar e se organizar”, destacou. (C.E.)
América do Sul era vista como ponto estratégico
Há uma tese defendida por alguns historiadores de que Hitler, além de
conquistar a Europa e o Norte da África, pretendia expandir seu domínio
também para a América do Sul. A historiadora Maria Lana Monteiro lembra que o
regime tinha “tentáculos” em vários continentes e a ação internacional do
partido nazista abrigava diversos núcleos. No Brasil, havia ramificações do
Partido Nazista em 17 estados. Eles eram comandados por alemães e
descendentes residentes no país.
Lana admite que há
indícios de uma suposta pretensão de Hitler em dominar a América do Sul por
ser uma área estratégica. Ela argumenta, no entanto, que não é possível
afirmar categoricamente essa teoria estrategista, uma vez que a confirmação
exigiria mais documentos comprobatórios. “Na América do Sul, o Brasil era uma
dos focos por sua posição geográfica, pela questão comercial e pela navegação
de cabotagem. Era um complexo estratégico e tinha uma população germânica
representativa”, afirmou.
A pesquisadora lembra que
não eram apenas os funcionários da fabrica de Tecidos Paulista que faziam
parte da célula nazista no estado: “Havia gente de instituições financeiras,
do comércio, da indústrias e empresários”. De acordo com Lana, as instalações
da fábrica da família Lundgren não eram os únicos locais de reunião dos
supostos espiões nazistas.
Os estrangeiros usavam os
mais diversos espaços sociais, de convivência e de lazer para difundir o
ideário de Hitler. “A organização maior era na fábrica, mas tinha outros
eventos de lazer e político. Eles se encontravam no Clube Alemão, no antigo
Clube Campestre, também chamado de Austríaco, que ficava no bairro da Torre.
No período carnavalesco chegavam a fazer apologia ao nazismo. Há uma foto
tirada no Clube Internacional que mostra uma das pilastras com a suástica
(símbolo nazista)”, disse Lana Monteiro.
Grupo preenchia cargos importantes
Imagem: ALCIONE FERREIRA/DP/D.A PRESS
Os alemães com cargos de direção vindos para trabalhar na Fábrica dos
Lundgren passaram a morar na Vila Sumaré, em Paulista. Trata-se de um
residencial formado por 11 casas. O local está atualmente preservado por uma
lei municipal que trata de imóveis especiais de preservação. As casas que
serviram de moradia para os supostos nazistas alemães passaram a ser alugadas
pela companhia de tecidos Paulista e estão ocupadas por ex-operários da
fábrica e outros inquilinos.
Segundo o historiador e
coordenador do Movimento Pró-Museu de Paulista, Ricardo Andrade, a prefeitura
não vem fazendo o trabalho de conservação nas residências como exige a
legislação municipal. “Não há calçamento na rua onde os imóveis estão
localizados”, criticou. Ele revela, ainda, que os alemães vieram trabalhar na
fábrica dos Lundgren porque não havia na época mão de obra especializada no
estado para gerenciar e ensinar a usar um maquinário de última geração.
Já a Casa Grande da
família Lundgren, que servia de ponto de apoio para os supostos espiões
alemães, está tombada pelo patrimônio estadual. O pessoal do Pró-Museu
defende que o espaço seja transformado num museu para abrigar a rica história
da cidade. De acordo com Lana, o governo brasileiro mantinha, inicialmente,
um comportamento de conivência com a ideologia de Hitler. “Eles permitiam que
existisse o partido nazista com fins de divulgar a cultura alemã, mas com a
entrada do Brasil na guerra em favor dos aliados e contra os países do eixo,
os alemães passam a ser considerados espiões, sendo enquadrados e perseguidos
pelo Dops”, contou.
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