Diário
da Berlim
William L. Shirer -
1934-1941
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| Diário da Berlim |
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| William L. Shirer |
Prefácio
Em minha opinião, a maioria dos diários é
escrita sem nenhum propósito de algum dia ser publicada. O autor não tem em
vista o leitor. São documentos pessoais, íntimos, confidenciais, que constituem
uma parte integrante de cada um, sempre muito melhor quando permanece oculta do
rude mundo exterior.
Este diário não pretende pertencer a
essa categoria. Para ser exato, foi escrito para o meu prazer pessoal e paz de
espírito, mas também – para ser inteiramente franco – com a ideia de que, um
dia, a maior parte do que contém viesse a ser publicada, desde que algum editor
se arriscasse a tanto. É desnecessário dizer que isso não se deve ao fato de
ter suposto, por um segundo sequer, que eu próprio ou a vida que vivi
pudéssemos ter a menor importância ou, até mesmo, qualquer interesse particular
para o público. A única justificativa que me movia era que a ocasião, bem como
a natureza das minhas atividades, fornecia-me uma oportunidade única para
anotar, dia a dia, e em primeira mão, a crônica de uma Europa que já agonizava
e que, com o passar dos meses e dos anos, deslizava inexoravelmente para o
abismo da guerra e da autodestruição.
Assim,
exceto ocasionalmente, o assunto deste diário não é de forma alguma o seu
autor, e, sim, essa Europa que ele viu, com uma fascinação e um horror cada vez
maiores, precipitar-se enlouquecida pela estrada que leva a Armagedom, na
segunda metade da década de 30. um único país – a Alemanha – e um único homem –
Adolf Hitler – constituíram a causa precípua de toda a derrocada do continente.
A maioria dos anos que passei no estrangeiro foram vividos nesse país e nas
proximidades desse homem. Foi desse posto privilegiado que vi as democracias
europeias titubearem, esboroarem-se, e, com a confiança, o espírito crítico e a
vontade inteiramente paralisados, baterem em retirada de um baluarte a outro,
até que não mais puderam, com exceção da Grã-Bretanha, permanecer de pé. De
dentro dessa cidadela totalitária pude apreciar também a forma pela qual
Hitler, agindo com um cinismo, uma brutalidade, uma decisão e uma clareza de
vistas e de propósitos que o Velho Mundo não observava desde Napoleão, passou
de vitória em vitória, unificando a Alemanha, rearmando-a, destruindo e
anexando os seus vizinhos, até fazer do Terceiro Reich o senhor do continente e
transformar a maioria dos infelizes povos europeus num grande rebanho de
escravos.
Anotei
todos esses acontecimentos dia a dia. Infelizmente perderam-se algumas das
minhas notas originais; outras, eu próprio as queimei, preferindo destruí-las a
arriscá-las, tanto quanto a mim mesmo, a sofrer as amabilidades da Gestapo; e
alguns fatos, poucos, que não ousei confiar à escrita, procurei gravá-los
indelevelmente na memória para serem recordados em data mais distante e mais
segura. No entanto, consegui escamotear a maior parte dos meus apontamentos e
cópias de todas as transmissões radiofônicas, antes que fossem censuradas. Onde
existiam lapsos, pude preenchê-los livremente com os meus despachos e com as
notícias lidas ao microfone. Em alguns casos, vi-me obrigado a reconstituir de memória
os acontecimentos do dia, fazendo-o, porém perfeitamente cônscio das falhas de
tal método e das exigências da mais estrita honestidade.
Finalmente,
uma explicação necessária: os nomes de certas pessoas que ainda se encontram na
Alemanha, ou que têm lá os seus parentes, foram por mim convenientemente
disfarçados ou estão indicados por uma simples letra, sem qualquer relação com
a sua verdadeira identidade. Assim a Gestapo não encontrará nenhuma pista.
Parte I
Prelúdios da GuerrA
LLORET DE MAR, ESPANHA, 11
1 34
Acabou-se o
nosso dinheiro, depois de amanhã preciso voltar ao trabalho. Não tínhamos
pensado muito sobre isso. Chegou um telegrama. Uma oferta. Uma oferta má, do Herald, de Paris. Mas uma oferta que nos
permitiria enfrentar a situação até que eu conseguisse algo melhor.
Assim
termina o melhor, o mais feliz, o mais calmo de todos os anos que vivemos. Foi
o nosso “ano de férias” e de descanso, vivido todo ele nesta aldeola de
pescadores espanhóis, exatamente como tínhamos sonhado e planejado,
magnificamente livres do resto do mundo, dos acontecimentos, dos homens, dos
patrões, dos editores, dos parentes e dos amigos. Um ano que não devia ter
acabado, pois, se os 1.000 dólares que economizamos não tiverem passado a 600
com a queda do dólar, poderíamos muito bem prolongá-los por mais algum tempo,
até que aparecesse um emprego melhor. Penso que foi uma boa época para
descanso. Recuperei a saúde perdida na Índia e no Afeganistão em 1930 / 1931,
onde fora atacado de malária e de desinteria. Curei-me também do choque
decorrente do acidente de esqui que sofri nos Alpes no inverno de 1932, que
durante algum tempo ameaçou deixar-me completamente cego, mas que, felizmente,
acabou estragando apenas uma vista.
O
ano que passou – 1933 – talvez não tenha sido de simples transição tanto para
nós, pessoalmente, como também para toda a Europa e América. O que Roosevelt
está realizando nos Estados Unidos parece cheirar a uma revolução social e
econômica. Hitler e os seus nazistas já se encontram no poder há exatamente um
ano, na Alemanha; e os nossos amigos de Viena escrevem-nos dizendo que o
fascismo, tanto o local, sujeito a influências burocráticas, como o do tipo de
Berlim, está ganhando terreno na Áustria com muita rapidez. Aqui na Espanha a
Revolução tem andado bastante séria e o governo direitista de Gil Robles e
Alexandre Lerroux parece inclinado a seguir dois caminhos: restaurar a
monarquia ou criar um Estado fascista nos moldes da Itália – talvez as duas
coisas. A Paris onde cheguei em 1925, e que amei logo com a ternura de meus
vinte e um anos como se pode amar uma mulher, já de há muito que não é a Paris
que encontrarei depois de amanhã – e não tenho nenhuma ilusão sobre isso. Até
parece que o mundo para onde vamos voltar é um mundo inteiramente diverso
daquele que deixamos há um ano, quando encaixotamos os nossos livros e as
nossas roupas em Viena e partimos para a Espanha.
Descobrimos
Lloret de Mar, quando passeávamos pela costa, saídos de Barcelona. Fica a oito
quilômetros da estrada de ferro, metido na meia-lua de uma larga praia arenosa,
cavada nos contrafortes dos XXX
Pirineus. Tess apaixonou-se instantaneamente pelo lugar. Eu também. Encontramos
uma casa mobiliada, na praia – uma casa de três andares, dez quartos, dois
banheiros e aquecimento central. Quando o proprietário declarou que o aluguel
era de quinze dólares por mês, pagamos um ano adiantado. Todas as nossas
despesas, inclusive esse aluguel, não têm passado de 60 dólares mensais.
Mas,
que fizemos durante esses últimos doze meses? Nada de extraordinário. Nenhuma
“grande realização”. Nadamos quatro ou cinco vezes por dia, de abril até o
Natal. Subimos e descemos as encostas dos Pirineus que vão até à aldeia e ao
mar, passamos por milhares de olivais, por centenas de florestas de sobreiros e
pelos muros caiados e frios das casas dos camponeses adiando sempre para amanhã
– e para nunca mais – as excursões que pretendíamos fazer aos picos que ficam
cobertos de neve desde os primeiros dias do outono até meados da primavera.
Lemos alguns dos livros que nunca tínhamos podido folhear, no tempo em que era
preciso enviar um despacho telegráfico todas as noites, passando de uma capital
para a outra – de Paris a Londres até Délhi. De minha parte li: um pouco de
história, alguma filosofia e a Decadência
do Ocidente, de Spengler; a História
da revolução Russa, de Trotsky; Guerra
e Paz, de Tolstói; Voyage ou Bout de
la Nuit, de Céline, a mais original de todas as novelas francesas
publicadas depois da guerra e tudo, ou quase tudo, de Wells, Shaw, Ellis,
Beard, Hemingway, Dos Passos e Dreiser. Alguns amigos vieram passar férias
conosco: os Jay Allens, Russell e Pat Strauss e Luis Quintanilla, um dos mais
promissores talentos entre os jovens pintores espanhóis, republicano vermelho.
Andrés Segóvia, nosso vizinho, vinha ver-nos todas as noites para conversar ou
executar Bach e Albeniz na sua guitarra.
Durante este ano, tivemos muito tempo para nos
conhecer mutuamente, para discutir e gracejar, comer e beber, assistir às
corridas de touro durante a tarde e apreciar divertido o Bairro Chinês de
Barcelona à noite; tempo bastante para apreciar as cores, o verde-escuro das
colinas, os incomparáveis azuis das águas do Mediterrâneo na primavera, e o céu
profundo, sombrio, cinza-claro, sempre estendido sobre Madri; tempo suficiente
para conhecer o camponês, o trabalhador e os pescadores da Espanha, homens
dignos e íntegros, apesar de sua vida miserável, quase faminta; folga bastante
para visitar os museus do Prado e de Toledo, com alguns minutos dedicados ao Greco,
cujas formas fugidias e opulento jogo de cores nos deixaram maravilhados e
fizeram com que todos os quadros da Renascença que tínhamos visto na Itália,
mesmo os Da Vinci, os Rafael, os Ticiano e os Botticelli, parecessem pálidos e
anêmicos.
Foi um ano magnífico.
PARIS
7 2 34
Ainda
um pouco fatigado das canseiras da noite passada. Ontem, por volta das cinco da
tarde, estava na redação do Herald
tamborilando os dedos sobre a mesa e calculando se devia ou não descer até a
Câmara, onde o novo Primeiro-Ministro, Edouard Daladier, devia ler a sua
declaração ministerial, quando nos chegou a notícia de que havia um tumulto na
Place de la Concorde. Pulei num táxi e fui ver o que havia. Não vi nada demais.
Alguns realistas – “Camelots du Roi”, “Jeunesses Patriotes” do deputado Pierre
Taittinger e desordeiros da “Solidarité Française” do perfumista François Coty,
e todos da ala extrema da juventude direitista, ou malfeitores – tinham tentado
invadir a Câmara, mas foram dispersados pela polícia. A Place estava
perfeitamente normal. Telefonei para a redação do Herald, mas Eric Hawkins, o redator-chefe, aconselhou-me a comer
qualquer coisa pelas redondezas e dar uma vista de olhos no local, um pouco
mais tarde. Por volta de 7 da noite, voltei à Place de la Concorde. Alguma
coisa anormal estava acontecendo. Homens da Garde Mobile, a cavalo e com os
seus capacetes de aço, esvaziavam a praça. Nas proximidades do obelisco,
plantado no centro da Concorde, um ônibus estava em chamas.
Abri
caminho pelo meio dos Gardes Mobiles, que brandiam os seus sabres, e dirigi-me
para os lados das Tulherias. Uma multidão de milhares de pessoas comprimia-se
sobre o terraço; metendo-me entre elas pude verificar, pouco depois, que não
eram fascistas e sim comunistas. Quando a polícia tentou desalojá-los dela,
receberam a Garde Mobile com uma verdadeira barragem de pedras e de tijolos. No
meio da ponte, que da Place vai ter à Câmara dos Deputados, atravessando o
Sena, encontrei um grande contingente de guardas empunhando fuzis, apoiados pela
polícia e uma brigada de bombeiros. Dois ou três pequenos grupos tentaram
avançar sobre a ponte, vindos do cais do Louvre; mas os jatos de duas
mangueiras foram suficientes para dispersá-los. Por volta de 8 horas da noite,
cerca de dois mil veteranos de guerra, a U.N.C. – Union Nationale dês
Combattants[1],
- desfilaram pela Place de la Concorde, vindos do Rond-Point e descendo a
Avenida dos Campos Elísios. Marchavam em perfeita ordem, precedidos de inúmeras
bandeiras tricolores. Ao chegarem à entrada da ponte, a polícia fê-los parar e
seus chefes puseram-se a parlamentar com os oficiais. Dirigi-me para o Hotel
Crillon e subi ao balcão do terceiro andar, que dá para a praça. Já estava
cheio de curiosos. Não nos foi possível ouvir os primeiros tiros. Somente nos
apercebemos da fuzilaria quando uma senhora que estava a poucos metros caiu
bruscamente ao chão, a testa varada por uma bala. A senhora estava junto de
Melvin Whiteleather, da Associated Press. Agora podíamos ouvir distintamente o
tiroteio, vindo da ponte e do outro lado do Sena. Aparentemente, os que
atiravam estavam usando fuzis automáticos. A reação da população levou-a a
invadir a Concorde. Dentro em pouco, a praça estava pontilhada pelos incêndios.
À esquerda, rolos de fumo saíam do Ministério da Marinha. As mangueiras
entraram em cena, mas o povo conseguiu aproximar-se o suficiente para
cortá-las. Desci ao hall do Hotel
para telefonar à redação. Tinham sido conduzidos para ali vários feridos, que
recebiam os primeiros socorros.
O tiroteio continuou até quase meia-noite, quando a
Grande Mobile conseguiu dominar a situação. Várias vezes a Place de la Concorde
mudou de mãos, mas por volta das 24 horas a polícia estava senhora do campo de
luta. A certa altura – talvez por volta das 10 horas – a multidão, que já
estava exasperada mas que se ressentia de falta de direção, tentou tomar a
ponte de assalto, alguns avançando pelo cais, cujas árvores ofereciam
considerável proteção, enquanto outros corriam desesperados pelo meio da Place.
“Se conseguirem atravessar a ponte” – pensei – “matarão todos os deputados que
encontrarem na Câmara”. Mas uma fuzilaria mortal – que desta vez parecia partir
de metralhadoras – fê-los parar minutos depois, e os assaltantes fugiram em
todas as direções.
Um
pouco mais e ouviam-se apenas disparos esparsos; dez minutos mais tarde,
comecei a subir a Avenida dos Campos Elísios em direção ao jornal, onde ia
escrever a minha crônica. Nas proximidades do Palácio Presidencial encontrei
várias companhias de tropas regulares de prontidão, as primeiras que via. Entre
o lugar em que me achava e a redação do Herald
medeia uma distância de quase dois quilômetros, subindo pelos Campos Elísios;
assim, cheguei à redação quase sem fôlego, mas ainda a tempo de escrever duas
colunas para o jornal, antes de fechar. Relação oficial do dia: dezesseis
mortos e centenas de feridos.
MAIS
TARDE – Daladier, que se fazia passar por “homem forte”, pediu demissão. Ao
fazê-lo, divulgou a seguinte declaração: “O governo, responsável pela
manutenção da ordem e da segurança do país, recusa-se a mantê-las por medidas
excepcionais, capazes de provocar novo derramamento de sangue. O governo não
deseja empregar os militares contra manifestantes. Assim, depus em mãos do
Presidente da República o pedido de demissão coletiva do Gabinete”.
Imagine-se
um Stálin, um Mussolini ou um Hitler, hesitando em empregar as tropas contra a
população que tentasse derrubar os respectivos regimes! É possível que, na
realidade, os distúrbios da noite de ontem tivessem as duas causas no escândalo
Stavisky. Mas esse affaire serviu
apenas para mostrar a podridão e a fraqueza da democracia francesa. Daladier e
o seu Ministro do Interior, Eugéne Frot, deram à U.N.C. a necessária licença
para realizar a sua manifestação. Deviam tê-la recusado. Deviam dispor de um
número suficiente de Grandes Mobiles, às primeiras horas da tarde, a fim de
dispersar a multidão antes que esta pudesse fortalecer-se. Mas demitir-se
agora, depois de sufocar um golpe fascista, como foi o de ontem, deve ser um
gesto de absoluta covardia ou estupidez. Outra particularidade importante é
que, ontem à noite, os comunistas lutaram na mesma barricada, lado a lado com
os fascistas. Não gosto nada disso.
PARIS
8 2 34
O “velho”
Doumergue vai chefiar o governo de “união nacional”. Foram buscá-lo em sua
aldeia de Tourne Feuille, para onde se havia retirado em companhia da amante,
com a qual se casou, logo após ter deixado a Presidência. Doumergue anunciou
que pretende formar um Gabinete composto de antigos ministros e chefes de
partidos políticos, mas um governo direitista e reacionário. Além disso, os
esquerdistas moderados – como Chautemps, Daladier, Herroit – mostraram que não
podem ou não querem governar a França.
PARIS
12 2 1934
Houve hoje
uma greve geral, mas sem grande eficiência; ademais, não se registrou nenhum
conflito.
MAIS
TARDE – Dollfuss rompeu com os social-democratas, na Áustria, o único
agrupamento organizado (quarenta por cento da população) que pode impedir sua
derrota para os nazistas. As comunicações com Viena estiveram suspensas a maior
parte do dia; mas esta noite começamos a receber os primeiros detalhes na
redação. É a guerra civil. Os socialistas estão entrincheirados nos grandes
edifícios municipais, que construíram depois da guerra – verdadeiros modelos
para o mundo – o Karl Marx Hof, o Goethe Hof e outros. Mas Dollfuss e a
Heimwehr, comandada pelo Príncipe Starhemberg, um playboy ignorante, e pelo Major Fey, um revolucionário de face
quadrada e brutal, têm o controle do resto da cidade. Vencerão com o auxílio de
seus tanques e da sua artilharia – a menos que os socialistas recebam auxílio
dos tchecos, vindos de Bratislava, que fica próxima a Viena.
Isso,
aliás, é o que o Major Fey deu a entender ainda ontem. Senti-me chocado pelo
texto do seu discurso, que a Havas distribuiu durante a noite passada: “No
decorrer destes últimos dias deixei bem claro que o Chanceler Dollfuss é um
homem da Heimwehr. Amanhã começaremos a fazer uma limpeza em regra na Áustria!”
Mas, pus de parte essas palavras, levando-as à conta de suas fanfarronices
habituais. E que papel para o pequeno Dollfuss! Faz agora um pouco mais de um
ano que eu, John Gunther e Eric Gedye tivemos uma longa palestra com o
Chanceler austríaco, logo após o almoço que lhe foi oferecido pelo Clube
Anglo-Americano de Imprensa. Julguei-o então um homenzinho tímido, ainda
surpreso de que ele, o filho ilegítimo de um camponês, tivesse ido tão longe.
Mas deem aos homenzinhos um pouco de poder e eles se tornarão perigosos.
Lamento a sorte de meus amigos social-democratas, as criaturas mais decentes –
homens e mulheres – que conheci na Europa. Fico a pensar quantos deles estarão
sendo assassinados esta noite. E lá se vai a democracia na Áustria; um Estado a
mais que desaparece. Permaneci na redação até que o jornal começou a rodar, à
uma e meia da madrugada; e estou demasiadamente triste e deprimido pelas
notícias do dia para poder dormir.
PARIS
15 2 34
Os telegramas
anunciam que a luta em Viena terminou hoje. Dollfuss acabou com os últimos
trabalhadores e descargas de artilharia, indo rezar logo em seguida. Muito bem!
Pelo menos, os social-democratas austríacos souberam lutar, fazendo um pouco
mais que os seus camaradas alemães. Aparentemente, Otto Bauer e Julius Deutsch
conseguiram pôr-se a salvo, atravessando a fronteira para a Tcheco-Eslováquia.
Foi uma boa ideia, do contrário Dollfuss os teria enforcado.
PARIS
23 2 34
Hoje é o meu
aniversário. Trinta anos. E tenho o pior emprego de toda a minha vida. Tess
preparou um grande jantar de aniversário, depois do qual fomos a um concerto.
Mas, como os franceses deixassem de ler L’Intransigeant
ou o Paris Soir durante o
concerto, tocariam muito melhor. Preciso assistir ao Coriolanus de Shakespeare na Comédie Française, que os esquerdistas
acusam de possuir algumas tiradas antidemocráticas. Disseram-me hoje que
Dollfuss mandou enforcar Koloman Wallisch, o prefeito social-democrata de Bruck
na der Mur. Claude Cockburn, que devia estar informado, surgiu há dias pelas
páginas do Week com uma narrativa
absurda dos distúrbios do dia 6, descrevendo-os como um protesto das “classes
trabalhadoras”. É curioso notar que a descrição que fez dos acontecimentos
daquela noite tem uma grande semelhança com o que Trotsky escreveu sobre a
revolta de Petrogrado, em 1917, na sua História
da Revolução Russa. A verdade é que o 6 de fevereiro constituiu apenas uma
tentativa fascista para um golpe de estado que os comunistas, voluntariamente
ou não, auxiliaram.
PARIS
30 6 34
Todas as
comunicações com Berlim foram suspensas hoje, durante várias horas. No entanto,
à tardinha, ficaram restabelecidas as linhas telegráficas. E que noticiário!
Hitler e Göring levaram avante um “expurgo” da S.A. (tropas de choque), fuzilando
a maioria dos seus chefes. O Capitão Röhm, preso pelo próprio Hitler, teve
permissão para suicidar-se numa das prisões de Munique, segundo anunciou uma
agência telegráfica. Os franceses estão satisfeitos. Supõem que isto seja o
princípio do fim dos nazistas. Gostaria de conseguir um lugar em Berlim. É uma
reportagem que eu gostaria de fazer.
PARIS
14 7 34
Minha irmã
veio ver-nos; os três juntos festejamos à noite a Queda da Bastilha. Levamo-na
em nossa companhia pelos cafés da cidade, para que apreciasse o povo dançar.
Tarde da noite entramos no Café Flore, onde apresentei minha irmã a alguns
elementos do Quartier Latin. Alex Small estava num de seus grandes dias. Quando
começou a contar mais uma vez a parte que desempenhara na Batalha de Verdun,
julguei mais prudente retirar-me com toda a família – durante anos ouvi a mesma
história inúmeras vezes.
Sabe-se
que agora o “expurgo” de Hitler foi muito mais violento de que a princípio se
supunha. Röhm não se suicidou: foi fuzilado por ordem de Hitler. As outras
vítimas foram: Heines, o conhecido líder nazista da Silésia; o Dr. Erick
Klausner, líder da “Ação Católica” na Alemanha; Fritz von Bose e Edgar Jung,
dois dos secretários de von Papen – que escapou por pouco; Gregor Strasser, o
homem mais importante dentro do Partido Nazista, depois de Hitler, e o General
von Schleicher e senhora, estes dois assassinados a sangue-frio. Vejo que von
Kahr também está na lista; foi ele que liquidou o Putsch da Cervejaria em 1923. Assim Hitler se vingou pessoalmente
dos seus inimigos. Ainda ontem, sexta-feira 13, Hitler confessou-o ao declarar
perante o Reichstag: “Durante estas últimas vinte e quatro horas o Supremo
Tribunal do povo alemão teve apenas um membro – eu próprio!” Os deputados
ergueram-se das cadeiras e aplaudiram o Führer. Os homens já tinham esquecido
quase completamente a grande dose de sadismo e masoquismo que existe em estado
latente na alma do povo alemão.
PARIS
25 7 34
Dollfuss
desapareceu assassinado pelos nazistas, que hoje assumiram o controle do
edifício da Chancelaria e da emissora de Viena. No entanto, o golpe fracassou e
Miklas e o Dr. Schuschnigg conseguiram dominar a situação. Pessoalmente, não
aprecio os assassinatos – e, menos que todos, os assassinatos nazistas. Mas não
posso lamentar a sorte de Dollfuss depois da chacina que cometeu, a
sangue-frio, contra os social-democratas, em fevereiro último. Segundo anunciam
os telegramas, o Major Fey parece ter desempenhado um papel bem curioso. Estava
na Chancelaria, em companhia de Dollfuss, dirigia-se para a sacada, para chamar
Rintelen, que os nazistas haviam escolhido como seu primeiro chanceler. Julgou,
aparentemente, que o golpe nazista vencera e estava pronto para aderir. Um
canalha, esse Fey.
PARIS
2 8 34
Hindenburg
faleceu esta manhã. Agora, quem será o Presidente? Que fará Hitler?
PARIS
3 8 34
Hitler fez o
que ninguém esperava. Nomeou-se “Presidente e Chanceler”. Todas as dúvidas
existentes sobre a lealdade do Exército foram extirpadas ainda antes que o
corpo do velho marechal esfriasse. Hitler obrigou o Exército a jurar-lhe
obediência incondicional. O homem é cheio de recursos.
PARIS
9 8 34
Dosch-Fleurot
telefonou-me de Berlim para a redação esta tarde, e ofereceu-me um lugar no
Universal Service, na capital do Reich. Respondi-lhe imediatamente que sim,
combinamos a questão do ordenado e ele ficou de dar-me a resposta definitiva
depois de consultar Nova York.
PARIS
11 8 34
Larry Hills,
gerente do Herald, ficou danado, hoje
à tarde, ao saber da minha saída; por fim dominou o seu temperamento irritado e
acabamos indo juntos para o bar do Hotel Califórnia, onde tomamos um drinque.
Agora preciso recordar meu alemão.
BERLIM
25 8 34
Muito
provavelmente nosso primeiro contato com o Terceiro Reich, de Adolf Hitler,
esta noite, foi um caso típico. Tomando o expresso diurno de Paris, para
gozarmos um pouco da paisagem, chegamos à Friedrichstrasse Bahahof de Berlim
por volta das dez da noite. As duas primeiras pessoas que nos receberam à
plataforma foram dois agentes da polícia secreta. Esperávamos encontrar a
Gestapo, mais cedo ou mais tarde – mais nunca tão depressa assim. Dois homens
fardados apoderaram-se de mim, ao descer do trem, levaram-me a uma certa
distância e perguntaram-me se eu era Herr Fulano de Tal – foi-me impossível
perceber o nome que pronunciavam. Disse-lhes que não. Um deles continuou a
fazer-me perguntas e mais perguntas, até que lhe mostrei o meu passaporte. Foi
examinado durante vários minutos, após o que, olhando-me com ares desconfiados,
murmurou: - “Então... o senhor não é Herr Fulano de Tal... é Herr Shirer”. –
“Em pessoa,” – respondi, - “tal como pode verificar pelo passaporte”.
Encarou-me com um último olhar de desconfiança, piscou para o companheiro, fez
uma continência enérgica e partiu. Tess e eu fomos para o Hotel Continental,
onde alugamos um aposento enorme. Amanhã começa para mim um novo capítulo.
BERLIM
26 8 34
Knickerbocker
revelou-me que Dorothy Thompson partira ontem da estação de Friedrichstrasse
pouco antes da nossa chegada. Deram-lhe vinte e quatro horas para sair do país
– aparentemente por obra de Putzi Hanfstangl, que não pôde perdoá-la pelo livro
Eu Vi Hitler, uma crítica muito pouco
favorável ao homem. Aliás, a posição do próprio Knickerbocker em Berlim é
precária, talvez em consequência de alguns dos seus artigos passados e
presentes. Goebbels, que o apreciava, deixou-o de lado. Knick pretende
encontrar-se com Hearst, em Bad Nauheim, dentro de um dia ou dois, para
discutir o assunto.
BERLIM
2 9 34
Estou na maior
depressão. Nada mais resta da Berlim da República de Weimar, com seu ar livre,
emancipado, civilizado, cheia de moças de nariz chato e cabelos curtos e
encaracolados, e de rapazes de cabelos compridos ou cortados à escovinha – o
que não fazia a menor diferença – que passavam a noite inteira sentados ao
nosso lado, discutindo todos os assuntos com interesse e inteligência. Os
constantes Heil Hitler, o bater de
calcanhares e as tropas de choque, metidas em seus uniformes cinzentos, ou as
formações da SS uniformizadas de negro, marchando pelas ruas de baixo para
cima, mexem-me com os nervos, embora os veteranos me expliquem que desde o
expurgo já não se veem tantos deles como antigamente. Gillie, o antigo
correspondente do Morning Post em
Berlim, atualmente destacado em Paris, está passando por aqui parte de suas
férias – por simples espírito de perversidade. Fizemos vários passeios juntos,
e por duas vezes fomos obrigados a entrar apressadamente numa loja, tanto para
não sermos forçados a levantar o braço em saudação à bandeira de uma formação
da SA ou SS, que passava no momento, como também para não termos que enfrentar
a perspectiva de uma surra pela nossa recusa em proceder dessa forma.
Anteontem, Gillie levou-me para almoçar em sua companhia em um restaurante da
parte baixa de Friedrichstrasse. No regresso, apontou para um edifício onde
apenas um ano antes e por dias intermináveis – segundo narrou – se podiam ouvir
os gemidos dos judeus que estavam sendo torturados. Reparei no letreiro.
Naquele prédio ainda funcionava o quartel-general de um dos batalhões da SA.
Tess
procurou reconfortar-me, levando-me ontem ao Jardim Zoológico. O dia estava
lindo e quente; depois de apreciar os macacos e os elefantes do Soo, fomos
almoçar no terraço coberto do restaurante que ali existe.
Estive
com o nosso embaixador, o professor William E. Dodd. Encontrei nele um homem
franco, honesto, liberal. Possuidor dessa espécie de integridade pessoal que se
faz necessária num embaixador dos Estados Unidos na capital nazista. Pareceu um
pouco contrariado quando afirmei que não senti a morte de Dollfuss, e talvez
tenha interpretado minhas palavras com um indício de simpatia pelos nazistas.
Mas espero que tal não se tenha dado. Falei também ao conselheiro da Embaixada,
J. C. White, que me pareceu pertencer ao mais formalizado de todos os tipos de
diplomatas de carreira do Departamento de Estado. Imediatamente depois,
enviou-me os seus cartões do hotel, cartões lindamente dobrados nas pontas, mas
como não entendo dessas sutilezas diplomáticas de cartões com pontas dobradas,
não sei o que fazer com eles. Depois de amanhã vou fazer a reportagem do
congresso anual do Partido Nazista, em Nuremberg. Isso deve proporcionar-me a
oportunidade de ser apresentado à Alemanha nazista.
NUREMBERG 4 9 34
Tal como um
autêntico imperador romano, Hitler fez sua entrada nesta cidade medieval, ao
cair da tarde de hoje, atravessando as compactas falanges nazistas que o
aclamavam freneticamente, enchendo literalmente as ruas estreitas que um dia
viram Hans Sachs e os Meistersinger
(Mestres Cantores). Dezenas de milhares de bandeiras com a cruz suástica
cobriam por inteiro os primores de arquitetura gótica de que está cheia a
cidade, tapando as fachadas e os tetos pontiagudos dos edifícios centenários.
As ruas estreitíssimas estão transformadas num verdadeiro oceano de uniformes
cinzentos e negros. A primeira vez que vi Hitler foi quando ele passou pelo
nosso hotel, o Wüttemberger Hof, a caminho do Deutscher Hof, o velho hotel que
era o seu favorito, agora completamente remodelado para recebê-lo. De pé no
automóvel, Hitler erguia o boné com a mão esquerda, respondendo aos aplausos
delirantes da multidão com um outro erguer de braço direito, na saudação
nazista. Envergava uma capa de gabardina bastante usada e sua fisionomia não
denotava nenhuma expressão particular – eu esperava que possuísse uma face
impressionante, de linhas mais fortes – mas nunca poderei compreender, enquanto
viver, que espécie de fluidos ocultos ele indiscutivelmente espalhava entre a
multidão histérica que o aclamavam com tamanho furor. Hitler não aparece
perante a multidão com aquela imponência teatral que eu vira Mussolini
empregar. Fiquei satisfeito ao verificar que ele não atirava o queixo para a
frente e a cabeça para trás, como o Duce, nem tornava o olhar esgazeado, embora
possua algo de vítreo nos olhos, o mais forte de todos os seus traços
fisionômicos. Ao contrário, parecia que Hitler procurava afetar modéstia em
toda a sua pessoa. Mas duvido de sua sinceridade.
Esta tarde,
na velha e magnífica Rathaus, Hitler inaugurou oficialmente o quarto congresso
do Partido. Falou apenas três minutos, provavelmente pensando em resguardar a
voz para os seus grandes discursos que deve pronunciar durante estes próximos
cinco dias. Putzi Hanfstangl, um palhaço, imenso, alto, gordo e incoerente, que
nem sempre deixa de lembrar-nos a sua meia-origem americana e o seu curso de
Harvard, pronunciou o principal discurso do dia na sua qualidade de chefe da
seção de imprensa estrangeira do Partido. A fim de agradar o patrão – é natural
– Putzi teve o descaramento de pedir-nos para “noticiar os acontecimentos
ocorridos na Alemanha, sem interpretá-los”. “Somente a história” – berrou ele –
“poderá julgar as realizações que se estão processando sob o regime de Hitler”.
O que ele pretende, que é o mesmo que pretendem Rosenberg e Goebbels – é que
todos nós embarquemos na canoa da propaganda nazista”. Senti que as palavras de
Putzi caíam no vácuo, ou melhor, nos ouvidos surdos de todos os correspondentes
americanos e ingleses que ali se achavam, os quais, quando de bom humor, o
apreciam bastante apesar de toda a sua estupidez debochada.
Esta noite,
por volta das dez horas, vi-me metido no meio de uma multidão de pelo menos dez
mil pessoas, reunidas defronte do hotel de Hitler e berrando histericamente:
“Queremos o nosso Ferir!” Senti-me um pouco chocado ao observar as fisionomias
dos manifestantes, especialmente das mulheres, quando Hitler apareceu
finalmente – e apenas por um minuto – à sacada do prédio. Fizeram-me lembrar as
expressões de loucura que vi certa vez em Louisiana, estampadas nas faces de
alguns membros de certa seita religiosa. Olhavam para o Führer como se ele
fosse o Messias, com as fisionomias transtornadas por certos traços que,
positivamente, não eram humanos. Tenho a impressão de que, se Hitler ficasse na
sacada mais alguns minutos, muitas daquelas mulheres perderiam os sentidos, de
puro gozo.
Mais tarde
consegui abrir caminho até a recepção do Deutscher Hof. Reconheci logo Julius
Streicher, que aqui chamam de “Czar sem coroa” da Francônia. Em Berlim ele é
mais conhecido como o inimigo número um dos judeus e redator-chefe da folha
antissemita, pornográfica e vulgar Der Stürmer. Tinha a cabeça completamente
raspada a navalha, o que parece aumentar ainda mais os traços de sadismo que
traz na face. Quando andava, brandia sempre um pequeno rebenque que trazia
consigo.
Knick chegou hoje; vai fazer a
reportagem para o I.N.S.; eu, para a Universal.
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Creio que
começo a compreender algumas das razões do extraordinário sucesso de Hitler.
Roubando uma ideia da Igreja Romana, o Führer está restaurando o fausto, as
cores e o misticismo na vida dos alemães do século XX. A sessão de abertura da
manhã de hoje, realizada no Luitpold Hall, nos subúrbios de Nuremberg, foi
muito mais que um espetáculo atraente; teve alguma coisa do misticismo e do
fervor religioso de uma missa de Natal ou Páscoa numa grande catedral gótica.
Todo o salão estava transformado num mar de bandeiras de cores brilhantes. Até
a própria chegada de Hitler foi feita de forma dramática. A música parou de
tocar. Caiu um silêncio de chumbo sobre as trinta mil pessoas que se
aglomeravam no recinto. Então, no meio desse enorme silêncio, a banda rompeu os
acordes da Badenweiler March uma canção de compassos bem marcados que, segundo
me disseram, é usada somente quando o Führer tem que fazer uma de suas grandes
entradas. Hitler apareceu no fundo do auditório seguido pelos seus principais
auxiliares, Göring, Goebbels, Hesse, Himmler e outros; e desceu vagarosamente
pela comprida passagem central, enquanto trinta mil braços se erguiam na
saudação ritual. Disseram-me que se trata de uma particularidade do cerimonial
que nunca deixa de ser observada. Em seguida, uma grande orquestra sinfônica executou
a ouverture do Egmont de Beethoven. Enormes holofotes iluminavam a plataforma
central, onde Hitler se sentou, rodeado por uma centena de altas autoridades do
Partido e de oficiais do Exército e da Marinha. Por trás do grupo, a “bandeira
de sangue”, a mesma que tinha sido conduzida através das ruas de Munique por
ocasião do fracassado Putsch da Cervejaria. E por trás dessa bandeira,
quatrocentos ou quinhentos estandartes da AS. Quando a orquestra executou o
último compasso, Rudolf Hess, o mais íntimo confidente de Hitler, levantou-se o
começou a ler vagarosamente os nomes dos “mártires” nazistas – os
“camisas-pardas” mortos durante a luta pelo poder – uma verdadeira chamada de
mortos, que pareceu comover profundamente as trinta mil pessoas ali reunidas.
Numa
atmosfera como essa, não causa espanto algum que cada uma das palavras
pronunciadas por Hitler assumisse a aparência de uma palavra inspirada, vinda
do alto. A capacidade de crítica dos homens – ou, pelo menos, dos alemães –
desaparece completamente em momentos como esse, em que qualquer mentira
pronunciada é aceita como a encarnação da própria verdade. Foi exatamente
enquanto aquela multidão – composta apenas de autoridades do Partido – se
achava em tal estado, que a proclamação do Führer desceu sobre as suas cabeças.
Mas não foi Hitler quem a leu. Foi Wagner, gauleiter da Baviera, que possui uma
voz e um modo de falar tão parecidos com os do Führer, que muitos
correspondentes estrangeiros que ouviam a irradiação instalados no hotel
pensaram que se tratasse do próprio Hitler.
No tocante à
proclamação, continha afirmações como as que se seguem, todas estrondosamente
aplaudidas pelos assistentes, como se contivessem em si a essência de novas
verdades. “O padrão de vida dos alemães está definitivamente determinado para
os próximos mil anos. Para nós encerrou-se finalmente o nervosismo do século
XIX. Nestes próximos mil anos não haverá mais nenhuma revolução na Alemanha!”
Ou então: “A
Alemanha fez tudo o que estava ao seu alcance para garantir a paz mundial. Se,
um dia, a guerra se abater novamente sobre a Europa, ela surgirá apenas como
uma consequência do caos comunista”. Mais tarde, perante os que assistiam a uma
reunião da Kultur, Hitler acrescentava: “Somente pigmeus imbecis não podem
compreender que a Alemanha tem sido um verdadeiro dique erguido contra as marés
comunistas, capazes de afogar a Europa e sua cultura”.
Hitler
referiu-se ainda à luta que se está travando contra suas tentativas de
nazificação da Igreja Protestante. “Estou-me esforçando para unificá-la. Estou
convencido de que Lutero teria feito o mesmo pensando, acima de tudo, numa
Alemanha unida”.
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Pela primeira
vez, Hitler apresentou hoje publicamente o seu Arbeitsdienst – Corpo dos
Serviços do Trabalho – que nada mais é que uma organização paramilitar
perfeitamente treinada e composta de jovens fanáticos nazistas. Firmes sob o
sol da manhã, que rebrilhava no aço dos seus instrumentos, 50.000 rapazes, dos
quais os primeiros mil se apresentavam com o busto inteiramente nu, levaram os
milhares de espectadores ao máximo do entusiasmo, quando sem que lhes fosse
dado o menor sinal romperam num passo de ganso executado com a maior perfeição.
O passo de ganso sempre me pareceu uma exibição perfeitamente grosseira do ser
humano reduzido ao seu estado de maior indignidade e estupidez; mas, esta
manhã, senti pela primeira vez de que forma ele consegue fazer vibrar uma das
cordas mais íntimas da alma estranha do povo alemão. Espontaneamente, num
arranco único, todos os espectadores se ergueram e aplaudiram calorosamente a
exibição que apreciavam. Mas havia um ritual a ser seguido, até mesmo pelos
rapazes do Serviço do Trabalho. Eles formaram um imenso Sprechchor – um coral –
que, a una você, começou a entoar as seguintes palavras: “Nós queremos um
líder! Nada para nós! Tudo para a Alemanha! Heil Hitler!”
O mais
curioso é que nenhum dos parentes ou amigos dos chefes da SA, como, por
exemplo, do General von Schleicher, tenha atentado contra Hitler, Göring ou
Himmler nesta semana. Muito embora Hitler esteja sempre fortemente guardado
pela SS, é uma tolice supor que ele não possa ser assassinado. Ainda ontem
estivemos conversando sobre o assunto, Pat Murphy, do Daily Express, um
irlandês gorducho, mas engraçado, divertido, Christopher Holmes, da Reuters,
que tem a aparência de um poeta – e talvez o seja, Knick e eu. Estávamos no
quarto de Pat, observando a multidão que se acotovelava lá embaixo, na rua.
Hitler passava de automóvel, entre o povo, de regresso de alguma reunião. E
todos nós concordamos em como seria fácil para qualquer um que se postasse num
quarto como aquele em que estávamos atirar uma bomba sobre o seu automóvel,
descer para a rua correndo e fugir, misturando-se à multidão. Mas a verdade é
que até este momento não se registrou o menos sinal de qualquer tentativa nesse
sentido, embora alguns chefes nazistas estejam ligeiramente apreensivos sobre o
próximo domingo, quando o Führer deve passar em revista as formações da SA.
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Esta noite
tivemos outro grande espetáculo. Duzentos mil funcionários do Partido
reuniram-se na Zeppelin Wiese, com as suas vinte e uma mil bandeiras
desfraldadas sob a luz dos refletores, parecendo uma floresta. “Já somos fortes
e ficaremos mais fortes ainda”, - gritou Hitler pelo microfone, com a voz
levada até os extremos do enorme campo por meio dos inúmeros alto-falantes
distribuídos por toda parte. Ali, naquela noite cheia de luzes, comprimidos uns
contra os outros, como sardinhas numa grande formação em massa, aqueles
homenzinhos da Alemanha que transformaram o nazismo numa realidade alcançaram a
mais alta expressão de vida que o alemão conhece: a comunhão das almas e dos
pensamentos – juntamente com as responsabilidades pessoais, as dúvidas e os
problemas – debaixo daquelas luzes místicas da noite e ao som das palavras
mágicas do austríaco que eles haviam associado tão intimamente ao povo
germânico. Mais tarde, uma parte desses manifestantes – cerca de 15.000 –
conseguiu refazer-se desse ataque de misticismo o suficiente para realizar uma
marche aux flambeaux pelas velhas ruas de Nuremberg, enquanto Hitler recebia a
saudação que lhe prestaram defronte da estação ferroviária, fronteira ao nosso
hotel. Von Papen chegou aqui hoje à noite, permanecendo de pé, sozinho no seu
carro, logo atrás de Hitler – sua primeira aparição em público, acho eu, depois
que escapou por pouco de ser assassinado por Göring, na célebre noite de 30 de
junho. E a verdade é que ele não parecia muito satisfeito.
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Pela primeira
vez desde o seu sangrento expurgo, Hitler enfrentou hoje as formações da SA, as
tropas de choque. No discurso que pronunciou para os 50.000 homens dessa
organização que aqui se reuniram, Hitler os “absolveu” da acusação de terem
participado da “revolta” de Röhm. Havia uma considerável tensão no estádio e
percebi que a guarda pessoal de Hitler, formada por homens da SS, estava
formada em grande número à sua frente, separando-o completamente da enorme
massa dos camisas-pardas. Durante todo o tempo do desfile ficamos pensando se
um daqueles homens iria sacar da pistola e atirar; mas nenhum se atreveu a
tanto. Viktor Lutze, o sucessor de Röhm no comando da SA, também falou. Tem uma
voz áspera e desagradável; e, a meu ver, os rapazes da SA o receberam muito
friamente. Hitler levou alguns dos correspondentes estrangeiros para almoçarem
em sua companhia, esta manhã, mas não fui convidado.
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O Exército
teve hoje o seu dia, exibindo-se numa batalha simulada bastante realista, nos
terrenos do Campo Zeppelin. É difícil exagerar o verdadeiro frenesi que se
apoderou dos 300.000 espectadores alemães ao verem os seus soldados entrarem em
ação. Ouviram depois o troar dos canhões e sentiram o cheiro da pólvora. Julgo
que todos os americanos e ingleses (entre outros) que supuseram que o
militarismo alemão era um simples produto dos Hohenzollerns – de Frederico, o
Grande, a Guilherme II – cometeram um grande erro. Trata-se de algo
profundamente arraigado na alma de todos os alemães. Hoje eles procederam como
se fossem crianças brincando com soldadinhos de chumbo. A Reichswehr “combateu”
apenas com as armas defensivas permitidas pelo Tratado de Versalhes, embora
todos saibam que ela possui tudo mais – tanques, artilharia pesada e
provavelmente até aviões.
MAIS TARDE – Depois de uma semana de
desfiles em passo de ganso, quase contínuos, de discursos e espetáculos
imponentes, o congresso anual do Partido foi encerrado esta noite. E apesar de
exausto e com um princípio bastante pronunciado de fobia pelas multidões, estou
satisfeito por ter vindo a Nuremberg. É preciso comparecer a uma dessas
reuniões para compreender a razão de ser do fascínio de Hitler sobre o povo,
para sentir o dinamismo existente no movimento que ele lançou e a força
disciplinada e coesa que possuem os alemães. E agora – como Hitler declarou
ainda ontem aos correspondentes estrangeiros, explicando-lhes a sua técnica
pessoal – os quinhentos mil homens que aqui estiveram durante uma semana
voltarão para as suas cidades e aldeias e passarão a pregar o novo evangelho
nazista com um fanatismo renovado. Vou dormir até tarde, amanhã, para tomar o
noturno de regresso a Berlim.
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Alugamos um
confortável apartamento-estúdio na Tauenzienstrasse. O proprietário, um
escultor judeu, revelou-nos que está de partida para a Inglaterra, enquanto é
tempo – um homem de muito bom senso. Deixou-nos uma biblioteca magnífica de
livros alemães que, espero, ainda terei tempo de ler. Já estamos um pouco
fartos de viver em apartamentos ou casas mobiliadas pelos outros; mas a vida
errante que levamos torna impossível possuir as nossas próprias coisas. Tivemos
muita sorte de encontrar um lugar como este, modernamente mobiliado e com muito
bom gosto. A maioria das residências de pessoas da classe média que temos visto
em Berlim são mobiliadas com um gosto atroz, literalmente atulhadas de
velharias e coisas imprestáveis.
MAIS TARDE – No meu telefonema habitual
das 8 horas para os escritórios de Paris, disseram-me esta noite que o Rei da
Iugoslávia fora assassinado hoje à tarde em Marselha, e que o Ministro do
Exterior da França, Louis Barthou, ficara seriamente ferido. Berlim não se
sentirá muito desapontada com a notícia, uma vez que o Rei Alexandre parecia
disposto a trabalhar mais intimamente ligado com o bloco francês, contra a
Alemanha, ao mesmo tempo que Barthou vinha realizando um bom trabalho no
fortalecimento das alianças francesas na Europa Oriental, tentando levar a
Rússia a participar de um Locarno no Oriente europeu.
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Todos estes
últimos dias têm sido fracos em notícias. Estive fazendo uma reportagem sobre a
luta que se trava na Igreja Protestante. Uma ala dos protestantes parece
mostrar uma resistência maior contra o Gleichschaltung (coordenação) que os
socialistas e comunistas mostraram. Mas acho que Hitler conseguirá dominá-los
ao fim de tudo, impondo gradualmente ao país um pouco do primitivo paganismo
germânico, que os “intelectuais” da classe de Rosenberg estão insuflando.
Compareci
esta noite a um dos Bierabends de Rosenberg, que ele, uma vez por mês, oferece
aos correspondentes e diplomatas estrangeiros. Rosenberg foi um dos mentores
“espirituais” de Hitler, muito embora, tal como a maioria dos que conheci,
deu-me a impressão de ser extraordinariamente incoerente. Aliás, a sua célebre
obra, O Mito do Século XX, que depois de Mein Kampf é o livro que mais se vende
na Alemanha, chocou-me como um autêntico bric-à-brac de contrassensos
históricos. Alguns de seus inimigos como Hanfstangl, por exemplo, dizem que ele
por pouco deixou de ser um bom bolchevista russo, uma vez que se encontrava em
Moscou, como estudante, durante a Revolução; todavia, Rosenberg furtou-se a
isso porque os “camaradas” não tinham confiança na sua pessoa e nunca lhe
dariam um lugar de destaque. Rosenberg fala com um sotaque acentuadamente
báltico, o que torna sobremaneira difícil, para mim, compreender o seu alemão.
Esta noite, convidou o Embaixador Dodd para a sua mesa de honra, o que fez com
que o nosso representante diplomático parecesse grandemente aborrecido. O orador
da noite foi o Ministro da Educação, Bernhard Rust; mas a verdade é que as
minhas ideias estiveram vagabundeando durante todo o tempo em que falou. Rust
não é completamente destituído de uma certa habilidade e está nazificando
inteiramente as escolas. Essa tarefa inclui a adoção de novos textos nazistas
que apresentam uma História falsificada – muitas vezes de forma abjeta.
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Fala-se
muito, em Berlim, que na Alemanha está-se rearmando secretamente, embora se
torne extremamente difícil obter a confirmação definitiva da notícia. Aliás, se
fosse possível consegui-la e enviá-la para o exterior, seria fatal a expulsão
de quem o fizesse, Sir Eric Phipps, o embaixador britânico que eu encontrava
ocasionalmente em Viena quando desempenhava as funções de ministro de seu país
na capital austríaca (ele parece mesmo um dandy húngaro, com uma cara de pau) e
que desde então nunca mais vi, chegou aqui ontem, de regresso de Londres.
Diz-se que pediu as necessárias informações à Wilhelmstrasse sobre esses
rumores.
Fui hoje a
uma loja de artigos baratos da Tauenzienstrasse, onde comprei uma casaca de
aparência perfeitamente cômica, para o baile da imprensa estrangeira, marcado
para sábado próximo no Hotel Adlon. Segundo fui informado, o smoking era pouco para
esse baile.
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O baile
esteve ótimo. Tess estreou um vestido novo e estava linda. Goebbels, Sir Eric
Phipps, François Poncet, Dodd e o General von Reichenau, a coisa mais parecida
com um general nazista que a Reichswehr possui que tem relações muito amigáveis
com a maioria dos correspondentes americanos, estavam entre os presentes.
Esperava-se
também pelo comparecimento de von Neurath mas, segundo ouvi dizer, o ministro
da Wilhelmstrasse sentiu-se contrariado com a distribuição dos lugares – e não
me foi possível encontrá-lo na festa durante toda a noite. Dançamos e bebemos
até quase 3 horas da madrugada, encerrando a festa com um breakfast matinal, de
ovos e presunto, no bar do Adlon.
Na próxima
sequência:
O ano
de 1935


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