domingo

Diários de Guerra


Diário da Berlim


     William L. Shirer - 1934-1941
Diário da Berlim

William L. Shirer

  Prefácio

          Em minha opinião, a maioria dos diários é escrita sem nenhum propósito de algum dia ser publicada. O autor não tem em vista o leitor. São documentos pessoais, íntimos, confidenciais, que constituem uma parte integrante de cada um, sempre muito melhor quando permanece oculta do rude mundo exterior.
          Este diário não pretende pertencer a essa categoria. Para ser exato, foi escrito para o meu prazer pessoal e paz de espírito, mas também – para ser inteiramente franco – com a ideia de que, um dia, a maior parte do que contém viesse a ser publicada, desde que algum editor se arriscasse a tanto. É desnecessário dizer que isso não se deve ao fato de ter suposto, por um segundo sequer, que eu próprio ou a vida que vivi pudéssemos ter a menor importância ou, até mesmo, qualquer interesse particular para o público. A única justificativa que me movia era que a ocasião, bem como a natureza das minhas atividades, fornecia-me uma oportunidade única para anotar, dia a dia, e em primeira mão, a crônica de uma Europa que já agonizava e que, com o passar dos meses e dos anos, deslizava inexoravelmente para o abismo da guerra e da autodestruição.
Assim, exceto ocasionalmente, o assunto deste diário não é de forma alguma o seu autor, e, sim, essa Europa que ele viu, com uma fascinação e um horror cada vez maiores, precipitar-se enlouquecida pela estrada que leva a Armagedom, na segunda metade da década de 30. um único país – a Alemanha – e um único homem – Adolf Hitler – constituíram a causa precípua de toda a derrocada do continente. A maioria dos anos que passei no estrangeiro foram vividos nesse país e nas proximidades desse homem. Foi desse posto privilegiado que vi as democracias europeias titubearem, esboroarem-se, e, com a confiança, o espírito crítico e a vontade inteiramente paralisados, baterem em retirada de um baluarte a outro, até que não mais puderam, com exceção da Grã-Bretanha, permanecer de pé. De dentro dessa cidadela totalitária pude apreciar também a forma pela qual Hitler, agindo com um cinismo, uma brutalidade, uma decisão e uma clareza de vistas e de propósitos que o Velho Mundo não observava desde Napoleão, passou de vitória em vitória, unificando a Alemanha, rearmando-a, destruindo e anexando os seus vizinhos, até fazer do Terceiro Reich o senhor do continente e transformar a maioria dos infelizes povos europeus num grande rebanho de escravos.
Anotei todos esses acontecimentos dia a dia. Infelizmente perderam-se algumas das minhas notas originais; outras, eu próprio as queimei, preferindo destruí-las a arriscá-las, tanto quanto a mim mesmo, a sofrer as amabilidades da Gestapo; e alguns fatos, poucos, que não ousei confiar à escrita, procurei gravá-los indelevelmente na memória para serem recordados em data mais distante e mais segura. No entanto, consegui escamotear a maior parte dos meus apontamentos e cópias de todas as transmissões radiofônicas, antes que fossem censuradas. Onde existiam lapsos, pude preenchê-los livremente com os meus despachos e com as notícias lidas ao microfone. Em alguns casos, vi-me obrigado a reconstituir de memória os acontecimentos do dia, fazendo-o, porém perfeitamente cônscio das falhas de tal método e das exigências da mais estrita honestidade.
Finalmente, uma explicação necessária: os nomes de certas pessoas que ainda se encontram na Alemanha, ou que têm lá os seus parentes, foram por mim convenientemente disfarçados ou estão indicados por uma simples letra, sem qualquer relação com a sua verdadeira identidade. Assim a Gestapo não encontrará nenhuma pista.



Parte I

       Prelúdios da GuerrA


LLORET DE MAR, ESPANHA, 11  1  34


Acabou-se o nosso dinheiro, depois de amanhã preciso voltar ao trabalho. Não tínhamos pensado muito sobre isso. Chegou um telegrama. Uma oferta. Uma oferta má, do Herald, de Paris. Mas uma oferta que nos permitiria enfrentar a situação até que eu conseguisse algo melhor.
Assim termina o melhor, o mais feliz, o mais calmo de todos os anos que vivemos. Foi o nosso “ano de férias” e de descanso, vivido todo ele nesta aldeola de pescadores espanhóis, exatamente como tínhamos sonhado e planejado, magnificamente livres do resto do mundo, dos acontecimentos, dos homens, dos patrões, dos editores, dos parentes e dos amigos. Um ano que não devia ter acabado, pois, se os 1.000 dólares que economizamos não tiverem passado a 600 com a queda do dólar, poderíamos muito bem prolongá-los por mais algum tempo, até que aparecesse um emprego melhor. Penso que foi uma boa época para descanso. Recuperei a saúde perdida na Índia e no Afeganistão em 1930 / 1931, onde fora atacado de malária e de desinteria. Curei-me também do choque decorrente do acidente de esqui que sofri nos Alpes no inverno de 1932, que durante algum tempo ameaçou deixar-me completamente cego, mas que, felizmente, acabou estragando apenas uma vista.
O ano que passou – 1933 – talvez não tenha sido de simples transição tanto para nós, pessoalmente, como também para toda a Europa e América. O que Roosevelt está realizando nos Estados Unidos parece cheirar a uma revolução social e econômica. Hitler e os seus nazistas já se encontram no poder há exatamente um ano, na Alemanha; e os nossos amigos de Viena escrevem-nos dizendo que o fascismo, tanto o local, sujeito a influências burocráticas, como o do tipo de Berlim, está ganhando terreno na Áustria com muita rapidez. Aqui na Espanha a Revolução tem andado bastante séria e o governo direitista de Gil Robles e Alexandre Lerroux parece inclinado a seguir dois caminhos: restaurar a monarquia ou criar um Estado fascista nos moldes da Itália – talvez as duas coisas. A Paris onde cheguei em 1925, e que amei logo com a ternura de meus vinte e um anos como se pode amar uma mulher, já de há muito que não é a Paris que encontrarei depois de amanhã – e não tenho nenhuma ilusão sobre isso. Até parece que o mundo para onde vamos voltar é um mundo inteiramente diverso daquele que deixamos há um ano, quando encaixotamos os nossos livros e as nossas roupas em Viena e partimos para a Espanha.
Descobrimos Lloret de Mar, quando passeávamos pela costa, saídos de Barcelona. Fica a oito quilômetros da estrada de ferro, metido na meia-lua de uma larga praia arenosa, cavada nos contrafortes dos  XXX Pirineus. Tess apaixonou-se instantaneamente pelo lugar. Eu também. Encontramos uma casa mobiliada, na praia – uma casa de três andares, dez quartos, dois banheiros e aquecimento central. Quando o proprietário declarou que o aluguel era de quinze dólares por mês, pagamos um ano adiantado. Todas as nossas despesas, inclusive esse aluguel, não têm passado de 60 dólares mensais.
Mas, que fizemos durante esses últimos doze meses? Nada de extraordinário. Nenhuma “grande realização”. Nadamos quatro ou cinco vezes por dia, de abril até o Natal. Subimos e descemos as encostas dos Pirineus que vão até à aldeia e ao mar, passamos por milhares de olivais, por centenas de florestas de sobreiros e pelos muros caiados e frios das casas dos camponeses adiando sempre para amanhã – e para nunca mais – as excursões que pretendíamos fazer aos picos que ficam cobertos de neve desde os primeiros dias do outono até meados da primavera. Lemos alguns dos livros que nunca tínhamos podido folhear, no tempo em que era preciso enviar um despacho telegráfico todas as noites, passando de uma capital para a outra – de Paris a Londres até Délhi. De minha parte li: um pouco de história, alguma filosofia e a Decadência do Ocidente, de Spengler; a História da revolução Russa, de Trotsky; Guerra e Paz, de Tolstói; Voyage ou Bout de la Nuit, de Céline, a mais original de todas as novelas francesas publicadas depois da guerra e tudo, ou quase tudo, de Wells, Shaw, Ellis, Beard, Hemingway, Dos Passos e Dreiser. Alguns amigos vieram passar férias conosco: os Jay Allens, Russell e Pat Strauss e Luis Quintanilla, um dos mais promissores talentos entre os jovens pintores espanhóis, republicano vermelho. Andrés Segóvia, nosso vizinho, vinha ver-nos todas as noites para conversar ou executar Bach e Albeniz na sua guitarra.
Durante este ano, tivemos muito tempo para nos conhecer mutuamente, para discutir e gracejar, comer e beber, assistir às corridas de touro durante a tarde e apreciar divertido o Bairro Chinês de Barcelona à noite; tempo bastante para apreciar as cores, o verde-escuro das colinas, os incomparáveis azuis das águas do Mediterrâneo na primavera, e o céu profundo, sombrio, cinza-claro, sempre estendido sobre Madri; tempo suficiente para conhecer o camponês, o trabalhador e os pescadores da Espanha, homens dignos e íntegros, apesar de sua vida miserável, quase faminta; folga bastante para visitar os museus do Prado e de Toledo, com alguns minutos dedicados ao Greco, cujas formas fugidias e opulento jogo de cores nos deixaram maravilhados e fizeram com que todos os quadros da Renascença que tínhamos visto na Itália, mesmo os Da Vinci, os Rafael, os Ticiano e os Botticelli, parecessem pálidos e anêmicos.
Foi um ano magnífico.

PARIS    7   2   34

Ainda um pouco fatigado das canseiras da noite passada. Ontem, por volta das cinco da tarde, estava na redação do Herald tamborilando os dedos sobre a mesa e calculando se devia ou não descer até a Câmara, onde o novo Primeiro-Ministro, Edouard Daladier, devia ler a sua declaração ministerial, quando nos chegou a notícia de que havia um tumulto na Place de la Concorde. Pulei num táxi e fui ver o que havia. Não vi nada demais. Alguns realistas – “Camelots du Roi”, “Jeunesses Patriotes” do deputado Pierre Taittinger e desordeiros da “Solidarité Française” do perfumista François Coty, e todos da ala extrema da juventude direitista, ou malfeitores – tinham tentado invadir a Câmara, mas foram dispersados pela polícia. A Place estava perfeitamente normal. Telefonei para a redação do Herald, mas Eric Hawkins, o redator-chefe, aconselhou-me a comer qualquer coisa pelas redondezas e dar uma vista de olhos no local, um pouco mais tarde. Por volta de 7 da noite, voltei à Place de la Concorde. Alguma coisa anormal estava acontecendo. Homens da Garde Mobile, a cavalo e com os seus capacetes de aço, esvaziavam a praça. Nas proximidades do obelisco, plantado no centro da Concorde, um ônibus estava em chamas.
Abri caminho pelo meio dos Gardes Mobiles, que brandiam os seus sabres, e dirigi-me para os lados das Tulherias. Uma multidão de milhares de pessoas comprimia-se sobre o terraço; metendo-me entre elas pude verificar, pouco depois, que não eram fascistas e sim comunistas. Quando a polícia tentou desalojá-los dela, receberam a Garde Mobile com uma verdadeira barragem de pedras e de tijolos. No meio da ponte, que da Place vai ter à Câmara dos Deputados, atravessando o Sena, encontrei um grande contingente de guardas empunhando fuzis, apoiados pela polícia e uma brigada de bombeiros. Dois ou três pequenos grupos tentaram avançar sobre a ponte, vindos do cais do Louvre; mas os jatos de duas mangueiras foram suficientes para dispersá-los. Por volta de 8 horas da noite, cerca de dois mil veteranos de guerra, a U.N.C. – Union Nationale dês Combattants[1], - desfilaram pela Place de la Concorde, vindos do Rond-Point e descendo a Avenida dos Campos Elísios. Marchavam em perfeita ordem, precedidos de inúmeras bandeiras tricolores. Ao chegarem à entrada da ponte, a polícia fê-los parar e seus chefes puseram-se a parlamentar com os oficiais. Dirigi-me para o Hotel Crillon e subi ao balcão do terceiro andar, que dá para a praça. Já estava cheio de curiosos. Não nos foi possível ouvir os primeiros tiros. Somente nos apercebemos da fuzilaria quando uma senhora que estava a poucos metros caiu bruscamente ao chão, a testa varada por uma bala. A senhora estava junto de Melvin Whiteleather, da Associated Press. Agora podíamos ouvir distintamente o tiroteio, vindo da ponte e do outro lado do Sena. Aparentemente, os que atiravam estavam usando fuzis automáticos. A reação da população levou-a a invadir a Concorde. Dentro em pouco, a praça estava pontilhada pelos incêndios. À esquerda, rolos de fumo saíam do Ministério da Marinha. As mangueiras entraram em cena, mas o povo conseguiu aproximar-se o suficiente para cortá-las. Desci ao hall do Hotel para telefonar à redação. Tinham sido conduzidos para ali vários feridos, que recebiam os primeiros socorros.
O tiroteio continuou até quase meia-noite, quando a Grande Mobile conseguiu dominar a situação. Várias vezes a Place de la Concorde mudou de mãos, mas por volta das 24 horas a polícia estava senhora do campo de luta. A certa altura – talvez por volta das 10 horas – a multidão, que já estava exasperada mas que se ressentia de falta de direção, tentou tomar a ponte de assalto, alguns avançando pelo cais, cujas árvores ofereciam considerável proteção, enquanto outros corriam desesperados pelo meio da Place. “Se conseguirem atravessar a ponte” – pensei – “matarão todos os deputados que encontrarem na Câmara”. Mas uma fuzilaria mortal – que desta vez parecia partir de metralhadoras – fê-los parar minutos depois, e os assaltantes fugiram em todas as direções.
Um pouco mais e ouviam-se apenas disparos esparsos; dez minutos mais tarde, comecei a subir a Avenida dos Campos Elísios em direção ao jornal, onde ia escrever a minha crônica. Nas proximidades do Palácio Presidencial encontrei várias companhias de tropas regulares de prontidão, as primeiras que via. Entre o lugar em que me achava e a redação do Herald medeia uma distância de quase dois quilômetros, subindo pelos Campos Elísios; assim, cheguei à redação quase sem fôlego, mas ainda a tempo de escrever duas colunas para o jornal, antes de fechar. Relação oficial do dia: dezesseis mortos e centenas de feridos.
MAIS TARDE – Daladier, que se fazia passar por “homem forte”, pediu demissão. Ao fazê-lo, divulgou a seguinte declaração: “O governo, responsável pela manutenção da ordem e da segurança do país, recusa-se a mantê-las por medidas excepcionais, capazes de provocar novo derramamento de sangue. O governo não deseja empregar os militares contra manifestantes. Assim, depus em mãos do Presidente da República o pedido de demissão coletiva do Gabinete”.
Imagine-se um Stálin, um Mussolini ou um Hitler, hesitando em empregar as tropas contra a população que tentasse derrubar os respectivos regimes! É possível que, na realidade, os distúrbios da noite de ontem tivessem as duas causas no escândalo Stavisky. Mas esse affaire serviu apenas para mostrar a podridão e a fraqueza da democracia francesa. Daladier e o seu Ministro do Interior, Eugéne Frot, deram à U.N.C. a necessária licença para realizar a sua manifestação. Deviam tê-la recusado. Deviam dispor de um número suficiente de Grandes Mobiles, às primeiras horas da tarde, a fim de dispersar a multidão antes que esta pudesse fortalecer-se. Mas demitir-se agora, depois de sufocar um golpe fascista, como foi o de ontem, deve ser um gesto de absoluta covardia ou estupidez. Outra particularidade importante é que, ontem à noite, os comunistas lutaram na mesma barricada, lado a lado com os fascistas. Não gosto nada disso.

PARIS    8  2  34

O “velho” Doumergue vai chefiar o governo de “união nacional”. Foram buscá-lo em sua aldeia de Tourne Feuille, para onde se havia retirado em companhia da amante, com a qual se casou, logo após ter deixado a Presidência. Doumergue anunciou que pretende formar um Gabinete composto de antigos ministros e chefes de partidos políticos, mas um governo direitista e reacionário. Além disso, os esquerdistas moderados – como Chautemps, Daladier, Herroit – mostraram que não podem ou não querem governar a França.

PARIS     12  2  1934

Houve hoje uma greve geral, mas sem grande eficiência; ademais, não se registrou nenhum conflito.
MAIS TARDE – Dollfuss rompeu com os social-democratas, na Áustria, o único agrupamento organizado (quarenta por cento da população) que pode impedir sua derrota para os nazistas. As comunicações com Viena estiveram suspensas a maior parte do dia; mas esta noite começamos a receber os primeiros detalhes na redação. É a guerra civil. Os socialistas estão entrincheirados nos grandes edifícios municipais, que construíram depois da guerra – verdadeiros modelos para o mundo – o Karl Marx Hof, o Goethe Hof e outros. Mas Dollfuss e a Heimwehr, comandada pelo Príncipe Starhemberg, um playboy ignorante, e pelo Major Fey, um revolucionário de face quadrada e brutal, têm o controle do resto da cidade. Vencerão com o auxílio de seus tanques e da sua artilharia – a menos que os socialistas recebam auxílio dos tchecos, vindos de Bratislava, que fica próxima a Viena.
Isso, aliás, é o que o Major Fey deu a entender ainda ontem. Senti-me chocado pelo texto do seu discurso, que a Havas distribuiu durante a noite passada: “No decorrer destes últimos dias deixei bem claro que o Chanceler Dollfuss é um homem da Heimwehr. Amanhã começaremos a fazer uma limpeza em regra na Áustria!” Mas, pus de parte essas palavras, levando-as à conta de suas fanfarronices habituais. E que papel para o pequeno Dollfuss! Faz agora um pouco mais de um ano que eu, John Gunther e Eric Gedye tivemos uma longa palestra com o Chanceler austríaco, logo após o almoço que lhe foi oferecido pelo Clube Anglo-Americano de Imprensa. Julguei-o então um homenzinho tímido, ainda surpreso de que ele, o filho ilegítimo de um camponês, tivesse ido tão longe. Mas deem aos homenzinhos um pouco de poder e eles se tornarão perigosos. Lamento a sorte de meus amigos social-democratas, as criaturas mais decentes – homens e mulheres – que conheci na Europa. Fico a pensar quantos deles estarão sendo assassinados esta noite. E lá se vai a democracia na Áustria; um Estado a mais que desaparece. Permaneci na redação até que o jornal começou a rodar, à uma e meia da madrugada; e estou demasiadamente triste e deprimido pelas notícias do dia para poder dormir.

PARIS    15  2  34

Os telegramas anunciam que a luta em Viena terminou hoje. Dollfuss acabou com os últimos trabalhadores e descargas de artilharia, indo rezar logo em seguida. Muito bem! Pelo menos, os social-democratas austríacos souberam lutar, fazendo um pouco mais que os seus camaradas alemães. Aparentemente, Otto Bauer e Julius Deutsch conseguiram pôr-se a salvo, atravessando a fronteira para a Tcheco-Eslováquia. Foi uma boa ideia, do contrário Dollfuss os teria enforcado.

PARIS    23  2  34

Hoje é o meu aniversário. Trinta anos. E tenho o pior emprego de toda a minha vida. Tess preparou um grande jantar de aniversário, depois do qual fomos a um concerto. Mas, como os franceses deixassem de ler L’Intransigeant ou o Paris Soir durante o concerto, tocariam muito melhor. Preciso assistir ao Coriolanus de Shakespeare na Comédie Française, que os esquerdistas acusam de possuir algumas tiradas antidemocráticas. Disseram-me hoje que Dollfuss mandou enforcar Koloman Wallisch, o prefeito social-democrata de Bruck na der Mur. Claude Cockburn, que devia estar informado, surgiu há dias pelas páginas do Week com uma narrativa absurda dos distúrbios do dia 6, descrevendo-os como um protesto das “classes trabalhadoras”. É curioso notar que a descrição que fez dos acontecimentos daquela noite tem uma grande semelhança com o que Trotsky escreveu sobre a revolta de Petrogrado, em 1917, na sua História da Revolução Russa. A verdade é que o 6 de fevereiro constituiu apenas uma tentativa fascista para um golpe de estado que os comunistas, voluntariamente ou não, auxiliaram.

PARIS     30  6  34

Todas as comunicações com Berlim foram suspensas hoje, durante várias horas. No entanto, à tardinha, ficaram restabelecidas as linhas telegráficas. E que noticiário! Hitler e Göring levaram avante um “expurgo” da S.A. (tropas de choque), fuzilando a maioria dos seus chefes. O Capitão Röhm, preso pelo próprio Hitler, teve permissão para suicidar-se numa das prisões de Munique, segundo anunciou uma agência telegráfica. Os franceses estão satisfeitos. Supõem que isto seja o princípio do fim dos nazistas. Gostaria de conseguir um lugar em Berlim. É uma reportagem que eu gostaria de fazer.

PARIS      14  7  34

Minha irmã veio ver-nos; os três juntos festejamos à noite a Queda da Bastilha. Levamo-na em nossa companhia pelos cafés da cidade, para que apreciasse o povo dançar. Tarde da noite entramos no Café Flore, onde apresentei minha irmã a alguns elementos do Quartier Latin. Alex Small estava num de seus grandes dias. Quando começou a contar mais uma vez a parte que desempenhara na Batalha de Verdun, julguei mais prudente retirar-me com toda a família – durante anos ouvi a mesma história inúmeras vezes.
Sabe-se que agora o “expurgo” de Hitler foi muito mais violento de que a princípio se supunha. Röhm não se suicidou: foi fuzilado por ordem de Hitler. As outras vítimas foram: Heines, o conhecido líder nazista da Silésia; o Dr. Erick Klausner, líder da “Ação Católica” na Alemanha; Fritz von Bose e Edgar Jung, dois dos secretários de von Papen – que escapou por pouco; Gregor Strasser, o homem mais importante dentro do Partido Nazista, depois de Hitler, e o General von Schleicher e senhora, estes dois assassinados a sangue-frio. Vejo que von Kahr também está na lista; foi ele que liquidou o Putsch da Cervejaria em 1923. Assim Hitler se vingou pessoalmente dos seus inimigos. Ainda ontem, sexta-feira 13, Hitler confessou-o ao declarar perante o Reichstag: “Durante estas últimas vinte e quatro horas o Supremo Tribunal do povo alemão teve apenas um membro – eu próprio!” Os deputados ergueram-se das cadeiras e aplaudiram o Führer. Os homens já tinham esquecido quase completamente a grande dose de sadismo e masoquismo que existe em estado latente na alma do povo alemão.

PARIS   25  7  34

Dollfuss desapareceu assassinado pelos nazistas, que hoje assumiram o controle do edifício da Chancelaria e da emissora de Viena. No entanto, o golpe fracassou e Miklas e o Dr. Schuschnigg conseguiram dominar a situação. Pessoalmente, não aprecio os assassinatos – e, menos que todos, os assassinatos nazistas. Mas não posso lamentar a sorte de Dollfuss depois da chacina que cometeu, a sangue-frio, contra os social-democratas, em fevereiro último. Segundo anunciam os telegramas, o Major Fey parece ter desempenhado um papel bem curioso. Estava na Chancelaria, em companhia de Dollfuss, dirigia-se para a sacada, para chamar Rintelen, que os nazistas haviam escolhido como seu primeiro chanceler. Julgou, aparentemente, que o golpe nazista vencera e estava pronto para aderir. Um canalha, esse Fey.

PARIS    2  8  34

Hindenburg faleceu esta manhã. Agora, quem será o Presidente? Que fará Hitler?

PARIS   3  8  34

Hitler fez o que ninguém esperava. Nomeou-se “Presidente e Chanceler”. Todas as dúvidas existentes sobre a lealdade do Exército foram extirpadas ainda antes que o corpo do velho marechal esfriasse. Hitler obrigou o Exército a jurar-lhe obediência incondicional. O homem é cheio de recursos.

PARIS   9  8  34

Dosch-Fleurot telefonou-me de Berlim para a redação esta tarde, e ofereceu-me um lugar no Universal Service, na capital do Reich. Respondi-lhe imediatamente que sim, combinamos a questão do ordenado e ele ficou de dar-me a resposta definitiva depois de consultar Nova York.

PARIS   11 8  34

Larry Hills, gerente do Herald, ficou danado, hoje à tarde, ao saber da minha saída; por fim dominou o seu temperamento irritado e acabamos indo juntos para o bar do Hotel Califórnia, onde tomamos um drinque. Agora preciso recordar meu alemão.

BERLIM   25  8  34

Muito provavelmente nosso primeiro contato com o Terceiro Reich, de Adolf Hitler, esta noite, foi um caso típico. Tomando o expresso diurno de Paris, para gozarmos um pouco da paisagem, chegamos à Friedrichstrasse Bahahof de Berlim por volta das dez da noite. As duas primeiras pessoas que nos receberam à plataforma foram dois agentes da polícia secreta. Esperávamos encontrar a Gestapo, mais cedo ou mais tarde – mais nunca tão depressa assim. Dois homens fardados apoderaram-se de mim, ao descer do trem, levaram-me a uma certa distância e perguntaram-me se eu era Herr Fulano de Tal – foi-me impossível perceber o nome que pronunciavam. Disse-lhes que não. Um deles continuou a fazer-me perguntas e mais perguntas, até que lhe mostrei o meu passaporte. Foi examinado durante vários minutos, após o que, olhando-me com ares desconfiados, murmurou: - “Então... o senhor não é Herr Fulano de Tal... é Herr Shirer”. – “Em pessoa,” – respondi, - “tal como pode verificar pelo passaporte”. Encarou-me com um último olhar de desconfiança, piscou para o companheiro, fez uma continência enérgica e partiu. Tess e eu fomos para o Hotel Continental, onde alugamos um aposento enorme. Amanhã começa para mim um novo capítulo.

BERLIM   26  8  34

Knickerbocker revelou-me que Dorothy Thompson partira ontem da estação de Friedrichstrasse pouco antes da nossa chegada. Deram-lhe vinte e quatro horas para sair do país – aparentemente por obra de Putzi Hanfstangl, que não pôde perdoá-la pelo livro Eu Vi Hitler, uma crítica muito pouco favorável ao homem. Aliás, a posição do próprio Knickerbocker em Berlim é precária, talvez em consequência de alguns dos seus artigos passados e presentes. Goebbels, que o apreciava, deixou-o de lado. Knick pretende encontrar-se com Hearst, em Bad Nauheim, dentro de um dia ou dois, para discutir o assunto.

BERLIM   2  9  34

Estou na maior depressão. Nada mais resta da Berlim da República de Weimar, com seu ar livre, emancipado, civilizado, cheia de moças de nariz chato e cabelos curtos e encaracolados, e de rapazes de cabelos compridos ou cortados à escovinha – o que não fazia a menor diferença – que passavam a noite inteira sentados ao nosso lado, discutindo todos os assuntos com interesse e inteligência. Os constantes Heil Hitler, o bater de calcanhares e as tropas de choque, metidas em seus uniformes cinzentos, ou as formações da SS uniformizadas de negro, marchando pelas ruas de baixo para cima, mexem-me com os nervos, embora os veteranos me expliquem que desde o expurgo já não se veem tantos deles como antigamente. Gillie, o antigo correspondente do Morning Post em Berlim, atualmente destacado em Paris, está passando por aqui parte de suas férias – por simples espírito de perversidade. Fizemos vários passeios juntos, e por duas vezes fomos obrigados a entrar apressadamente numa loja, tanto para não sermos forçados a levantar o braço em saudação à bandeira de uma formação da SA ou SS, que passava no momento, como também para não termos que enfrentar a perspectiva de uma surra pela nossa recusa em proceder dessa forma. Anteontem, Gillie levou-me para almoçar em sua companhia em um restaurante da parte baixa de Friedrichstrasse. No regresso, apontou para um edifício onde apenas um ano antes e por dias intermináveis – segundo narrou – se podiam ouvir os gemidos dos judeus que estavam sendo torturados. Reparei no letreiro. Naquele prédio ainda funcionava o quartel-general de um dos batalhões da SA.
Tess procurou reconfortar-me, levando-me ontem ao Jardim Zoológico. O dia estava lindo e quente; depois de apreciar os macacos e os elefantes do Soo, fomos almoçar no terraço coberto do restaurante que ali existe.
Estive com o nosso embaixador, o professor William E. Dodd. Encontrei nele um homem franco, honesto, liberal. Possuidor dessa espécie de integridade pessoal que se faz necessária num embaixador dos Estados Unidos na capital nazista. Pareceu um pouco contrariado quando afirmei que não senti a morte de Dollfuss, e talvez tenha interpretado minhas palavras com um indício de simpatia pelos nazistas. Mas espero que tal não se tenha dado. Falei também ao conselheiro da Embaixada, J. C. White, que me pareceu pertencer ao mais formalizado de todos os tipos de diplomatas de carreira do Departamento de Estado. Imediatamente depois, enviou-me os seus cartões do hotel, cartões lindamente dobrados nas pontas, mas como não entendo dessas sutilezas diplomáticas de cartões com pontas dobradas, não sei o que fazer com eles. Depois de amanhã vou fazer a reportagem do congresso anual do Partido Nazista, em Nuremberg. Isso deve proporcionar-me a oportunidade de ser apresentado à Alemanha nazista.


NUREMBERG   4  9  34

Tal como um autêntico imperador romano, Hitler fez sua entrada nesta cidade medieval, ao cair da tarde de hoje, atravessando as compactas falanges nazistas que o aclamavam freneticamente, enchendo literalmente as ruas estreitas que um dia viram Hans Sachs e os Meistersinger  (Mestres Cantores). Dezenas de milhares de bandeiras com a cruz suástica cobriam por inteiro os primores de arquitetura gótica de que está cheia a cidade, tapando as fachadas e os tetos pontiagudos dos edifícios centenários. As ruas estreitíssimas estão transformadas num verdadeiro oceano de uniformes cinzentos e negros. A primeira vez que vi Hitler foi quando ele passou pelo nosso hotel, o Wüttemberger Hof, a caminho do Deutscher Hof, o velho hotel que era o seu favorito, agora completamente remodelado para recebê-lo. De pé no automóvel, Hitler erguia o boné com a mão esquerda, respondendo aos aplausos delirantes da multidão com um outro erguer de braço direito, na saudação nazista. Envergava uma capa de gabardina bastante usada e sua fisionomia não denotava nenhuma expressão particular – eu esperava que possuísse uma face impressionante, de linhas mais fortes – mas nunca poderei compreender, enquanto viver, que espécie de fluidos ocultos ele indiscutivelmente espalhava entre a multidão histérica que o aclamavam com tamanho furor. Hitler não aparece perante a multidão com aquela imponência teatral que eu vira Mussolini empregar. Fiquei satisfeito ao verificar que ele não atirava o queixo para a frente e a cabeça para trás, como o Duce, nem tornava o olhar esgazeado, embora possua algo de vítreo nos olhos, o mais forte de todos os seus traços fisionômicos. Ao contrário, parecia que Hitler procurava afetar modéstia em toda a sua pessoa. Mas duvido de sua sinceridade.
Esta tarde, na velha e magnífica Rathaus, Hitler inaugurou oficialmente o quarto congresso do Partido. Falou apenas três minutos, provavelmente pensando em resguardar a voz para os seus grandes discursos que deve pronunciar durante estes próximos cinco dias. Putzi Hanfstangl, um palhaço, imenso, alto, gordo e incoerente, que nem sempre deixa de lembrar-nos a sua meia-origem americana e o seu curso de Harvard, pronunciou o principal discurso do dia na sua qualidade de chefe da seção de imprensa estrangeira do Partido. A fim de agradar o patrão – é natural – Putzi teve o descaramento de pedir-nos para “noticiar os acontecimentos ocorridos na Alemanha, sem interpretá-los”. “Somente a história” – berrou ele – “poderá julgar as realizações que se estão processando sob o regime de Hitler”. O que ele pretende, que é o mesmo que pretendem Rosenberg e Goebbels – é que todos nós embarquemos na canoa da propaganda nazista”. Senti que as palavras de Putzi caíam no vácuo, ou melhor, nos ouvidos surdos de todos os correspondentes americanos e ingleses que ali se achavam, os quais, quando de bom humor, o apreciam bastante apesar de toda a sua estupidez debochada.
Esta noite, por volta das dez horas, vi-me metido no meio de uma multidão de pelo menos dez mil pessoas, reunidas defronte do hotel de Hitler e berrando histericamente: “Queremos o nosso Ferir!” Senti-me um pouco chocado ao observar as fisionomias dos manifestantes, especialmente das mulheres, quando Hitler apareceu finalmente – e apenas por um minuto – à sacada do prédio. Fizeram-me lembrar as expressões de loucura que vi certa vez em Louisiana, estampadas nas faces de alguns membros de certa seita religiosa. Olhavam para o Führer como se ele fosse o Messias, com as fisionomias transtornadas por certos traços que, positivamente, não eram humanos. Tenho a impressão de que, se Hitler ficasse na sacada mais alguns minutos, muitas daquelas mulheres perderiam os sentidos, de puro gozo.
Mais tarde consegui abrir caminho até a recepção do Deutscher Hof. Reconheci logo Julius Streicher, que aqui chamam de “Czar sem coroa” da Francônia. Em Berlim ele é mais conhecido como o inimigo número um dos judeus e redator-chefe da folha antissemita, pornográfica e vulgar Der Stürmer. Tinha a cabeça completamente raspada a navalha, o que parece aumentar ainda mais os traços de sadismo que traz na face. Quando andava, brandia sempre um pequeno rebenque que trazia consigo.
Knick chegou hoje; vai fazer a reportagem para o I.N.S.; eu, para a Universal.

NUREMBERG   5  9  34

Creio que começo a compreender algumas das razões do extraordinário sucesso de Hitler. Roubando uma ideia da Igreja Romana, o Führer está restaurando o fausto, as cores e o misticismo na vida dos alemães do século XX. A sessão de abertura da manhã de hoje, realizada no Luitpold Hall, nos subúrbios de Nuremberg, foi muito mais que um espetáculo atraente; teve alguma coisa do misticismo e do fervor religioso de uma missa de Natal ou Páscoa numa grande catedral gótica. Todo o salão estava transformado num mar de bandeiras de cores brilhantes. Até a própria chegada de Hitler foi feita de forma dramática. A música parou de tocar. Caiu um silêncio de chumbo sobre as trinta mil pessoas que se aglomeravam no recinto. Então, no meio desse enorme silêncio, a banda rompeu os acordes da Badenweiler March uma canção de compassos bem marcados que, segundo me disseram, é usada somente quando o Führer tem que fazer uma de suas grandes entradas. Hitler apareceu no fundo do auditório seguido pelos seus principais auxiliares, Göring, Goebbels, Hesse, Himmler e outros; e desceu vagarosamente pela comprida passagem central, enquanto trinta mil braços se erguiam na saudação ritual. Disseram-me que se trata de uma particularidade do cerimonial que nunca deixa de ser observada. Em seguida, uma grande orquestra sinfônica executou a ouverture do Egmont de Beethoven. Enormes holofotes iluminavam a plataforma central, onde Hitler se sentou, rodeado por uma centena de altas autoridades do Partido e de oficiais do Exército e da Marinha. Por trás do grupo, a “bandeira de sangue”, a mesma que tinha sido conduzida através das ruas de Munique por ocasião do fracassado Putsch da Cervejaria. E por trás dessa bandeira, quatrocentos ou quinhentos estandartes da AS. Quando a orquestra executou o último compasso, Rudolf Hess, o mais íntimo confidente de Hitler, levantou-se o começou a ler vagarosamente os nomes dos “mártires” nazistas – os “camisas-pardas” mortos durante a luta pelo poder – uma verdadeira chamada de mortos, que pareceu comover profundamente as trinta mil pessoas ali reunidas.
Numa atmosfera como essa, não causa espanto algum que cada uma das palavras pronunciadas por Hitler assumisse a aparência de uma palavra inspirada, vinda do alto. A capacidade de crítica dos homens – ou, pelo menos, dos alemães – desaparece completamente em momentos como esse, em que qualquer mentira pronunciada é aceita como a encarnação da própria verdade. Foi exatamente enquanto aquela multidão – composta apenas de autoridades do Partido – se achava em tal estado, que a proclamação do Führer desceu sobre as suas cabeças. Mas não foi Hitler quem a leu. Foi Wagner, gauleiter da Baviera, que possui uma voz e um modo de falar tão parecidos com os do Führer, que muitos correspondentes estrangeiros que ouviam a irradiação instalados no hotel pensaram que se tratasse do próprio Hitler.
No tocante à proclamação, continha afirmações como as que se seguem, todas estrondosamente aplaudidas pelos assistentes, como se contivessem em si a essência de novas verdades. “O padrão de vida dos alemães está definitivamente determinado para os próximos mil anos. Para nós encerrou-se finalmente o nervosismo do século XIX. Nestes próximos mil anos não haverá mais nenhuma revolução na Alemanha!”
Ou então: “A Alemanha fez tudo o que estava ao seu alcance para garantir a paz mundial. Se, um dia, a guerra se abater novamente sobre a Europa, ela surgirá apenas como uma consequência do caos comunista”. Mais tarde, perante os que assistiam a uma reunião da Kultur, Hitler acrescentava: “Somente pigmeus imbecis não podem compreender que a Alemanha tem sido um verdadeiro dique erguido contra as marés comunistas, capazes de afogar a Europa e sua cultura”.
Hitler referiu-se ainda à luta que se está travando contra suas tentativas de nazificação da Igreja Protestante. “Estou-me esforçando para unificá-la. Estou convencido de que Lutero teria feito o mesmo pensando, acima de tudo, numa Alemanha unida”.

NUREMBERG   6  9  34

Pela primeira vez, Hitler apresentou hoje publicamente o seu Arbeitsdienst – Corpo dos Serviços do Trabalho – que nada mais é que uma organização paramilitar perfeitamente treinada e composta de jovens fanáticos nazistas. Firmes sob o sol da manhã, que rebrilhava no aço dos seus instrumentos, 50.000 rapazes, dos quais os primeiros mil se apresentavam com o busto inteiramente nu, levaram os milhares de espectadores ao máximo do entusiasmo, quando sem que lhes fosse dado o menor sinal romperam num passo de ganso executado com a maior perfeição. O passo de ganso sempre me pareceu uma exibição perfeitamente grosseira do ser humano reduzido ao seu estado de maior indignidade e estupidez; mas, esta manhã, senti pela primeira vez de que forma ele consegue fazer vibrar uma das cordas mais íntimas da alma estranha do povo alemão. Espontaneamente, num arranco único, todos os espectadores se ergueram e aplaudiram calorosamente a exibição que apreciavam. Mas havia um ritual a ser seguido, até mesmo pelos rapazes do Serviço do Trabalho. Eles formaram um imenso Sprechchor – um coral – que, a una você, começou a entoar as seguintes palavras: “Nós queremos um líder! Nada para nós! Tudo para a Alemanha! Heil Hitler!”
O mais curioso é que nenhum dos parentes ou amigos dos chefes da SA, como, por exemplo, do General von Schleicher, tenha atentado contra Hitler, Göring ou Himmler nesta semana. Muito embora Hitler esteja sempre fortemente guardado pela SS, é uma tolice supor que ele não possa ser assassinado. Ainda ontem estivemos conversando sobre o assunto, Pat Murphy, do Daily Express, um irlandês gorducho, mas engraçado, divertido, Christopher Holmes, da Reuters, que tem a aparência de um poeta – e talvez o seja, Knick e eu. Estávamos no quarto de Pat, observando a multidão que se acotovelava lá embaixo, na rua. Hitler passava de automóvel, entre o povo, de regresso de alguma reunião. E todos nós concordamos em como seria fácil para qualquer um que se postasse num quarto como aquele em que estávamos atirar uma bomba sobre o seu automóvel, descer para a rua correndo e fugir, misturando-se à multidão. Mas a verdade é que até este momento não se registrou o menos sinal de qualquer tentativa nesse sentido, embora alguns chefes nazistas estejam ligeiramente apreensivos sobre o próximo domingo, quando o Führer deve passar em revista as formações da SA.

NUREMBERG   7  9  34

Esta noite tivemos outro grande espetáculo. Duzentos mil funcionários do Partido reuniram-se na Zeppelin Wiese, com as suas vinte e uma mil bandeiras desfraldadas sob a luz dos refletores, parecendo uma floresta. “Já somos fortes e ficaremos mais fortes ainda”, - gritou Hitler pelo microfone, com a voz levada até os extremos do enorme campo por meio dos inúmeros alto-falantes distribuídos por toda parte. Ali, naquela noite cheia de luzes, comprimidos uns contra os outros, como sardinhas numa grande formação em massa, aqueles homenzinhos da Alemanha que transformaram o nazismo numa realidade alcançaram a mais alta expressão de vida que o alemão conhece: a comunhão das almas e dos pensamentos – juntamente com as responsabilidades pessoais, as dúvidas e os problemas – debaixo daquelas luzes místicas da noite e ao som das palavras mágicas do austríaco que eles haviam associado tão intimamente ao povo germânico. Mais tarde, uma parte desses manifestantes – cerca de 15.000 – conseguiu refazer-se desse ataque de misticismo o suficiente para realizar uma marche aux flambeaux pelas velhas ruas de Nuremberg, enquanto Hitler recebia a saudação que lhe prestaram defronte da estação ferroviária, fronteira ao nosso hotel. Von Papen chegou aqui hoje à noite, permanecendo de pé, sozinho no seu carro, logo atrás de Hitler – sua primeira aparição em público, acho eu, depois que escapou por pouco de ser assassinado por Göring, na célebre noite de 30 de junho. E a verdade é que ele não parecia muito satisfeito.

NUREMBERG   9  9  34

Pela primeira vez desde o seu sangrento expurgo, Hitler enfrentou hoje as formações da SA, as tropas de choque. No discurso que pronunciou para os 50.000 homens dessa organização que aqui se reuniram, Hitler os “absolveu” da acusação de terem participado da “revolta” de Röhm. Havia uma considerável tensão no estádio e percebi que a guarda pessoal de Hitler, formada por homens da SS, estava formada em grande número à sua frente, separando-o completamente da enorme massa dos camisas-pardas. Durante todo o tempo do desfile ficamos pensando se um daqueles homens iria sacar da pistola e atirar; mas nenhum se atreveu a tanto. Viktor Lutze, o sucessor de Röhm no comando da SA, também falou. Tem uma voz áspera e desagradável; e, a meu ver, os rapazes da SA o receberam muito friamente. Hitler levou alguns dos correspondentes estrangeiros para almoçarem em sua companhia, esta manhã, mas não fui convidado.

NUREMBERG   10  9  34

O Exército teve hoje o seu dia, exibindo-se numa batalha simulada bastante realista, nos terrenos do Campo Zeppelin. É difícil exagerar o verdadeiro frenesi que se apoderou dos 300.000 espectadores alemães ao verem os seus soldados entrarem em ação. Ouviram depois o troar dos canhões e sentiram o cheiro da pólvora. Julgo que todos os americanos e ingleses (entre outros) que supuseram que o militarismo alemão era um simples produto dos Hohenzollerns – de Frederico, o Grande, a Guilherme II – cometeram um grande erro. Trata-se de algo profundamente arraigado na alma de todos os alemães. Hoje eles procederam como se fossem crianças brincando com soldadinhos de chumbo. A Reichswehr “combateu” apenas com as armas defensivas permitidas pelo Tratado de Versalhes, embora todos saibam que ela possui tudo mais – tanques, artilharia pesada e provavelmente até aviões.
MAIS TARDE – Depois de uma semana de desfiles em passo de ganso, quase contínuos, de discursos e espetáculos imponentes, o congresso anual do Partido foi encerrado esta noite. E apesar de exausto e com um princípio bastante pronunciado de fobia pelas multidões, estou satisfeito por ter vindo a Nuremberg. É preciso comparecer a uma dessas reuniões para compreender a razão de ser do fascínio de Hitler sobre o povo, para sentir o dinamismo existente no movimento que ele lançou e a força disciplinada e coesa que possuem os alemães. E agora – como Hitler declarou ainda ontem aos correspondentes estrangeiros, explicando-lhes a sua técnica pessoal – os quinhentos mil homens que aqui estiveram durante uma semana voltarão para as suas cidades e aldeias e passarão a pregar o novo evangelho nazista com um fanatismo renovado. Vou dormir até tarde, amanhã, para tomar o noturno de regresso a Berlim.

BERLIM   9  10  34

Alugamos um confortável apartamento-estúdio na Tauenzienstrasse. O proprietário, um escultor judeu, revelou-nos que está de partida para a Inglaterra, enquanto é tempo – um homem de muito bom senso. Deixou-nos uma biblioteca magnífica de livros alemães que, espero, ainda terei tempo de ler. Já estamos um pouco fartos de viver em apartamentos ou casas mobiliadas pelos outros; mas a vida errante que levamos torna impossível possuir as nossas próprias coisas. Tivemos muita sorte de encontrar um lugar como este, modernamente mobiliado e com muito bom gosto. A maioria das residências de pessoas da classe média que temos visto em Berlim são mobiliadas com um gosto atroz, literalmente atulhadas de velharias e coisas imprestáveis.
MAIS TARDE – No meu telefonema habitual das 8 horas para os escritórios de Paris, disseram-me esta noite que o Rei da Iugoslávia fora assassinado hoje à tarde em Marselha, e que o Ministro do Exterior da França, Louis Barthou, ficara seriamente ferido. Berlim não se sentirá muito desapontada com a notícia, uma vez que o Rei Alexandre parecia disposto a trabalhar mais intimamente ligado com o bloco francês, contra a Alemanha, ao mesmo tempo que Barthou vinha realizando um bom trabalho no fortalecimento das alianças francesas na Europa Oriental, tentando levar a Rússia a participar de um Locarno no Oriente europeu.

BERLIM   15  11 34

Todos estes últimos dias têm sido fracos em notícias. Estive fazendo uma reportagem sobre a luta que se trava na Igreja Protestante. Uma ala dos protestantes parece mostrar uma resistência maior contra o Gleichschaltung (coordenação) que os socialistas e comunistas mostraram. Mas acho que Hitler conseguirá dominá-los ao fim de tudo, impondo gradualmente ao país um pouco do primitivo paganismo germânico, que os “intelectuais” da classe de Rosenberg estão insuflando.
Compareci esta noite a um dos Bierabends de Rosenberg, que ele, uma vez por mês, oferece aos correspondentes e diplomatas estrangeiros. Rosenberg foi um dos mentores “espirituais” de Hitler, muito embora, tal como a maioria dos que conheci, deu-me a impressão de ser extraordinariamente incoerente. Aliás, a sua célebre obra, O Mito do Século XX, que depois de Mein Kampf é o livro que mais se vende na Alemanha, chocou-me como um autêntico bric-à-brac de contrassensos históricos. Alguns de seus inimigos como Hanfstangl, por exemplo, dizem que ele por pouco deixou de ser um bom bolchevista russo, uma vez que se encontrava em Moscou, como estudante, durante a Revolução; todavia, Rosenberg furtou-se a isso porque os “camaradas” não tinham confiança na sua pessoa e nunca lhe dariam um lugar de destaque. Rosenberg fala com um sotaque acentuadamente báltico, o que torna sobremaneira difícil, para mim, compreender o seu alemão. Esta noite, convidou o Embaixador Dodd para a sua mesa de honra, o que fez com que o nosso representante diplomático parecesse grandemente aborrecido. O orador da noite foi o Ministro da Educação, Bernhard Rust; mas a verdade é que as minhas ideias estiveram vagabundeando durante todo o tempo em que falou. Rust não é completamente destituído de uma certa habilidade e está nazificando inteiramente as escolas. Essa tarefa inclui a adoção de novos textos nazistas que apresentam uma História falsificada – muitas vezes de forma abjeta.

BERLIM    28  11 34

Fala-se muito, em Berlim, que na Alemanha está-se rearmando secretamente, embora se torne extremamente difícil obter a confirmação definitiva da notícia. Aliás, se fosse possível consegui-la e enviá-la para o exterior, seria fatal a expulsão de quem o fizesse, Sir Eric Phipps, o embaixador britânico que eu encontrava ocasionalmente em Viena quando desempenhava as funções de ministro de seu país na capital austríaca (ele parece mesmo um dandy húngaro, com uma cara de pau) e que desde então nunca mais vi, chegou aqui ontem, de regresso de Londres. Diz-se que pediu as necessárias informações à Wilhelmstrasse sobre esses rumores.
Fui hoje a uma loja de artigos baratos da Tauenzienstrasse, onde comprei uma casaca de aparência perfeitamente cômica, para o baile da imprensa estrangeira, marcado para sábado próximo no Hotel Adlon. Segundo fui informado, o smoking era pouco para esse baile.

BERLIM    2  12  34

O baile esteve ótimo. Tess estreou um vestido novo e estava linda. Goebbels, Sir Eric Phipps, François Poncet, Dodd e o General von Reichenau, a coisa mais parecida com um general nazista que a Reichswehr possui que tem relações muito amigáveis com a maioria dos correspondentes americanos, estavam entre os presentes.
Esperava-se também pelo comparecimento de von Neurath mas, segundo ouvi dizer, o ministro da Wilhelmstrasse sentiu-se contrariado com a distribuição dos lugares – e não me foi possível encontrá-lo na festa durante toda a noite. Dançamos e bebemos até quase 3 horas da madrugada, encerrando a festa com um breakfast matinal, de ovos e presunto, no bar do Adlon.

Na próxima sequência:

O ano de 1935 

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