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Análises

1.   Os cartéis da economia alemã – Mário Pedrosa
2.   As guerras da pax americana – Luiz Gonzaga Belluzzo
3.   Hitler, o mito de Joachim Fest – Ana Maria Dietrich



       Análise
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Os cartéis da economia alemã
Hitler e o “Milagre Alemão”

             Mário Pedrosa
Mário Pedrosa
 A economia alemã estava longe, muito longe, da falência quando o Nazismo assumiu o poder. Uma prova disso é a montanha de dinheiro que o empresariado deu ao Partido nazista entre 1933 e 1945: setecentos milhões de marcos, que hoje valeriam entre 3,5 bilhões e 5,6 bilhões de dólares. A economia alemã, para usar um termo atual, já estava globalizada – e poderosíssima –  uma década antes de Hitler subir as escadas da Chancelaria.
        Na segunda metade dos anos de 1920, as indústrias alemãs já participam de vários cartéis,principalmente associadas a grandes corporações dos EUA, com destaque para o setor químico, um dos segmentos mais poderosos da economia mundial, antes e hoje. A internacionalização do capital alemão foi, de certa forma, uma saída forçada, uma consequência do Tratado de Versalhes, que privou a Alemanha de suas colônias (a Alemanha tinha possessões na África, nos atuais territórios do Camarões, Burundi, Naníbia, Ruanda, Tanzânia e Togo, e portos na China – tudo perdido depois da I Guerra Mundial:

“Excluída de colônias pelo Tratado de Versalhes, a Alemanha(...) contorna o obstáculo mediante inteligente manipulação de patentes, convênio com competidores para a divisão do território (...) ficando a Alemanha com a parte do leão. (...). O sistema de comércio de troca quando os nazistas chegaram ao poder (...) dera à Alemanha mão relativamente livre para instalar (...) vasto e inteligentemente manipulado sistema de distribuição.
“Especialmente eficaz e importante foi essa rede na América do Sul.(...) A Alemanha não teve que lutar pelo mercado da América do Sul. Todo o continente foi entregue aos cartéis alemães pelos homens de negócios americanos. (...). Subitamente tomamos consciência de que economicamente havíamos sido flanqueados e de que tal fato era uma ameaça à nossa segurança militar. A força da garra dos interesses alemães (...) foi demonstrada tanto na Argentina como no Brasil.
        “O que se deve compreender (...) é que a preeminência alemã nos mercados sul-americanosfoi possível somente porque nas organizações americanas concordaram em não competir naquela área. (...) Em quase todos os casos em que a |América do Sul foi reservada pelos convênios de cartéis e monopólios alemães, as subsidiárias e agentes destes constituíram a cunha pela qual esperava (a Alemanha) realizar seus objetivos na guerra próxima, o controle e econômico para furar o bloqueio das exportações alemães e manter, à vista dos países latino-americanos, o fluxo dos bens alemães ali, importante ao prestígio internacional alemão. Daí resultaria a queda da influência inglesa e americana.  (Mário Pedrosa, crítica e ensaísta)
O mesmo Mário Pedrosa, em seu clássico A Opção Imperialista, cita, como exemplo da desempenho da economia alemã antes de Hitler assumir o poder,  a  “cartelização de toda a indústria de anilina no mundo”:
As interconexões mais importantes mais importantesforam feitas entre Dupont a Internationale Gesellschaft fuer Chemische Unternehmungen (subsidiária da I.G. Farben Industrie A.C.), entre I.C.I. e I.G , entre esta e o Cartel Europeu de Anilina e entre todas essas e os interesses do grupo Mitsui no Japão, Pouco depois da formação da I.C.I., representantes da Dupont conduziram conversações de 1927 a 1929 que resultaram  num convênio que afinal importava numa completa aliança da Dupont e d I.C.I., no mundo da indústria química.

Divisão do Mundo                 

“Esse convênio, redigido em frases que lembram as de um grande tratado político, dispunha sobre o intercâmbio de informações sobre todas as invenções secretas ou patenteadas, a troca de licenças exclusivas sobre patentes de um ou de outro grupo e sobre a distribuição dos mercados mundiais. De uma maneira verdadeiramente imperial, o convênio provê que a Dupont terá direitos exclusivos nos países da América do norte e Central, com exceção do Canadá erra Nova e possessões britânicas e que a I.C.I. terá direitos exclusivos dentro do Império Britânico. No caso da Índia, Dupont tinha permissão de continuar com suas atividades, sujeitas porém a futuro acordo. Em 1931, com efeito, Dupont concordava em retirar-se da Índia, deixando todo seu ativo para a I.C.I., recebendo em troca toda a propriedade de uma subsidiária da I.C.I.  nos Estados Unidos, Dyestuffs Corporation of América. O convênio original entre Dupont e I.C.I., de 1929, terminava automaticamente a 3 de junho de 1939, quando novo contra entraria em vigor.” (Mário Pedrosa)
E nem a II Guerra Mundial muda a parceria entre empresários alemães e americanos. Eles continuam dividindo o mundo do jeito que queriam:
        “Quando afinal estourou a guerra entre Grã-Bretanha e a Alemanha, a American I.G. foi reorganizada e lhe mudaram o nome para Aniline & Film Company. A acusação por várias vezes apareceu de que a Aniline & Film Company Co.era de propriedade alemã. A resposta à acusação por parte de seus dirigentes era só uma : era suíça. Mesmo com os países respectivos em guerra, as agências da I.G. espalhadas pelo Império Britânico continuaram a fazer seus negócios. A 19 de setembro de 1939, dezesseis dias depois de que a Alemanha e Inglaterra se encontrarem em estado de guerra, a I.G. telegrafava à Aniline & Film: (...): ”em adição ao Canadá nós nos isentamos das restrições de exportação relativamente aos seguintes países: Grã-Bretanha, Índia britânica, Austrália, Nova Zelândia, mas só pelo presente estado de guerra” (...) e dava, a seguir, os nomes das firmas que devia a organização americana suprir em Manchester, Bombaim, Melbourne e Wellington.  Como as agências da I.G. na Colômbia estavam sentindo os efeitos do bloqueio, a 16 de outubro de 1939 a General Aniline & Film recebia cabograma da I.G., dando-lhe permissão para vender naquele país, mas só através do agente da I.G.Em 28 de janeiro do ano seguinte, ainda a subsidiária americana recebia licença para vender a toda a América latina, na base de uma lista dos agentes da I.G. As vendas só podiam ser feitas através daqueles agentes.” (Texto extraído de A Opção Imperialista – 1966 – Ed. Civilização Brasileira)






As guerras
da pax americana
                                     Luiz Gonzaga Belluzzo
Luiz Gonzaga Belluzzo
Belluzzo: uma nova ordem sob os EUA

                                              Revista Carta Capital – 11 maio 2005
Depois da Segunda Guerra Mundial o complexo industrial militar incorporou-se à dinâmica da economia americana
      Foram formidáveis as transformações ocorridas na geoeconomia do planeta ao longo do século XX. A direção e morfologia dessas mudanças estruturais foram determinadas, em boa medida, pelos efeitos econômicos e sociais das duas guerras mundiais que afetaram, sobretudo, o padrão monetário internacional e a divisão internacional do trabalho.
A Guerra de 1914-18 foi inovadora nos aspectos tecnológico,econômico, social e político, se comparada com os conflitos anteriores. A conflagração não foi apenas mundial, por conta do número de países envolvidos, mas também total: pela primeira vez o chamado "esforço de guerra" comprometeu a quase totalidade dos recursos materiais e humanos das sociedades envolvidas, ou seja, exigiu a mobilização do conjunto das forças produtivas.
Na Primeira Guerra Mundial, o potencial tecnológico e econômico desenvolvido a partir da Segunda Revolução Industrial foi colocado a serviço dos combatentes nos campos de batalha. Essa circunstância representou um salto no poder destrutivo dos armamentos e uma ampliação das vantagens competitivas da indústria norte-americana que, desde o fim do século XIX, vinha liderando, juntamente com a Alemanha, as inovações nos setores químico, metalúrgico, metalmecânico e transportes.
Provedores de material bélico, os Estados Unidos saíram da Primeira Guerra na condição de país credor.O período de entre guerras liquidou de vez a hegemonia inglesa consubstanciada no imperialismo do livre-comércio e no padrão libra-ouro.
As dívidas de guerra converteram rapidamente o padrão-ouro num anacronismo não operacional. Os Estados Unidos assumem a posição dominante em termos econômicos e financeiros e saem do conflito com mais da metade das reservas em ouro mundiais. Nessa condição os americanos se negam a renegociar a dívida dos aliados, transferindo para os banqueiros de Wall Street as negociações.
A década dos 20 foi um período de expansão- embora desequilibrado - para o capitalismo americano, consolidando uma sociedade de consumo de massas (roaring twenties), na Europa, as hiperinflações e os programas de estabilização na Alemanha e na Europa Central, as políticas de stop and go na Inglaterra, a crise econômica no norte da Europa geraram desemprego e tensões sociais.
Na primeira metade dos anos 20, tornou-se impossível restaurar o padrão-ouro, regime monetário que prevaleceu no período anterior à guerra. Os primeiros anos da paz permitiram que se observasse e avaliasse o funcionamento de um sistema de "flutuação livre" das taxas de câmbio. A experiência foi negativa e só aumentou a ansiedade pela restauração de um padrão monetário estável. A volta ao padrão-ouro, particularmente a da libra sobrevalorizada, foi a causa de muitos dos problemas de coordenação que se apresentaram durante os conturbados anos 20 e 30.
Entre 1929 e o início da Segunda Guerra Mundial, as economias capitalistas mergulharam na violenta queda de preços das mercadorias, na deflação de ativos, nas sucessivas e intermináveis crises bancárias, nas desvalorizações competitivas das moedas, na ruptura do comércio internacional e do sistema de pagamentos.
Apesar dos esforços do New Deal, a economia americana continuou em marcha lenta nos anos 30 e sofreu uma recessão em 1937-38. Os sinais de recuperação firme só apareceram depois que a Inglaterra declarou guerra à Alemanha em maio de 1940 e começou a ordenar a compra de material bélico. Em 1941, ainda antes de Pearl Harbor a produção industrial já estava 40% acima do nível observado em 1929, antes da depressão.
Os Estados Unidos entraram, portanto, na guerra com reservas abundantes de recursosnão empregados - tanto de capacidade industrial instalada quanto de mão-de-obra. Mas a forte recuperação promovida pela demanda militar iria exigir, muito rapidamente, a "conversão" da indústria civil. A participação americana nas duas guerras foi, sem dúvida, peculiar e decisiva. Não só entraram tardiamente nos dois conflitos - em 1917 e 1941 - como, protegidos pelos oceanos Atlântico e Pacífico, não sofreram danos em seu território continental.
A utilização do enorme potencial econômico americano foi realizada em condições ideais: o "esforço de guerra" legitimou a centralização das decisões nos órgãos estatais de coordenação, ao mesmo tempo que a "segurança" do território garantiu a incolumidade do aparato produtivo e das redes de transportes e comunicações. Isso, sem dúvida, estimulou o avanço tecnológico (sobretudo nos ramos eletroeletrônico, químico e de metalmecânico) e a ampliação da capacidade em muitas áreas. Os setores de transporte e telecomunicações ligados à guerra sofreram verdadeiras revoluções estruturais.
Depois da Segunda Guerra Mundial e no âmbito da Guerra Fria o chamado complexo militar-industrial incorporou-se definitivamente à dinâmica do capitalismo americano. Suas ligações com o establishment acadêmico são uma fonte permanente de desenvolvimento científico-tecnológico autônomo destinado a manter e ampliar o poder militar norte-americano.
Os EUA emergiram da Segunda Guerra Mundial com um projeto claro de afirmar sua posição de potência hegemônica.O projeto de Franklin Roosevelt contrastava com o "isolacionismo" que guiou a política americana no primeiro pós-guerra. A marca registrada desse período do segundo pós-guerra é a subordinação da economia à política. Em sua essência, a criação das Nações Unidas, e das instituições de Bretton Woods - o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o GATT -, significou a recusa dos pilares da ordem liberal burguesa: o equilíbrio entre as potências e os supostos automatismos do padrão-ouro. Os princípios que informaram a construção da nova ordem estavam, ademais, claramente dirigidos contra o que havia sobrado do velho Império Britânico.
No jogo da política real, o controle da sociedade capitalista foi efetivado mediante a articulação de quatro movimentos: 1. A instalação de bases militares nas fronteiras no sistema socialista rival. 2. O apoio decidido à recuperação econômica das ex-potências do Eixo derrotadas e desarmadas. 3. A substituição no Oriente Médio do tabuleiro montado pelas ex-potências imperiais, França e Inglaterra. 4. A tentativa de estender a gendarmerie à escala global.
No segundo pós-guerra,é a expansão da grande empresa que vai promover a ampliação dos fluxos comerciais entre países. Esse avanço do sistema empresarial americano se desloca inicialmente, nos anos 50 e 60, para o Atlântico Norte e para a América Latina, e logo depois caminha em direção ao Pacífico. Com a nova divisão internacional do trabalho, facilitada pelo dinamismo da grande empresa transnacional, a "economia nacional" americana vê-se forçada a ampliar o seu grau de abertura comercial e a gerar um déficit comercial crescente para acomodar a expansão comercial dos países europeus.
O presidente Richard Nixondecretou a inconversibilidade do dólar em relação ao ouro em 1971 e Paul Volker espantou as ameaças à supremacia do dólar com a subida unilateral da taxa de juro em 1979. As duas decisões, argumenta corretamente Michael Hudson, impuseram ao resto do mundo o US Treasury Bill Standard, um padrão monetário cujos ativos líquidos de última instância passaram a ser os títulos de dívida do Tesouro americano. Libertos das cadeias da conversibilidade e da paridade fixa com o ouro, os EUA ampliaram o poder de seignoriage de sua moeda nacional. Assim, podem atrair capitais para os seus mercados e dar-se ao luxo de manter taxas de juro moderadas para sustentar a exuberância do consumo das famílias.
Ao mesmo tempo, a geoeconomia global, sob a égide do capital financeiro americano e do novo padrão monetário, tomou uma direção diferente. Deslocou-se para o Extremo Oriente. A partir da década de 70, sobretudo depois do desastre do Vietnã e da política de contenção militar da China, a diplomacia americana na Ásia concentrou-se nos aspectos econômicos e financeiros.
O processo de mundialização do capital comandado pelos EUA, através do investimento direto e da liberalização comercial e financeira, avançou rapidamente a partir da década de 80 e terminou abarcando a velha Ásia ressurgente. Ao chegar à Ásia, a globalização americana produz um "choque tectônico" na divisão internacional do trabalho: a região torna-se grande produtora de manufaturas baratas e demandante poderosa de matérias-primas, energia e alimentos. Essa última etapa, a da globalização financeira, ocorreu junto com o maior e mais duradouro ciclo de crescimento da economia americana no pós-guerra. Enquanto isso, reduzia-se o ritmo de expansão da Eurolândia e do Japão, para não falar da Periferia endividada, que entra em crise permanente.
Análise
Hitler, o mito de Joachim Fest
Joachim Fest    


Ana Maria Dietrich
Nazismo não teria sido possível sem a figura emblemática do Führer – o “guardião de todas as angústias de seu tempo” –, defende o autor de uma das mais completas biografias já lançadas do líder alemão
Texto Ana Maria Dietrich
Especial para o Jornal da USP
Em novembro de 1923, há exatos 83 anos, aconteceu o lendário Putsch de Munique, quando pela primeira vez Hitler tentou tomar o poder na Alemanha. A República de Weimar assistiu pasma ao golpe do recém-fundado Partido Nacional-Socialista, que só naquele ano teve 35 mil novas adesões. Hitler contou com o apoio de 15 mil homens da S. A., a tropa de assalto do partido nazi. Resultado: golpe frustrado e os líderes presos – mas o prestígio de Hitler e de seu partido só fez aumentar.

Esse e outros episódios estão descritos na colossal biografia de Adolf Hitler escrita por Joachim Fest, publicada primeiramente na Alemanha, em 1973, e cuja segunda edição em português, revisada e ilustrada, foi lançada neste ano no Brasil pela Editora Nova Fronteira, em dois grandes volumes que somam 935 páginas. Joachim Fest, que morreu em setembro deste ano, foi um jornalista de grande nome na Alemanha e professor honorário da Universidade de Heidelberg. Ele mesmo chegou a lutar na 2a Guerra Mundial e acabou como prisioneiro da França. Além de Hitler, Fest escreveu No bunker de Hitler, livro que inspirou o filme A queda – As últimas horas de Hitler, dirigido por Oliver Hirschbiegel.

Considerada uma das mais completas biografias sobre o estadista alemão que permaneceu no poder entre 1933 e 1945, Hitler é caracterizada pela riqueza de detalhes pessoais e “históricos”, que dão a sensação ao leitor de estar vendo os acontecimentos in loco. Sobre o Putsch de 1923, escreveu Fest:

“Trajado com uma longa casaca negra, a cruz-de-ferro pregada ao peito, Hitler tomou lugar na Mercedes vermelha comprada havia pouco. (...) Com aquele gosto peculiar por cenas exageradas e teatrais, brandiu um copo de cerveja e, enquanto uma pesada metralhadora era posta em bateria ao seu lado, engoliu dramaticamente um último gole, arremessando em seguida com estrondo o copo aos pés”.

O Putsch da cervejaria poderia ser considerado, então, um momento essencial na vida do futuro Führer do governo alemão: quando ele entraria definitivamente no caminho político. Hitler passaria, nesse momento, a controlar seus instintos artísticos e se transformaria em um “tecnocrata do poder”. Foi um grande passo para sua chegada ao poder como chanceler do Reich, em 1933.

E se ele tivesse chegado ao Brasil? Frustrado o golpe, rotulado por muitos como “carnaval político”, “putsch de escada de serviço” e “farsa de faroeste”, Hitler, mesmo preso, continuou sua escalada megalomaníaca ao poder. Na prisão em Landsberg, aproveitou para continuar se articulando politicamente: compartilhava a cela com seus comparsas de partido, que chegavam, inclusive, a cuidar da limpeza de seus aposentos. Sentado em uma bandeira da suástica, costumava presidir o horário das refeições.

Dentro da prisão, sua fama aumentou na Alemanha. O futuro Führer recebeu muitas cartas e flores de seus fãs e aproveitou os anos de reclusão para escrever o livro Minha luta, considerado uma bíblia do nacional-socialismo, permeada por ataques aos judeus e caracterizada por um estilo duvidoso, que se pretendia erudito, mas confundia figuras de linguagem e teorias. Os 25 pontos do programa do partido tinham sido promulgados em 1920, mas é com Minha luta que Hitler desenvolveu sua teoria racista que teria como ápice o extermínio em massa dos judeus em plena 2a Guerra. A ideia inicial era escrever uma biografia dos seus então 30 anos de vida, da pobreza de sua infância e das suas tentativas no universo artístico.

Os 10 mil exemplares publicados não fizeram o sucesso esperado. Segundo Fest, faltava a presença de Hitler como orador que fazia a diferença para suas ideias cheias de fracas obsessões e fantasias. Até mesmo a teoria nacional-socialista não é convincente: carente de qualquer ideia original, mostrou-se um “caldo de tendências”. Rauschning, autor da obra Conversa com Hitler, afirmou que tudo nela já havia sido dito, falado, escrito: nacionalismo, anticapitalismo, culto à tradição, concepções de política exterior, racismo e antissemitismo. Nada era novidade. Mas a falta do novo não afetou o sucesso estrondoso da teoria entre as massas.
        
A abordagem do nazismo de Joachim Fest prima por dois pontos essenciais. O principal deles é a construção de um mito. Hitler não é descrito como uma pessoa normal, mas sim como um líder carismático capaz de acionar multidões que estavam amorfas antes de seu chamado. Para Fest, não seria possível o nacional-socialismo sem essa figura emblemática. Para provar sua teoria, ele enche o leitor de detalhes pessoais da vida de Hitler, desde criança dotado de pensamentos de conquista do mundo. Interessante é a fileira de adjetivos utilizados pelo autor para descrever as faces dessa múltipla e esquizofrênica personalidade, ora caracterizada como “impessoa”, ora como uma figura extremamente sedutora, capaz de exterminar qualquer resistência diante dele. Com um quê de exagero, Fest chega a afirmar que Hitler seria um guardião de todas as angústias de seu tempo. Vai mais longe, dizendo que, além de ser o denominador comum, “imprimiu aos acontecimentos seu rumo, sua extensão e seu dinamismo”.

Da mesma maneira, pontua sua biografia, organizada de maneira cronológica, por títulos significativos dessa mesma abordagem de “louco e gênio” de Hitler. A infância e a participação na 1a Guerra são classificadas no tópico “vida sem objetivo”; a fundação do partido e o Putsch de Munique se encontram no tópico “O caminho da política”. Em seguida são pontuados “os anos de espera”, “o tempo de luta” e finalmente “a tomada do poder”, seguida da “Guerra errada” e terminando com “A queda”, com o fim do regime hitlerista. Nesse momento, Fest não poupa suas tintas para mostrar um Hitler manco, que se arrastava com seu cachorro, isolado dentro de seu bunker. Sua desgraça pessoal atingiu também os seus amores: a sua companheira Eva Braun teria tentado suicídio logo aos 23 anos.

Moderno

O segundo ponto essencial do Hitler de Fest é desmontar as outras tantas teses que afirmam que o nacional-socialismo foi produto de condições históricas específicas, pontuadas principalmente pela Alemanha derrotada na 1ª Guerra Mundial, vítima de um cruel Tratado de Versalhes – assinado pelas nações vitoriosas –, que provocou a perda de valiosos territórios alemães, ocasionando então uma crise no governo que se formava no pós-guerra, a República de Weimar. Fest, em lugar disso, tenta refletir sobre todos os acontecimentos da Europa nessa época pela ótica pessoal da história de Hitler. O resultado é um exercício, no mínimo, interessante. Mostra um outro viés do nacional-socialismo, que traz algo diferente da historiografia em vigência, que prima por considerar as forças históricas evidentes no período como determinantes do processo.

Além disso, a pesquisa de pano de fundo é monumental. Como se para todos os acontecimentos dessas décadas (principalmente de 1930 e 1940) houvesse um comentário especial ou frases de Hitler. Para provar a importância especial de Hitler na história, Fest argumenta que o nazismo morreu no momento em que Hitler se envenenou, em 1945, pouco antes da capitulação da Alemanha. “Com a morte de Hitler e a capitulação”, afirma, “o nacional-socialismo desapareceu de cena quase sem transição, de um momento para o outro, como se fosse apenas o movimento, a embriaguez e a catástrofe provocados por Hitler.” Mesmo no Tribunal de Nuremberg, montado pelos aliados entre 1945 e 1949 para julgar os criminosos de guerra, os acusados se mostravam ideologicamente alienados, de maneira que se levasse a crer que o único culpado por toda a catástrofe da guerra e do assassinato em massa fosse mesmo o ditador alemão.

Mesmo assim, Fest não deixou de mostrar que Hitler foi extremamente moderno para seu tempo, trazendo novas realizações técnicas, como a propaganda em massa, cujos vestígios se encontram em diversos políticos populistas da atualidade. Fazendo “política para os apolíticos”, para a imensa massa mobilizada pelos festejos coletivos que mais pareciam shows, Hitler construiu o seu poder na esfera da sedução, criando duas faces para o mesmo nazismo: uma marcada pela prisão em massa e posterior extermínio dos excluídos, e outra, dentro dessa aura de magia, dos grandes comícios voltados para os eleitos, dos quais se tornaram mais famosas as festas do Dia do Partido, realizadas em Nuremberg.

O personagem de Hitler retratado por Fest não deixa de ser marcante, mesmo que para o lado do mal, visto como a encarnação do que de pior pôde acontecer para a humanidade. O autor provoca o leitor quando – através de uma bela metáfora – afirma que Hitler nada mais foi do que um espelho de sua época, uma época cruel, sem esperanças e permeada de angústias. Tempos sombrios, diria Hannah Arendt.

Ana Maria Dietrich, historiadora e jornalista, faz doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP sobre o tema “Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil”. É coautora de Alemanha (Imesp, 1997).
       Jornal da USP
     19 a 19 de novembro de 2006  ano XXII no.783 






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